Infância estrangeira

 

Fabiana Azeredo de Oliveira
É autora do livro Miracema do Ceará.
Mestre em Psicologia, Psicanalista, Arte terapeuta e Artista Visual.
Escreve mensalmente para o Vida Ciranda.

 

O que chamaria de infância estrangeira?

Chamo de infância estrangeira aquela infância que se apresenta através de um estranhamento do universo em seu entorno. O estrangeiro, também chamado de forasteiro nos filmes de faroeste, é visto como um intruso, alguém que fala outra língua, tem modos e costumes diferentes, porta-se, veste-se, arruma-se de modo diferente dos que ali habitam. E provocam estranhamento.

Ainda nos filmes de faroeste, as pessoas fecham portas e janelas quando um estrangeiro aponta do nada na entrada das grandes porteiras da cidade. As cenas, curiosamente, são marcadas, em geral, por nevoeiros e fumaças que escondem a identidade de quem chega ali.

Para desenrolar nossa conversa estrangeira, irei fazer aqui um link com o livro infanto juvenil que escrevi em 2015 que se chama Miracema do Ceará. Quando a  história foi escrita, diria que não escrevi em essência sobre considerar Miracema uma criança estrangeira em seu próprio ambiente, lá na cidade sertaneja de Oliveiras, distrito do município de Tamboril no Ceará. Mas, já pensava, quando a escrevi, na solidão, a que algumas crianças como Miracema, que “funcionam“ um pouco diferente da maioria das crianças, estão sujeitas, na atualidade, por serem vistas estrangeiras em certos ambientes.

Essa triste realidade, assemelha-se, ao meu ver, aos estados de solidão na velhice, em que os miasmas dos mais velhos criam abismos entre idosos e jovens. Os abismos reiteram a veracidade dos estados de SOLIDÃO.

Pois bem. Em alguns segmentos da infância, esses abismos também existem, e degringolam na temida Solidão. Solidão é, antes de tudo, um estado de isolamento, de sentir-se desacompanhado. Um sentimento de estar em local ermo, desértico. É assim que algumas crianças com necessidade de maior acompanhamento, seja cognitivo, seja psíquico, seja a mistura de tudo isso, enfrentam na família, nos espaços públicos, nas escolas.

O primeiro local de socialização de uma criança é, indiscutivelmente, a escola. Não é na pracinha que ela se sente socializada, nem em casa junto com os seus, mas no processo contínuo de convivência e construção que a escola pode lhe proporcionar. A criança que necessita de maiores atenções, seja por qualquer motivo em especial, está sim sujeita a não ser aceita em alguns espaços. E tudo que se quer do mundo é aceitação, não é mesmo!?

Tudo que se deseja do mundo é acolhimento, consolo nas horas tenebrosas, ombro amigo e atenção. Na história de Miracema, seu consolo é o amigo Quinho, o vendedor de ‘chegadin’, que, como ela, também tem um sofrimento de abandono, quando:

“…a mãe fugiu lá para as bandas de Fortaleza, não se sabe se casou, embuchou, ou esqueceu de voltar, só se sabe que deixou Quinho e seu pai que não falam sobre ela, e se alguém pergunta, eles dão um nó no perguntar.“ (página 15)

É nesse encontro de abandono e solidão, que Miracema e Quinho se unem. É no não falar sobre ditos que ainda não podem ser verbalizados, ou expressados em palavras, que Quinho e Miracema unem suas demandas tristes. Porque Miracema, apesar de ter nove anos, não fala como as outras crianças. Quinho fala, mas se cala diante de algo que ainda não pode ser dito. É deste modo que se unem, não falando.

Mais ainda: é no toque do triângulo triangulando que Quinho se enlaça a Miracema. Ele busca uma estratégia para chegar a Miracema, e é bem sucedido. Apesar de Miracema desviar o olhar e, deste modo singular, e, para alguns, paradoxo, é que Miracema busca mais ainda a presença de Quinho. Miracema busca a corporeidade de seu amigo.

É uma cena comovente de encontro de pares. É tudo que se deseja na vida: um encontro de pares. Quem nunca sentiu isso? Um lindo encontro amoroso, amigo, esclarecedor do seu próprio ser? Quem sabe Miracema poetize como Fernando Pessoa no Livro do Desassossego (que já é palavra linda de se ler):

“A solidão desola-me, a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença como uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir“.

É na contramão do encontro com Quinho, no desencontro dos olhares, que Miracema encontra o outro e pode Ser através dele. É, diria, que é a oportunidade de uma sercência (palavra inventada) que Miracema encontra ali, no Quinho, no som do seu triângulo, em tudo junto.

Os encontros entre as crianças são mais ricos do que podemos imaginar. Quem nunca viu o olhar de uma criança brilhar quando encontra uma outra criança em um ambiente cheio de adultos? Ou uma cabecinha virando de um lado para outro porque ouviu uma voz de criança ecoando por ali? Os encontros na infância são de uma riqueza imensurável. A solidão na infância é de uma dor imensurável.

Na estória contada, Miracema não consegue acompanhar Ceiça e Cátia de Mariquinha. Ela até ensaia um correr junto, um falar junto, mas não consegue dar conta do ritmo desenfreado das meninas. Porque o ritmo de Miracema tem mais freio, mais receios, talvez, provoca descaminhos nos seus pensamentos, como na poesia de Fernando Pessoa. Mas o sonho, ainda na poesia, “é sua presença como uma distracção especial“.

Para crianças estrangeiras como Miracema ingressarem em algumas escolas, necessitam serem “laudadas“. Isso mesmo! Deverão estar munidas de um passaporte para passarem pela fiscalização especial. Aqui, chamo o laudo de passaporte. Na maioria dos casos, a família busca um neuropediatra que irá definir um diagnóstico, transcrevê-lo numa folha de papel timbrado, carimbado, assinado e daí se consegue o visto para ingressar no ambiente tão sonhado, a escola! Eita, que é uma via sacra!

É deste modo que crianças como Miracema ganham estatuto em seu ambiente de sonho social. Pesado, não é? Não é fácil a infância desses pequenos estrangeiros em terra de quem pensa que ter olhos é rei. Ainda assim, algumas muitas não deixam de ser estrangeiras, mesmo conseguindo o visto, o passaporte, o laudo, o ingresso na escola.

Miracema não teve muita sorte na escola lá das Oliveiras. Sua professora é figura chata e desiste fácil dela. Mas Miracema resiste, como tantas crianças têm resistido à dureza da vida, da solidão, da incapacidade que alguns adultos têm de compreender a infância como um lugar de singularidades. Miracema resiste ao estrangeirismo, ao laudo, ao passaporte vencido, aos miasmas que a afastam das outras crianças.

Não creio que as crianças se afastem de meninas ou meninos como Miracema, que falam um não falar, escrevinham o que querem dizer, e rascunham suas vidas com garatujas que parecem incompreensiveis para alguns, mas que fariam Juan Miró chorar de emoção. Não creio que crianças sejam cruéis a ponto de desprezar crianças como Miracema. Creio que existem adultos legais que transmitem às suas crianças a beleza das diferenças, a beleza de ser singular e estar no mundo. E que o estrangeirismo seja palavra mesmo incompreensível na prática, como alguma coisa desértica, sem lugar e sem tempo.

Contatos:
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Espaço Grão, Rua. Silva Paulet, 3087
(85) 98699 6882 / 3227 6868

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Para saber mais sobre a obra

Miracema do Ceará
Autora: Fabiana Azeredo de Oliveira
Editora: Premius, 2016.
Você encontra na Livraria Cultura

 

 

Sorteio

O Vida Ciranda está sorteando a obra Miracema do Ceará, autografada pela autora, nesta semana (21/8 até 27/8). Acesse nosso Instagram @vidaciranda para concorrer a este livro lindo demais!

Fazer tudo, Fazer nada!

 

Fabiana Azeredo de Oliveira
É autora do livro Miracema do Ceará.
Mestre em Psicologia, Psicanalista, Arte terapeuta e Artista Visual.

Escreve mensalmente para o Vida Ciranda.

 

Quem nunca disse:
Férias!!! Uhuuuu! Tempo de fazer nada, jogar as pernas para o ar, ficar na janela de bobeira, montar imagens nas nuvens, ouvir o marulho do mar, enterrar os pés na areia quentinha, fazer tudo e fazer nada! Quem nunca?

Vamos então organizar umas idéias sobre esse Fazer tudo, Fazer nada! Temos a sensação, na nossa cega adultice, que a correria do dia a dia dá uma camuflada nas angústias e nas coisinhas chatas da vida, concorda? Parece-nos que o fazer tudo cura tudo e deixamos o fazer nada de lado, não damos importância a ele. Porque ele parece inoperante. A palavra NADA incomoda. Associamos o nada ao VAZIO.

A bela poesia musicada por Chico Buarque “Copo vazio“ releva que um copo vazio está cheio de ar e traduz bem o conteúdo do vazio. Na poesia, o vazio passa a ter conteúdo, passa a ser cheio e tudo muda. E quando Manoel de Barros também submete o vazio a ser pensado como conteúdo, ele diz:

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

O vazio parece mesmo ter conteúdo. Porque no vazio, cabem coisas e coisas. Os poetas sempre sabem muito, então, seguindo esse rastro de saber, associemos a semelhança do vazio como o nada. Já ouvimos a expressão “fulano tá boiando…“ quando um fulano parece estar ausente em uma conversa, disperso, flutuando. Mas talvez o fulano esteja bem atento a si mesmo!

Os encontros com nós mesmos, quase sempre, acontecem quando nos descuidamos e parece, mas só parece, que estamos ausentes. E é aí que surge a famosa “criatividade“, essa rica via de escape que utilizamos para nos fazer presentes.

A sensação de ausência, de vazio, de nada, nos faz criar. A arte emerge de um estar vazio e muitos, muitos instantes de um fazer nada, para só depois fazer. Pergunte a um artista sobre uma obra que ele fez. Pergunte o que ele estava pensando naquele momento. Se ele for muito sincero, certamente vai dizer: “sei lá o que eu pensava…Pensava em nada!” E quanta decepção para quem escuta isso.

Todo esse blá-blá-blá para dizer que uma criança quando não tem nada para fazer, não se engane, ainda assim ela está fazendo! Pois a criatividade também emerge desse nada, de instantes do nada. É quando advém a necessidade de criar, de que algo tome conta e se faça.

