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Conheça a família que idealizou e dá vida ao Ecomuseu do Mangue

Ele já foi militar e trabalhou com publicidade e marketing, em grandes empresas, como Coca-cola, mas não se encontrou o suficiente nessas atividades para se sentir realizado profissionalmente. Desde o comecinho da vida adulta, tem do lado uma mulher forte, decidida a acompanhá-lo. Os dois são movidos pela certeza que os conduz, até hoje: o amor pela família, pelo motociclismo, pela liberdade, pela natureza, pelo mar. O alagoano Rusty de Sá Barreto, 56, e a pedagoga pernambucana Sineide Crisóstomo, 56, chegaram a Fortaleza no finzinho de 1993, já casados, com os três filhos: João Paulo, Rusty Júnior e Rayanne. Vieram para cá com o desejo de montar eventos para motociclistas, como rally, enduro, motocross e motorromaria. Moraram na Varjota, no Papicu, no Curió, até conhecerem Sabiaguaba. E se apaixonarem pelo lugar. E fazerem dele morada “para sempre”, a partir de 1998.

 

 

Inicialmente, Rusty conheceu quem ele chama de “Zé Tartaruga”, o nativo mais antigo que “ nos recebeu com muito carinho”, como conta. Logo, buscou uma casa para viver ali. Conseguiu um espaço pequeno, vendido pelo próprio Zé. Montou nele o que seria o primeiro bar da família, chamado de Pró-Sabiaguaba, “o bar para quem gosta de aventura sobre duas rodas, assim explicado por Rusty. Pouco depois, o bar recebeu nome em que já carregava os olhares diferentes dos donos para a região em que se instalaram: Barraca Econativos. Nesse começo empreendedor, os espaços foram pensados para reunir motociclistas e promover eventos direcionados a eles.

 

 

Passado algum tempo, já com restaurante bem estruturado e casa da família bem montada ao lado, o nome do local passou a ser Quatro Elementos, em alusão aos elementos da natureza: ar, água, terra e fogo. Tudo caminhava bem. O negócio era lucrativo. Foi quando aconteceu o que, para Rusty, significou a primeira sacudida real sobre qual o propósito da vida. A provocação veio de uma cliente ao perguntar a um dos garçons: ‘quem são os outros elementos? Eu só vejo aquele cabeludo e barbudo...”. Rusty diz que ficou em choque diante da pergunta porque se tratava de “uma pessoa aparentemente bem informada” e que pareceu algo pejorativo. Ainda assim, explicou que se tratava dos elementos naturais e a relação daquele espaço de lazer com todo o potencial científico-ecológico da região. Na verdade - anos depois, ele compreenderia melhor - era uma explicação para ele próprio. E a “ficha começou a cair”.

Rusty, Sineide e o neto Raley (arquivo pessoal)

 

"Um empresário sem missão ambiental" 
Naquela época, o Bar Quatro Elementos já era local bem frequentado e ele começou a perceber a falta de cuidado das pessoas com o espaço, por meio de maneiras preocupantes de agir. Dali, veio a percepção que para ele foi a segunda sacudida sobre o seu objetivo de vida. “Eu me dei conta de que as pessoas não conhecem a natureza, o ambiente, não tem consciência. E eu, apesar de acreditar em todos os benefícios do meio ambiente, tinha um bar igual aos outros, gerador de lixo, de impacto, um empresário sem missão ambiental, aproveitador do meio ambiente, colaborador da degradação da beleza do lugar”, lamenta. 

 

 

Rusty relata que o incômodo aumentava à medida que ele refletia sobre como o bar interferia na vida daquele ecossistema, o impacto dele na vida das tartarugas e dos caranguejos, por exemplo. “Muitos animais morriam pelo lixo que eu ajudava a produzir. Reconheci, naquela época, que o bar não estava mais atendendo as minhas necessidades pessoais, nem minhas, nem da minha família. E fechei o bar”, descreve.

 

Rusty, Sineide e os filhos Rusty Jr e João Paulo (arquivo pessoal)

 

A decisão pesou no orçamento da família. Mas Rusty, com o apoio de Sineide, não abriu mão, apesar do conflito que lhe chegou: como sustentar a família, a partir de então? Ele relembra que foi alvo de chacotas e críticas de alguns amigos e vizinhos, que comentavam: “Tu fechou o restaurante para cuidar da natureza? Tá doido!”. Mas nada os fez desistirem. Rusty diz que passou dois meses sem nenhuma atividade remunerada, depois do fechamento da empresa, mas começou a estudar, a pesquisar, a participar de seminários, cursos, viajar para entender melhor de que maneira eles poderiam estar ali, ajudando a conscientizar as pessoas. Fazia bicos, trabalhos soltos com marketing, publicidade para irem se mantendo.

 

 

Começou, então, um projeto de educação ambiental. Incentivo pelo amigo Ivan Oliveira, montou o Educar Sabiaguaba, em 2001, embrião do que se tornaria o Ecomuseu. “Até ali eu não sabia muito bem o que eu estava fazendo, não sabia direito o que responder quando as pessoas me perguntavam sobre o Educar Sabiaguaba. Sabia que eu estava mudando uma atitude. Fiz artesanato, permacultura, medicina natural, farmácia viva, me abasteci de informação e de capacitação. O Educar funcionava em uma barraca tradicional, sem muitos recursos, era tudo muito rústico. Dessa escola ambiental nasceu o que seria um primeiro ensaio do Museu do Mangue”. recorda. 

