Livros que falam de futebol para as crianças

É tempo de futebol, mais do que noutros tempos! Confesso que, neste ano, me sinto um pouco menos motivada. Não pelo brilho do esporte em si e tudo de valores, alegria e confraternização que ele traz consigo, e eu acredito nisso! Porém, no país em que vivemos, me entristece vê-lo, infeliz e indevidamente, sendo objeto para transvestir alienação em felicidade, tranquilidade e plenitude, e conduzir muitos a conceitos errados de conquistas e vitórias de uma nação inteira.

Passamos por um dos períodos mais difíceis para a democracia e para o patriotismo brasileiro. Não há consenso sobre o respeito e se disseminam verdades que atrasam, fomentam preconceitos, minam a humanidade. Mas acredito na força do esporte para a  transformação de realidades sim. Muitos desses jogadores são exemplos de superação e de solidariedade. Eu acredito nos valores que eles espalham.

E alinhada ao conceito de que o mundo está aí para ser vivido, descoberto e compreendido também pelas crianças, de maneira questionadora, crítica, mas sem fanatismos, aqui em casa vamos sim fazer pipoca, suco de maracujá e curtir o futebol da nossa seleção, dentro da importância e da alegria que lhe cabem.

Para nós, a literatura é sempre um caminho que nos ajuda a compreender mundos. O futebol e os sonhos que o circurdam são desses mundos. Trouxe, hoje, títulos da nossa biblioteca  que podem ajudar  vocês também  na conversa sobre futebol e Copa do Mundo com as crianças. Minha frustração é de não ter encontrado muitos títulos em que coloquem as meninas também como protagonistas das histórias de amor ao futebol. Na relação abaixo, um deles fala da menina Marina. E é bacana acompanhar Marina numa grande conquista! Como me escreveu o autor de um dos livros que sugiro, Flávio Paiva, “futebol é alegria!”.

 

RODRIGO BOM DE BOLA

 

O futebol aqui costura uma narrativa de respeito e acolhimento. O que esperar de crianças respeitadas por seus limites e deficiências, crianças acreditadas? O que esperar de uma convivência em que há compreensão e esforço para tornar o dia a dia de todos adaptado e possível ao desfrute de experiências comuns? No livro, o menino Rodrigo é cego e joga um bolão! Aliás, ele não joga apenas futebol muito bem, mas xadrez, dominó, jogo de baralho.. tudo graças à criatividade da adaptação. Em um dia decisivo para o time do Rodrigo, ele mostra como e por que é o craque do time! Mais ainda: Como é possível acolhermos as deficiências uns dos outros e vivermos uma convivência pacífica e respeitosa, nesse caso, praticando esportes e brincando juntos.

O autor da história é completamente cego desde que nasceu, superou as dificuldades e formou-se em Letras. Começou a escrever contos, crônicas e também literatura para crianças. Há quase trinta anos se dedica aos movimentos de inclusão social.

Serviço:
Rodrigo Bom de Bola
Autor: Markiano Charan Filho
Ilustrações de Valeriano
Editora: Nova Alexandria
Coleção: Volta e Meia
2ª edição: São Paulo, 2007
Preço médio: R$ 32,40 (Saraiva)

 

O MENINO QUE AMAVA FUTEBOL 

O esporte e o futebol podem sim transformar vidas. Mas, antes disso, ele pode transformar rotinas, enchê-las de esperança, de alegria, de garra, de confiança em si. Quem joga, ali no campinho do bairro, na quadra da escola, ou, como o personagem do livro, no caminho de volta para casa, faz daqueles minutos o tempo de plenitude. Nosso personagem, de tão atento à “bola”, faz-se herói em seu trajeto, encoraja-se a vencer obstáculos perigosos, despreza riscos, como o transito, ignora até o encontro com o poeta Carlos Drumond de Andrade.

Como na vida, pelo amor ao esporte, ele vai construindo a arena com que sonha, se vê protagonista nela, e herói, apesar de todas as dificuldades de menino pobre que a imaginação da infância não limita. O livro não tem palavras, apenas imagens, o que o torna ainda mais encantador.