A palavra agora é CRIATIVIDADE. Sim, ela surge de instantes contemplativos de nós com nós mesmos! E como conseguimos isto? Parando… leia este “parando”  bem devagar…  p a r a n d o… em ritmo desacelerado e aproveite a belezura de criar um outro ritmo. O ritmo de fazer nada.

Esse desdobramento é feito pelas crianças na maior moleza. Com o tempo elas perdem esta capacidade, infelizmente. A adultice nos faz perder muitas coisas. Até perder a capacidade de fazer nada! Incrível, né?
Para a psicanálise, é a partir da Falta que a pessoa é impulsionada a promover movimentos internos, mais especificamente: Desejos! É a Falta que alimenta os processos de criação. O artista, o poeta criam a partir de suas Faltas.

A criação advém de instantes vazios, porque esses vazios estão cheios para extravasar. A infância hoje está assoberbada de atividades, como é a vida adulta. Como é a estressante rotina da vida adulta. É sabido, desde tempos remotos, que a infância diferencia-se em muito da vida adulta e, infelizmente, ainda se insiste em colocar o lugar da criança dentro de um contexto adultizado, cheio de responsabilidades e de tarefas puramente didáticas.

A criação é seara livre. Cria-se a partir da liberdade de criar. Cria-se no brincar. O brincar também é livre. A infância é feita de matéria essencialmente livre. Vimos nesses tempos sombrios, escolas preparando crianças para concursos massificantes, através de uma demanda exaustiva e desumana. Algumas escolas preparam material de férias para estudo. Como assim? Férias com atividades escolares?

Na clínica psicanalítica tenho observado que a cada finalização de semestre, os pais estão deveras estressados com as intensas atividades escolares dos filhos e filhos mais estressados ainda. O sentimento fortemente negativo em relação à escola me leva a pensar que as crianças estão funcionando no ambiente escolar como o adulto que odeia o seu trabalho.

A criança na escola deveria estar aprendendo a amar o conhecimento e não a odiá-lo. A queixa que se repete nos pais é que na hora das tarefas, os filhos querem brincar. Porque crianças, podem crer, têm um saber pautado na sutileza de ser. Portanto, sabem mais do que imaginamos. Sabem que o brincar por si só, restaura a potência de criação e é onde se descobre o eu. Existem coisas que só se descortinam no brincar.

Como diz o psicanalista infantil Winnicott, no livro O brincar e a realidade, ” É no brincar, e, talvez, apenas no brincar, que a criança ou adulto fruem sua liberdade de criação. É através da percepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o sujeito sente que a vida é digna de ser vivida”. O brincar ao qual Winnicott se refere aqui, é um brincar livre. É a aposta de liberdade no ato. Portanto, associado a um algo não direcionado, mas potentemente criador.

O fazer nada nas férias, relaxe… pode relevar esse fazer tudo e pode tudo criar! Deixe que sua criança escolha um momento de fazer nada e ainda assim ela estará fazendo algo, se isso te consola. O incômodo desse fazer nada é seu, e não dela. Deixe que sua criança possa criar. Deixe que ela silencie, ou ouça uma musica quietinha ou, girando de tonta, aparando o ar nas palmas das mãos. Deixe que ela fique de bobeira olhando pela janela, contando os carros que passam, ou não. Deixe que ela apenas sinta o gosto de fazer nada e assim ela estará pronta para não desistir de criar. E assim ela irá encher o copo vazio, de tudo que a faz feliz!

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Carta do coração, pelo coração

Neste 12 de junho, dia em que muito se fala de amor, em que corações ilustram ambientes, cartas, presentes, bilhetes, redes sociais, olhares, vim falar de uma carta não ilustrada por corações, mas escrita por eles, muitos corações, pequenos corações que lutam para viver antes mesmo de saber o que é o amor ao certo, ainda que sobrevivam por causa dele. Uma carta que vem falar de esperança e da vontade de viver mais e descobrir tantas formas de amor sejam possíveis serem descobertas. Uma Carta de corações que pedem ajuda.

 

 

Hoje é Dia Mundial de Conscientização da Cardiopatia Congênita. Ontem, foi realizado o Primeiro Encontro de Famílias e Amigos da Criança com Cardiopatia Congênita, em Fortaleza, um momento único para as 32.667 crianças e adolescentes, além dos 23.961 adultos, que vivem hoje no Ceará, tratados ou não, com algum tipo de doença no coração, de acordo com o médico cirurgião cardiovascular pediátrico Valdester Cavalcante, diretor do Instituto do Coração da Criança e do Adolescente  de Fortaleza (InCor Criança). Ele conta que são diagnosticados por ano, somente no Ceará, 1.159 novos casos. Pela estrutura atual, sobretudo de acesso, somente metade deles são tratados de maneira devida, principalmente pelos procedimentos cirúrgicos, a grande dificuldade da rede pública na área.

O encontro, organizado pelo Incor Criança e pelo grupo de apoio Heróis do Coração, objetivou a escrita de um documento intitulado Carta do Coração. Por ele, dezenas de famílias expressaram suas dificuldades para realizar com êxito o tratamento de suas crianças e adolescentes, focando no que cabe ao poder público priorizar como política a fim de melhorar a rede de acesso, de tratamento e de cuidados com esses corações.

 

 

Aurélia Rodrigues da Silva, fundadora do grupo Heróis do Coração, criado para auxiliar famílias que vivem essa realidade, diz que demanda número 1 da Carta do Coração é a liberação do Hospital São Camilo para a realização de cirurgias de altíssima complexidade, pelo SUS. Atualmente, segundo o médico Valdester, somente o Hospital de Messejana faz esse tipo de cirurgia e já atua com sua capacidade máxima. A unidade realiza 30 cirurgias de altíssima complexidade mensalmente. O Albert Sabin, conforme explica o médico, realiza cirurgias, porém de pequeno porte. Ele destaca que desde fevereiro último, o Hospital São Camilo já se prontificou para a realização das cirurgias, mas trâmites burocráticos emperram o início das atividades. “São detalhes burocráticos compreensíveis, mas que podem ser agilizados na medida da prioridade de uma criança que tem uma necessidade que não pode esperar”, justifica.

O ponto número 2 da Carta, citado por Aurélia, é a ampliação das instalações do Incor Criança pela doação de um terreno pela Prefeitura, para que a rede ambulatorial, a área de atuação da equipe multiprofissional e o acesso a exames como ecocardiogramas possam ser estendidos. Segundo o médico Valdester, o prefeito Roberto Cláudio já sinalizou a doação do terreno, mas é preciso correr com a oficialização da doação para que a médio prazo os serviços sejam ampliados. “O Incor Criança atende, mensalmente, 600 crianças, mas precisamos de muito mais para ajudar o Hospital de Messejana,  no que se refere à realização de  exames ecocardiogramas que tem um fila grande, e na atuação de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, a equipe multidisciplinar que faz parte do tratamento obrigatório”.

Aurélia enumera ainda outra demanda muito importante que é a disponibilização de mais profissionais preparados, mais médicos cardiopediatras pelos hospitais que atendem as crianças. “Um diagnóstico errado ou um atraso de encaminhamento pode custar a vida de uma criança”, esclarece.

O cirurgião Valdester comenta sobre outra demanda também urgente que é a sustentabilidade da instituição. “Não podemos fazer cirurgia e ampliar ambulatórios, tendo o valor que o SUS paga, R$ 10 numa consulta, R$ 39,92 em um Eco, e eu tenho que pagar o dobro e o triplo disso para os profissionais porque são valores irrisórios e eu ainda tenho que pagar imposto de renda em cima de tudo isso. Então, não dá, fazemos muitos trabalhos extras para arrecadar fundos para ir mantendo”, enumera.

Fortaleza é das cidades brasileiras melhor preparadas para realizar cirurgias cardíacas de alta complexidade, mas sofre ainda com o pouco acesso pelo SUS das famílias que precisam. Paraná é o estado com melhor acesso, menos fila de espera. São Paulo também é referência no acesso, muito porque existem polos de cirurgias cardíacas em algumas cidades do interior, ao contrário de Fortaleza, que atende toda a demanda do estado, 30% dela vinda do interior, sobretudo vindas de Sobral e do Cariri, únicos locais em que são realizados os exames ecocardiograma, responsável pelo diagnóstico, fora de Fortaleza.

O documento tão logo esteja pronto será  entregue aos governos estadual e municipal e seus respectivos secretários de saúde. Estamos torcendo para que as reivindicações sejam atendidas rapidinho. Esse amor não pode esperar.

Sites para saber mais:

Incor Criança
De nascença
Hospital de Messejana

 

 

mão adulta ajudando crianças

A relação amistosa possível entre maternidade e mercado de trabalho

Neste dia do trabalho, e por este mês, algumas das nossas reflexões serão sobre a relação maternidade e mercado de trabalho. É possível uma convivência em que consigamos nos realizar como profissionais, nas empresas, e dar em casa a atenção de que nossos filhos e, por conseguinte, uma sociedade inteira precisam? Sim, eu acredito que sim! Não me refiro aqui a conciliações que se relacionam ao empreendedorismo materno. Refiro-me a conciliações entre filhos e ambientes corporativos. Acredito numa harmonia entre mercado de trabalho e maternidade não apenas pelos esforços das mães e das famílias, mas também por uma sensibilidade e consciência maior de empresários e gestores de Recursos Humanos. Não vejo estes como vilões, se já não disponibilizam às funcionárias rotinas de serviço mais flexíveis. Penso que falta ajuda mútua nessa compreensão, diálogos mais abertos, conversas mais empáticas, mais próximas, responsabilização conjunta. 

 

 

Meu foco aqui não são as mulheres que se reinventam, se redescobrem, buscam válvulas de escape para continuar existindo enquanto profissionais, depois de abrirem mão da rotina corporativa pelos filhos, pela família. Não, apesar de reconhecer toda a força desse movimento que move mundos e transforma pré-conceitos. Conheço-o a fundo. Faço parte dele. Neste mês, porém, me refiro às mulheres mães que estão no mercado e se desdobram para dar conta da boa educação que todos exigem. Numa sociedade ainda tão machista, a pressão sobre a mãe é imensa; e é preciso levar em consideração que muitas crianças só têm a mãe com quem contar, no fim das contas. Ainda assim, no meio de tanta desigualdade, a grande maioria das mães não tem o apoio para tentar conciliar os inúmeros papeis, inclusive o de mantenedora da casa, não tem possibilidades de um dia a dia de trabalho mais flexível a fim de acompanhar mais de perto períodos de desenvolvimento infantil tão essenciais para um prosseguir saudável da civilização. 

