Mulheres empoderadas pela educação e pela maternidade amparada por meio das empresas onde trabalham

REPORTAGEM II
MATERNIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO

 

Ela casou bem jovem com o homem que lhe despertou o coração, parecia bom. As filhas chegaram logo e as responsabilidades com a casa, com o marido, com as crianças não permitiram que o Ensino Fundamental fosse concluído.  Precisou também trabalhar para complementar a renda. O sonho do casamento foi virando pesadelo. O marido batia nela, nas meninas, deixava faltar comida na mesa. “A gente tinha uns sete anos de casados, quando ele me deu uma surra grande. Ali, eu decidi que aquela seria a última. Peguei minhas filhas, fomos embora. Criei sozinha. Foi um sofrimento só, foi difícil demais, mas sobrevivemos”, relembra Francisca Cleide Oliveira da Silva, 59.

 

Ainda no mercado de trabalho, o semblante da  dona Cleide só muda quando ela fala sobre os dois grandes sonhos realizados nesses anos mais recentes: a aquisição da casa própria e a conclusão do Ensino Médio. Este último, principalmente, só foi possível para ela porque os estudos foram realizados na própria empresa em que ela trabalha, há quase 20 anos. Dona Cleide descreve uma trajetória de incompreensões, antes de se sentir mais acolhida em um ambiente de trabalho. “Já fiz de tudo na vida. Para onde eu ia, não podia nem dizer que eu era mãe porque eu ouvia que o problema era meu, que o patrão não tem nada a ver com isso. Nunca tinha visto em canto nenhum o tratamento que eu tenho aqui”, diz.

 

Quando dona Cleide chegou à empresa atual, Amêndoas do Brasil, recebeu apoio como avó já. Cuidava da neta para a filha mais velha trabalhar. Foi na empresa que encontrou psicóloga e assistentes sociais “para me dar conselhos”, médicos para fazer exames de prevenção, palestras sobre cuidados consigo e com a netinha, sobre controle financeiro, curso de informática e escola. Ah, a escola e aquele sonho de virar enfermeira! Na empresa onde ela trabalha, há uma escola mantida em parceria com o SESI (Serviço Social da Indústria), especificamente para os funcionários. O sonho da  dona Cleide sempre foi cursar enfermagem na faculdade, mas não tinha tempo nem para concluir o Ensino Fundamental, trabalhando o dia inteiro. Quando a neta ficou maiorzinha, e com o incentivo dos colegas de trabalho, voltou à sala de aula.

 

 

“Ah, certamente, eu não teria voltado a estudar se fosse pra ir pra uma escola normal. Aqui, o horário é diferente, a gente não pega ônibus lotado, já fica aqui depois do expediente e acaba em um horário que é cedo ainda pra voltar pra casa. É bom demais!”, se alegra. Quando perguntada sobre o local de que mais gosta na empresa, nos leva para a sala de estudos, onde funciona uma pequena biblioteca, aponta os livros que mais gosta de ler e, com olhar fixo na capa de um deles, resume o valor de conseguir sonhar agora com a “faculdade de enfermagem dos meus sonhos”, depois da aposentadoria que está bem pertinho de chegar.

 

“Eu sempre entendi o valor da educação, mas não conseguia chegar perto desse sonho. Aqui na empresa, a oportunidade foi que chegou perto de mim. Acho que eu conseguir estudar é bom não é só pra mim, mas é um exemplo que eu quero deixar pras minhas filhas, pras minhas netas. E eu sou muito agradecida à empresa, né, pelos sonhos que eu realizei aqui, por conseguir me enxergar com mais valor. Pra muita gente, se aposentar é parar. Para mim, acho que agora é que a vida vai começar de vez. E eu sou muito grata aqui por isso”, comemora dona Cleide.

 

Alegria, acolhimento e informação durante a gestação

– Corre! O Grupo de Gestantes já começou!
– Já? Está  pertinho de duas e meia… – olho para o relógio em alusão à pontualidade do evento.
– Elas chegam cedo. São bem disciplinadas, querem tirar todas as dúvidas, aproveitar o tempo.
– O Grupo dura 1 hora?
– Não, a tarde inteira.
– Elas estão no horário de trabalho delas?
– Sim, mas no dia da reunião do Grupo são liberadas à tarde.

Da esquerda pra direita: Mariana, Fernanda, Lisivone, a enfermeira Juliana e Carolina

Meu encontro com um grupo de quatro grávidas da empresa Mercadinhos São Luiz aconteceu numa tarde de quinta-feira. A reunião do Grupo de Gestantes é realizada uma vez por mês. Naquela tarde, o tema foi cuidados com o bebê recém nascido. Elas mal me perceberam entrar, tão concentradas que estavam. A enfermeira Juliana Torres ouve e responde com cuidado todas elas, mostra vídeos, faz simulações com uma boneca, apresenta exemplos práticos. Depois do bate-papo inicial, uma pausa para o lanche que já está servido. Tem frutas, sucos, pães. Algumas aproveitam para esticar o papo com a enfermeira.

 

É a primeira gravidez da compradora Carolina Vieira, 35, que espera por Liz. Da operadora de caixa Fernanda Pires, 32, vai chegar o terceiro menininho da família, o João, que está sendo gestado há quatro meses. É também João o primeiro filho da operadora de caixa Lisivone Queiroz Martins, 33, grávida de 8 meses, já de licença maternidade. Tornar-se mãe também é novidade para a Mariana Aquino, 25. Ela não é funcionária da empresa, e sim o marido. Todas já trabalharam em outras empresas e reconhecem o valor do que viveram naquela tarde.

“É a primeira vez que eu passo uma gravidez mais tranquila, emocionalmente. Não planejamos. E isso me deixou muito fragilizada, até mesmo porque estou na empresa há bem pouco tempo. Quando avisei, me surpreendi com a alegria, o abraço de carinho e as felicitações dos meus chefes. Isso fez toda a diferença para aceitar este novo filho. Hoje, estou amando a chegada dele, eles me ajudam e me preparam”, nos conta Fernanda. Durante a primeira gravidez, Fernanda não trabalhava e a preocupação vinha com os custos que o bebê iria lhe trazer. Na segunda gravidez, já estava no mercado. Sofreu com assédios morais de chefes que sugeriam a insatisfação pela fase que ela vivia. “Não facilitavam minha vida. Não deixaram nem eu fazer chá de fraldas na empresa, precisei alugar um espaço fora e convidar os colegas que me davam apoio”, lamenta.

 

Mariana curte a chegada do primeiro filho, acolhida pela empresa onde o marido trabalha, depois de um pedido de demissão traumática que ela se viu obrigada a fazer

 

Algo parecido aconteceu com a Mariana. Promotora de vendas de uma rede de supermercados, pedira demissão há pouco tempo porque não aguentou a pressão que passou a sofrer depois que comunicou à chefia da gestação. “Eles mudaram minha função pra uma que exigia muito mais esforço meu, mudaram minha rota, me colocaram para trabalhar em uma loja mais distante em que eu pegava mais  ônibus. Tentei conversar com eles várias vezes, mas o estresse estava tão grande que eu reswolvi sair  para ter uma gravidez mais tranquila. Eles forçaram meu pedido de demissão. Pra mim, foi bem traumático”, relembra com tristeza.  Hoje, ela e o filho recebem os benefícios como esposa de um funcionário.

 

Quem cuida do Grupo de Gestantes do Mercadinhos São Luiz, existente já há 20 anos, é a encarregada pelo setor de Qualidade de Vida, do RH da empresa, Juliana Sena, com quem tive o diálogo inicial deste texto. Ela nos explica que o projeto é parte de um conjunto de ações voltadas para famílias e filhos da empresa. “Há orientação pré-natal, oficinas, palestras que focam não apenas nos cuidados com o bebê, mas cuidados com a mãe, biológico e psicológico também. Tudo sem falar nas flexibilizações de horários.. é um olhar diferenciado que a gente lança às mulheres. A gente está implantando agora os encontros de pós-parto, para que elas possam vir, confraternizar, tirar as dúvidas que já vivem na prática, trazerem os bebês”, enumera Juliana.

 

Carolina atenta às explicações da enfermeira. “Nos faz querer ser sempre melhores aqui”.

 

Tanto cuidado, traz recompensas para os objetivos também de rendimentos das funcionárias.  “ A gente trabalha com tranquilidade, com certeza. E Feliz, sabe. É diferente. A gente percebe que a empresa vive a felicidade da gravidez junto com a gente. Somos paparicas, isso nos cativa, nos faz querer ser sempre melhores aqui dentro”, resume Carolina.