Serviço:
O menino que amava Futebol
Autor: Glauco Sobreira, com ilustrações do próprio autor
Editora: Edições Demócrito Rocha
1ª edição: Fortaleza, 2014
Preço médio: R$ 43,90 (Livraria Dummar)

 

CHUTEIRA DOURADA

A paixão pelo futebol que passa de pai para filho, que fortalece o vínculo de afeto e também ensina lições como a paciência.  No livro, Flávio traz o filho Arthur como personagem principal apaixonado pelo esporte do coração de quase todos os brasileiros. Arthur descobre um modelo de chuteira na internet e se apaixona por ele. As chuteiras são douradas e dá até para gravar o nome! Combina, então, com o pai de comprar, mas usar apenas no dia do seu aniversário, relativamente, próximo dali, mas, até lá…. nossa! Quantos dias infinitos, heim, Arthur!? Principalmente, se as chuteiras dos sonhos chegam antes e Arthur precisa conviver com elas, sem tirá-las da caixa, como combinado, aguardando o tão sonhado dia do aniversário. Será que ele consegue convencer o pai sobre usá-las antes do aniversário? Haja argumentos! Uma narrativa marcante, emocionante, educativa.

Serviço:
Chuteira Dourada
Autor: Flávio Paiva
Ilustrações: Julião Júnior
Editora: Armazém da Cultura
1ª edição: Fortaleza, 2014
Preço médio: R$ 23,39 (Mercado Livre)

 

MINHA ESTRELA VAI BRILHAR 

Brilhar nos campos de futebol mundo a fora é um sonho de muitas crianças. Pelé, Garrincha, Ronaldo e, agora, Neymar, são inspirações que vivem nos desejos de muitos meninos e meninas. Fabinho Faísca e a irmã caçula Marina moram na favela, vivem uma vida cheia de dificuldades, mas que têm no futebol a esperança para seguir acreditando. Convivem com amigos que são heróis no campinho da comunidade, mas que no dia a dia se revestem da realidade, dura realidade. Em cada atividade que os amigos trabalham para ajudarem suas famílias, como vender água de coco na praia, engraxar sapatos na escadaria, pintar os carros alegóricos que vão brilhar no fevereiro seguinte, pescar, Fabinho reconhece habilidades que se destacam no futebol dos amigos.

Um dos méritos do livro é trazer para a história o também obstinado interesse por futebol da irmã do Fabinho, a menina que ama brincar de bola que pouco vemos nos livros, mas que existem tantas por aí. Marina aqui também é destaque e faz surpresa emocionante no jogo decisivo do time do irmão, na comunidade. Uma linda história da autora iraniana.

Serviço:
Minha estrela vai brilhar
Autor: MIna Javaherbin
Ilustrações: Renato Alarcão
Editora: Rovelle
1ª edição: Rio de Janeiro, 2014
Preço médio: R$ 21,90 (Saraiva)

 

 

Para atenuar um pouco a ausência das meninas nos livros de futebol, olha essa música linda da dupla Palavra Cantada. Gosto demais dela!

Menina Moleca

 

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Reconhecer-se loba para trazer à tona potenciais para além do que enxergamos

Este é o meu atual livro de cabeceira. Daqueles que você lê, aos pouquinhos, antes de dormir, e tem vontade de que nunca acabe. Já tinha lido vários trechos de “Mulheres que correm com os lobos”, sempre me encantava. Agora, decidi lê-lo todo.
Como alguém que adora ouvir histórias, confesso que fui fisgada pelos mitos, contos de fadas, lendas do folclore e tantas outras histórias que a autora, psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, colheu em mais de 20 anos de pesquisa sobre a relação entre lobos e a Mulher Selvagem que há em todas nós, como mãe, esposa, ser social.

 

 

É um livro que nos faz olhar para si, para quem somos, para o potencial que temos escondido no processo de reconhecer nossas dores, cicatrizes, experiências no caminho que percorremos e que tanto devemos honrar. É uma leitura intensa, reveladora, tantas vezes, perturbadora, libertadora. 

 

 

Neste março, quando pensei em leituras transformadoras para mulheres, não podia me esquecer deste livro. Convidei uma pessoa muito especial para conversar sobre ele, conosco: a psicanalista, escritora e instrutora de Yoga, Tânia Maria Sales. Conheci bem poucas mulheres com tanta sensibilidade, leveza e profundidade de olhar como Tânia, que costuma perceber a alma e suas energia do entorno, para além do corpo físico. O texto dela nos chega como um grande afeto, uma leitura imperdível! Muita gratidão por nos trazer suas reflexões, Tânia querida!

 

 

RESENHA: “MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS”

Por Tânia Maria Sales

 

 

O livro de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista junguiana, doutora em psicologia clínica, contadora de histórias, é um vasto, denso e fascinante ensaio sobre o que chamamos Sagrado Feminino.