 

 

Está na ponta da língua de todos a teoria de que as crianças precisam ser acompanhadas pela família. Todos sabemos que educar filhos não é apenas garantir alimentação, escola, vestuário. Educar é também, e mais importante, estar junto. Tudo o que vivemos, ensinamos, compartilhamos com os nossos filhos, inclusive a ausência, será vivido como reflexo por uma sociedade inteira. A família não é instituição sozinha no mundo, ela existe também como dependente das relações externas que construímos. E precisa de uma rede de apoio que a fortaleça e não que a fragilize, incluso nesta rede de apoio o mercado de trabalho. Daí, seguindo essa lógica, reconheço no artigo 227, da Constituição Federal, uma das muitas verdades que ainda pomos bem pouco em prática: cuidar da criança e do adolescente “é dever da família, da sociedade, do estado”.

 

 

Louvo o empreendedorismo materno. Como já escrevi, há uma força nele imensurável. O empoderamento das mulheres pelo empreendedorismo é algo transformador, de fato, para elas, para as famílias e para a sociedade. Mas há também nele um viés de que falamos pouco: ao deixar o mercado de trabalho porque ele não permite uma adequação às exigências da maternidade e da criação dos filhos, traz-se para a família a resignação, a conformidade de que cabe APENAS à família a responsabilidade de cuidar das novas gerações. O que, pela Lei, isso não é verdade, ou não deveria ser. A máxima de "os incomodados que se retirem" vale aqui. As mulheres se retiram e tentam se reinventar lá fora, sem a certeza de que vai dar certo , sem apoio nem mesmo de uma formação mínima que possa prepará-la para essa nova fase. O empreendedorismo, mesmo ele, precisa também ser uma escolha, não uma submissão. E ressalto: nem todas, talvez boa parte, têm como sair, e nem quer, do mercado corporativo, o que não invalida a responsabilidade social das empresas. 

 

 

Pela concepção do artigo 227, todos somos responsáveis pela educação das crianças, porque essa boa educação exige sim o compromisso de uma aldeia por completo, de todas as funções sociais que fazem parte dela. A ausência da família, dos pais, o abandono que as crianças e os adolescentes sentem e vivem, nestes novos tempos, causam desequilíbrios emocionais, muitas vezes, irreversíveis. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) apontam a depressão como uma das principais causas de morte de crianças e adolescentes por suicídio. De acordo com o Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, o suicídio é realidade e está crescendo no país. De 2002 a 2012 houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 14 anos. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o aumento foi de 33,5%. A depressão, o suicídio são faces também de relações sociais mal compreendidas, como o bullying. São problemas que se alastram e ganham proporções imensas se não bem acompanhados. E o papel da família presente é fundamental; a responsabilização e o comprometimento da sociedade inteira nesses males são urgentes. O aumento da violência é também uma dessas faces funestas de relações socais distantes e frágeis, e, não nos iludamos, ele está imerso também nessa discussão. 

 

 

Precisamos interligar as redes e as relações para começar a pensar como unidade, não dá mais para pensar repartido. Se uma parte dessa ciranda não gira direito, não está preocupada com a maneira como suas práticas incidem sobre a vida do outro, a consequência atinge todos. Em se tratando de mercado de trabalho, há saídas para se viver relações mais humanas, mais empáticas entre o mercado e a maternidade. Há pouco previsto já em lei sobre flexibilização de horários para mães e pais que precisam se ausentar para cuidar dos filhos, mas há boas práticas erguidas por setores de RH (Recursos Humanos) de empresas mais sensíveis que precisam ser conhecidos, reconhecidos, enaltecidos. 

 

 

A flexibilização nada tem a ver com relações permissivas acerca de metas que uma profissional precisa cumprir em sua rotina de trabalho, mas em pensar juntos maneiras de as duas realidades coexistirem com benefícios para os dois lados. Penso que faltam diálogos, informações, conhecimentos mais contemporâneos nessas relações. O mercado precisa acompanhar os novos tempos não apenas das funções que as mulheres vêm assumindo, diante de desigualdades que precisam ser contornadas, mas da necessidade de assumir de uma vez por todas uma responsabilização que é de todos: cuidar melhor das nossas crianças e dos nossos adolescentes. Todos pagamos o preço desse pensar de realidades ainda tão separado.

 

 

Neste mês de maio, vamos refletir melhor sobre o assunto, conhecer famílias, empresas, legislações. Acompanhe o Vida Ciranda para ficar por dentro da nossa agenda de discussões sobre mercado de trabalho e maternidade.

Quando o medo intimida a esperança

Quando o medo intimida a esperança

Sempre fui pelos espaços públicos, espalho a importância de ocuparmos a cidade como maneira de também exercitar e inflar a cidadania. Incentivar famílias a desfrutarem, principalmente, das praças e dos parques, foi dos principais motivadores ao início do Vida Ciranda. Meus filhos vivem esse conceito desde bem bebês e não o faço apenas por eles, mas por mim. Sou da rua, do ser livre, do conversar com estranhos, do sentir e me emocionar com as histórias de desconhecidos, do ver acontecer. Acho que aprendi muito sobre vida externa na sorte de ter sido criada entre animais soltos, em uma natureza respeitada por seus ciclos de semeios e safras.

 

 

Meus sentidos foram estimulados desde cedo para o lado de fora, para o contato, o outro, o visível, o descoberto, a luz. Dentre tantas experiências, as que me chegam por lembranças de mais afeto são a bodeguinha que meu pai mantinha em casa e me possibilitou uma comunicação muito rica com o lado de fora do meu núcleo, as tardes de leitura atrepada nos pés de manga e cajueiro que me conduziam para uma visão além das copas das árvores - em que parecia que eu poderia alcançar o infinito só de olhar apertado, e a ansiedade de olhar para o céu todos os fins de tarde, esperando da luz da lua a autorização para ir brincar no terreiro. A morte da minha mãe, no fim da minha adolescência, ao mesmo tempo em que me pôs ainda mais para fora de casa, para fugir de recordações que machucavam, fortaleceu em mim a importância de viver a cidade intensamente.

 

 

Ainda que eu busque honrar uma trajetória de valorização de viver o mundo e as áreas públicas, por favor, me permitam confessar uma fraqueza que me dilacera por estes dias: venho sentindo medo pela alma rueira que tenho e por incentivar que outras pessoas possam se permitir também conquistar ruas, praças e parques com seus filhos; sofro ao imaginar, por segundos, uma vida fechada. Não, não por desacreditar que viver a cidade é necessário para que possamos construir crianças mais conscientes de si e do seu entorno, mas por temer a insegurança. Por favor, me perdoem. Por estes dias, o medo me chegou impiedoso. Acho que esse danado se valeu da minha condição de mãe, acertou minha fragilidade, tirou sarro da esperança e da coragem que me movem, riu delas, se achou um ‘sentimentão da porra’ e, que tirano(!), me fez questionar essências e bandeiras.

 

 

O medo me chegou, principalmente, pelas lágrimas de amigos inspiradores que me são exemplos de luta, de força, de ocupação, de resistência, de esperança; pelas palavras de receio que expressaram por terem vivido situações de intimidação à coragem, presenciado mortes e verem manchadas lembranças de alegria, liberdade e conquistas. O choro deles me doeu, ver no olhar deles aquele medo intruso e mal vindo, tentando encontrar morada, e ouvir deles “nunca tinha me sentido assim” me doeu profundamente. Passei dias bem mal.

 

 

 

Um dia antes da morte da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), havia conversado com meu marido sobre o temor de ser vítima do que tanto se combate. Isso, de fato, por minutos, me gelou, por favor, me perdoem falar em covardia em tempos que nos exigem tanta coragem.

 

 

Desde criança, ouço dos meus pais que sou teimosa. Em meio a tantos fatos e sentimentos que nos forçam a emudecer e desaparecer dos espaços públicos, repousa em mim uma resiliente esperança, essa criança serelepe e traquina que consegue sempre encontrar uma brecha nas prisões que nos paralisam. Ela é meu conforto e consolo, me reabilita. Grita em mim mais alto a esperança quando mães amigas me dizem que preferem criar os filhos fechados em condomínios e me vejo diante delas dizendo “vamos experimentar a pracinha do bairro”.

 

 

Porque mais presente que o medo em mim está a convicção de que se não fosse pela força dos que me inspiram, talvez eu não acreditasse tanto na beleza e na amplitude cidadã que movem minhas práticas. Eu creio que a morte dos que tombam em batalhas não finaliza ideais, mas eterniza com ainda mais vigor exemplos, sonhos e lutas. A consequência das lutas de esperança, pela paz e pela justiça, é a redução exponencial de tantas vidas que se perdem. Se aqueles que me inspiram me ensinaram tanto sobre espalhar força, resistência e alegria pela cidade não seria de bom tom retribuí-los com meu esmorecimento quando, por acaso, por alguns minutos, eles precisam de ajuda para retornar à arena. E voltam ainda mais fortalezas. 

 

 

 

Sei que tememos e que dói tanta violência e insegurança, mas reforço meu convite para vivermos a cidade. Não a abandonemos. Vamos pensar estratégias para estarmos mais juntos, mais unidos, para espalharmos alegria pela alegria, não pela vingança. Alegria pela vida. Claro, dar conta das variáveis que nos conduzem a esse sentimento de insegurança não depende apenas da nossa alegria na praça. Porém, à medida que estamos mais nas praças, estamos mais presentes, nos tornamos todos mais vigilantes, cuidadores, zelosos; criamos nos nossos filhos a consciência de que aquele espaço também é deles e nem precisamos falar isso explicitamente. Não há aquele que queira ver abandonado o espaço em que possui tantas lembranças de amor, de amizade, de alegrias, de gentilezas. É na infância que construímos as principais justificativas de quem seremos mais tarde. Afastar as crianças do conviver com a cidade significa afastar da sociedade inteira, de hoje e de amanhã, alguma chance de paz social que possamos ter um dia. Porque, há aí também outro desejo: a de que a minha força e a esperança também possa ser inspiração aos meus filhos. 