A série Maternidade no Ambiente Corporativo
Terceira

As empresas cearenses Amêndoas do Brasil e Mercadinhos São Luiz sâo referências brasileiras de cuidado com as mulheres, com as mães e com as famílias. Conheça as rotinas de atenção que elas oferecem às funcionárias na terceira matéria da série Maternidade no Mercado Corporativo, que será publicada nesta semana.

Ontem

Ontem, na primeira reportagem da série, conversamos com a fotógrafa Karine Andrade, mãe de duas meninas, a mais nova, Alícia, de 6 anos, é portadora de cardiopatia congênita. Recentemente, ela passou por um processo de demissão delicado que envolveu sua maternidade.  Leia aqui

Roda de Conversa Maternidade e Mercado de Trabalho 

Vamos nos encontrar presencialmente? Será amanhã, dia 16, às 18h30min, na Transforme Coworking (Rua Barbosa de Freitas, 1035, Aldeota). Leve suas dúvidas, experiências e sugestões para compartilhar conosco! Vamos melhorar as condições nas mulheres mães no ambiente de trabalho.

 

Na ocasião, também haverá uma exposição cultural com fotos da fotógrafa Karine Andrade, ouvida na primeira reportagem da série. Vendas no local com preços variados.

Karine Andrade: lições em P&B sobre ser mãe e profissional

MATERNIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO 
REPORTAGEM I

 

No último dia 29 de março, um post publicado no feed de notícias de uma fotógrafa cearense gerou tristeza e indignação. Rapidamente, ele se multiplicou na rede, entre amigos e conhecidos, mas, principalmente, entre empáticos com a causa. E não são poucos. Karine Andrade, fotógrafa, estudante de Recursos Humanos, mãe de duas meninas – uma delas portadora de cardiopatia congênita – acabara de ser demitida do Museu da Fotografia, onde trabalhava como estagiária, havia três meses. O motivo dava título ao texto publicado na rede: “Fui demitida por ser mãe e ter filho pra cuidar”. Neste mês de maio, do trabalho, das mães, o Vida Ciranda convida você a participar dessa conversa. Precisamos falar sobre direitos, deveres, abusos e possibilidades de conciliação entre maternidade e ambiente corporativo.

 

arquivo pessoal

Karine trouxe à tona uma discussão que está mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Na grande maioria das vezes, encoberta, mascarada, diluída em discursos de bondade e solidariedade. Para a socióloga Verusca Simões, há uma situação pior: trata-se de uma discussão velada por aceitações desses discursos. “Há uma resignação de muitas mães que se veem sem outra opção, a não ser dobrar-se à missão solitária da criação dos filhos, que as sobrecarrega como não deveria”. Segundo a estudiosa, as mães veem-se diante de um mercado que destoa das conquistas femininas das últimas décadas. Um mercado “que não dialoga com as famílias que as mães constroem para além dos interesses de metas e lucros. Um mercado que ainda não entende que ele próprio faz parte de uma roda viva de causas e consequências da má ou da boa educação que recebem as crianças e os adolescentes”, alerta Verusca.

Até o fechamento desta reportagem, na tarde desta segunda, a mensagem da Karine já havia sido curtida por 1,7 mil pessoas e compartilhada 608 vezes.

 

E quando se trata de crianças e adolescentes, é preciso lembrar o que está resguardado na Constituição Federal, art. 227: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”, diz a legislação.

 

Para a socióloga Verusca, isso significa que precisamos repensar práticas para além do foco em si mesmo, precisamos estender as funções sociais que exercemos em compreensões e benefícios coletivos, que abarquem o alicerce do processo todo. “Não há dias vindouros sem as novas gerações. E não há melhorias sem investimento nelas. Por exemplo, está na Lei a licença maternidade mínima de 4 meses assegurada às mães e às crianças. Ainda assim, há muitos desrespeitos, pressões e opressões. A própria gravidez é encarada com desdém em muitas instituições. Isso desqualifica desde cedo um processo educativo mais saudável. Se não cuidamos das crianças e de suas famílias, os planos de um crescimento civilizatório saudável ruem. Como vem ruindo. É urgente mudar”, adverte Simões.

 

Nesta segunda, você acompanha o bate-papo que tivemos com a fotógrafa Karine Andrade sobre maternidade, mercado de trabalho, sonhos, futuro. Amanhã, no segundo dia desta série, outras mães trarão seus olhares e opiniões para esta conversa. Participe também comentando esta matéria.

 

Lições em P&B: “Ser uma boa profissional é tudo de que precisamos para estar no mercado de trabalho”. 

 

“Eu nunca pensei que fosse acontecer comigo. A gente sabe de histórias com os vizinhos, primos, outras pessoas. Acho que por eu ser da arte, estar em um ambiente artístico, de educação, em um local chefiado por uma mulher empoderada, feminista.. nunca pensei, e foi o que mais me deixou triste”, explica a fotógrafa Karine em entrevista ao Vida Ciranda. Segundo ela, o fato aconteceu numa quarta-feira, depois de uma sexta-feira anterior em que esteve afastada, sob declaração médica, para estar com a filha internada no hospital.

“Fui chamada à sala do gestor. Ate pensei que fosse algum carão do dia a dia (rsrs). Vi que ele estava desconfortável, mas falou ‘Vá para casa, cuidar da sua filha’ e se desculpou por estar fazendo aquilo. Eu fiquei muito chateada, me senti traída, porque eu era muito esforçada. Tinha, inclusive, um banco de horas que me possibilitava folga de dois dias, porque sempre ficava até mais tarde. Usei um dia dessas horas, ou seja, que já era um direito meu”, lamenta Karine.

Karine Andrade, 28, é mãe dedicada de Kaylane, 12, e Alícia, 6. Conheceu a maternidade aos 16 anos, quando engravidou do namorado, que se tornou marido e a acompanha até hoje. Em uma narração emocionada, nos conta sobre os desafios das duas maternidades, principalmente, das rotinas de exames constantes, cirurgias e internações que já enfrentou com sua caçula, cardiopata.

 

Alícia chegou como chegam as grandes mudanças, as transformações mais marcantes, aquelas que desnorteiam e despedaçam corpo e alma, mesmo inundadas de afeto, aquelas que conduzem ao limite o que pensamos ser impossível ultrapassar, até ver que é possível; mudanças que sacodem todas as opiniões, mas que justificam lutas, existências e o amor de uma vida inteira. Karine enfrentou com força e encantamento também os caminhos de uma descoberta de si, da sua essência, no meio de um turbilhão de emoções. Mais que isso: descobriu que não estava sozinha.

Foi durante a primeira internação da filha, que a fotografia lhe chegou como um convite ao alento. Durante os 22 dias em que viveu a UTI do lado da filha, com menos de 1 mês, Karine foi consultada sobre a possibilidade de sua bebê recém operada ser fotografada por um profissional que fazia um trabalho com crianças cardiopatas. Sua resposta de pronto foi não. “Como alguém queria fotografar crianças em um momento de tanta dor como aquela”. Negou o convite. O fotógrafo era João Palmeira. O livro era “De Nascença”, que registra histórias de crianças com a doença. A publicação marcou a trajetória da Karine e atravessou seu caminho diversas vezes.

Nos meses que se seguiram conheceu o trabalho do fotógrafo e a coletânea de fotografias. Apaixonou-se. Pelo livro. Pela fotografia. “Bateu um arrependimento danado de não ter participado. Fiquei encantada com as fotos, com os textos. Choro ainda hoje quando leio o livro. Fui muito tocada pelas fotografias, pela beleza delas. Naquele momento, decidi que era aquilo que queria seguir na vida”, diz com brilhos nos olhos.

Karine descobrira a paixão profissional no meio do caos emocional que vivia e passou a dedicar-se também a ela, entre médicos e hospitais. Depois de alguns estudos e cursos, ingressou, com destaque no processo seletivo ao Curso de Fotografia, no Porto Iracema das Artes. Em uma das aulas, viu-se diante da fotógrafa Iana Soares, uma das autoras do livro De Nascença que mais emocionaram Karine. Compartilhou sua emoção ali mesmo, diante dos colegas em um auditório lotado, e começou um laço que a fortaleceria nos meses seguintes. O livro que ela negara, anos antes, lhe agregava amigos e lhe inspirava para uma atividade que a aliviava todos os dias. “A fotografia foi a minha libertação completa”.