 

 

A museologia social e o nascimento do Ecomuseu
Paralelo a tanta mudança, Sineide trabalhava em alguns projetos da Prefeitura, como educadora, e dava aulas em escolas particulares. Mais para frente, passou a se dedicar ao projeto ao lado do marido e conciliá-lo com um trabalho na ETUFOR [Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza], no terminal da Messejana, das 17h às 23 horas.

 

 

Com o Educar, começaram a chegar os grupos de crianças e professores. Pelo olhar das crianças, vieram duas outras constatações que ajudaram a delinear o que o Ecomuseu é hoje. “Durante as visitas, as crianças perguntavam: ‘tio, onde estão os animais?’. Por mais que eu explicasse para elas que os animais estavam ali, na natureza, o caranguejo, os peixes... elas queriam ver, conhecer. E surgiu a necessidade de ter um acervo. Daí, veio a ideia do Museu. E começamos nossa coleção, com a ajuda de pescadores, de outras instituições", esclarece Rusty. O ambientalista destaca outro fato que aconteceu e o ajudou a entender sua função ali. "A professora me chamava para eu guiar a visita, explicar sobre o lugar. E eu fazia. Eu me sentia tão bem, tão feliz com aquilo. Claro, eu era o guia e passei a me dar conta disso”, descobre-se com um sorriso no falar.

 

Em 2004, Rusty conheceu o conceito de museologia social “e a minha cabeça mudou. Compreendi que isso era tudo o que a gente fazia ali”. Rusty se debruçou sobre o assunto de maneira determinada. Dos estudos perseverantes, nasceu o Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam). Naquela redescoberta, Rusty só começava a ter consciência do trabalho que estava desenvolvendo. 

 

 

O pesquisador Mirleno Lívio Monteiro de Jesus, em sua dissertação de Mestrado, defendida em 2015, pelo Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira, da Faculdade de Educação, da UFC, estudou o Ecomuseu do Mangue de maneira aprofundada. Segundo o estudioso, ecomuseu é um modelo contemporâneo de museu. “ Neste tipo de museu, membros de uma comunidade tornam-se atores do processo de formulação, execução e manutenção do mesmo, sendo ou podendo ser, em algum momento, assessorado por um museólogo. Tal conceito traz, em seu bojo, a ideia de preservação e colocação de amostras para lazer, pesquisa, memória, educação e comunicação de específicos acervos ecológicos”, diz o texto da dissertação.

 

 

Associação dos Amigos do Ecomuseu
De lá para cá, começou maior atuação do casal e maior visibilidade em torno da atividade que desenvolviam. O projeto foi cadastrado na Rede Cearense de Museologia Social, depois no Sistema Estadual de Museus. Há 12 anos, existe a estrutura de conhecer a área pelas trilhas, pensadas por Rusty a partir de suas pesquisas. Durante algum tempo, Rusty e a família resistiu fazer do Ecomuseu uma ONG, regida por Estatuto e CNPJ, “porque a gente queria ser reconhecido simplesmente como cidadãos que estavam ali para cuidar da natureza e conscientizar as pessoas, mas percebemos a necessidade de termos CNPJ para participarmos de editais, de financiamentos, pra gente conseguir se manter, manter a estrutura e poder oferecer mais serviços para a população”, justifica.

 

 

Assim, no dia 8 de agosto de 2011, nasce a Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue, que confere ao Ecomuseu o reconhecimento e a legitimidade jurídica de que precisava. Apesar de estar localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) da Sabiaguaba, na foz do Rio Cocó, o Ecomunam se mantém no espaço pelo trabalho feito nele e por ele. “O que autoriza a gente a estar aqui é o trabalho que gente realiza”, acredita Rusty.

 

 

No dia 27 de março mais recente, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Ceará (Sema) divulgou os nomes que fazem parte do Conselho Gestor Consultivo do Parque Estadual do Cocó. A Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue foi eleita em primeiro lugar para participação no Conselho, dentro das vagas que devem ser ocupadas por ONGs e movimentos sócio-ambientais.

 

 

A força para superar as dores e as dificuldades
Quem visita o espaço pela primeira vez, impressiona-se com a simplicidade. De fato, trata-se de uma construção bem modesta que abriga um acervo de animais taxidermizados, carcaças de peixes e tartarugas e diversos tipos de caranguejos que contam muito da história do ecossistema manguezal. É nele e por ele que Rusty e a esposa reafirmam, todos os dias, sua missão na vida.

 

Em 2009, o casal sentiu a pior das dores ao perder a filha Rayanne em uma morte violenta aos 20 anos. O mais novo dos três filhos de Rayanne tinha 6 meses, na época, e, desde então, mora com os avós. Conhecemos um pouco mais o menino, aqui no Vida Ciranda. É Raley, o garoto prodígio que dá palestras pelo Ceará inteiro disseminando a importância de cuidar do meio ambiente.

 

 

O Ecomuseu, a chegada dos oito netos, “o dia a dia com a meninada das escolas”, a esperança que enxergam nas novas gerações ajudam Rusty e a esposa a irem superando as dores e as dificuldades financeiras e de reconhecimento, são forças para seguirem acreditando. “Agora, eu sou feliz, posso dizer para você de coração aberto, com brilho no olhar. Eu encontrei aqui o meu propósito de vida”, festeja Rusty. “Aqui, é a vida da gente. Hoje, eu me dedico integralmente às atividades do Ecomuseu”, emenda Sineide.

 

 

Atualmente, o Ecomuseu e a família de Rusty e Sineide vivem, basicamente, das contribuições que as escolas e os demais grupos de visitantes dão para a realização das aulas de campo. Não há outra fonte de renda ou mantenedor. É um espaço que recebe constantemente pesquisadores e conta com um time de voluntários da comunidade local e de estudantes de cursos superiores relacionados ao meio ambiente.  Rusty vem cursando Gestão Ambiental pela UNINTER, “é pelo diploma, mas é também para saber mais e mais para dar conta dessa riqueza toda aqui”, planeja. 