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A importância de garantir o acesso à escola para as meninas

“Usei a educação para emancipação. Eu ensinei minhas alunas a desaprenderem a lição da obediência. Eu ensinei meus alunos a desaprenderem a lição da denominada pseudo-honra”. A fala é do educador paquistanês Ziauddin Yousafzai, pai da ativista Malala, durante uma conferência TED, em 2014. Malala foi a pessoa mais nova a receber o prêmio Nobel da Paz, aos 17 anos, naquele mesmo ano, por seu grande engajamento pelos direitos das mulheres. Foi baleada pelo Taliban em 2012 por se atrever a ir à escola.

 

 

Nas palavras do pai de Malala há todo o sentido de um árdua luta, que, certamente, também será lembrada no próximo dia 8, quando o mundo reflete a mulher. Desaprender sobre obediência muda o parâmetro do que deve ser obedecido e questiona seus fins. A quem interessa a resignação feminina? Da mesma forma, desaprender sobre honra, incita mudar o conceito do que é honra para o menino diante do feminino e ele passa a não olhar a mulher com inferioridade, como uma serva, mas a olha de igual para igual, em direitos e deveres. Isso muda tudo.

 

 

Eu poderia escrever infinitas linhas sobre a desigualdade de gênero, a herança histórica dessa dominação e as consequências horrendas disso, mas vou me restringir, um pouco, ao direito tantas vezes violado de as meninas irem à escola e a importância disso para um mundo inteiro. Em julho do ano passado, durante uma visita à capital chilena, Irina Bokova, diretora da Unesco, alertou: pelo menos, 62 milhões de meninas no mundo não têm acesso à educação, as mulheres representam dois terços dos 758 milhões de adultos analfabetos do mundo, o que "prejudica todas as sociedades, freia o desenvolvimento e mina os esforços de paz", acrescentou Bokova.

 

 

O filme Girl Rising, lançado há exatamente 5 anos, é dos mais representativos da luta para garantir educação às meninas, ao meu ver. Conta as histórias de nove meninas extraordinárias que vivem em países pobres (Camboja, Nepal, Índia, Egito, Peru, Haiti, Serra Leoa, Etiópia e Afeganistão ) e enfrentam implacáveis circunstâncias para conseguir acesso à educação. Por ele, é possível conhecer Azmera, uma etíope que, aos 13 anos, se recusou a casar à força, Ruksana, uma menina que vivia nas ruas da Índia e cujo pai se sacrificou para garantir educação à filhas, e Wadley, uma menina de 7 anos que mora no Haiti e, mesmo sendo rejeitada pelos professores, volta à escola todos os dias para exigir seu direito de estudar.

 

 

Educar meninas é multiplicar consciências, é barrar heranças de misérias e injustiças, é fazer disseminar educação igualitária para filhos e filhas. À época do lançamento de Girl Rising, Justin Reever, um dos produtores do documentário, justificou o propósito do filme a partir do que vinha observando em várias comunidades pobres que conseguiram quebrar os ciclos de miséria. Segundo ele, a solução simples estava sendo educar as garotas. Justin reconheceu a força da transformação movida pelas mães que buscam o melhor para os filhos. O ensino escolar fortalece as meninas. A falta de informações sobre seus direitos e a falta de consciência de si, do seu potencial e do seu poder de mudança tira das mulheres o poder da tomada de decisões. Um outro bom filme que fala sobre o direito das mulheres à educação é o premiado iraniano-afegão “Às cinco da tarde”, lançado em 2003.

 

 

Em setembro de 1995, durante a quarta conferência mundial dedicada à mulher, na China, o então o Secretário-Geral da ONU , Kofi Annan, disse a um auditório lotado: “Não existe um instrumento de desenvolvimento mais eficaz que a potenciação da mulher (...). A alfabetização das mulheres é um fator chave para melhorar a saúde, a alimentação e a educação na família, assim como para o empoderamento das mulheres para que participem na toma de decisões na sociedade”.

 

 

Em um dos trecho mais importantes do livro Para Educar Crianças Feministas, a autora Chimamanda Ngozi Adichie destaca o poder da leitura, dos livros, da informação na educação da filha da amiga a quem a autora direciona o manifesto. “Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser”. Não há caminhos para empoderamento, emancipação, independência, sem educação.

 

 

É incontestável o poder que uma mulher bem informada tem a favor de si, dos filhos e da comunidade. Neste mês, exaltemos as vitórias, mas não nos esqueçamos que ainda há muito para se conquistar. Ainda somos vítimas de inúmeras violências, inacreditáveis até, principalmente em países pobres, em comunidades tribais e patriarcais. E, mesmo nas sociedades ditas mais evoluídas. ainda não se sabe lidar bem com a mulher, a exemplo das que ocupam altos postos corporativos e de representatividade pública, mas que continua tentando ser a mãe que é necessário ser, a dona de casa que se despreza. O mundo ainda não sabe acolher e conciliar funções conquistadas e direitos tão inatos. Sem falar nas humilhações e subserviências rotineiras, mais comuns na Ásia meridional, na África subsaariana e Ásia ocidental. É preciso cuidar das meninas, das mulheres mães, garantir a elas viver plenamente  o que lhes é próprio por natureza, principalmente, se isso fizer parte de suas escolhas, é o que vai garantindo a renovação das mentalidades, das forças, das esperanças pela paz, ano após ano. 

 

 

É por isso que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro deste ano, sobre mulheres grávidas e mães de crianças de até 12 anosque estejam em prisão provisória (que não foram condenadas) nos chegou com tanta alegria. O direito de deixar a cadeia e ficar em prisão domiciliar até seu caso ser julgado dar à mãe que, por ventura, tenha errado diante da sociedade, a oportunidade não apenas de poupar as crianças da sua ausência, mas tentar construir do lado delas uma outra história para si e para os filhos. A decisão representa a esperança.  É dar prioridade absoluta às crianças e reconhecer o papel insubstituível da mãe. Do contrário, violações aos direitos da mulher gestante, parturiente e mãe violam também os direitos das crianças. 

 

 

Assim, se retomarmos a frase do educador Ziauddin, é preciso prezar pela igualdade nos discursos aos filhos, sob pena de um todo que não se renova para a paz, e entender que se cuidamos das meninas e lhes assegurarmos uma educação de qualidade, cuidamos também da consciência de mulheres e mães que sabem seus direitos e lutam por eles, e isso significa lutar pelos filhos e pelas famílias. Isso significa lutar e cuidar de todos. No fim da palestra, Ziauddin registra uma pergunta que muitos lhe fazem: o que há de especial na orientação que ele deu a Malala que a deixou tão corajosa, destemida e segura? Ele responde. "Não me perguntem o que eu fiz, perguntem o que eu não fiz. Eu não cortei suas asas. Foi só isso". 

Nexo Jornal / Divulgação Internet

A farsa dos primeiros lugares no Enem das grandes escolas e a realidade dos ensinos conteudistas

No dia 31 de janeiro deste ano, o Ministério Público do Ceará (MPCE) veiculou em sua página a notícia sobre a multa aplicada às instituições de ensino Ari de Sá, Christus e Farias Brito por publicidade enganosa. A artimanha jurídica punida refere-se aos números estampados em outdoors que mostram as referidas escolas nos primeiros lugares nacionais no ENEM de 2014. De acordo com o texto do MP, verificou-se que as escolas valem-se do alto desempenho de um número restrito de estudantes matriculados sob um único CNPJ em publicidades que falam do desempenho da escola inteira, possuidora de vários cadastros no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), responsável pelo ENEM. Isso explica o fato de a mesma escola ficar entre os 10 primeiros colocados no resultado geral nacional e em outras classificações beeeem menos louváveis.

 

 

Entendeu a farsa? Enquanto deduzimos ver nos outdoors a divulgação de bons rendimentos de uma escola inteira, o que vemos, na verdade, é o resultado de um número bem reduzido de estudantes, selecionados, entre centenas, pela escola para representar o CNPJ de ouro. Em alguns casos, Brasil a fora, como já denunciou o blog .Edu, do Estadão, algumas dessas turmas de ouro possuem apenas 15 alunos. Várias sedes, vários CNPJs e uma propaganda enganosa ao consumidor. Isso é muito sério. 

 

 

Ler a notícia do MP me entristece. Apesar de tratar-se de uma punição referente ao ano de 2014, é possível verificar que a diferença de classificação ainda existe, para algumas escolas, no Brasil inteiro. No mínimo, realizam-se, ano após ano, toda uma série de exclusões veladas em nome da conquista de poucos estudantes, que o ensino tradicional, principalmente das escolas particulares, pratica sob o consentimento de uma sociedade inteira. Escrevo com conhecimento de causa porque fui professora do ensino médio por dez anos de grandes escolas, inclusive, de uma das três punidas pelo MPCE.

 

Internet Divulgação

 

As exclusões já começam pela massificação de metodologias de ensino em nome de um objetivo único a que as escolas se propõem em detrimento da riqueza de individualidades e potencialidades que carregam nossos jovens. Desde bem cedo, já no 6º ano do fundamental II, para ser otimista, as crianças são doutrinadas às provas. Uma maratona de olimpíadas e simulados que obriga, mesmo que enfatizem que as adesões às provas extras são voluntárias, crianças à exaustão de estudos, por horas a mais na escola, por fins de semana mergulhados em aulas extras imersas em pressões por resultados. Em um sábado desses, fui à casa de uma prima, que possui uma filha de 11 anos. Ao perguntar pela garota soube que ela estava participando de um “simuladinho”. Mesmo sabendo do que se tratava, demonstrei curiosidade. “É, lá começa cedo a preparação para o vestibular”, a mãe me confirmou.

 

 

São pressões que, muitas vezes, não vêm apenas da escola, da família, pior: uma grande pressão vem das próprias crianças, dos próprios adolescentes, porque querem se destacar no grupo de amigos, porque estão na idade de se sentirem valorizados na turma, porque, todos os meses, existem lá os destaques da escola expostos a todos no mural e é uma vergonha que não se esforce, não ostente estar lá, pelo menos uma vez no ano. “Por que eles conseguem notas altas e eu não? Estudo tanto e não consigo”, como ouvi certa vez de um estudante.

 

 

O ambiente de uma escola tradicional, principalmente, as maiores, exala a pedagogia da busca por resultados, expondo conquistas e vitoriosos por suas paredes. Em todo canto, há frases motivacionais e números de quem já chegou lá, viajou o mundo inteiro representando a escola e o estado em exames de várias áreas do conhecimento. Uau! Demais! Inspirador! .... Mas torturante para quem não se encaixa nessa lógica. Arrisco dizer, torturante para a maioria, que não sabe ainda conceituar nem expressar essa exclusão implícita (?) que sofre.