Como trabalho de conclusão de curso, Karine fez um ensaio chamado Resistência: Ansiedade e Depressão, coerente com todo o emocional que vivia e que agora ela conseguia explicar e expressar. Abaixo, Karine divide conosco seu ensaio, aclamado por professores, colegas e críticos da área.

“No Porto, consegui me reerguer, porque lá eu era mais que a mãe da Alícia, eu era a Karine fotógrafa. Cheguei destruída e fui me reconstruindo aos poucos. A fotografia me ajudou nesse processo. Eu já não me sentia mais tão confusa, bagunçada, cansada, eu já não sentia mais tanta culpa pela doença da minha filha. O ensaio mostra exatamente isso”, descreve.

Mais leve, compreendendo bem melhor todo o processo pelo qual passava e com o emocional mais equilibrado, agarrou a oportunidade de estagiar no Museu da Fotografia, no segundo semestre de 2017. Um sonho. Lá, ela trabalhava de quarta a domingo, das 11h30min às 17h30min, como arte-educadora. Começou em dezembro de 2017 e seguiu até março de 2018, quando foi demitida.

“Minha mensagem na internet foi de tristeza, de desabafo, mas também de encorajamento para outras mulheres. O Museu faz um trabalho muito bonito e eu reconheço isso, mas mesmo lá, aconteceu o que aconteceu. Quero levar dele apenas as lembranças boas que eu vivi. Nada mais. O que eu peço ao Museu é uma retratação formal do que aconteceu. Não é só por mim, mas por uma luta que é de todas as mulheres”.

Depois da mensagem publicada, Karine confessa que sofreu. Mas logo percebeu que não estava sozinha. “Cheguei a me arrepender por ter postado, mas aos poucos fui percebendo que fiz o melhor. Muitas pessoas vieram conversar comigo, pessoas que eu acompanhava de longe, de quem eu sou fã, como a Iana Soares. E muitas mulheres que se identificaram com a minha situação. Esse apoio me deixou preenchida, completa”, relata.

Fortaleza
Karine é uma mulher intensa e forte, como são as experiências que ela vive como mãe e como profissional. Vem aprendendo que os caos que lhe chegam também lhe agregam. “Sabe, penso no fato [demissão] como algo que me ensinou muito e, principalmente, que me oportunizou conhecer pessoas tão bacanas, foi a dor da demissão que trouxe essas pessoas para perto de mim. Como a dor da doença da minha filha me trouxe a fotografia. Pelo sofrimento da Alícia, não falo que eu não mudaria nada, mas não me arrependo de nada do que a gente viveu e vive nesses seis anos porque eu conheci pessoas e histórias que me transformaram demais, me humanizaram mais. Hoje, tenho outra visão sobre as pessoas, sobre o mundo e sei que essa visão é determinante na profissional que eu sou hoje”, analisa Karine.

Sobre superar a tristeza que lhe trouxe a demissão, Karine confessa. “Não sei se superei. Para qualquer entrevista de emprego, a partir de agora, eu fico em dúvida se eu falo da Alícia ou não, sabe”, resume.

Recursos Humanos
Atualmente, Karine vive como fotógrafa freelancer, enquanto cursa a faculdade de Recursos Humanos, na FAECE /UNIP. Não é preciso ratificar aqui o muito de lições de humanidade e empatia que Karine leva para a carreira que pretende seguir no ambiente corporativo.

“Como profissional de RH, quero mostrar que mulher mãe pode trabalhar, é possível. Eu quero mudar a visão cultural dos gestores, mostrar que ser uma boa profissional é tudo de que precisamos para estar no mercado de trabalho e isso pode acontecer comigo sendo também uma boa mãe, presente, que consegue acompanhar os filhos. Quero provar que não existe essa de que ser uma boa mãe e uma profissional de sucesso no ambiente corporativo não podem caminhar juntos. Em todos os lugares em que eu trabalhei antes, sempre fui mãe. Isso não impede nada. As pessoas, o mercado de trabalho ainda têm um ranço com as crianças. E elas são dever de todos nós. As pessoas esquecem de que estão sobrecarregando as mães que atuam no mercado e não estão dando para elas a condição mínima de serem mães mais presentes. As mães estão sozinhas, sem apoio para cuidar dos filhos, passando o dia em empresas que não olham para elas por inteiro”, explica a futura gestora do mercado.

Karine explica que é necessário ver outras alternativas em vez de demitir mães que, mesmo sendo excelentes profissionais, pecam diante do mercado por serem mães e precisarem de compreensão para também cuidarem das crianças. Porque, segundo ela, muitas vezes, são mulheres que botam a comida na mesa de casa. “ Como eu ajudava meu marido. Me falaram que estavam me ajudando me demitindo, mas como? Acredito que precisamos de empresas que ofereçam facilidades, como  planos de saúde, regime de cumprimento de horas mais flexível em momentos de necessidade. É preciso um olhar mais humano, menos tão somente empresarial. Precisamos nos colocar mais no lugar do outro. Acredito que em uma entrevista de emprego ninguém pergunta a um homem com filhos o que ele vai fazer se seus filhos adoecerem. Meu marido tirou uma semana para cuidar da Alícia, nada aconteceu com ele. Estamos numa condição muito frágil ainda no mercado de trabalho. Claro, tudo recai para a mãe, como se a responsabilidade fosse só dela. Poucos ajudam, todos cobram”, desabafa.

 

 

Mundo pulsante
O sorriso não sai dela. Mesmo nos relatos mais dolorosos. Tem um jeito espontâneo, bem humorado, acolhedor. Karine é um mundo pulsante também para além da maternidade e da fotografia. Adora cozinhar, comer, fazer amigos, estar com amigos. “Amo fazer massa, tortas, mousses, pão, cachorro quente, lasanha, pizza de frigideira. Meu passatempo predileto é cozinhar e comer (risos). Gosto de cozinhar para minha família amigos. Aliás, não posso me queixar de amigos”, alegra-se.

De agora pra frente, quer aprofundar-se no aprendizado da fotografia paralelo à especialização em psicologia empresarial que pretende cursar, depois que finalizar a faculdade. “Tenho uma ideia de um projeto de fotografia de pessoas icônicas de cada bairro. Sabe, aqueles anônimos famosos, que todos do bairro conhecem? Fazer um trabalho de fotografá-los como um patrimônio imaterial tão valioso daquele bairro”, planeja.

Antes disso, vem se esforçando para recuperar sua máquina fotográfica profissional, que precisou vender para pagar materiais, matrículas e mensalidades das escolas das filhas. Anda juntando uma grana para resgatar seu amuleto.

 

 

O Vida Ciranda buscou contato por telefone e por email com o Museu da Fotografia. Na última sexta-feira, foi informado que Fernanda Oliveira, coordenadora responsável pelo equipamento, é a pessoa mais indicada para falar sobre o assunto, mas que estava doente e não estava indo ao Museu. Foi um enviado um email direcionado à coordenação do Museu, mas até o fechamento desta reportagem ele não havia sido respondido.

Roda de Conversa sobre Maternidade e Mercado de Trabalho

Na próxima quarta-feira, 16 de maio, às 18h30min, o Vida Ciranda conduzirá uma Roda de Conversa na empresa Transforme Coworking (Rua Barbosa de Freitas, 1035 / Térreo, Aldeota). O momento faz parte deste Especial Maternidade no Ambiente Corporativo como relação presencial da discussão. Karine Andrade é uma das nossas convidadas especiais desse encontro. Leve suas dúvidas e compartilhe conosco sua experiência. Karine fará uma exposição especial para o evento e as fotografias podem ser adquiridas por preços variados.

 

 

Amanhã  Especial Maternidade no Ambiente Corporativo
Acompanhe mais histórias de mulheres que enfrentam o desafio de de uma rotina ativa de trabalho e maternidade.

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“Como coreógrafa, eu tenho na criança minha maior inspiração”, diz a artista Valéria Pinheiro em entrevista exclusiva

Em dezembro último, a coreógrafa cearense Valéria Pinheiro anunciou ao cenário cultural o fechamento do Teatro das Marias, equipamento que ela dirige há quase 20 anos, com forte atuação no processo de difusão e formação em diversas linguagens artísticas, no Ceará. Diretora artística da Cia Vatá, Valéria reforça "já não tem mais pernas para segurar o Teatro", que passa por dias difíceis para se manter. O anúncio foi recebido com tristeza pela classe artística. Além de performances adultas, Valéria se destaca também na criação de produções artísticas para crianças, já tendo trabalhado em escolas, ONGs, assentamentos, principalmente, para populações de baixa renda.