 

 

O Enfoque que mais me captura a atenção na obra citada é a tragédia de mulher contemporânea que se separou de sua essência mais profunda e verdadeira para se adaptar aos ditames e exigências de uma sociedade que insiste em transformá-la numa espécie de animal doméstico.

 

 

Sensações de vazio, fadiga, medo, depressão e fragilidade, assim como bloqueio e falta de criatividade, são os sintomas que encontramos frequentemente nas mulheres de nossa época, que vivem soterradas sob o acúmulo de funções na família e na vida profissional, que sufocam todo o potencial criativo da alma feminina.

 

 

A autora nos convida a resgatar a Mulher Selvagem, a loba que vive em nós; um chamado para abandonarmos a ingenuidade que faz com que nos envolvamos em relacionamentos potencialmente abusivos, faz uma convocação para que reaprendamos a ouvir a voz da intuição.

 

 

Segundo a autora, “quando perdemos contato com a psique intuitiva, vivemos num estado de destruição parcial, e as imagens e poderes que são naturais à mulher não têm condições de pleno desenvolvimento”.

 

 

Este é, portanto, um livro para se saborear devagarinho, sem pressa. Todos os quinze capítulos do livro começam com contos que fazem partes da tradição de história oral de povos antigos de diferentes culturas. Em cada um deles a autora aporta lições que proporcionam um profundo mergulho no universo feminino: “O material contido neste livro foi selecionado para lhe dar coragem. O trabalho é oferecido como um fortificante para aquelas que estão no meio do caminho, incluindo-se as que lutam em difíceis paisagens interiores, bem como as que lutam no mundo e por ele”.

 

 

Através da interpretação das lendas e histórias antigas, entre as quais, o Barba Azul, Sapatinhos Vermelhos, A Menina dos Fósforos, à autora procura identificar o arquétipo da Mulher Selvagem ou a essência da alma feminina, na sua psique instintiva mais profunda.

 

 

Trata-se de um livro atemporal, a meu ver indispensável para a mulher pós moderna que busca autoconhecimento, entender seus processos existenciais.

 

 

Como é um livro transformador, eu diria que esta obra transita pelo universo das sincronicidades, chegar a sua leitura vem por um chamado, no momento certo, para quem precisa lê-lo.

 

 

Decididamente, um livro inesquecível, mágico e encantador! 

 

SERVIÇO:

 

 

 

 

 

 

 

Livro: Mulheres que Correm com os Lobos
Autora: Clarissa Pinkola Estés
Editora: Rocco
Preço Médio: R$ 47

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A mulher como a força renovadora destes já velhos tempos

Nesta semana, nossos textos e reflexões têm sido, prioritariamente, sobre a menina e a mulher, sobre a força que ela representa para a sociedade, sobre os desafios pesados que enfrenta diariamente, sobre a dor e a culpa de não conseguir dar conta sozinha de tantas responsabilidades, e sobre as consequências de todo um ciclo de desassistências.  

 

 

A nossa dica de leitura desta semana é o livro A Mulher no Terceiro Milênio, de Rose Marie Murano, uma das primeiras a falar sobre os problemas da mulher no Brasil Moderno.  A resenha que trazemos hoje é um enorme presente que o Vida Ciranda recebeu. Vem da jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em literatura cearense Lílian Martins, também mãe do menino lindo Saulo, de 2 anos. 

 

 

Há algumas semanas, Lilian postou nas redes sociais a leitura do livro e não me furtei do desejo de pedir a ela que nos escrevesse contando o que achou dele. Ela topou de pronto a proposta!  Ler Lilian e suas percepções é situar-se muito além da leitura da obra que foi analisada, é reconhecer na própria Lilian uma das heroínas destes dias. E que bom saber que ela está próxima. E inspira.

 

 

Na resenha que segue abaixo, Lilian delineia com maestria os significados da obra, instiga para pensarmos juntos sobre funções, igualdade de gênero e a necessidade urgente de estabelecermos novos parâmetros na relação homem-mulher. Nossa convidada conclama para uma leitura engajada do livro, pelas palavras e pela vida de Rose Marie Muraro, pelo olhar de mãe, profissional, filha, neta, amante, mulher comprometida dela própria. Ela sabe do que está falando. Muita gratidão pela resenha, Lílian! Aproveite!

