cardiopatia

Carta do coração, pelo coração

Neste 12 de junho, dia em que muito se fala de amor, em que corações ilustram ambientes, cartas, presentes, bilhetes, redes sociais, olhares, vim falar de uma carta não ilustrada por corações, mas escrita por eles, muitos corações, pequenos corações que lutam para viver antes mesmo de saber o que é o amor ao certo, ainda que sobrevivam por causa dele. Uma carta que vem falar de esperança e da vontade de viver mais e descobrir tantas formas de amor sejam possíveis serem descobertas. Uma Carta de corações que pedem ajuda.

 

 

Hoje é Dia Mundial de Conscientização da Cardiopatia Congênita. Ontem, foi realizado o Primeiro Encontro de Famílias e Amigos da Criança com Cardiopatia Congênita, em Fortaleza, um momento único para as 32.667 crianças e adolescentes, além dos 23.961 adultos, que vivem hoje no Ceará, tratados ou não, com algum tipo de doença no coração, de acordo com o médico cirurgião cardiovascular pediátrico Valdester Cavalcante, diretor do Instituto do Coração da Criança e do Adolescente  de Fortaleza (InCor Criança). Ele conta que são diagnosticados por ano, somente no Ceará, 1.159 novos casos. Pela estrutura atual, sobretudo de acesso, somente metade deles são tratados de maneira devida, principalmente pelos procedimentos cirúrgicos, a grande dificuldade da rede pública na área.

O encontro, organizado pelo Incor Criança e pelo grupo de apoio Heróis do Coração, objetivou a escrita de um documento intitulado Carta do Coração. Por ele, dezenas de famílias expressaram suas dificuldades para realizar com êxito o tratamento de suas crianças e adolescentes, focando no que cabe ao poder público priorizar como política a fim de melhorar a rede de acesso, de tratamento e de cuidados com esses corações.

 

 

Aurélia Rodrigues da Silva, fundadora do grupo Heróis do Coração, criado para auxiliar famílias que vivem essa realidade, diz que demanda número 1 da Carta do Coração é a liberação do Hospital São Camilo para a realização de cirurgias de altíssima complexidade, pelo SUS. Atualmente, segundo o médico Valdester, somente o Hospital de Messejana faz esse tipo de cirurgia e já atua com sua capacidade máxima. A unidade realiza 30 cirurgias de altíssima complexidade mensalmente. O Albert Sabin, conforme explica o médico, realiza cirurgias, porém de pequeno porte. Ele destaca que desde fevereiro último, o Hospital São Camilo já se prontificou para a realização das cirurgias, mas trâmites burocráticos emperram o início das atividades. “São detalhes burocráticos compreensíveis, mas que podem ser agilizados na medida da prioridade de uma criança que tem uma necessidade que não pode esperar”, justifica.

O ponto número 2 da Carta, citado por Aurélia, é a ampliação das instalações do Incor Criança pela doação de um terreno pela Prefeitura, para que a rede ambulatorial, a área de atuação da equipe multiprofissional e o acesso a exames como ecocardiogramas possam ser estendidos. Segundo o médico Valdester, o prefeito Roberto Cláudio já sinalizou a doação do terreno, mas é preciso correr com a oficialização da doação para que a médio prazo os serviços sejam ampliados. “O Incor Criança atende, mensalmente, 600 crianças, mas precisamos de muito mais para ajudar o Hospital de Messejana,  no que se refere à realização de  exames ecocardiogramas que tem um fila grande, e na atuação de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, a equipe multidisciplinar que faz parte do tratamento obrigatório”.

Aurélia enumera ainda outra demanda muito importante que é a disponibilização de mais profissionais preparados, mais médicos cardiopediatras pelos hospitais que atendem as crianças. “Um diagnóstico errado ou um atraso de encaminhamento pode custar a vida de uma criança”, esclarece.

O cirurgião Valdester comenta sobre outra demanda também urgente que é a sustentabilidade da instituição. “Não podemos fazer cirurgia e ampliar ambulatórios, tendo o valor que o SUS paga, R$ 10 numa consulta, R$ 39,92 em um Eco, e eu tenho que pagar o dobro e o triplo disso para os profissionais porque são valores irrisórios e eu ainda tenho que pagar imposto de renda em cima de tudo isso. Então, não dá, fazemos muitos trabalhos extras para arrecadar fundos para ir mantendo”, enumera.

Fortaleza é das cidades brasileiras melhor preparadas para realizar cirurgias cardíacas de alta complexidade, mas sofre ainda com o pouco acesso pelo SUS das famílias que precisam. Paraná é o estado com melhor acesso, menos fila de espera. São Paulo também é referência no acesso, muito porque existem polos de cirurgias cardíacas em algumas cidades do interior, ao contrário de Fortaleza, que atende toda a demanda do estado, 30% dela vinda do interior, sobretudo vindas de Sobral e do Cariri, únicos locais em que são realizados os exames ecocardiograma, responsável pelo diagnóstico, fora de Fortaleza.

O documento tão logo esteja pronto será  entregue aos governos estadual e municipal e seus respectivos secretários de saúde. Estamos torcendo para que as reivindicações sejam atendidas rapidinho. Esse amor não pode esperar.

Sites para saber mais:

Incor Criança
De nascença
Hospital de Messejana

 

 

Deixar um comentário