 

Valéria, durante espetáculo Compilation. Foto: Noel Belgin

 

Valéria conversou conosco em uma dessas iniciativas para os curumins, como ela gosta de chamar  as crianças e os amigos próximos, no dia 11 de janeiro de 2018. Durante os meses de dezembro e janeiro, ministrou a Escola de Musicais para Crianças, em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, através do edital Cultura Infância 2016, com execução em 2017/2018, e o Café Teatro das Marias / ABCVATA (Associação de Brincantes da Cia Vatá). Não foi tão difícil reconhecer nela outra criança em seu palco sagrado das Marias.

 

Ao fundo, Valéria com as crianças, em uma sessão da Escola de Musicais para Crianças / Colônia de Férias para Curumins, em janeiro 2018

 

Marcada pelas influências da cultura popular nordestina, de Juazeiro, onde nasceu, e pelas etnias indígenas, do Amazonas, para onde se mudou ainda criança, com os pais e as duas irmãs, depois da morte do irmão mais velho, a garota brincante cursou Engenharia Civil, sofreu as consequências das desigualdades de gênero na profissão, e optou pelo voo ao Rio de Janeiro. Lá, construiu companhia de dança, foi artista premiada, alavancou a carreira e tornou realidade grandes sonhos. Fez mestrado em Análise de Sistemas, doutorou-se em Inteligência Artificial. Pelas máquinas, aprendeu a força do natural, da energia humana, da sensibilidade, do coração. Trabalha com crianças e adolescentes desde sempre, em projetos que a fazem brilhar os olhos e continuar acreditando na brincadeira como um grande propulsor de um maior conhecimento de si para viver em harmonia com o outro.

 

Porto Iracema das Artes / Divulgação Internet

Com Valéria Pinheiro, o Vida Ciranda faz uma homenagem, neste Dia Internacional das Mulheres, a todas as mulheres, guerreiras, conquistadoras, com sangue no olho, que não têm medo dos desafios que a vida lhes apresenta, que não temem recomeços, mulheres guiadas pela força do humano e do coração.

 

 

Nesta entrevista, concedida exclusivamente ao Vida Ciranda, Valéria comenta sobre a decisão de encerrar o Teatro das Marias, poetiza sua vida com a família, fala com carinho da herança emocional para o brincar que herdou, principalmente, do pai. Conta sobre o começo da Cia Vatá, que fundou ainda na década de 1990, e do seu Marias. Faz duras críticas à gestão cultural estadual e municipal e a maneira como o governo Roberto Cláudio vem conduzindo as políticas de revitalização da Praia de Iracema. Denuncia abandonos, entristece-se com a, segundo ela, apatia da sociedade civil diante do que vem sendo decidido por representantes políticos locais e nacionais. Desacredita no Plano Fortaleza 2040. E não esmorece quando fala de um recomeçar no sertão, como mulher arretada que vingou dele. Expressa força suficiente juntar as malas e brilhar noutros horizontes, parece mesmo ter a energia inesgotável de uma criança.

 

Acomode-se, a entrevista é longa. Entregue-se a esta conversa, ela vai te prender do início ao fim. 

 

Vida Ciranda: Você tem influências culturais diferentes muito fortes na sua trajetória, não é?
Valéria: Eu sempre tive esse lugar da Cultura Popular muito perto de mim porque eu sou filha de um mestre de reisado [Dorgival Pinheiro]. Em 1965, meu único irmão homem faleceu com 8 anos de idade. Eu tinha 6 anos. Então, foi uma experiência bem difícil para minha família, meu pai não conseguiu mais morar no Ceará. O irmão dele nos levou para Manaus, e ele recomeçou na Zona Franca de Manaus. Então, eu saio desse lugar e vivo minha infância e juventude em Manaus, uma cidade, naquela época, com desenvolvimento muito diferente do que a gente vê hoje. Então, eu tive experiências com aldeias indígenas. No quintal onde eu morava, tinha igarapé e do lado de lá tinha uma etnia, e por mais que o pai dissesse 'não saia daqui, não atravesse o rio', a gente acabava indo, atravessar o rio e brincar com os índios do lado de lá. Então, eu saí da cultura popular e fui para uma cultura étnica muito forte. Mais adiante, quando eu começo a entender minha personalidade, vejo que tem muito desse sentido étnico e cultural, tradicional.

 

Arquivo pessoal

 

Vida Ciranda: Quando é que você sai de Manaus para o mundo?
Valéria: Em 1979, o pai sofre um infarto e resolve voltar para o Ceará. Na época, eu estava no 2º ano de Engenharia Civil, na Universidade Federal do Amazonas. Meu pai consegue um emprego federal na Docas [Companhia Docas]. E eu sou transferida para a UFC [Universidade Federal do Ceará], tento terminar aqui, mas, no meio de tudo isso, consegui uma bolsa de estudos em Brooklyn e fui fazer Engenharia Civil em Nova York, dois anos e meio. Nessa época, eu era apaixonada pela área de exatas. E aí, para sobreviver para além da mesada do pai, eu trabalhava no Central Park, com todos os tipos de artes que trabalham o corpo, como patinação artística, essas coisas. Me aproximei, aprendi essas artes, foi tutora e comecei a entender isso como possibilidade de sobrevivência, meu corpo começava a acordar para algumas experiências que eu já tinha vivido antes, com as etnias no Amazonas, com o sertão, com meus pais e avós, enfim. Uma mistura ali de tudo isso.

 

Vida Ciranda: Mas aí você voltou para o Ceará para concluir a Engenharia?
Valéria: Nessa época eu já estava totalmente abduzida pela arte. Eu começava a entender que a Engenharia não era exatamente o que eu queria. Meu pai conseguiu um emprego para mim na Docas [Cais do Porto, Fortaleza, CE] e eu tive experiências bem frustrantes lá, por eu ser mulher. Minha especialização na Engenharia era Portos, Rios e Canais, mas na construção do píer em que eu trabalhei, acho que em 1982, fui proibida como mulher de fazer a inspeção submersa, na água. Isso me enlouqueceu. Foi minha primeira grande frustração. Botei a mochila nas costas e disse: “não quero mais Engenharia”. Meu pai enlouqueceu, todo mundo enlouqueceu e fui para o Rio de Janeiro.

 

Arquivo Pessoal

 

Vida Ciranda: Foi em busca da arte, da dança no Rio Janeiro?
Valéria: Chegando ao Rio de Janeiro, para que eu tivesse um “paitrocínio”, fiz uma escolha meio aleatória por um mestrado. Entrei na PUC [Pontifícia Universidade Católica] para fazer Análise de Sistemas. E me apaixonei pelos computadores. Mas aí, quando eu terminei, eu também já estava muito vestida da arte carioca. Eu estava na CAL [Escola das Artes de Laranjeiras], já fazia tablado, já fazia alguma coisa de televisão, trabalhava com alguns atores, já tinha espaço na Globo, eu já tinha conquistado um espaço meu no Rio de Janeiro. Mas aí meu pai ameaçava: 'você vai voltar'... e aí eu pensava: 'cara, eu preciso de um doutorado'. E fui fazer Inteligência Artificial, também pela PUC, do Rio.

 

Vida Ciranda: Inteligência Artificial (risos)?
Valéria: (Risos) E foi muito engraçado porque eu fiquei muito apaixonada pelo sistema que trabalhava o campo magnético dos corpos que perdiam partes, como numa folha. Meu trabalho foi o seguinte: quando eu quebro uma folha de árvore, quanto tempo esse campo magnético ou o campo que fazia parte do inteiro ainda fica com vida? E isso foi muito bacana, porque mais à frente eu conheci alguns filósofos, fui estudar corpo sem órgãos.

 

Arquivo Pessoal (Juazeiro)

 

Vida Ciranda: E você era muito dedicada à Academia?
Valéria: Não. Até porque eu nunca tive vontade de Academia, eu briguei com a Academia o tempo inteiro. Eu acho a Academia chata ‘pra caralho’, eu acho a Academia uma verdadeira prisão, quando deveria ser uma verdadeira liberdade. A gente já vem de uma prisão chamada escola... A Academia te prende quando você não pensa igual a eles. Eu terminei a defesa do meu doutorado sem entregar a parte escrita porque eu disse: 'eu não compactuo com nenhum desses filósofos, nenhum desses conceitos, eu não tenho aspas no meu trabalho. Vocês vão aceitar?' Então, fui quebrando protocolos. A Academia nos deixa em um tempo que não é esse, precisamos desse tempo atual, eu preciso desse corpo, desde o corpo sujeito até o corpo pensante, que se modifica a cada tempo, mas não, eu tenho que ter regras. Eu não queria Academia.