SERVIÇO:
Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam)
Rua nove, Sabiaguaba. CEP: 60183-651
Contatos para agendamento: 98749 5286 (Rusty)

foto destaque

Conheça Raley, o menino do mangue que dá palestras sobre como cuidar da natureza

"Cresci brincando no chão,
Entre formigas
Meu quintal é maior
Do que o mundo
Por dentro de nossa casa
passava um rio inventado.
Tudo que não invento
é falso

Era o menino e os bichinhos
Era o menino e o Sol
O menino e o rio
Era o menino e as árvores”
(Manuel de Barros, O Menino e o rio)

 

“Precisamos cuidar da pele do planeta”. A mensagem do garoto Celso Raley Sá Barreto de Freitas, de 9 anos, ecoa pelo Ceará a fora, em auditórios lotados, salas de aula, turmas de educação superior. Há três anos, ele trouxe para si a responsabilidade de multiplicar conhecimentos e consciências. O menino desinibido, simpático, de voz articulada, de gestos carinhosos e olhar cuidadoso para o mundo, vive com os avós maternos desde os seis meses, quando perdeu a mãe. Conhece o ecossistema do mangue na teoria e na prática, como poucas crianças, e faz desse privilégio sua maneira de espalhar a paz e a convivência possível com a natureza.

 

Raley, com avós Rusty e Sineide (arquivo pessoal)

 

Os avós do garoto, Rusty de Sá Barreto e Sineide Crisóstomo, já haviam fundado o Ecomuseu do Mangue quando ele nasceu. Raley é o menino do rio, versado por Manuel de Barros. Só conhece vida com banhos de rio e de mar quase diários, subindo nas raízes aéreas, brincando com os caranguejos, com os pés na lama do mangue; entende sobre as mudanças das marés e a influência das luas, sabe o que é respeitar ciclos de semeio e safra das vegetações, de reprodução dos peixes, moluscos e crustáceos; o menino cresce ouvindo dos avós o valor que a conservação do ecossistema mangue tem para o planeta inteiro, para que a vida seja continuada. O mangue é a rotina dele. “Aqui, o rio é o que mais me encanta. Amo tomar banho nele, cuidar dele”, destaca. 

 

 

A inspiração para falar a grandes plateias, desde os seis anos, além de acompanhar o avô, surgiu quando viu uma criança na televisão falando sobre a importância de cuidarmos da pele do planeta. Dali em diante, por ele mesmo, começou a preparar o que se tornaria a palestra Pele do Planeta, que o faz circular entre adultos bem entendidos em outras áreas, mas que precisam das palavras do menino Raley para compreender que pouco adianta avanços tecnológicos e inovações se tudo isso não caminhar em comunhão com a preservação do meio ambiente.

 

 

“Eu comparo o planeta com o nosso corpo. Os pelos e o cabelos são as árvores. Nossa pele é o chão. Quando a gente joga lixo no chão é como se não tomasse banho, fica cheio de sujeira, enche de doença... se não cuidar, morre. A poluição produz gases que furam a camada de ozônio e ela é o protetor solar do planeta. Sem essa proteção, a gente adoece”, ensina Raley.

 

 

O menino prodígio estuda à tarde numa escola pública do bairro Caça e Pesca, pertinho de onde mora. Enquanto conversávamos, ele já passava com a avó a agenda da próxima palestra, que, naquela semana, foi na escola mesmo. A avó Sineide conta que ele é o primeiro da turma, mas ele emenda a informação rapidamente: não quer virar líder “porque é chato demais ter que ficar arrumando a sala”.

 

 

Raley não é remunerado pelas palestras, que duram em média 25 minutos, mas os avós comentam que sempre negociam com ele pequenos valores, como R$ 5 ou R$ 10, quando ele fala ao público ou ajuda os avós na condução dos grupos de visitantes pelas trilhas do mangue. “É uma maneira de incentivá-lo, mas, principalmente, de ele já ir sabendo a lidar com o dinheiro, a poupar quando quer comprar algo, como o conserto da bicicleta e do skate”, justifica a avó.

 

Raley vai estar conosco no roteiro dentro do Ecomuseu, pelo Vida Ciranda Experiência, no próximo dia 21. No dia em que conheci Raley, ele me levou para um lugar de que ele gosta muito, o Mangue Vermelho, um dos mais legais da trilha que faremos. No caminho até lá, Raley foi me dando uma palhinha do que ele gosta de falar às pessoas. 

 

“O grade problema é que as pessoas não respeitam uma coisa simples: não pode jogar lixo no chão, isso prejudica todo mundo. Lugar de lixo é na lixeira.Me impressiona as pessoas desrespeitarem isso”, lamenta o menino.

 

O menino do mangue sonha com a profissão de design, a mesma do tio, designer de games, que mora no Canadá, quem ele tem como irmão mais velho. Raley já entende que não há nenhuma razão na tecnologia se não for para melhorar e valorizar as relações humanas e suas relações com a natureza.

Reprodução Facebook Ecomuseu

Polícia do Meio Ambiente acompanhará a manhã do Vida Ciranda no mangue

A primeira edição do Vida Ciranda Experiência, que será realizada no próximo dia 21 de abril, contará também com os cuidados da equipe do tenente coronel Ricardo Jorge Pinheiro Mota, do Batalhão de Polícia do Meio Ambiente (BPMA), do Ceará.