 

 

Resenha Lilás: A Mulher no Terceiro Milênio

Por Lílian Martins 

 

arquivo pessoal

 

 

“Educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.
Rose Marie Muraro

 

 

O livro “A Mulher no Terceiro Milênio: uma história da mulher através dos tempos e suas perspectivas para o futuro”, de Rose Marie Muraro (1930-2014), deve ser leitura fundamental, desde a escola, para todas nós mulheres! A obra, publicada em 1993, segue atualíssima e provoca reflexões e embates até mesmo para aquelas já iniciadas no campo das questões feministas e de gênero. Sinto até vergonha por não ter conhecido esse livro antes, mas, ao mesmo tempo, me sinto felizarda de ter feito sua leitura, hoje, Balzaquiana que sou e com um filho de dois anos de idade. Pois a maternidade e a chegada dos 30 anos, desperta em nós uma forma diferente de ver o mundo e enxergar prioridades. E é importante que, a essa altura, nossas leituras também venham corroborar com esse novo pensamento de ser uma pessoa melhor e integralmente mulher, mãe, filha, neta, amante, tudo ao mesmo tempo e agora!

 

 

Para quem pensa que eu falo de uma autora estrangeira, se engana! Apesar do nome de origem francesa, falo de uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX, nascida no Rio de Janeiro, Estado em que, hoje, revive uma ditadura militar e que, quando na década de 60, perseguiu Rose Marie Muraro por ser uma das primeiras vozes nacionais a clamar por direitos iguais entre homens e mulheres. Em “A Mulher no Terceiro Milênio”, a autora nos convida a refletir sobre essas relações de poder e violência em que homens e mulheres são e estão subjugados através das relações de trabalho e, atualmente, reforçados pelo sistema capitalista.

 

 

Dividido em três partes, o livro examina aspectos femininos desde a época do surgimento do Homo Sapiens e desconstrói o paradigma das primeiras sociedades das quais originaram a nossa civilização Ocidental. De forma clara e em linguagem muito simples, a pensadora nos apresenta um conjunto de pesquisas que corroboram por delinear a árvore genealógica de nossa civilização e evidencia o “progresso civilizatório”, questionando as relações de poder e cooperação advindas desde os primeiros povos dos quais nosso campo científico se debruçou.

 

 

A maternidade está posta no livro desde a sua primeira parte, intitulada No princípio era a mãe em que Marie Muraro explica o que são sociedades matriarcais, matrilineares e matrifocais, diferença fundamental para questionarmos a nossa realidade atual e, mais ainda, para entendermos como o advento das sociedades patriarcais dissolveram a mentalidade religiosa feminina da criação oriunda dos primeiros mitos. Aliás, se tem alguma imagem que simbolize melhor a criação divina seria uma mulher, afinal somos nós quem geramos e parimos. Então, é um homem o símbolo de criador universal por quê?

 

 

A segunda parte do livro E o Verbo Veio Muito Depois discute sobre a origem da dominação do homem sobre a mulher, o aperfeiçoamento das tecnologias, o lucro e a presença do Estado centralizador a partir de estudos sobre as sociedades pastoris, agrárias e os grandes impérios da antiguidade.

 

 

Por fim, Marie Muraro faz a indagação que todas nós mulheres devemos nos fazer ao menos uma vez na vida  Mas Afinal, o Que Quer a Mulher? E é nesse questionamento de olhar para si e para o futuro que a autora evoca uma transformação social frente a tragédia anunciada da crise do mundo capitalista, do autoritarismo e do patriarcado. Para Muraro, o mundo está encerrando um ciclo e a paz social renascerá quando a sociedade se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra em um gesto primitivo de solidariedade e partilha.

 

 

A mensagem final do livro é um chamamento a todas nós mulheres cis ou trans, homens binários e não binários, enfim, pessoas humanas que desejam o bem na construção de um mundo melhor e mais fraterno para nossos filhos e filhas. A obra torna a sua leitura ainda mais instigante só em saber do esforço da escritora que nasceu quase cega, mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida que, ao fim de seus dias, ditava seus livros com o intuito de não parar de publicar. Formada em física e economia, Muraro, ao longo da sua existência, se dedicou a estudar a condição humana, especialmente, a condição feminina e foi ela quem no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero tão mal compreendida até os dias atuais.

 

 

Rose Marie Muraro morreu aos 83 anos de câncer na medula óssea. Foi Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente Lula, Patrona do Feminismo Brasileiro e, em 2009, criada a Fundação Cultural Rose Marie Muraro. Mulherada, uni-vos nesta leitura edificante e inspiradora!