 

 

Vida Ciranda: Mas aí você concluiu Inteligência Artificial?
Valéria: Eu terminei Inteligência Artificial porque eu já era coreógrafa, me interessava muito mesmo trabalhar corpo de imanência, ou seja, que corpo é esse, como o pai, por exemplo, com quase 80 anos, que desce, sobe, toca pífano... enfim, que corpo é esse, rural, que existe hoje, que é tão diferente do corpo urbano.. qual é a diferença? Que temporalidade é essa? Como coreógrafa, me interessava muito. Eu, corpo urbano, tenho menos vida? Por quê? Que tempo é esse que parece mais esgarçado. Então, no meu doutorado, eu quis estudar e fui para esse lado, que já era o lugar da arte, já tinha um lugar do tempo. Eu já achava, e acho até hoje, que o sertão tem esse tempo esgarçado e que, por isso, as pessoas do sertão passam pela vida de uma forma mais intensa. E não é à toa que eles vivem mais tempo. Eles comem o simples, mas o mais forte, comem muito milho, muitas raízes, trabalham muito fortemente, então tem o corpo que é absolutamente diferente desse corpo nosso, ridículo, urbano, que está dentro do carro, senta a bunda no computador, está com milhões de controles na mão, não pensa tanto, se alimenta com o que já está pronto na geladeira... enfim.. tem esse lugar muito diferente.

 

Em Marrrocos, durante viagem com a Cia Vatá, em 2016

 

 

Vida Ciranda: Então, foram quantos anos no Rio, antes de voltar para o Ceará?
Valéria: Eu fiquei no Rio de 83 até 2000. Foi mestrado, doutorado, construção da Cia Vatá, abertura da Catsapá [Centro de Artes do Tempo Sapateado], uma escola de musicais que existe no Rio de Janeiro até hoje. Lá, em 1986, a gente ficou em cartaz com uma obra chamada Na cola do Sapateado [musical infantojuvenil] durante, nossa, nem sei... para você ter ideia ela hoje já está na terceira geração, tem a neta daquela que foi a minha primeira atriz. É muito bacana. Essa obra me deu uns prêmios que foram importantíssimos, me aproximou da televisão, do cinema. Mais ou menos em 1997, meu pai adoece, sofre um infarto e eu sinto muita necessidade de ficar mais perto dele porque a gente tinha brigado, depois fizemos as pazes, mas eu continuei no Rio.

 

 

Vida Ciranda: Seus pais sempre acompanhavam você, seus trabalhos?
Valéria: 
O tempo inteiro. No começo, foi bem complexo para eles, mas, muitas vezes, eu estava entrando em cena, no Rio de Janeiro, quando eu via na primeira cadeira eles dois. Tinham pego o avião só para ir assistir ou uma obra ou minha estreia, enfim, acabaram de alguma forma me aceitando como artista.

 

Com a mãe Maria (arquivo pessoal)

 

Vida Ciranda: E aí, em 2000, você veio embora para Fortaleza?
Valéria: E aí em vim embora para Fortaleza em janeiro de 2000. Eu tinha minha Companhia de Dança que eu tinha montado no Rio de Janeiro, em 94, já vinha me apresentando pelo Rio, São Paulo, Minas. Vinha trabalhando muito fortemente já como esse corpo brincante, que eu chamo como corpo brincante. Eu tinha a linguagem do sapateio muito forte, mas trabalhava muito com o viés da dança contemporânea. Quando eu vim embora, a Cia ficou lá. As pessoas se dissiparam e alguns ficaram. Hoje, são os diretores, donos e organizadores da Catsapá. Chegando aqui, eu montei minha Cia de Dança, genuinamente cearense, e foi muito bacana, que é a Cia Vatá.

 

 

Vida Ciranda: E o Teatro das Marias, quando ele surge na sua vida?
Valéria: Quanto mais eu trabalhava aqui, mas eu tinha necessidade de espaço, porque era sempre muito complexo. Eu ensaiava com os meninos ou no meu deque, na piscina do meu pai, ou na garagem que era quente para caramba. Até o momento em que eu cheguei para o meu pai e disse... isso foi em 2004: ‘pai, eu queria muito, meu sonho, me ajuda, eu queria muito um teatro’. Ele riu. Quando foi em junho de 2005, ele chegou para mim e disse: 'vamos ali no cartório comigo'. Me levou no cartório e aí passou o apartamento do Rio de Janeiro, que ele tinha comprado para eu estudar, para o meu nome. Eu disse: ‘pai, o senhor tá fazendo isso? Olha, eu vou pegar um avião amanhã, foi vender e volto para montar meu teatro!’. Aí ele disse: ‘faça tudo isso, só não fala para sua mãe que eu fiz isso’ (risos). Fui para o Rio, vendi mal para caramba meu apartamento. Eu me lembro que era um apartamento que podia estar em 2 milhões, sei lá, eu vendi por 300 e poucos mil, em 2005. Aí eu cheguei aqui enlouquecida: “pai, eu quero um lugar”.

 

Com o pai Dorgival (arquivo pessoal)

 

Vida Ciranda: E como foi a escolha por esse espaço?
Valéria: Eu tinha paixão pelo Dragão do Mar, e a Praia de Iracema tem toda uma ligação afetiva comigo, com a minha adolescência, minhas férias, eu sempre vinha para cá. A gente achou esse espaço aqui que era um galpão no chão, e o cara não quis vender. Meu pai tentou de todas as formas comprar. Eu lembro que ele olhava para mim e dizia: ‘você tem certeza? Você vai investir tudo aqui? Isso aqui é o que eu estou deixando para você. É isso que você quer? Você vai investir tudo em um espaço que não é seu?’ E foi tudo muito louco porque ele e minha mãe foram muito contra que eu fizesse isso. Eu conversei com o dono desse espaço, ele me deu 18 meses de carência.. que é nada... e eu peguei toda a grana do apartamento e construí esse espaço.

 

 

Vida Ciranda: E a Cia Vatá cresceu.
Valéria: Sim. No final de 2005, já não era só a Cia Vatá aqui dentro. Éramos nós, a comunidade que vinha assistir aqui dentro. Comecei a trazer todo mundo para dentro, outros coletivos vieram para cá também. O Teatro das Marias passou a ser esse espaço cultural que não era mais a Cia Vatá, era uma coisa da cidade. Muitos projetos vinham para cá, a gente começou a fazer parceria com o Sesc, com o BNB, com o próprio Dragão do Mar.

 

 

 

Vida Ciranda: Você mesma escrevia os projetos para participar dos editais?
Valéria: Sempre. Eu vinha com essa experiência do Rio de Janeiro porque para eu sobreviver lá, eu fui produtora durante muito tempo. Fui produtora muitos anos de Jonas Bloch, Claúdia Abreu. Trabalhei anos com José Wilker, trabalhei com a Xuxa 12 anos. Então, eu tenho todo um aprendizado sobre esse lugar da produção, esse lugar da organização, de buscar captação de recursos.

 

Foto: Andrea Bardawil (arquivo pessoal)

 

 

Vida Ciranda: E como foi se deparar com a política pública cultural, a política dos editais pela Cia Vatá?
Valéria: Lula fez com Gilberto Gil uma coisa que é muito parecida com o que se tem na Europa, nos Estados Unidos, na minha experiência de produção, que é a sociedade olhar para a cultura se fazendo pertencer e entendendo que quanto mais ela investe na Cultura, melhora a qualidade de vida. E alguma coisa acontece a partir de 2012 que a gente tem uma queda na construção de política pública. A gente perde a política pública que a gente havia conquistado ao longo desses, sei lá, 12 anos.. e a gente tem vindo com quedas, com quedas... eu acho que o auge de tudo isso é a saída da Dilma, quando a gente fica absolutamente perdido. Entra o Temer e diz assim: ‘tchau, Ministério da Cultura’. Foi uma loucura porque quando ele coloca na caneta o tchau caem todas as Políticas Públicas (PP). Quando volta, a gente volta sem PP, a gente volta sem o Mais Cultura, a gente volta sem a política de construção de editais. Então, a gente está no zero, numa luta, de novo, por toda PP Federal.