 


Há mais de 30 anos na polícia, quatro deles dedicados ao Meio Ambiente, o comandante nos conta que a “parceria preventiva e proativa” com o Ecomuseu já vem desde o comecinho da ONG. Além do patrulhamento de rotina na área, a capacitação dos policiais passa pela região que compreende todo o Mangue da Sabiaguaba. O BPMA, por meio de policiamento aquaviário e viaturas móveis, cuida, em Fortaleza, de todo o espaço referente ao Parque do Cocó, Parque Adahil Barreto e adjacências. No Ceará, são mais de 200 policiais que atuam em Fortaleza, Juazeiro e Sobral.
As demandas do Batalhão incluem a fiscalização acerca de crimes ambientais, degradação e poluição sonora. A apreensão de animais silvestres e o excesso de decibéis por paredões de som, de acordo com o tenente coronel, são as práticas mais combatidas.

 


Segundo ele, a grande dificuldade da lida diária com que ele se depara na profissão é a falta de consciência das pessoas para preservar o meio ambiente “que é finito”, ele alerta. Para ajudar na educação das pessoas, o Batalhão conta com um núcleo educacional e um projeto social de judô.

 


O comandante esclarece que, pelo Núcleo, há a realização de palestras ambientais e outras ações que promovem a educação ambiental, em escolas, associações etc. O projeto ‘Judô – um caminho para a cidadania’ atende cerca de 50 crianças, principalmente na região do Lagamar e Aerolândia.

 


PMCE - CIA DE POLÍCIA MILITAR AMBIENTAL
Comandante: Ten. Cel. Ricardo Jorge Pinheiro Mota
Telefone: (085) 3101-3545 / 3101- 3577
E-mail: cpma@pm.ce.gov.br
Web site: www.pm.ce.gov.br

pai Rafael Festa

Conversamos com Rafael Festa, o pai que emocionou as redes sociais com texto sobre a chegada do filho adotivo Kauan, de 10 anos. Confira!

A adoção extrapola entendimentos sobre por quê, como, o quê, quando. Claro, a adoção parte da decisão de ter um filho, mas é o dia a dia que vai explicando o que move, não há teorias fechadas. E isso não se restringe apenas a querer ser pai e mãe. É muito mais. Adotar é multiplicar amor. Mais que isso, é também permitir ser ainda mais amado. É desafio para os dois lados. Como nas relações biológicas, é uma relação conquistada dia a dia. Pai, mãe e filhos não nascem prontos, em nenhuma condição. A construção da família é também pelos olhares, pelos toques, pelos conflitos, pelas alegrias, pelas conquistas, pelas dificuldades, pela cumplicidade, pelo companheirismo, pelos amanheceres e anoiteceres juntos. A identidade familiar vai se constituindo à medida que os laços se fortalecem e as experiências entre pais, mães e filhos vão justificando aquele encontro que os uniu um dia. 

 

 

Na noite do último dia 26, o fotógrafo Rafael Festa postou em seu perfil no Facebook a chegada do filho Kauan, de 10 anos. O ganho da guarda do menino, depois da entrada do pedido de adoção, havia chegado naquele dia, com muita alegria para os pais, o fotógrafo Rafael Festa, 32, e para a gerente comercial Tatiani Ziegler, 30. Emocionado, ele postou um texto nas redes sociais que conquistou milhares de curtidas e comentários. Até o fechamento desta matéria (às 16 horas do dia 28 de fevereiro), são eram mais de 88 mil compartilhamentos e 40 mil comentários. No texto, Rafael compara toda ansiedade, contentamento, surpresa, beleza e transformação em relação à chegada do filho adotivo ao processo da chegada de um filho biológico. Difícil não se render às palavras de Rafael. 

 

 

Hoje, Rafael falou ao Vida Ciranda como foi o processo, desde quando ele e a esposa resolveram adotar até o dia em que Kauan, enfim, chegou ao lar. Logo abaixo, reproduzimos o texto que Rafael postou. Após, entrevista exclusiva dele ao Vida Ciranda. 

 

 

... E O NOSSO BEBÊ NASCEU!