 

 

SERVIÇO:

A mulher no Terceiro Milênio
Autor:
Rose Marie Muraro
Editora:
Rosa dos Tempos 
Preço Médio:
R$ 40
Atenção! Esgotado em algumas livrarias,
verificar disponibilidade

ilustração de menino que brinca nas estrelas

Crítica à educação tradicional e ao trabalho infantil permeiam a narrativa fantástica e apaixonante do livro A Casa da Madrinha, de Lygia Bojunga

Neste 2018, faz 40 anos que Lygia Bojunga lançou o livro A Casa da Madrinha. A obra, categorizada como infanto-juvenil, é encantadoramente perturbadora à medida que descreve situações e lança reflexões sobre infâncias, exclusões, escola tradicional, e busca por um ideal de maneira tão atual, por uma construção narrativa que mistura o real e o fantástico. Literatura como deleite, como fascínio sim, mas também como instrumento de denúncia, de crítica, de análise social e de transformação. Um bom instrumento para iniciar com os filhos diálogos de questionamento e análise sobre o mundo. 

 

 

Alexandre, o menino personagem que move toda a contação, é criança nossa, de todos os dias, aquela que encontramos nos semáforos vendendo bombons. E é tão fácil reconhecer que a Escola Osarta do Pensamento, que a autora descreve na obra e é utilizada para condicionar os quereres de uma pavão cheio de beleza e 'marra',  é essa que se multiplica em outdoors, tradicional, conteudista, alienante, que rejeita quem não se adequa, quem acredita que a escola é também um espaço de formação para a cidadania e não tão somente para provas. Mais atual, impossível.

 

Parte da capa de uma das edições do livro / Divulgação Internet

 

Mas, para além disso, existem os sonhos e os amigos que encontramos na jornada. São resistências, inspirações e forças. Pessoas que trazem magia, imaginação, fantasia, que deixam a vida mais leve em meio a dureza da lida. Alexandre também conta com eles e isso faz toda a diferença. A casa da madrinha, perseguida por Alexandre, é a metáfora que abarca nossos sonhos todos, aquele ideal de vida que desenhamos em objetivos e metas, mas, ao mesmo tempo, que é tão seletiva. Nem todos conseguem alcançá-la. Temos que viver escapando de tanta coisa, como Alexandre.  É preciso vencer medos para conquistar, como o personagem aprende no caminho. A Casa da Madrinha é, sobretudo um livro de esperanças. 

 

 

Convidamos uma pessoa de quem o Vida Ciranda é muito fã para também conversar conosco sobre o livro. Temos a honra de acolher a análise sensata e tão oportuna da pesquisadora Vanessa Passos, doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC), integrante do Grupo de Pesquisa - Espaços de Leituras: Cânones e Bibliotecas (PPGLetras UFC). Vanessa é estudiosa de Lygia Bonjunga e compartilha conosco  um pouco da riqueza de apreensões que ela carrega do livro A Casa da Madrinha. Encantem-se, como eu me encantei. Boa leitura! 

 

 

Entre viagens e livros, em direção à Casa da madrinha, de Lygia Bojunga
Por Vanessa Passos

Arquivo pessoal

Quantas e quais infâncias existem? Infâncias no plural, porque o retrato de infância perfeita é apenas fruto de uma idealização romantizada deste período. No livro A casa da madrinha, Lygia Bojunga mostra-nos a infância difícil de Alexandre. Em vez de brinquedos, ursos, carrinhos, bola, ele trazia consigo uma caixa com gelo e sorvete para vender na praia, outras vezes, trazia uma caixa com objetos para fazer mágica nas ruas do Rio de Janeiro para receber alguns trocados. Sua vida era um malabarismo entre o jogo de cintura e a imaginação para sobreviver, driblando a escassez em que vivia.
Apesar de abordar assuntos pertinentes, como: o trabalho infantil, a pobreza e o abandono da escola, a escritora brasileira não o faz de forma pedagógica ou panfletária. A autora não diz (com um tom utilitário), mas mostra (num tom estético), através de cenas bem delineadas e diálogos fluidos, a miséria de um garoto que mora no morro – uma infância muitas vezes esquecida por nós e pelos livros.

 

 

Quantos livros já lemos para nossos filhos, irmãos, sobrinhos, primos, amigos, para as nossas crianças, ou ainda, para a criança que ainda somos e podemos ser, que trazem à tona esta realidade? A realidade daqueles que povoam sinais nas ruas, nos terminais de ônibus, nas favelas...