 

 

Uma maioria que segue na escola cumprindo o protocolo de provas para a aprovação do fim do ano. No fundo, um monte de conteúdo que não faz muito sentido e não está tão conectado com o seu potencial, com as suas habilidades. Um protocolo, acredite, que não é encarado como tal apenas pelo aluno que não se sente tão instigado assim a seguir a lógica das provas e da competitividade, mas protocolo cumprido morno pela própria escola. Coordenei por anos a disciplina de português em algumas escolas e, diversas vezes, fui coagida a orientar minha equipe de professores a ajudar alunos a passarem de ano, “porque eles não rendem mais do que isso, tem pelo menos presença, aprove”. Para mim, conhecer a dificuldade de um estudante, além de outros potenciais, e se eximir de tentar fazer dele também um destaque é mais grave que aprovar para cumprir tabela.

 

 

A verdade é que boa parte das escolas do ensino tradicional desiste da maioria dos seus estudantes, logo quando percebem que eles não lhes darão os primeiros lugares almejados, os números de ouro, de prata, de bronze, a fama de super aprovador nos exames fora da escola. São postos em turmas regulares para que cumpram o protocolo de concluir a educação básica. Sim, porque as turmas especiais são para alunos brilhantes. Alguns professores são os mesmos para as duas turmas, mas a profundidade de conteúdos é diferente. Com sorte, dos estudantes, muitos são aprovados no vestibular, mas não com o mesmo destaque dos especiais, pelo menos, aumentarão a contabilidade total da escola, dos que foram além.

 

 

Eu ensinei em turmas regulares e especiais. Aliás, em turmas também formadas por alunos colhidos de outras escolas, estudantes brilhantes que vinham, inclusive, de escola pública, para encorpar a turma dos especiais. Meninas e meninas que estudam a vida inteira em outras escolas e chegam, principalmente, no ensino médio das escolas grandes, com bolsas integrais de incentivo, sob a condição de estudar, estudar e estudar. Vi bem pouco ou quase nada, conhecimentos  no ensino médio sendo construídos pela cooperação, pela empatia, pela solidariedade. 

 

 

Como professora, eu passei por todas essas turmas, e senti tristeza no olhar de estudantes em todas elas. A partir do 9º ano, em boa parte das escolas, os alunos não podem participar de projetos paralelos, de cultura, de artes, de música. “Não, não, professora, esse projeto não pode para os alunos do ensino médio para que eles não se dispersem dos estudos”. Ouvi muito. Há um passar dos dias para os regulares, uma pressão fora do normal para os especiais e convidados.

 

 

No fim das contas, temos uma leva de adolescentes que termina o ensino médio como foi tratado lá: de maneira regular, regular nos estudos, regular no estado emocional; sem aprovação no vestibular e sem nenhuma formação, de fato, para a cidadania. Sai alienado por um estudo não significativo, que não o prepara para outras perspectivas, para um olhar para si, que o faça compreender suas habilidades mais particulares, que lhe são próprias. Sai do ensino médio com uma formação que não o faz enxergar o que ele e sua individualidade podem fazer pelo mundo, seja na música, na dança, no teatro, na pintura, na mecânica, nas mídias digitais, no empreendedorismo. Partem do ensino médio para recomeços e para uma busca de si, e não para continuações.

 

 

No fim das contas, muitos dos estudantes aprovados com excelência nas provas dos vestiulares, desistem, logo depois, das escolhas dos cursos mais concorridos que fizeram por ele. Descobrem que não era bem isso que queriam. Depois das pressões e do brilho, voltam-se de fato para si, se frustram, e também recomeçam.

 

 

Uma vez conversando com o professor aposentado da Faculdade de Educação da UFC, Idevaldo Bodião, ouvi dele a melhor justificativa do sucesso do sistema de ensino tradicional que ainda se destaca no Brasil. Os pais, disse-me ele, querem segurança para os seus filhos, sabem que não estarão perto deles a vida inteira. A entrada em um curso superior, na visão dos pais, segundo o professor aposentado, ainda é uma garantia. E outra: a entrada do filho na faculdade, logo depois do Ensino Médio, é a validação de que a principal parte da educação formal do filho que cabe aos pais foi realizada com sucesso. A partir dali, os pais relaxam mais e sabem que cabe muito mais ao filho essa continuação da formação dele. Pelo menos, os pais não serão mais tão julgados. Assim, até meio inconscientes, os pais buscam também o próprio status desse papel de pais que assumiram, a certificação de que fez o melhor para o filho, tanto que o filho já está na universidade.

 

 

E eu compreendo perfeitamente a opinião do pesquisador e a postura dos pais. Não é fácil educar. São muitos dias de doação, de preocupação, de julgamentos externos, de renúncias de si, de riscos de más influências que podem atravessar o caminho, de amor mesmo. Nós amamos tanto os filhos, queremos o melhor para eles e acreditamos que o melhor jeito de começar a vida adulta é na segurança da universidade. E as escolas se valem dessa crença. Em uma reportagem que fiz para o jornal O POVO, em outubro de 2015, o dono de uma grande escola me confessou. “Nós damos o que os pais querem”, justificou a opção por um projeto político pedagógico que foca no vestibular. E eu entendo perfeitamente a postura do diretor da escola. 

 

 

Meu convite ao pais, com a reflexão feita por este texto, é para que observemos melhor os nossos filhos, tentem compreender o que dizem os silêncios, as rebeldias, as desculpas para não irem para a aula, a exaustão que eles denunciam; ouçam o que eles têm para dizer sobre si mesmos, o que acham da escola, o que mudariam nela, o que gostariam de viver nela e fora dela, verdadeiramente. Se já forem maiores, relembrem as crianças que os seus adolescentes foram, o que mais gostavam de fazer que se perdeu com o tempo? Pais, se permitam olhar para os seus filhos e sentir o que eles sentem, antes de olhar para si mesmos e para todo o dinheiro que já gastaram em escolas caras e por não admitirem que eles cheguem ali e não valorizem a educação que recebem.

 

 

Há uma problema sério vivido pela escola hoje que está dissonante com o que quer a juventude. Os índices de evasão só crescem, o que não parece tão evidente na escola particular. Não por inexistência de realidade semelhante. A escola não consegue atrair. A violência tem aumentado, mais e mais jovens se sentem sem rumo, há depressão, suicídios que não são alarmados pela mídia. Eu acredito que só vamos conseguir fazer a roda toda da sociedade girar ao contrário, quando partir dos pais uma maior consciência sobre os próprios filhos, quando passarem a ouvir e dialogar mais, a impor menos. 

 

 

Eu acredito, e pode ser que eu esteja errada e descubra isso na jornada daqui até o dia em que os meus filhos ingressem no EM, ou antes disso, acredito que há muito mais para além do vestibular, que a escola pode ser sim muito muito mais. E acredito que se focássemos menos em nós mesmos, na nossa vaidade de pais, no futuro que nós escolhemos para os nossos filhos e olhássemos mais para a essência deles, saberíamos dialogar e  exigir qualidade, de fato; exigir uma escola que esteja mais ao alcance de uma realização pessoal de cada criança e adolescente, de uma cidadania real, porque é daí que vem a criticidade que muda e transforma o que está posto. Porque, a menos que você esteja bem satisfeito com o país que temos, não vai ser com a ajuda da escola que está aí, "formando" novos seres sociais, que ele será transformado. 

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Jogos de desmaio são as brincadeiras perigosas mais difundidas na internet, entre crianças e adolescentes. Psicóloga do Instituto Dimicuida dá dicas de como proteger os filhos

Se você tem dificuldades de fazer com que seu filho largue o celular, o tablet ou o computador para fazer outra atividade que não seja ver desenhos ou vídeos a ermo, na internet, você não está sozinho. Arrisco dizer que, se não todos nós - pais e mães, passamos por isso hoje, posso apostar que uma grande maioria sim, compartilha esse drama, essa apreensão, esse medo pela exposição do que está sendo exposto a eles numa internet ainda tão desconhecida e perigosa.

Divulgação/Internet

Mesmo pequenininhos, com 1 ou 2 anos, eles já esperneiam e fazem birra quando lhes tiram o eletrônico, que, nas situações mais responsáveis, lhes foi dado para tentar aquietar a criança, distrair enquanto o adulto tenta resolver problema de adulto. Ufa! Não é fácil. E já peço, para quem não for pai, mãe ou cuidador, ou não passa por alguma situação semelhante ainda: não julgue quando virem alguma das situações descritas acima, de entretenimento ou birra. O drama, amigo, extrapola a boa educação.

 

 

Há inúmeros problemas implícitos e explícitos no encantamento que as crianças têm pela internet, segundo diversos estudos já copiosamente divulgados: desde representar riscos à visão e dores nas costas, pela postura errada de ter o celular próximo demais aos olhos e curvar-se de maneira inapropriada para assisti-lo, passando por efeitos de ansiedade e hiper atividade infantis, pela dinâmica de cores e ações aceleradas dos conteúdos assistidos, até o risco de cair em conteúdos perigosos. Daí, o medo.

 

 

No último dia 7, acompanhamos de coração saltado o drama da família que perdeu a filha Adrielly, de 7 anos, depois que a menina tentou imitar um youtuber pelo desafio do desodorante, o que causou uma parada cardíaca, após inalar grande quantidade de desodorante aerosol. A impressão que temos é que a garantia de segurança que, até pouco tempo oferecíamos a eles dentro de casa, nos foi usurpada pela internet, pelas redes sociais, por outras mídias. O meio da rua, agora, é em todo lugar, a um clique de acesso.

 

 

Um dia anterior à morte da menina Adrielly, a associação brasileira Safernet mobilizou a rede em torno do Dia da Internet Segura, dia 6, iniciativa anual com o objetivo de unir e envolver os diferentes atores, públicos e privados, na promoção de atividade de conscientização em torno do uso seguro, ético e responsável das Tecnologias de Informação e Comunicação, nas escolas, nas universidades, nas ONGs e mesmo na rede. A ação envolveu também o papel da família e dos educadores na condução de crianças e adolescentes na internet: desafios, mediação e proteção. Assista aqui, o dia de palestras realizadas em São Paulo. 