Com 1,44m, 40 quilos e... 10 anos :O
Nossa gestação não foi das mais convencionais. Não vimos nossa barriga crescer (exceto a minha, mas não por este motivo), mas nosso peito já não aguentava mais de tanto aperto.
Tivemos um curso para explicar como seria nossa gravidez.
Ao invés de um teste de farmácia, tivemos uma assistente social nos falando que existia a possibilidade de estarmos grávidos.
Não ouvimos seu coração bater através de uma máquina, mas o nosso acelerou quando uma porta abriu e ele veio em nossa direção.
Não fizemos nenhum ultrassom, mas semana a semana tínhamos nossas visitas para poder ver o rostinho do nosso bebê.
Não experimentamos desejos estranhos nem passamos por enjoos terríveis, mas Deus sabe quão ruins eram os domingos à noite, quando precisávamos levá-lo de volta à casa-lar.
O acompanhamento da gestação não foi feito por enfermeiras e obstetras, mas sim por psicólogas e assistentes sociais.
A correria para montar o quarto do nosso bebê foi a mesma, mas ele estava junto para opinar na decoração.
Não podíamos bradar ao mundo todo que estávamos grávidos, mas sabíamos que o mundo seria pequeno para tanto amor.
As nossas dores de parto foram as angustiantes semanas de espera por decisões burocráticas.
E hoje, o nosso parteiro foi um juiz, sentado em uma cadeira, que assinou um papel e o nosso filho, finalmente, está em nossos braços.
Ao invés de pensar as fases que perdemos, eu gosto de imaginar todas as coisas que já conquistamos e o que ainda vamos conquistar.
Não ouvimos suas primeiras palavras, mas ouvimos ele falar: “Tia, semana que vem quero ir pra sua casa e não quero voltar mais.”
Não acompanhamos seus primeiros passos, mas vamos ser o chão dele em qualquer tombo que a vida quiser dar.
Não o levamos pro seu primeiro dia de aula, mas temos trocado um aprendizado constante a cada dia.
Não ouvimos seu primeiro choro, mas certamente acompanharemos sua primeira desilusão amorosa.
Talvez não consigamos andar com ele no colo por aí, mas aquele colinho no fim do dia ainda tem um sabor especial.
Não tivemos que o colocar em um berço, mas amamos quando ele vai no nosso quarto nos chamar pra dar boa noite pra ele.
Não passamos pela temida fase dos “porquês”, mas estaremos sempre o estimulando a questionar a vida.
Não o vimos aprender a escrever, mas estaremos do seu lado, ajudando a escrever o seu futuro da melhor maneira possível.
Ainda somos “tio” e “tia”, e não nos importamos com isso. O amor incondicional vai além dos títulos. O amamos não pelo que ele sente por nós ou pelo que ele pode nos oferecer, mas sim por que queremos toda a felicidade do universo pra ele.
Ainda estamos aprendendo a ser pai e mãe. Da notícia da gestação até o parto foram 8 meses. Um parto até prematuro 😀
Ainda erramos muito e tenho certeza que isso é uma constante na paternidade. Mas hoje podemos compreender melhor que cada pequena falha foi uma intenção de acertar que não vingou.
Não temos palavras pra agradecer todo o suporte e palavras de incentivo que temos recebido. Nem tentarei colocar nomes aqui pois, certamente, serei injusto com alguém. Mas nosso coração reconhece cada pessoa que tem nos ajudado nessa caminhada.
E que venham todos os clichês sobre pais que sempre ouvimos...

 

 

Vida Ciranda:  Rafael, surpreende você a repercussão do texto que publicou? Em um minuto em que eu tentei acompanhar os comentários, já foram postados mais de 60 novos! 
Rafael: Estou muito surpreso. Não imaginava, em hipótese alguma, tanta repercussão assim. Não estou nem conseguindo acompanhar os comentários.

 

 

Vida Ciranda: O quê, na sua opinião, isso diz sobre o que pensa a sociedade sobre a temática da adoção e sobre a decisão de vocês? 
Rafael: A gente percebe que existe muitas dúvidas ainda sobre adoção. Principalmente sobre adoção tardia. Até estou preparando um vídeo sobre as principais dúvidas sobre o assunto. Acho que sai hoje ainda.

 

 

Vida Ciranda: Por que decidiram adotar e optaram por uma criança maior?
Rafael: Por conta da nossa rotina, o período gestacional e licença maternidade seria um pouco complicado. Então optamos pela adoção. Desde o início já tínhamos em mente adotar uma criança mais velha. Após o curso de habilitação obrigatório para quem quer adotar, tivemos ainda mais certeza sobre a nossa decisão.

 

 

Vida Ciranda: Quais as principais dificuldades que encontraram desde a decisão tomada até serem conquistados pelo filho de vocês, hoje, passando pela burocracia de o ter oficialmente?
Rafael: A principal dificuldade foi a ansiedade. Existe uma parte burocrática que é até necessária para garantir o bem da criança. Às vezes, é um pouco além do que deveria ser, aí gera uma expectativa enorme. Mas fora isso, as coisas aconteceram de forma bem natural.

 

 

Vida Ciranda: Durou quanto tempo? Desde a decisão de vocês até tê-lo com vocês?
Rafael: Tivemos nosso primeiro contato com o Fórum no início de junho do ano passado. No final de junho, já fizemos o curso e na mesma semana já conhecemos ele. Desde então, ele vinha todos os finais de semana pra nossa casa. Quando pegou férias em dezembro veio definitivo e agora, final de fevereiro, saiu a guarda.

 

 

Vida Ciranda: Como foi chegar até ele, ser conquistado por ele? Como é o nome dele?
Rafael: Nós já tínhamos tido contato com uma Casa Lar, em uma ação que fizemos aqui pela nossa igreja, mas foi muito tempo atrás, a gente nem tinha entrado com processo de adoção, nada. A gente sempre cogitou essa possibilidade, mas a gente nunca tinha conversado realmente sobre isso. Na metade do ano passado, a gente conversando sobre a nossa rotina, percebeu que uma adoção seria o mais viável pra gente, o mais interessante. A gente tinha vontade de ser pai e mãe e optamos pela adoção. Então, o processo foi todo muito rápido. A gente entrou em contato com o Fórum e, na mesma semana que a gente fez o curso de habilitação, a gente já fez contato com o Kauan. Foi bem rápido mesmo. 

 

 

Vida Ciranda: Vocês não conheciam o Kauan antes?
Rafael: Ainda não.

 

 

Vida Ciranda: Como era o perfil da criança que vocês se cadastraram?
Rafael: Deixamos o nosso bem amplo. Entre 3 e 10 anos, independente do sexo, cor, aceitando irmãos, com possibilidade de deficiência física, com HIV. Então, pela abrangência do nosso perfil, foi muito rápido.

 

 

Vida Ciranda: E como foi ver o Kauan pela primeira vez? E ele ver vocês? Qual a reação de vocês e o que você acha que ele também sentiu? Ele estava em um abrigo desde bebê?
Rafael: Ele estava há pouco tempo no abrigo e, a princípio, entramos como padrinhos afetivos. Ele não sabia da nossa intenção de adotar. Mas foi tudo muito natural. Ele é um menino muito falante e dominou a conversa conosco.