 

 

Nessa narrativa, escrita pelo viés do realismo fantástico, temos uma realidade cruel que se funde à fantasia. Com a leitura, encontramos Pavão que fala tremidinho; Casa da Madrinha, que é o lugar dos sonhos, Esperança. Apesar de todas as dificuldades, Alexandre tem fé, guarda a certeza de que “Agora eu posso viajar toda a vida. Quando o medo bater, eu ganho dele e pronto.”

 

 

O livro ainda traz uma crítica metafórica à repressão dos direitos de liberdade de expressão, através do personagem Pavão, o qual é obrigado a ir para a Escola Osarta, uma escola que tem por objetivo atrasar o pensamento dos alunos. O curioso é que a palavra “Osarta” significa atraso ao contrário. Lygia brinca com isso, dizendo que colocaram este nome para não dar tanta bandeira do que eles realmente queriam fazer no colégio. Depois de passar por uma série de torturas e ter seu pensamento costurado, o Pavão perdeu parte da memória e passou a ter um pensamento raso, não questionador.  De semelhante modo, a professora da escola que Alexandre frequentou, tinha uma maleta cheia de pacotes e de cores, ela fazia brincadeiras, deixava os alunos contarem suas histórias. Inventava e reinventava jeitos de dar aula. Todos os alunos adoravam. Mas a diretora não gostou: “Que matemática era aquela que a Professora estava inventando? Não gostou da invenção.”

 

 

Enfim, o livro conduz a uma viagem maravilhosa, que permanece mesmo depois da última página. Então, observamos que a vida é uma viagem constante. No caminho, encontramos muitos percalços, mas é importante seguir, sempre em frente. Quem sabe um dia podemos chegar à casa da madrinha, o grande desejo de Alexandre. Certamente, lá estará o menino, encostado na porta azul-marinho com a flor amarela pendurada e uma chave na mão esperando-nos com um sorriso no rosto.

 

 

SERVIÇO:

A Casa da Madrinha 
Autora: Lygia Bojunga
20ª edição: 2015, 17ª impressão
Ilustrações: Regina Yolanda
Casa Lygia Bojunga
Preço médio: R$ 30

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Fotógrafo faz registros diários da filha para documentar a conquista dos primeiros passos

PROJETO FÉRIAS DE BRINCAR 
DICA 21 - FOTOGRAFAR PROCESSOS DE APRENDIZADOS DAS CRIANÇAS POR PERÍODOS CONTÍNUOS

 

No correr das rotinas, vivemos poesias que se destacam na nossa jornada. Momentos com a família, com os filhos, com os amigos que bem podiam ser guardados em um potinho mágico, pelo qual fosse possível voltar e reviver sempre que a saudade apertasse. Enquanto vivemos, a importância, às vezes, nos escapa e só nos damos conta dela quando os dias passam. Talvez, a fotografia seja em essência muito desse potinho; por ela, fica mais fácil o retorno às lembranças marcantes. O fotógrafo carioca Raphael Bózeo, de 32 anos, acredita nisso.

 

Pai da Maria, de 10 meses, há pouco tempo, ele resolveu registrar o dia a dia da filha, que ele considera um todo de poesia. Prestes a andar, a menina Maria vem conquistando o mundo no engatinhar e já ensaia os primeiros passos. Raphael, para além do amor que sente pela filha, enxergou na curiosidade, nas descobertas, nos olhares, sorrisos, abraços, nas primeiras dores e frustrações da infância concreta que tem em casa, a necessidade de registros que extrapolam os momentos descontraídos ou de lazer em que se tem uma máquina fotográfica na mão; o fotógrafo enxergou naqueles cliques a valorização da família em si, da felicidade que existe nessas “horinhas de descuido”, como já ensinou Guimarães Rosa, e quis conversar com o mundo sobre isso. Raphael vem fazendo do registro da infância da Maria um compromisso diário de amor, de doação, de contemplação, de gratidão... tudo guardado no potinho das lentes da máquina fotográfica dele.

 

 

O projeto #MariaTodoDia365 está no 49º dia hoje e se propõe lançar ao longo de um ano inteirinho, diariamente, um registro público da rotina da menina Maria. Jornalista e fotógrafo profissional da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Macaé/RJ, Raphael realiza também projetos particulares de fotografia documental de famílias e assina a página do Facebook Não basta ser pai há 1 ano, quando decidiu escrever sobre as emoções que vinha sentindo desde o dia em que soube da chegada da filha, para, assim, dividir, compartilhar, trocar e aprender mais sobre a paternidade.