 

 

Não dá mais para ignorar, é preciso arregaçar as mangas e ver maneiras de conviver com a realidade da internet na vida dos filhos. Conversei com a psicóloga Fabiana Vasconcelos, integrante do Comitê de Ciência e Educação do Instituto Dimicuida, responsável pelo desenvolvimento de programas de prevenção. O Instituto foi criado em 2014 pelo empresário Demétrio Jereissati, dois meses depois de ele encontrar o filho caçula Dimitri, de 16 anos, sem vida, com um cinto em volta do pescoço, como consequência da prática do Jogo do Desmaio. Segundo dados do Instituto, as maiores vítimas são crianças e jovens de 4 a 20 anos, que, quase nunca, estão engajados em práticas suicidas. Entenda: são crianças e adolescentes que, realmente, acreditam se tratar de brincadeiras inofensivas, não têm consciência das possíveis consequências; são movidos pela curiosidade e pela euforia, até pela pressão da turma, nessa busca de experimentar, desafiar a si e aos outros, pertencer a grupos. É assustador, de fato, mas é possível evitar. 

 

 

Segundo a psicóloga, os primeiros e determinantes passos para a prevenção são informar-se, manter-se vigilante e estabelecer com os filhos conversas constantes sobre o que eles veem na internet, desde pequenos, estimular um ambiente de diálogo amistoso, lúdico, de confiança. Confira abaixo a conversa com Fabiana. Entregue-se à tarefa de prevenir como o seu filho se entrega à curiosidade de vasculhar a internet e, sem que a gente saiba, “brincar” com os amigos.

 

Psicóloga Fabiana Vasconcelos, do Instituto Dimicuida Foto: Rádio Câmara/Divulgação

 

Vida Ciranda: Com que idade as crianças têm começado a se envolver com brincadeiras perigosas? O colégio é o ambiente mais comum?
Fabiana: Nove anos é a idade com que a criança já está começando a entrar nesse circuito de “eu preciso pertencer a um grupo”. E esse pertencer a um grupo vai insistir que a criança tenha um comportamento dentro daquele grupo, que façam as mesmas ações. Então, essas identificações começam a surgir e serem importantes nessa época, em que o grupo é extremamente importante. Porém, nós estamos vendo e sabemos que a partir de 6 anos de idade a criança já pode se envolver em alguma prática dessa, principalmente, se ela tiver acesso a informação sem controle e sem monitoramento.

 

 

Vida Ciranda: De onde vêm os principais incentivos? Colegas, internet?
Fabiana: À primeira vista, as crianças estão interagindo nesse meio social por conta de uma necessidade de estar se socializando via mundo digital, isso faz parte do funcionamento do nativo digital, da criança e do adolescente que nasceram na era da internet. À medida em que a gente transforma a vida da criança em uma vida interna, dentro da casa, dentro do apartamento, confinadas em condomínios e com livre acesso a internet, a gente tem uma propensão a que essa criança tente, dentro do circuito que é comum na adolescência, de formar grupos experimentais, de ser criativo, que ela busque essa necessidade nesses caminhos sociais que é do mundo digital, já que ela não tem um externo, não existe um equilíbrio entre experienciar essas coisas no mundo externo. Então, um dos pontos principais é o desequilíbrio entre o tempo de tela e o tempo externo. Quanto tempo se desconecta da rede e passa fazendo atividades saudáveis, atividades externas ao mundo da internet e como isso é monitorado. É preciso ter o controle parental. Os pais precisam compreender a dimensão do risco que a internet tem. É como soltar uma criança numa praça com três bilhões de pessoas e, no Brasil, ela ter acesso a 24 milhões de crianças e adolescentes que acessam a internet, com suas criatividades e experimentações. Antes, a gente tinha um controle. Eram cinco, dez amigos que participavam desse circuito de criatividade, experimentação e formação de grupo. Agora, nós temos a criança exposta e sendo compelida a participar de práticas dentro de um mundo de pessoas que ela não conhece. Então, não tem um respeito, um amor, um cuidado e uma proteção com ela.

 

 

Vida Ciranda: Que “brincadeiras” têm se revelado a mais “comum” entre crianças e adolescentes? Eles sabem dela, principalmente, pela internet?
Fabiana: Nós temos um grupo de desafios [brincadeiras perigosas] que são mais comuns e que tem um número crescente dessa disseminação via plataforma de vídeo. Em 2010, nós tínhamos cerca de 500 vídeos da brincadeira do desmaio, estamos com quase 21 mil vídeos, agora em 2018. A brincadeira do desodorante vem crescendo também com 17 mil e 400 vídeos,  tem também o desafio da camisinha, o desafio da canela em pó, o desafio do super bonder, entre outros. Estes são os números de vídeos que vêm aumentando e se disseminando, à medida em que os anos passam.

 

"À medida em que a gente transforma a vida da criança em uma vida interna, dentro da casa, dentro do apartamento, confinadas em condomínios e com livre acesso a internet, a gente tem uma propensão a que essa criança tente, dentro do circuito que é comum na adolescência, de formar grupos experimentais, de ser criativo, que ela busque essa necessidade nesses caminhos sociais que é do mundo digital, já que ela não tem um externo, não existe um equilíbrio entre experienciar essas coisas no mundo externo"

 

 

Vida Ciranda: Filhos mais carentes da atenção dos pais são mais vulneráveis?
Fabiana: Não há um perfil específico de que criança ou adolescente vai se submeter a uma prática dessa. Como eu falei, faz parte do desenvolvimento natural da criança, ela se desafiar. Por volta dos 11 anos de idade, ela vai compreender que ela precisa sobreviver no mundo externo e à medida que esse mundo externo impõe para ela desafios, ela vai testar esses desafios porque ela precisa saber-se como sujeito, como indivíduo. Então, é normal testar os limites das emoções, do corpo, de que ser social ela é, do que ela pertence, do que ela gosta, do que ela desgosta. Nesse processo, para o adolescente ou o pré-adolescente,  ser de um grupo é extremamente importante e significante. Então, o que sustenta um pouco essa criança é ela ter uma capacidade reflexiva quanto à participação naquela prática. Isso a gente vê muito pouco, hoje em dia, nas escolas: a existência de um espaço para trabalhar a competência socioemocional. As escolas estão tão focadas em conteúdo e sucesso acadêmico que não existe mais exploração cultural de arte, de esportes e de emoções. O recomendado são 30 minutos mensais para o desenvolvimento de competência socioemocional, onde a criança e o adolescente possa falar sobre as questões do dia a dia, o que incomoda, que sentimentos ela tem, o que significa está participando de um grupo, como dizer não a práticas que são de risco, por que eu não me submeto a um grupo em que eu compreendo que aquilo pode ter uma consequência séria para a minha vida... esses espaços não existem mais nas escolas ou nunca existiu ou existe muito pouco. Em Fortaleza, em não conheço nenhuma escola que trabalhe com competência socioemocional. Nós temos algumas escolas que trabalham com a formação de valores, mas ainda na Educação Infantil ou começo do Ensino Fundamental. Quando os problemas realmente surgem, de existência, que vem o questionamento existencialista do ser humano, por volta dos 10, 11 anos, isso é removido das escolas. E a escola vira somente conteudista.

 

 

Vida Ciranda: Há alguma causa, dentro do núcleo familiar, que pode deflagrar o interesse ou o envolvimento “cego” pelas brincadeiras?
Fabiana: Eu diria que a falta de limite no acesso à rede, à internet, ela pode ser sim um deflagrador. Quando não se compreende que o pai tem sim a responsabilidade de limitar e deve limitar, e a criança fica intermitentemente na frente da tela, com certeza, ela vai, de alguma forma, se submeter a algo que não é saudável. Fora as brincadeiras perigosas, tem uma série de outras pesquisas que compreendem como a saúde da criança é afetada pelo tempo sem limite de tela, seja de sono, de distúrbios alimentares, de cognição, de vista... é um holístico, que fere a integridade da saúde da criança se ela não tiver esse limite de tempo de tela.

 

 

Vida Ciranda: Como os pais devem agir em relação ao uso do celular, da internet? Como fazer uma vigilância que deve ser vista pelos filhos como parceria e não, simplesmente, como imposição?
Fabiana: A vigilância como parceria é o limite básico da vida concreta. Se eu digo para uma criança assim: “seu tempo de brincar com os amigos no pátio é de duas horas. Você vai brincar com eles das 16h às 18 horas. Dezoito horas você sobe, toma seu banho e é hora de jantar”. Tem um circuito de rotina. Se eu imponho esse circuito de rotina para o mundo concreto, eu imponho esse mesmo circuito de rotina para o mundo digital, ele não é diferente. Os pais estão vivendo no mundo digital como se fosse algo assim: “ah, é o super dragão, eu não consigo lutar contra”. Não é isso, ele faz parte do circuito normal. A gente vai compreender isso a partir do Manual do Uso da Internet, pela Sociedade Brasileira de Pediatria [Acesse aqui Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital], que coloca o tempo com as idades, as necessidades da criança, de se manter saudável nessa habilidade de balancear o tempo de tela com o tempo real da criança. Então, esse limite, é a partir da dinâmica da família, conversado, estipulado e é dito. Então, os pais que compreendem esses limites e desde cedo colocam para a criança: “eu estou lhe protegendo dos riscos e eu compreendo como esses riscos devem ser evitados", a criança compreende que é uma regra da casa. As crianças precisam ter limites, do mesmo jeito que tem que ter limite no mundo do concreto, tem que ter limite no mundo digital. Isso tudo numa conversa, no papel de pai e mãe. "Isso pode e isso não pode por causa disso. Vamos pensar um pouco juntos". Deve sempre ser um processo reflexivo.

 

 

"O que sustenta um pouco essa criança é ela ter uma capacidade reflexiva quanto à participação naquela prática. Isso a gente vê muito pouco, hoje em dia, nas escolas: a existência de um espaço para trabalhar a competência socioemocional. As escolas estão tão focadas em conteúdo e sucesso acadêmico que não existe mais exploração cultural de arte, de esportes e de emoções". 