 

 

Vida Ciranda: Tê-lo foi uma escolha entre outras crianças, ou já houve um encaminhamento direcionado?
Rafael: Já foi direcionado o perfil dele direto a nós.

 

 

Vida Ciranda: E como tem sido, Rafael? Ele vinha passando os fins de semana com vocês... Como tem sido desde o comecinho? Qual o maior desafio, as alegrias que vocês já vêm vivendo juntos? Está sendo como imaginou?
Rafael: Está sendo muito bom. As coisas foram acontecendo bem naturalmente. Ele é um menino de ouro, super educado e muito amigável com todos. Fora o desafio da ansiedade, o restante foi muito tranquilo.

 

 

Vida Ciranda: Tem mais um monte de dúvidas, mas vou deixar que vocês vivam um pouco mais esse momento. Acho que há tantas perguntas q vocês não saberiam responder e nem gostariam, agora... Parabéns pela decisão de vocês!
Rafael: Eu que agradeço, Sara. Obrigado por compartilhar nossa história e incentivar outras pessoas a experimentarem essa sensação maravilhosa pela qual estamos passando.

 

 

Vida Ciranda: Ele chegou definitivamente na segunda (26 de fevereiro de 2018), não é?
Rafael: Isso. É a guarda provisória ainda. Mas legalmente já temos todos os deveres e direitos da paternidade.

 

 

Vida Ciranda: Em quanto tempo sai a definitiva?
Rafael: Isso varia muito. Não temos uma previsão.

Priscila e a mãe na fachada

A sustentabilidade que não apenas reflete o consumo, mas espalha alegria e transforma a cidade

“Tô ferrada!”. Foi a primeira frase que a empresária Priscila Noronha Freitas, 32, disse ao ver o espaço que o pai havia alugado e propunha a ela, naquele fevereiro, montar ali a loja de artigos femininos com que tanto ela sonhava. “Diferente, claro, de tudo que eu pensei. Era um lugar que estava abandonado fazia muito tempo, tudo era feio por fora e por dentro, tudo destruído: paredes, telhas, fachada... e tinha muito lixo em frente, no entorno”, relembra. Ainda assim, Priscila resolveu apostar na ideia do pai.

Prestes a se formar em Administração, ela arregaçou as mangas e, com a ajuda dos pais e dos três irmãos, ousou, reinventou, descobriu, se encantou. Transformou abandono em presença, cinza em arco-íris. Com a ajuda da mãe, fez, do lixo, reflexão e consciência ambiental para a comunidade dos arredores. Pelos ensinamentos do pai metalúrgico, criou sensibilidades e belezas para decorar, escreveu novo conceito, construiu identidade. Pelos cuidados e olhares da tia, dona de um galpão de reciclagem, fez parte do antigo casarão abandonado, no bairro Joaquim Távora, na esquina da avenida Visconde do Rio Branco, com a rua Abaiara, uma marca de sustentabilidade e capricho, por inteiro: o seu Casarão Bazar & Brechó.

O espaço foi alugado em fevereiro de 2017. Os pais de Priscila trabalham com metalurgia há muito tempo, na esquina do mesmo casarão, com entrada pela rua Lauro Maia, oposta ao ponto alugado para a filha. Logo depois do contrato fechado, a metalúrgica cresceu um pouco mais e ocupou metros quadrados ao lado do que iria ser a loja da Priscila.

 

Vigilância do lixo
Um mês depois, a família preparou um almoçou de comemoração pelo aluguel, afinal a metalúrgica cresceu e a filha única da família ganhara um espaço para montar seu sonho. Foi quando se deram conta “da podridão, do tanto de rato, da sujeira. Foi aí que nossa luta começou”, destaca dona Angeleide Noronha, 54, mãe da Priscila. Todos se envolveram na transformação do lugar: enquanto o marido e os quatro filhos se dedicaram à reforma da estrutura, dona Angeleide assumiu a “vigilância do lixo”.

 

 

Ela conta que o caminhão do lixo passa em dias específicos, durante a semana, mas o pessoal ainda o largava de qualquer jeito em dias errados, o que causava mau cheiro e atraía ratos, baratas e outros bichos. “Todo mundo culpava o galpão de reciclagem pelos ratos, pelas baratas. Não, a reciclagem é limpa, organizada. As pessoas não se tocavam que eram elas mesmas as culpadas”. Foi o primeiro comportamento que dona Angeleide buscou não apenas mudar, mas conscientizar.
“Não adiantava nada dizer que era errado, que não podia, eles vinham colocar de madrugada, chegava era carro pra descarregar entulho e lixo na esquina”, conta. Ela resolveu ser mais radical. “Eu me sentei para vigiar e dizia: se botar o lixo eu te denuncio”. Dona Angeleide começou também a correr a vizinhança para conversar sobre a importância de não colocar lixo naquela área, e até a dormir no galpão, com ouvidos bem atentos, a fim de reprimir comportamentos que ignoravam toda a campanha que a família vinha fazendo.

 

 

A loja abriu as portas no agosto seguinte. Já em funcionamento, ainda assim, vinham carros despejar lixo. “E a mãe ia pra confusão mesmo. Ela virou a referência aqui, a cuidadora da rua. Depois, os próprios vizinhos começaram também a vigiar. Não foi fácil. Ainda não é, porque tem gente que ainda bota de tudo que não presta aqui”, relata Priscila. “Mas graças a Deus, estamos conseguindo”, emenda dona Angeleide.