 

 

Vida Ciranda: E no Ceará?
Valéria: 
Ao longo disso tudo, no estado do Ceará, a gente tem dois governos que, simplesmente, sequer olham para a cultura cearense. A gente tem uma Luizianne Lins que alavanca, bacanérrimo, a Prefeitura, transformando uma Fundação numa Secretaria de Cultura. Com ela, a gente começa a ganhar muitas PPs nas duas gestões. A gestão petista, por incrível que pareça, por mais que esteja uma loucura agora... de alguma forma, a gente tem construção de PPs. Há um governo municipal em diálogo com a sociedade, que pensa cultura como um todo, como entretenimento, como arte, cultura, como aquele lugar em que eu vivo, que eu quero, como mobilidade. A gente começa a ter Fortaleza alavancando para isso. E aí quando entra Roberto Cláudio, enlouquece porque ele vai só para uma mobilidade de concreto e esquece toda a humanização. Então, a gente fica com uma cidade sem nenhum tecido afetivo, uma cidade que não tem calçada. Tem noção? Como funciona um lugar que não tem calçada, onde a calçada é o lugar do encontro, é o lugar da passagem .... então, eu falo com melhor propriedade do lugar onde eu vivo, que é a Praia de Iracema.

 

 

Vida Ciranda: Como está a Praia de Iracema (PI) pelo seu olhar?
Valéria: A gente tem uma PI absolutamente cooptada pelas drogas, não por outra coisa, porque não tem nenhum tipo de oportunidade de inclusão. O tempo inteiro a própria sociedade quer ver invisível esse lugar. As PPs, de uma forma geral, acabaram com a PI, com a construção desse elefante branco chamado aquário, que a gente conseguiu impedir. Nós, da classe, fomos lá, impedimos, mas, com relação a isso, eles isolaram o Poço da Draga, uma das comunidades mais antigas e mais belas... É óbvio que a comunidade tem problema? Tem problema! Como uma comunidade pode viver no século XXI sem saneamento básico? E aí não é da vontade do governo colocar saneamento básico porque o governo quer exterminar o Poço da Draga, o governo quer exterminar o Oitão, o Baixa Pau... ou seja, todas as favelas que estão por aqui [Praia de Iracema], ele quer exterminar, não interessa... então, ele vem fazendo uma política de higienização bunda! Eu acho que é isso que está me deixando mais sem energia para lutar, eu acho. Se eu tivesse a sociedade civil comigo, talvez eu tivesse com uma bandeira e fosse manter o Teatro das Marias, mas eu acho que a gente está apático. O que está acontecendo? Não sei.

 

Durante o espetáculo mais recente '233 A, 720 Khalos'

 

 

Vida Ciranda: Então, você acha que a PI foi abandonada não apenas pelos governantes, mas pela população também?
Valéria: Eu acho a sociedade civil culpada por absolutamente tudo que está acontecendo, esta apatia a tudo que o governo está nos dando. Neguinho bateu panela, fez um monte de coisas e depois calou. Cadê essas pessoas? Cadê esses filhos da puta? Muito triste! É a sensação que eu tenho, e eu não tenho nada a perder, não estou vinculada a nada. Você pode entrar aqui e fazer uma auditoria. Eu não tenho nada errado, portanto, eu não tenho rabo preso. Eu acho que 70% da sociedade está com rabo preso. Que medo é esse? A sensação que eu tenho é que, como a gente tem um Congresso abduzido pela corrupção, a base da pirâmide, que somos nós, está sufocada, sem poder subir para algum lugar. Está todo mundo abduzido de alguma forma, o que é isso? Por mais que eu não tenha dois filhos como você, tenho vontade de botar minha bandeira na mão e correr na rua, que futuro é esse que essas crianças vão ter, que cidade é essa que eu vou dar para elas? Ninguém se mobiliza.

 

 

Vida Ciranda: Como é que você vê essa atual revitalização proposta para a PI?
Valéria: Na verdade, não existe. É uma higienização. Ele [Prefeito Roberto Cláudio] primeiro fez o seguinte: a periferia contra a periferia, porque ele não entende que a PI também é uma periferia. Então, ele diz: 'eu vou trazer a periferia para dentro'. Sendo que a periferia é quem mais está sofrendo, porque, de repente, ele traz as pessoas para cá e quer que as pessoas se sintam pertencentes sem nenhum tecido afetivo, sem sequer saber o que aconteceu aqui, não existe passado. Para você ter uma ideia, cara, a gente pega o nosso Estoril. Meu Deus do céu! Quem estiver perto da minha idade... porque você é jovem, mas eu tenho 58 anos. Minha juventude inteira de férias foi ali no Estoril, com shows, com conversas.. coisa mais gostosa do mundo! A Ponte Metálica era o grande encontro da juventude cearense e não era juventude elitista não. Agora, o que é que acontece? A Prefeitura vem e entrega a cidade para o Capital, ou seja, eu tenho empreiteiras e mais empreiteiras com interesse... Se você vir o Plano Fortaleza 2040, você vai ficar chocada.

 

 

Vida Ciranda: O que mais impressionou você nele?
Valéria: Eu tive uma conversa olho no olho, ouvido no ouvido, discussão e discussão com o arquiteto do Dragão do Mar, Fausto Nilo. Nesse lançamento do Plano Fortaleza 2040 [que aconteceu em agosto de 2017], estávamos os dois, porque por eu ser polêmica sempre me chamam. No projeto, Fausto entende a Monsenhor Tabosa como local de construção de arranha-céus onde a população possa morar, para que exista população morando por essas áreas aqui. Sendo que ele esquece... não existe nada com relação ao Poço da Draga, nada com relação a nós todos aqui... é uma exterminação, a construção de um grande aglomerado de arranha-céus, onde embaixo possam vir a ser lojinhas, para virar uma Ipanema. A ideia que eles querem é Ipanema, Leblon, onde a Praia de Iracema seja o metro quadrado mais caro do mundo. Então, quanto mais rápido eles exterminarem todas aquelas casinhas que ainda resistem ali, mais rápido eles vão construir o metro quadrado mais caro da cidade. E o tempo inteiro é a ideia do aquário que está ali como um grande projeto, é tão absurdo isso! Me dá uma revolta tão grande isso, companheira! Porque se você parar para pensar: somos o Estado de maior seca dentro da região Nordeste. Eu mesma moro numa região que custa R$ 140 por semana o caminhão pipa de água. E aí você vem fazer um aquário importando a água? Me dá um nó na cabeça!

 

Ensaio fotográfico _ Espetáculo 233 A, 720 Khalos

 

 

Vida Ciranda: Sobre o movimento da cultura que está acontecendo na PI, o Conselho da Praia de Iracema, o que você acha?
Valéria: Sei qual é. Estou no movimento. Bem complexo também. Eu fico muito preocupada porque é um movimento arranjado, não é um movimento da sociedade civil. Não é. O senhor Roberto Cláudio convida a dedo algumas pessoas do poder público, duas ou três pessoas da PI e cria o Conselho da PI [empossado no dia 25 de agosto de 2017]. Aí, eu pergunto: cara pálida, como é que você não chamou Carri Costa [ator e diretor da Companhia Cearense de Molecagem, responsável pelo Teatro da Praia, situado na rua José Avelino]? Ele está aqui há 37 anos! Como você não chamou alguém do Alpendre [Casa de Arte Pesquisa e Produção, situado na rua José Avelino], que está aqui há séculos? Como você não me chamou, que tenho 18 anos aqui? Como você não chamou a Isabel, do Poço da Draga [Isabel Cristina Lima, moradora da comunidade do Poço, responsável pela ONG Velaumar]? Então, tem alguma coisa errada. A Rejane Reinaldo [atriz, responsável pelo Teatro da Boca Rica, situado na rua Dragão do Mar, atual gestora da Coordenadoria de Criação e Fomento, da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor] lançou uma convocatória para o Teatro da Boca Rica. Como assim, cara pálida, tu acha que só é tu? Eu fui para a internet, desfiz a convocatória dela e disse: 'ok, se você é a Praia de Iracema, todos estaremos sim no Teatro da Boca, mas para defendermos a PI'. E aí, começa o movimento. Foi uma discussão muito ferrenha. Nenhum pensamento, de fato, construído para pensar afeto. Eu não posso construir a PI sem afeto. Rejane é uma pessoa que eu tenho absolutamente muito carinho, a gente é muito próxima artisticamente, eu tenho uma admiração artística por ela inenarrável, mas acho que no momento em que ela vestiu a camisa do governo, ela esqueceu tudo o que poderia fazer estando ali, pelo lado de cá. Não sei, talvez seja uma rixa minha, eu não estou no governo. Eu só fico pensando: 'por que está acontecendo isso?' Como é que a gente tem uma Secretaria da Cultura no município tão apática?