 

 

Vida Ciranda: O pais devem iniciar conversas com os filhos, mesmo que eles nunca tenham iniciado nada, nem demonstrem qualquer sinal de que estão se envolvendo com algum risco? A prevenção passa também pela antecipação de informação aos filhos?
Fabiana: Prevenção em casa passa sim por uma prevenção antes que seja mencionado qualquer coisa. Não é que você vá listar os desafios [as brincadeiras perigosas] e dizer para a criança não fazer. Isso é incitar a prática. Você vai fazer uma educação reflexiva de uso de julgamento com a criança à medida em que você acompanha o que ela assiste na internet, dentro do tempo limite que ela usa. Por exemplo, se ela diz “Mãe, vou assistir aqui o Youtube, agora”. Tudo bem. Não é trancado no quarto, não pode ser isolado. Eletrônicos são sempre na exposição dos pais. Então, ela está lá, olhando, assistindo, e, de repente, aparece algo que a mãe considera de risco. Pode ser qualquer coisa, pode se um by cross, o pessoal fazendo vários movimentos super arriscados. Aí, você pode fazer uma reflexão junto com a criança:
- Nossa, filho, ele é profissional?
- Não, mãe, ele é amador?
- É mesmo? Amador? Mas ele usa toda a proteção necessária para não se machucar?
- Ah, ele usa, tem a joelheira, a cotoveleira, tem o capacete, tem um sapato específico para não machucar a perna.
- Nossa, que massa! Isso é algo que lhe interessa?
- Acho que eu gostaria de fazer.
- Bom, mas seria legal se a gente usar isso como um treinamento, pra você ver como é que movimenta e tal.
Esse acompanhamento para o que é de risco se expande para outras coisas, ele tem que ser sempre reflexivo e acompanhado. E não: “olha, estão aqui as brincadeiras [perigosas] e você não deve fazer isso”. Se você fizer isso você está incitando a prática. Ela deve ser uma conversa diária. A intervenção e a proteção para o mundo digital é uma conversa diária, é um acompanhamento que acontece sempre. “Quem você assiste? Por que assiste? O que você acha? Como isso aí é bom para a sua saúde? Olha, ele não é mais adolescente!” Porque existem vários “fazedores” de canais que não são mais adolescentes e você pode questionar isso junto com o seu filho. “Olha, por que esse homem está fazendo uma prática adolescente? Não lhe parece errado? Se fosse uma pessoa [desconhecida] numa praça pública convidando você para fazer isso e não fosse uma criança, você iria?” Então, você começa a fazer esse diálogo onde a criança compreende o mundo digital como um perigo concreto.

 

 

"a falta de limite no acesso à rede, à internet, ela pode ser sim um deflagrador. Quando não se compreende que o pai tem sim a responsabilidade de limitar e deve limitar, e a criança fica intermitentemente na frente da tela, com certeza, ela vai, de alguma forma, se submeter a algo que não é saudável (...). As crianças precisam ter limites, do mesmo jeito que tem que ter limite no mundo do concreto, tem que ter limite no mundo digital. Isso tudo numa conversa, no papel de pai e mãe. 'Isso pode e isso não pode por causa disso. Vamos pensar um pouco juntos'. Deve sempre ser um processo reflexivo."

 

 

Vida Ciranda: Como está o cenário cearense, dentro do cenário nacional, de crianças e adolescentes que se envolvem em brincadeiras perigosas? Os números têm aumentado, diminuído? Por quê?
Fabiana: No Ceará, a gente tem mais acesso aos números porque nós estamos aqui [Fazem parte do Instituto Dimicuida]. Nós não temos número oficial da Segurança Pública. Infelizmente, os casos são pouquíssimo investigados, menos de 20% da morte total de jovens, e eles são catalogados imediatamente como suicídios, não temos uma estatística oficial. Muitos pais, em Fortaleza, tiveram que emplacar uma luta pela mudança do laudo para morte acidental por asfixia mecânica.  Informalmente, no Brasil, tem-se 21 casos. Em Fortaleza, nós temos 2 casos de desodorante aerossol e 1 caso do jogo do desmaio, em que nós temos as famílias próximas ao Instituto. Nós sabemos que é praticado, que existe um número muito maior, mas que nós não temos a oficialidade para falar sobre, infelizmente.

 

 

Vida Ciranda: Que outro aspecto você considera importante nessa educação digital também para os pais, para a sociedade em geral? 
Fabiana:
Nós temos uma luta muito grande, existe um projeto de lei [PL 7170/17] na instância federal com a deputada Josi Nunes (PMDB-TO) para alteração do Marco Civil da Internet [Lei 12.965/2014]. Existe um documento no Brasil que regulamenta esses vídeos, mas, infelizmente, nem ele é fiscalizado, nem é feito de uma forma realmente eficiente. O que nós pedimos é que a monetização dessas práticas de risco para adolescentes não aconteça mais nessas plataformas de vídeo. Porque à medida em que nós dissemos assim: um comportamento precisa ser monitorado, guiado porque o adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal maturado suficiente para compreender toda a extensão do risco que ele corre, e é por isso que ele precisa de um adulto monitorando, aí vem uma plataforma de vídeo e diz: nós pagamos por esse comportamento. Então, estamos valorando, dando um valor monetário para uma prática que, na verdade, é retirar a vida. Que mensagem é essa que a gente está mandando para a criança e para o adolescente? Que a integridade da saúde dele, que a vida dele não tem a menor importância. Ela tem importância, somente, na medida em que eu ganho dinheiro com o risco que ela corre. Então, a gente tem que mudar isso numa perspectiva até de valor social. Isso é o mais importante, no momento. Que a gente consiga que o poder público tome, realmente, a frente disso e consiga que essa monetização seja retirada porque nós estamos atribuindo valor social a isso. E isso é triste. Uma criança de 9, 10 anos de idade, que o que ela quer ser é performance de plataforma de vídeo.. o que é que acontece com as profissões que realmente têm significação no mundo social? Cadê a criança que quer ser professor, veterinário, bombeiro, médico, advogado, aquelas que, realmente, compõem o tecido social e são de importância. Estamos falando de algo que é fugaz, é efêmero e não traz absolutamente nada de valor social ou de vida. Então, é isso que a gente tem que resgatar, compreender que valor é esse que a gente está dando? O mundo digital agora tem qual peso na vida da gente? O que é que está acontecendo realmente na vida social? Porque eu não vejo de uma foram positiva. Não vamos retirar a internet, não é essa a proposta de forma alguma, mas o uso dela tem que ser seguro, tem que ser compreendida como uma ferramenta e não como meio de vida. O valor atribuído a ela é que eu a utilizo à medida que ela me faz bem e não que ela me utiliza e que agora eu só existo com ela. A gente tem que compreender isso e mudar o ciclo.

 

 

"O que nós pedimos é que a monetização dessas práticas de risco para adolescentes não aconteça mais nessas plataformas de vídeo. Porque à medida em que nós dissemos assim: um comportamento precisa ser monitorado, guiado porque o adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal maturado suficiente para compreender toda a extensão do risco que ele corre, e é por isso que ele precisa de um adulto monitorando, aí vem uma plataforma de vídeo e diz: nós pagamos por esse comportamento. Então, estamos valorando, dando um valor monetário para uma prática que, na verdade, é retirar a vida. Que mensagem é essa que a gente está mandando para a criança e para o adolescente? Que a integridade da saúde dele, que a vida dele não tem a menor importância. Ela tem importância, somente, na medida em que eu ganho dinheiro com o risco que ela corre."

 


Vida Ciranda : Conta um pouco sobre o Instituto Dimicuida.
Fabiana:
O Instituto Dimicuida nasceu em 2014, após a morte de um rapaz de 16 anos, pela prática popularmente conhecida como Jogo do Desmaio. A família que perdeu o Dimi, que dá nome ao Instituto, passou por um processo de entendimento do que tinha acontecido porque a prática era completamente desconhecida e eles chegaram até um instituição na França, que é a Apeas [Association de Parents d'Enfants Accidentés par Strangulation].  Apeas é uma instituição criada por pais que perderam filhos pela mesma prática. Então, os pais de Dimi passaram uma temporada na França, compreendendo não só do que se tratava isso, assim também como iniciar um projeto pelo qual levasse o conhecimento dessas práticas para a população brasileira. Eles, como pais do Dimi, próximos, atentos, envolvidos, com um jovem que era super criativo, cheio de vida, de planos para o futuro, aventureiro, gostava muito de inventar, um criador, gostava de fazer máquinas, adorava natureza, animais...  eles queriam entender como é que isso tinha passado despercebido. Então, eles trouxeram essa formação da Franca para cá. O fundador, pai Demétrio Jereissati, teve também  acesso a pesquisadora Juliana Guilheri. Ela fez uma pesquisa de mestrado e doutorado com jogos de não oxigenação. A tese foi concluída em 2016. Os números dela indicam que das 1395 crianças (brasileiras e francesas) que ela entrevistou em formato de prevenção, 40% já tinham feito uma prática de não oxigenação ou continuavam praticando e 10% desse número tinham chegado ao desmaio; 33% dessas crianças se submeteram a práticas por pressão de pares ou pressão dos colegas do grupo. Uma das primeiras ações do Instituto Dimicuida, após compreender tudo isso, foi um Colóquio Internacional em 2015 com profissionais da saúde, pais, educadores, segurança pública da França, Estados Unidos e África do Sul, para levar a informação. Em 2016, o 2º Colóquio aprofundou esse conhecimento, trazendo de uma forma mais precisa ainda o que poderia ser feito em um programa de prevenção. Reunimos quase 500 profissionais na cidade de Fortaleza. A partir daí nós compreendemos que estávamos lidando com um elemento chamado internet. E na pesquisa da Juliana identificava o espaço de escola e de condomínios em que eles se agrupavam para fazer as práticas, que não eram somente a do jogo do desmaio. O jogo do desmaio é o "fundador", continua sendo a base do trabalho porque ele continua crescendo apesar de a gente não ouvir a mídia falar sobre isso, mas os números continuam crescendo. O desafio do desodorante não é uma prática de agora, que surgiu arrebatando crianças em 2018. Infelizmente, é uma prática que vem se alastrando e se disseminando nas plataforma de vídeo desde 2010. E por que agora? Porque agora cresce mais o acesso à internet. Na última pesquisa, da TIC Kids Online, verificou-se que 24 milhões de crianças, entre 9 e 17 anos de idade, tem acesso à internet no Brasil, em todas as classes socais. É um numero muito alto. Não é brincadeira. 

 

 

"Os números dela [da pesquisadora Dra. Juliana Guilheri] indicam que das 1395 crianças (brasileiras e francesas) que ela entrevistou em formato de prevenção, 40% já tinham feito uma prática de não oxigenação ou continuavam praticando e 10% desse número tinham chegado ao desmaio; 33% dessas crianças se submeteram a práticas por pressão de pares ou pressão dos colegas do grupo."