 

 

Loja sustentável
À medida que os ratos e as baratas iam embora, chegavam as cores, as flores, a beleza. Depois de uma super transformação na estrutura, chegou a hora de decorar, de dar uma identidade ao lugar e Priscila contou com a tia, proprietária de um galpão de reciclagem ao lado. Ela conta que tudo, desde os manequins, passando pelos móveis, objetos de decoração, quadros, etiquetas das roupas, papel de parede, tapetes, até os acessórios que os manequins usam e s sacolinhas de os clientes levaram as mercadorias são retirados de materiais que chegam à reciclagem, em meio a buscas incansáveis, procuras nos carros dos catadores de rua e sob sugestões da tia. Depois de lavados, pintados, customizados, repaginados, os objetos passam a integrar a decoração do brechó.

 

 

Do lado de fora da loja, não é diferente. Há flores e vegetais ornamentais plantados dentro de pneus coloridos que recebem com alegria os clientes. Para a época de carnaval, Priscila acrescentou guarda-chuvas de todas as cores para enfeitá-los ainda mais. E há uma charmosa manequim com roupas alegres chamando a atenção de quem passa pela avenida Visconde e se surpreende com a mudança que aconteceu no local.

 

“Nossa! Eu achei demais. Passo aqui todo dia e fico admirada com a transformação. É muita visão dessa moça porque apostar em um local tão marginalizado, que você não dava nada... e hoje está aí! Um exemplo, não é!?”, nos falou Marisa Pontes de Vasconcelos, 42, vendedora, passante cotidiana da avenida, caminho para o trabalho dela.

 

A parede que segue a lateral da rua Abaiara, próxima à entrada da loja, também ganhou atenção especial da Priscila. Ela mesma, com as sobras de tinta que encontrava no galpão da tia, pintou e encheu de imagens positivas o cinza sujo. “Tudo fomos nós que fizemos, que pintamos”, orgulha-se Priscila.

 

 

“O mais importante foi esse outro olhar para a cidade, o benefício para todo mundo que mora aqui perto foi maravilhoso. Por que quem é gostava de passar aqui todo dia e só ver lixo, coisa suja? Ninguém! Mas ninguém estava nem aí, botava, aí vem ela e a mãe dela e disseram não... trouxeram só beleza. Muito bem!”, comenta dona Teresinha de Castro Ribeiro, 67, moradora da rua Lauro Maia.

 

 

Para justificar o processo que moveu Priscila à reinvenção e a guiou pelos caminhos da sustentabilidade para dar forma ao sonho, ela fala da educação que teve em casa, destaca os valores sustentáveis que sempre guiaram a família, principalmente, para a reciclagem, para a reutilização.

 

 

“Meu pai sempre foi de CRI-A-ÇÃO (disse pausadamente, com bastante destaque). Nossa! A palavra criação é a boca dele. Na nossa casa sempre teve um quartinho de bugigangas que ele acumula porque diz que de algo que não se quer mais dá pra criar outra coisa. Quando vejo uma ideia de customização na internet, por exemplo, ele vem e me diz: veja mas tente criar do seu jeito, crie. Ele não gosta de cópia, diz que a gente tem apenas que se inspirar. Acho que é muito dentro daquela concepção de fazer acontecer com o que se tem, não é? Somos de uma família pobre, sempre fomos incentivados para a reutilização, então isso nos deu uma criatividade imensa, e meu pai é muito assim”, descreve Priscila.

 

"Para justificar o processo que moveu Priscila à reinvenção e a guiou pelos caminhos da sustentabilidade para dar forma ao sonho, ela fala da educação que teve em casa, destaca os valores sustentáveis que sempre guiaram a família, principalmente, para a reciclagem, para a reutilização". 

 

 

Paixão por brechós
Antes do casarão, Priscila trabalhou “a vida inteira” com pregão eletrônico, até o dia em que um comentário do chefe a fez refletir e pensar na possibilidade de abrir o próprio negócio. “Ele me disse: ‘você tem uma capacidade muito grande, mas não sabe usar isso ao seu favor’. Pensei: ‘como eu não vou usar isso pra mim, pra ganhar dinheiro pra mim?’ ”. Depois disso, saiu do emprego e montou uma loja virtual, chamada Pink Fashion Bazar, um ensaio para o que viria depois. “Já era com roupas seminovas. Eu já gostava de brechós! Fazia feirinha em todo canto, com as amigas, na família, com as minhas roupas, com as roupas dos meus irmãos, já tinha facilidade pra trocar, já conhecia a rede de pessoas de brechós pela cidade. Passava sempre os sábados e domingos em feirinhas por vários bairros. Fiz isso por dois anos”, conta Priscila.

 

 

Com essa experiência, a então estudante de Administração já vislumbrava ter um espaço físico. Claro, uma loja de roupas seminovas, como ela gosta de que sejam chamadas as peças. Apesar do susto inicial diante do desafio lançado pelo pai, não tardou em agarrar aquela oportunidade para tornar seu sonho real: um brechó todo pensado pelo conceito da sustentabilidade, como o seu produto já a sugeria. Assim, o ano de 2017, ela dedicou à organização da loja e ao término da faculdade. Nem o namoro de 5 anos resistiu à força do seu propósito. “Ele me perguntou se era o namoro ou o negócio. Claro que eu escolhi o meu negócio”, fala com o brilho nos olhos de quem não está arrependida.

 

A empresária Priscila e a decoração toda sustentável do Brechó, feita por ela. 