 

 

Vida Ciranda: E como você que está chegando a repercussão do fechamento do Teatro das Marias para os atores da Cultura do estado?
Valéria: 
Para você ter uma ideia, um dia desses [6 de janeiro], eu brinquei na internet, eu estava desmontando o andar de cima [do Teatro das Marias], me deu uma tristeza.. fui para internet, postei só ‘meu deus, eu pensei que fosse ser menos doloroso’. Isso fez... trrrrrrrrrrrrrrrr.... [fez gesto em alusão à postagem se espalhando na rede social] ... isso espalhou, Facebook, Instagram subiu, e o outro falou, que o outro falou, que o outro falou ...

 

 

Vida Ciranda: Os amigos repercutiram. E as Secretarias da Cultura? 
Valéria: A Secretaria da Cultura [do Estado] já havia conversado comigo. Eu estava no hospital, me ligou o Paulo Linhares [presidente do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura]: ‘Valéria, como assim você vai fechar Marias?’ Falei: ‘Paulo, isso não é nenhuma novidade, a gente já vem conversando’. Por sinal, só para você ter uma ideia, o último encontro que eu havia tido com Paulo Linhares foi em dezembro. Estávamos ambos dentro da Secretaria da Cultura do Estado. O Secretário de Cultura, Fabiano Piúba, tinha acabado de falar comigo porque eu havia ido lá e falado: ‘Fabiano, eu não tenho mais pernas para segurar... ‘

 

 

Vida Ciranda: Isso foi quando?
Valéria: 
Se eu não me engano, foi dia 19 de dezembro. Quando eu conversei com Fabiano e falei: ‘eu acho que eu não tenho mais pernas para segurar Marias, quer dizer, não é mais só o Teatro das Marias, mas um problema muito maior, eu venho aqui como artista te pedir para que você salve o Dragão do Mar porque a sensação que eu tenho é que a gente precisa achar uma forma de a família voltar a habitar o Dragão do Mar, uma forma de organizar os camelôs que estão lá, porque a droga está junto’.

 

 

Vida Ciranda: Você sente que os usuários de drogas e a violência têm aumentado na PI, no entorno do Dragão?
Valéria:
Eu trabalho com população de rua e usuário de droga [Desde 2006, Valéria coordena o Ponto de Cultura Ubuntu, voltado para a população de rua e usuários de drogas que trafegam pelos arredores do Teatro das Marias]. Eles chegam para mim e dizem: ‘dona Val, nós estamos vendendo agora é a céu aberto no Dragão do Mar’. É óbvio que você tem o camelô que é pai de família, mas você tem o Dragão do Mar tomado por foodtrucks [carros que vendem comida], e são empresários. Não se preocupe que não são pessoas que nem nós, sem dinheiro para pagar aluguel de Marias não. São empresários que colocam terceiros lá. Nesses foodtrucks também estão sendo distribuídas drogas. Então, ou você tem coragem como Estado de entrar e conversar, impedir e inibir isso, organizando os camelôs, trazendo a organização sanitária... não é higienização de pessoas, mas sanitária. Para que que eu funcione como Teatro e tenha esse Café aqui, eu pago todo ano imposto para que eu esteja de acordo com a vigilância sanitária. Eu tenho visitas quase que mensalmente, se eu tiver qualquer coisa errada aqui, eu levo multas absurdas.

 

 

Vida Ciranda: Você conversou sobre isso com o Fabiano e com o Paulo?
Valéria: O tempo inteiro a gente vem conversando sobre isso. O Paulo Linhares odeia quando a gente fala “nós, os arredores do Dragão”, mas não tem como não dizer porque o Dragão, por ser esse tamanho enorme, cada evento que ele faz em que ele não dialoga com a gente, a gente tem que fechar as portas. Por quê? Porque a violência triplica, a multiplicação de drogas é enorme, eles [organização Dragão do Mar] pegam os guardas montados, colocam os cavalos protegendo e o que a gente recebe é a bosta do cavalo. E eu disse isso tudo na cara do senhor Paulo Linhares. Então, naquele dia quando a gente se encontrou, depois que eu falei com o Piúba, eu disse: ‘Paulo, que bacana te ver agora, a gente está na véspera do Natal e eu vim pedir ao secretario da cultura que salve o Dragão do Mar’. Ele enlouqueceu.

 

 

Vida Ciranda: E o Paulo te ligou, de novo, quando?
Valéria: E depois de tudo isso, ele me liga, no dia 8 de janeiro, se eu não me engano, para dizer: 'você não pode fechar o Teatro das Marias'. Sabe quando você fica, assim, sem saber o que dizer?

 

 

Vida Ciranda: Você acha que vai existir uma solução para que o Teatro das Marias não feche?
Valéria: Eu não tenho nenhuma esperança. Eu passei 15 anos esperando um diálogo com o Dragão do Mar. De qualquer forma, eu disse para eles assim: ‘todo o investimento no espaço físico fui eu quem fez. Ou seja, gastei toda a minha grana aqui. Vou sair e o dono do espaço vai ter um espaço pronto. A luva é 20 mil que o cara vai me dar por tudo que eu já fiz aqui, ou seja, é nada. Então, se não for eu [para administrar], fica com o espaço’.

 

 

Vida Ciranda: Então, a decisão de fechar o Marias já está tomada...
Valéria: Porque eu não sei se eu vou querer me manter na PI se a sociedade de uma forma geral não quiser brigar, não quiser acordar. Vou trabalhar no sertão porque cada vez que eu ando lá eu vejo olhos ávidos, uma vontade enorme.. eu devo isso ao sertão.

 

 

Vida Ciranda: Agora, é no sertão.
Valéria: Eu estou sem nenhum tostão. Eu não vou ter dinheiro para botar minhas coisas em um matulão e levar para o sertão. Eu não tenho nem dúvida de que eu quero o sertão. Queria ter a dignidade de um ano mais aqui, com muita calma, organizando este teatro e montando aos poucos um galpão para mim no sertão. Eu tenho as terras que meu pai me deixou. Mas eu não tenho nada, não tenho nem onde colocar meu computador lá. Eu estou indo para um lugar que não tem água, não tem internet.

 

 

Vida Ciranda: Onde é lá?
Valéria: Um lugar chamado Sítio Mãe d’água, distrito da cidade de Jati, a última cidade no estado do Ceará, quase fronteira com Pernambuco. 

 

 

Vida Ciranda: E quais são os planos para o sertão?
Valéria: Eu fui para lá no dia 23 [dezembro de 2017] e fiquei até o dia 6 de janeiro [2018]. Passei esses dias pesquisando, conversando com as pessoas. Vi que a demanda lá são mulheres entre 35 e 90 anos e criança entre 0 e 8 anos de idade, que é a grande demanda. A única escola que tem no distrito, nas terras que meu pai doou, vai fechar, porque, segundo a escola, não tem mais crianças, as crianças estão indo para um outro nível. Mas não é, o motivo é político. Os vereadores estão levando para onde eles têm influência, estão tirando da vila. Então, quando eu cheguei lá, juntei as mulheres e falei: 'vocês não vão deixar fazer isso'. Eu vou começar a fazer um movimento no sertão enorme. Vou fazer com que as mulheres mais velhas tenham possibilidade de ler, em um segundo turno. A ideia é também um galpão de geração de renda para essas mulheres a partir das potencialidades delas, e eu quero trabalhar com as crianças. Vai ser Teatro das Marias, no sertão. Absolutamente igual, tudo igual. Eu tenho uma vontade muito grande. Eu estou mandando para o universo, tenho certeza que vai rolar, só queria um pouco mais de tempo.

 

 

Vida Ciranda: Você é muito próxima da infância. Fala o que vem representando, para você, a Escola de Musicais para Crianças, a Colônia de Férias Curumins.
Valéria: A força que eu tenho para trabalhar é para transformar. Quando eu venho para cá, brincar com as crianças de manhã, eu estou produzindo alegria em mim, isso me faz sobreviver, me faz existir. A minha produção de alegria me mantem em pé, me mantem forte. Aí, eu pergunto: o que te produz alegria, você , sociedade civil? Fico pensando: que epidemia é essa? Ninguém se mobiliza. Não, bicho, eu quero produzir minha arte. Então, eu vou brincar com as crianças. Acho que por isso eu quero ir pro sertão, porque lá a situação é ainda mais dolorosa.