 

Aliás, o olhar sensível de Raphael para a infância é demonstrado em outras iniciativas, como fotografar somente crianças em um jogo de futebol, área a que também se dedica como profissional, para contar a história de um título pela ótica dos pequenos torcedores. Seus cliques foram destaque no GloboEsporte.com, do Rio de Janeiro, e tiveram repercussão nacional. Além das fotos das crianças, há um texto muito bacana desse olhar, escrito também por Raphael, que vale a pena ser lido! 

 

O projeto de fotografia #MariaTodoDia365 vem encantando as redes sociais. Raphael me conta que se inspirou no fotógrafo Renato DPaula, que, há cerca de dois anos, começou a fazer registros do dia a dia da filha Isabele pelo projeto #Isababe365. Uma pequena crônica escrita também por Raphael acompanha cada fotografia do projeto, contando um pouco a história dos cliques. Em um dos mais bonitos, Maria olha um livrinho de fotografias que a mamãe Camila preparou para o pai, na passagem do aniversário mais recente dele. Noutro clique, um dos que Raphael mais gosta, a menininha chora e é acalentada nos braços da mãe, depois de uma pancada na cabeça. Projeto emocionante. 

 

 

Conversei com Raphael no limiar da mudança de um ano para o outro. Acompanhe abaixo a entrevista e saiba muito mais sobre o projeto e sobre a maneira linda que Raphael pretende encerrá-lo. Deleite-se com esse pai fotógrafo apaixonado pelas duas funções e inspire-se! Que tal começar um projeto assim com quem ama? Pode ser com seus filhos pequenos ou maiores, pode ser com seus pais ou com aquele grupo de amigos especial.  

 

 

Vida Ciranda: O que mais motivou você a começar o projeto?
Raphael Bózeo: Talvez, seja o projeto mais incrível, mais encantador que eu estou fazendo e que eu fiz nos últimos tempos. O que me motivou, na verdade, foi deixar um legado para ela. Eu vi um outro fotógrafo fazendo com a filha, achei incrível e quis fazer com a minha filha antes de ela estar andando, para pegar esse processo antes: ela engatinhando, depois andando, para contar essa história. Apesar de ser uma maneira de estar divulgando um pouco do meu trabalho fotográfico, isso é para ela. Quando ela tiver uns 20, 30 anos, ela vai poder saber e conhecer, por meio de fotos, como ela viveu essa primeira parte da vida dela. É um registro da história dela.

 

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Vida Ciranda: Há preocupação com produção, com poses, em "arrumar" a Maria, antes das fotos?
Raphael Bózeo: Eu tento imprimir nas fotos uma coisa mais documental, do que acontece, realmente, no dia a dia dela. Não é pegar a Maria, fantasiar a Maria, botar ela num fundo e fotografar. Eu prefiro situações mais do dia a dia. Curiosamente, a foto de hoje [ 31 de dezembro, 2017] é uma selfie, porque tem muito do que ela está aprendendo, ela botou a língua para fora, então eu, Camila e ela botamos a língua para fora. A foto está bem a gente mesmo. Nem é a proposta do projeto, mas resolvi colocar porque esse tipo de foto não deixa de ser um documento nosso de um momento incrível. Então, eu acho que o mais importante é que seja um registro que conte a história da pessoa, registros que daqui a 20, 30 anos, a pessoa vai ver. Pode-se fazer com uma criança de 4 anos, de 10 anos, com uma pessoa de 15 anos. O mais importante é fotografar como uma maneira de contar a história.

 

 

Vida Ciranda: Há alguma novidade na sua relação com a Maria, depois do projeto? Seu olhar para ela, para a relação de vocês vem mudando, de alguma forma?
Raphael Bózeo: Além de desenvolver meu olhar fotográfico, eu tento enxergar a minha filha no dia a dia, sabe. Ao invés de eu estar preocupado com uma maneira de registrar minha filha de um jeito que eu quero que as pessoas vejam, eu tento mostrar exatamente como ela vive. Eu tenho percebido que tem sido muito bacana, minha esposa está muito satisfeita. Eu ficaria muito triste se eu não estivesse conseguindo fazer. Tento fazer um exercício contrário: se não existir isso, como seria e como eu me sentiria se não fizesse isso. Então, é mais legal você imaginar e ver lá na frente.