 

 

Vida Ciranda: Para as família que queiram conhecer melhor o trabalho do Instituto Dimicuida, se informar melhor sobre o assunto, como é que faz?
Fabiana: 
Nós temos um grupo de pais. O contato inicial é feito via site do Instituto. O apoio aos pais é dado diretamente pelos fundadores, que são os pais do Dimi. A busca é tentar compreender uma dor, uma perda para algo tão contemporâneo. Esse grupo de pais ajuda na compreensão e no entendimento do que é essa dor.

 

 

SERVIÇO:
Instituto Dimicuida
Para saber mais sobre o que são as brincadeiras perigosas, quem participa, como se propaga e quais os sinais de um praticante, acesse aqui

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A importância do carnaval na educação das crianças. Faz sentido?

Carnaval nos lembra alegria, fantasia, povo, rua. Remete-nos a brincar junto, todos juntos. Engaja-nos em um movimento cultural que tem em essência e força o coletivo, o público, o relacionamento, a convivência, a igualdade, a diversidade, a celebração da vida, a esperança. Há tradições e histórias de um povo, de povos, no carnaval. Há hinos, marchinhas e sambas em que a criatividade, a irreverência e o amor são cantados em expressão popular. Não à toa, há no carnaval muita importância para a infância.

 

LUKA SANTOS / G1 PERNAMBUCO

 

Bem antes de a igreja católica enquadrar o carnaval como evento pagão, na Idade Média, e limitá-lo ao pecado dos prazeres mundanos, a festa já existia para celebrar colheitas e farturas, louvar a natureza e subverter papéis sociais. Depois, à Europa do século XIX coube a difusão das máscaras e fantasias. No Brasil, o carnaval nos chegou pelos portugueses e sua manifestação inicial era o entrudo, praticado pelos escravos em brincadeiras de guerra de água, farinha e limões de cheiro. Após, tomou os salões das elites e se popularizou nas ruas pelos cordões, ranchos, marchinhas, afoxés, frevos, maracatus, escolas de sambas, trios elétricos. Preparar-se, vestir-se para o carnaval é, para mim, também vestir-se de uma consciência formada por fatores variados, destaco aqui apenas quatro deles, ligados aos valores que considero importantes que cultivemos desde pequenininhos: o coletivo, o significado da fantasia/personagem, o espaço público e a cultura popular.

 

 

Quando levamos as crianças para brincarem o carnaval, com todos os cuidados e cautelas que já descrevemos noutro postvalorizamos o coletivo, a convivência, o relacionamento com o outro. Valorizamos a igualdade, em que o riso dispersa barreiras e a união vem pelo canto, pela música, pela dança, pelo brincar. Não há diferenças, há diversidade. E há muito respeito implícito e explícito aí.

 

 

Nestes tempos em que o fantasiar-se está sob intervenções, acredito que tudo está na maneira como conduzimos a escolha do personagem na nossa própria consciência e como espalhamos essa consciência, principalmente, às nossas crianças. Na última semana, joguei o questionamento na minha timeline e uma amiga respondeu dizendo que estava confusa porque tinha escolhido fantasiar o filho de pescador, mas em nenhum momento pensou estar desrespeitando a profissão. Ela, menina de praia, de sol, de mar, que reverencia a rotina e a riqueza do litoral, no dia a dia dela com a família, quis vestir o filho de valores que extrapolam as vestimentas. É no conceito dela que eu também acredito. Se eu me fantasio de Frida Kahlo, é minha homenagem a Frida, meu jeito de engrandecê-la em mim e a partir de mim.

 

 

 

Escolher o local da festa também me inquieta. Sei, tenho toda consciência da insegurança que nos ronda. Neste ano, enquanto acompanhamos, amedrontados e acuados, os números crescentes de violência, vimos experimentando a multiplicação dos festejos de carnavais nos shoppings, especialmente, os infantis. Ainda assim, eu sou pelo espaço público. Por favor, não me levem a mal, não faço mimimi, não sou radical, mas não me permito ser refém do medo. Minha compreensão passa pelo viver positivamente a cidade e me permitir isso, pelo experimentar a igualdade, a diversidade, a brincadeira, a cultura e o coletivo, tendo sob os pés chãos que contam a minha história, arredores que fazem parte da minha identidade enquanto ser social. Falo sobre o direito das crianças à cidade, sobre o fortalecimento da cidadania delas, de elas conhecerem suas belezas e seus problemas, o que se aproxima de vivências humanas e empáticas. Falo sobre a criação da memória afetiva e o cultivo, desde cedo, de um sentimento de pertencimento ao que é dela, de fato, ao que está e estará sob os cuidados de preservação e sob a responsabilidade e o compromisso dela para valorizar e intervir. O afeto move mudanças. 

 

 

A cultura popular acaba perpassando os fatores já citados e mais: o carnaval acolhe e mesmo revela ao mundo as diversas manifestações de uma heterogeneidade cultural que é da nossa formação, que deveria existir em harmonia, dialogada. Seja pelos folguedos, maracatus, axés, toadas de boi, blocos de rua, escolas de samba, trios elétricos... quando contemplamos os desfiles ou participamos deles, com ou sem fantasia, quando ouvimos, compartilhamos músicas e danças, estamos vivendo uma cultura rica que se reúne ali. Independente se concorda ou não com esta ou aquela manifestação, ao vivermos a diversidade com respeito, no carnaval, ensinamos às crianças, pelo exemplo, que existem visões de mundo variadas e que o respeito faz de nós seres de bem (con)viver. A força do ensinar a respeitar tem efeito semelhante ao exigir respeito dos outros. Brincar o carnaval tem sido uma forma de também resistir a tantas intolerâncias. E existir.

 

 

Crônica_5fev2018

Desigualdades sociais marcam trajetórias e podem trazer consequências dolorosas

Lviv's Yard od Lost Toys / NICKDREWE

São 3h22min da madrugada de sexta para sábado, 3. Acabo de ler matérias e artigos sobre a chacina que aconteceu na comunidade de Cajazeiras, na primeira hora do último dia 27, e deixou 14 mortos, há exatamente uma semana. Já decorei por recortes de todos os artigos lidos que, em 2017, o Ceará contabilizou 5.134 homicídios. Nem acabou janeiro e a chacina dos 14 já era a segunda ocorrência, sucedida, dois dias depois, por outra de 10 mortos. Anotei no caderno ao lado, não sei bem para quê, algumas das medidas que o governo do estado quer adotar para conter o crime organizado. Li sobre as facções. Facções que dividem pessoas, demarcam territórios, modificam rotinas, expulsam dignidades e sonhos, espalham insegurança. Li sobre facções que fortalecem abismos sociais e personificam um dos grandes males da sociedade atual, talvez, o maior medo dela: a violência.

 

Parei várias vezes no decorrer das leituras que eu vinha selecionando havia dias para fazer. Protelei, é certo. Há alguma intenção nisso. Fui tomar água, tomar um café, fui ao banheiro. Fui dobrar os lençóis que eu havia estendido no varal, no dia anterior. Acho que a gente tenta refúgios no meio de tanto intragável. Dá um nó na garganta, como se o sentido utilizado para a leitura fosse o paladar e não a visão. Há algum sentido nisso. Deixa um ranço quando números, relatos, histórias de dor das pessoas vão descendo sensibilidade a dentro. Se me perguntassem minha opinião a respeito, agora, eu não saberia dizer. Eu só consegui lembrar de outras narrativas de dor, indiferença, indignação e superação que já passaram (e ficaram!) por mim, em mim. 

 

Lembrei famílias com quem conversei em 2011, moradoras de uma área de risco no bairro Vila Velha; lembrei crianças que brincavam na lama, no lixo. Lembrei a total ausência de serviços básicos ali para uma vida com dignidade mínima. Lembrei a fala da mãe ao filho de 4 anos sobre o que comer diante da fome que ele reclamava: “Não sei”.

 

Lembrei a criança de 11 anos que, depois de participar de uma ação violenta contra uma médica, na Praia do Futuro, em 2013, não entendia o alvoroço de toda polícia, imprensa e demais da sociedade em torno do ocorrido: “isso acontece todo dia lá onde eu moro e ninguém nunca vai atrás”, justificou a menina moradora de uma das comunidades pobres da Praia do Futuro.

 

Lembrei a garota de voz corajosa e decidida, de coque alto na cabeça, óculos de aros arredondados, com quem conversei no Caic Maria Alves, no bairro Bom Jardim, em maio de 2016. Concomitante à greve dos professores estaduais, o Maria Alves foi a primeira instituição de ensino médio em Fortaleza a aderir ao movimento de estudantes que ocupavam as escolas, Brasil a fora, por melhorias na educação básica. Ao lado do galpão onde ela recebia e passava telefonemas, organizava os grupos de alunos participantes da ocupação e orientava quem buscava informações, havia um cavalete como suporte para um cartaz que apresentava a programação do dia, na mobilização. Diante de horários que versavam sobre reflexões acerca de racismo, questões de gênero, desigualdade social, políticas públicas, democratização de acesso e da comunicação, perguntei a ela quem havia proposto aquelas atividades. Ela, em uma demonstração de obviedade à resposta, me lançou a queima roupa um incontestável “Nós, estudantes!”. Silêncio. Ela se aproximou um pouco mais e completou enfática: “Isso aqui é o que a gente quer encontrar na escola e não encontra”. Pediu licença e saiu para atender alguém que a chamava.

 

 

Lendo os tantos artigos sobre a chacina, lembrei o rapaz Felipe Rima que conheci em 2015 cujo sonho adolescente de ser chefe do tráfico de drogas, em uma comunidade do Papicu, foi substituído pelo desejo de fazer poesia da própria realidade e espalhar lições de esperança de futuro bom para outros jovens; lições que Felipe conheceu quando teve contato com um projeto social que mudou seu jeito de pensar e agir na vida, que fez o mundo se render a ele por aplausos e não pelo medo; lições mediadas “por aquela pedra no caminho”, da poesia de Drummond, assim como Felipe gosta de contar.

 

 

De repente, me deu a louca na cabeça – Imaginem só, que grande bobagem! – de tentar imaginar quem eram, pelo já tinham passado, o que um dia sonharam para si e sonham hoje as pessoas que integram essas facções que aterrorizam tanto, que desafiam governos, nações... a paz. De repente, me deu a louca de imaginar, de pensar, de me perguntar sobre, sei lá, talvez... que abismos em si eles carregam, quantas ausências, quantas negligências, quantos abandonos por todos os lados já sofreram.