 

Vida Ciranda: O seu encantamento com a infância tem relação com a sua própria infância?
Valéria: Eu fui a criança mais feliz que você possa imaginar porque eu venho de uma família que tem na infância, na construção do eu sujeito um cuidado inenarrável. Tive uma mãe que foi diretora de escola o tempo inteiro, e um pai que era vaqueiro e brincante. Minha mãe era uma pedagoga formada, dava aulas de francês, uma dama. Meu pai era um homem do sertão, mas viajou o mundo inteiro, fez a vida dele acontecer, na construção da Zona Franca, no Amazonas. Quantas vezes, fui trabalhar com meu pai, lembro que ele me dizia: 'no papel, número é número em qualquer linguagem do mundo. Se você sabe fazer conta, é multiplicar o dinheiro dele pelo meu, e eu sei o que eu quero e o que ele quer. Pronto'.

 

 

Vida Ciranda: Quer dizer que seu pai foi mestre de reisado?
Valéria: Sempre foi um grande artista meu pai, coisa mais linda do mundo, grande sapateador, tocava violão como ninguém, poeta de cordel genial. Sempre foi comerciante, mas eu acho que eu herdo dele esse lugar da calma, no sentido da brincadeira. Ele foi muito brincante. O valor dele era o do encontro. Não ligava para o dinheiro. Foram 56 anos de muito amor dos dois, dele e da minha mãe, e de muito cuidado com a gente. Foram cinco filhos. A primeira filha nasceu morta, minha mãe teve eclampse . Em seguida nasceu meu irmão, depois minha irmã mais velha, nasceu eu depois, e minha irmã mais nova. Meu irmão morreu por causa de um problema renal com 8 anos. 

 

 

Vida Ciranda: Além da dor da perda do irmão, me diz algo que te marcou na infância?
Valéria: Eu até brinco que me pai criou a gente em gaiolas de ouro. Por exemplo, por mais que eu tivesse tido uma infância com tudo que você possa imaginar, não tem uma criança que não queira uma bicicleta, não é?! Meu pai nunca me deu uma bicicleta. Ele dizia: ‘me peça o mundo, mas não me peça uma bicicleta. Bicicleta vai matar’. Eu me lembro que quando ganhei meu primeiro cachê, botei meu pai dentro do carro, fui para o Romcy e comprei uma bicicleta. (risos) Aí disse para ele: ‘o senhor vai agora no carro que eu vou de bicicleta’. Então, só tive bicicleta depois de velha.  Mas meu pai nos fez ser criança o máximo que a gente pode ser criança: subir em arvore, ter cavalo, sonhar, meu Papai Noel existiu durante muito tempo. A imaginação e a utopia da criança sempre foram muito vivas com ele. A gente herdou dele um lugar de mundo muito saudável, onde a família de fato é a grande raiz. Nesse instante, por exemplo, a família inteira está muito junto comigo.

 

 

Vida Ciranda: Os dois já morreram?
Valéria: Minha mãe morreu ano passado, meu pai em 2009. Tudo que eu ensino para as crianças, eu brinquei com meus mestres, eu brinquei de maneiro-pau, de reisado, fui rainha do reisado no colo do meu pai, eu toquei, eu cantei, eu sapateei. Fora as brincadeiras indígenas, que a gente aprendeu. Foi muito legal! Isso contribuiu para quem eu sou hoje.

 

 

Vida Ciranda: É muito viva a criança que você tem aí dentro, não é?!
Valéria: Eu tenho um lugar com a criança que me fascina. Eu não sou mãe, mas eu tenho tantas crianças por quem eu sou apaixonada, e apaixonada nesse lugar da brincadeira. Para mim, a brincadeira não tem tamanho nem idade. Mesma coisa que eu estou fazendo com as crianças aqui, eu experimento esteticamente com o adulto e é a mesma coisa. Ou seja, essa técnica que eu criei, que é o corpo brincante, ela é uma forma de você ter, independente do seu intelecto, que muda de 4 anos para 60 anos, mas você ter um lugar no seu corpo que é da criança. Eu aprendo o tempo inteiro com as crianças, elas não têm nenhum juízo de valor. Nesse brincar, o estético dela é o que ela está sentindo. Para mim, como coreógrafa, é a maior inspiração, em todos os sentidos. Eu tenho na corporeidade das crianças um lugar da verdade que é muito forte.

 

 

Vida Ciranda: Além da Colônia de Férias para Curumins, fala um pouco de outras iniciativas para a infância que você tocou.
Valéria: Eu comecei a trabalhar com as crianças com a Xuxa, no Rio de janeiro. Viajei durante muito tempo pelos assentamentos, pelo sertão. Trabalhei durante nove anos em uma ONG em Horizonte, só com as crianças. Teve um projeto aqui que foi lindo, pela Prefeitura de Fortaleza, se chamava Dançando na Escola, aconteceu durante quatro anos. Foi a coisa mais linda! Dei aula de dança no Pirambu. Em 2007, trouxe crianças do Grande Bom Jardim, que já eram um pouquinho maiores, estavam já na idade meio adolescentes, 9 e 12 anos de idade, e ficaram comigo até completarem 18 anos, em uma experiência bem bacana de montagem de espetáculos.

 

 

ESTA ENTREVISTA FOI ATUALIZADA, HOJE, DIA 8 DE MARÇO DE 2018
Valéria passou essas semanas mais recentes de fevereiro e primeiros dias de março/2018, na Alemanha, cumprindo compromissos profissionais, falando sobre suas obras, como diretora artística, produtora cultural, atriz e coreógrafa, e dando aulas em universidades alemãs.

 

 

Vida Ciranda: Suas decisões sobre o fechamento do Teatro das Marias e o trabalho no sertão permanecem? Alguma novidade vinda da Secretaria da Cultura?
Valéria: Ainda não tenho nenhuma resposta positiva ou negativa do Paulo Linhares sobre Marias. Mas meu deadline é março. Entrego o galpão dia 5 de abril, se nada acontecer até lá. E vou para o Sertão, começar tudo, sem um tostão.

Ciranda de engajamento

Este espaço surge por uma mente e corações inquietos a partir do que sentem, veem e podem realizar. Proponho conversarmos, compartilharmos, construirmos novos olhares acerca de educações e infâncias em diálogo com as configurações familiares que temos hoje, com o outro, com as escolas, com a cidade onde estão inseridas, conectados entre si pelo respeito que dá sentido a um mundo mais justo, mais igualitário.

O nome Vida Ciranda me surgiu com a ajuda de uma amiga e está relacionado à minha essência, a partir de uma vida conectada à infância, não apenas como mãe ou profissional. Reconheço em mim, todos os dias, a criança que fui. É ela quem me faz não perder a esperança e me conduz por caminhos e decisões em que ainda é comum fazer opção pela humanidade, pela tolerância, pelo amor. O Vida Ciranda é guiado  pelo significado da brincadeira tradicional mesmo, de ciranda-cirandinha; pelo significado de ser um convite à cultura do “todos juntos”, de mãos dadas por um objetivo comum, maior: a paz de viver o mundo conectado com a própria essência, a paz de poder estar e ser em harmonia com o mundo; pelo significado de mudança que a palavra carrega, de visão, de ação. Faço da educação a minha bússola, o meu norteador; faço das funções sociais que assumi, como jornalista e professora, os meios para fomentar discussões que pretendo trazer ao site, passando pela infância como a melhor fase da vida para se investir com propósitos de mudanças sociais reais. Ponho no Vida Ciranda o meu coração adulto também, que sabe da responsabilidade que tem e do compromisso que assumiu.

Todos os trabalhos que realizei até aqui, todos os amores que vivi (e vivo!), em cada fase da minha jornada, traduzem quem sou. Em todos, fui intensa e apaixonada. Como lá atrás os desejei e os devorei até a última gota de entusiasmo, assim começo o Vida Ciranda, projeto que sugere conceitos de atuação online e offline, direcionado, principalmente, a pais inquietos, e a quem mais se interessar por uma educação significativa, com respeito à vivência de infâncias plenas.

Sejam bem vindos! Vamos juntos! Contem comigo!