 

Vida Ciranda: Como foi se tornar pai  e pai da Maria?
Raphael Bózeo: A Maria foi muito planejada. A gente se programou para ter a Maria. Um fato curioso é que eu fiquei sabendo que a Camila estava grávida no dia 12 de junho, Dia dos Namorados, e a Maria nasceu no dia 14 de fevereiro, que é o Valentine’s Day, Dia dos Namorados em outros países. Então, ela veio já com muito amor, em duas datas simbólicas para o amor. Desde então, eu me propus ser pai com ela, de ser presente, de registrar, de viver a paternidade muito ativamente. O projeto #MariaTodoDia365 me aproxima ainda mais dela. Uma das coisas que eu acho mais incrível é você olhar para a foto e sentir voltar aquele momento, sabe.

 

 

Vida Ciranda: Há alguma foto ou fotos de que você gosta mais?
Raphael Bózeo: Uma foto de que eu gosto muito é ela olhando a chuva pela janela do carro. Quando eu a vi olhando pelo vidro, concentrada, fui bem devagarzinho no carro. Outra foto é do dia em que ela tinha batido com a cabeça no apoio da cama e minha esposa abraçou, ela ainda com os olhinhos cheios de lágrimas. É isso: cada foto acaba tendo uma história. Quando ela estiver entendendo e eu for contar a história de cada foto, é uma maneira de ela conhecer um pouco mais de como foi esse primeiro projeto, entre 1 e 2 anos de idade dela, como ela foi amada, então, a gente volta naquele dia e sente as emoções e a gente se emociona e isso gera um envolvimento que gera uma conexão muito grande entre a gente. Eu tenho muita foto antiga da minha família. Não tinha as facilidades que têm hoje e você se emociona. Imagina você tendo as possibilidades de hoje, com a tecnologia. Hoje, qualquer pessoa pode registrar, guardar, não falo apenas de maneira profissional.

 

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Vida Ciranda: Você já vem recebendo feedbacks das pessoas sobre o projeto?
Raphael Bózeo: Eu recebo muitos, alguns no Instagram @raphaelbozeo, outros no Facebook, na página Não basta ser pai,  que eu fiz para contar, armazenar, registrar algumas coisas que eu gostaria de falar para ela, e dividir com as pessoas alguns textos também. Muitos amigos comentam nas fotos, entram em contato comigo, no bate-papo informal mesmo. As pessoas falam das fotos, do trabalho, como é incrível ter esse registro, que gostariam de fazer, é uma coisa muito legal por saber que pode estar sendo um legado e motivando outras pessoas a fazerem a mesma coisa.

 

Vida Ciranda: Como você pretende guardar esses registros para entregá-los depois para a Maria?
Raphael Bózeo: No final do projeto #MariaTodoDia365 vai ter um vídeo contando a história dessas 365 fotos, vai ter um álbum de fotos, como um livro, que eu vou personalizar para ela, com as 365 mais um plus no final, com algumas fotos que não entraram no projeto oficial.

 

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Vida Ciranda: Você pretende continuar o projeto 365 noutra fase da Maria?
Raphael Bózeo: Não sei se eu pretendo continuar o projeto 365 na internet, mas certamente vou registrar diariamente para ter esses registros sim. Vou ver como vai ser quando terminar este. De repente, crio um outro tipo de projeto, não sei, para divulgar na internet. Prefiro terminar este, para depois organizar direitinho. O que eu acho que não pode parar é eu estar fotografando, registrando, guardando. Existe uma grande preocupação de deixar de viver os momentos para fotografar também. Então, às vezes, você não consegue viver tão intensamente se você estiver tão preocupado com a foto, mas eu acho que com muito esforço você consegue conciliar as duas coisas. Você consegue viver deixando a máquina um pouco de lado.

 

Vida Ciranda: Numa época em que tudo parece passar tão rápido, em que não aproveitamos tanto momentos tão bonitos que vivemos, a fotografia documental é muito importante para deter felicidades e relembrar...
Raphael Bózeo: Tenho um projeto de fotografia documental, de storytelling, de contar histórias dos dias de grupos de amigos, de famílias, de passar um dia, um fim de semana com uma família. É muito importante essas memórias. Hoje, qualquer pessoa pode fazer com um smartphone, mas o profissional é um olhar diferente, de uma pessoa de fora. Eu também escrevo sobre as pessoas que eu fotografo. Escrevo muito para a Maria. As fotos não são para o fotógrafo, são para as pessoas que fotografamos, é a história delas.