 

 

O produto que move Priscila é herança da mãe, que comprava roupas para a família “boas, de marca e por preços bem baratinhos”, o que a fez enxergar ali a chance de um negócio que a conectava com a própria essência.  "Sou apaixonada por brechós há muito tempo, 90% das minhas roupas são de brechó, acho que só não são as roupas de academia e as peças íntimas, biquínis. Lá em casa, a gente nunca teve besteira com nada. Pela influência da minha mãe, passei a ir sempre em brechós e, então, passei a ter um olhar mais clínico pras lojas e pro mercado, também como consumidora”, justifica.

 

 

 

O comércio de brechós
Como empresária, Priscila vê o comércio de roupas seminovas ainda envolto de muito preconceito, principalmente, em Fortaleza, mas reforça que é um mercado que vem se expandindo devido ao apelo cada vez maior de  se construir um mundo mais responsável em relação ao consumo. “Tudo é muito caro, hoje em dia. E as pessoas estão se conscientizando que não há mal algum usar o que já foi do outro. Tenho muita mercadoria que nem sequer foi usada, com etiqueta da loja original, porque a pessoa compra, mas depois não sabe direito com que combinar, abusa a peça e ela se perde no guarda-roupa. Quando chega aqui,  outro cliente se encanta e dá certo”, explica a dinâmica. E completa. “Eu adoro essa pegada de reutilizar, de criar, aprendo muito com as clientes, elas mesmas me ensinam muitas combinações de roupas”.

 

 

Alias, o que não faltam são clientes, de vários perfis. “Tenho clientes desde desempregadas que compram blusinhas de R$ 5, até advogadas, engenheiras, que vêm comprar roupas pra irem pras festas. Muitos são também professores, estudantes da faculdade [Maurício de Nassau, que se localiza ao lado do Casarão] e também pessoas que passam pela avenida e entram pela primeira vez. Se admiram, gostam, sempre voltam”, diz envaidecida.

 

 

A empresária explica que muito do sucesso do Casarão diz respeito ao novo conceito de brechó que vem se consolidando. “Cada vez mais as pessoas percebem que não é loja de coisa antiga, empoeirada. Toda semana tem novidades. Aqui, as pessoas encontram uma loja de qualidade, com preço justo, arrumadinha. Está como eu sonhei, agora, e todo dia está melhor porque todo dia eu tenho ideias para oferecer o melhor para o meu cliente. Eu me realizo aqui”, sorri.

... até a sacola, feita por Priscila, em que o cliente leva os produtos comprados

 

Priscila com a mãe, dona Angeleide

SERVIÇO:
O Casarão Bazar vende roupas femininas e infantis, de tamanhos variados.
Horário de Funcionamento: aberta todos os dias, de segunda a sexta, das 9h às 18 horas, e aos sábados, das 9 h ao meio-dia.
Endereço: avenida Visconde do Rio Branco, 2164, próximo à Faculdade Maurício de Nassau, esquina com a rua Abaiara. 
Primeira evento da Loja, que reúne pequenos produtores: Bazar Mix, dia 3 de março, das 8h às 13 horas.


 

espaço_Fernanda sentada

Escola com abordagens Pikler e Reggio Emilia começa atividades em 2018, em Fortaleza

Visitamos a Escola Aquarela, primeira na Capital que se propõe educar crianças de 0 a 5 anos e 11 meses pelas abordagens da médica húngara Emmi Pikler e da filosofia educacional da cidade italiana Reggio Emilia.

Metodologias baseadas no respeito à criança, a partir do respeito ao tempo, ao espaço e à autonomia singularizados. Abordagens de valorização do vínculo cuidador-criança que trazem o adulto como figura que transmite confiança e afeto nos processos de investigação e descoberta livres das crianças. Os ensinamentos da médica húngara Emmi Pikler e da filosofia educacional implementada pelo professor Lóris Malaguzzi em escolas na cidade italiana Reggio Emilia norteiam a prática da Escola Aquarela, que estreia na rede de ensino da Capital, em 2018, como única a adotar, integralmente, os dois parâmetros na Educação Infantil.

A fonoaudióloga Fernanda Magalhães Leitão lid

Segundo a fonoaudióloga Fernanda Magalhães Leitão, à frente do trio de profissionais responsável pela escola Aquarela, a abordagem Pikler orienta todo o conceito do que está sendo preparado para receber bebês de até 3 anos. Já o modelo Reggio Emilia guia a elaboração do trabalho com meninos e meninas de 3 a 5 anos e 11 meses. O trio é composto ainda por uma pedagoga e uma psicóloga.

Mural de recordações que conta a história afetiva da casa acolhe quem chega ao espaço

Na visita que fizemos à Escola, não foi difícil percebermos todo o capricho, a dedicação e o estudo que vêm conduzindo a construção da instituição. Pelo que Fernanda nos conta, a casa já guarda em si memórias de carinho e aconchego, já que pertence à família da Fernanda há muito tempo. É o local onde ela e os irmãos viveram a infância. Com ampla área que se divide em inúmeros cômodos e vasto quintal, toda a estrutura foi pensada e adaptada para que as metodologias sejam postas em prática “à risca”, descreve Fernanda.

Estrutura
Logo na entrada, a história afetiva da casa é apresentada por um mural de fotos recordações. Uma sala espaçosa à direita, de piso quente, já abriga os materiais que serão utilizados pelos bebês. As peças como cubos de tamanhos variados e labirinto, são todas de madeira crua, pensadas para facilitar a exploração livre e o desenvolvimento das capacidades motoras, a fim de favorecer o entrar e o sair, o subir e descer dos nenens. Nada suspenso ou fixado.

O berçário com capacidade para oito bebês é o único local fechado, com ar condicionado e câmeras para melhor acompanhamento das crianças pelos cuidadores. Além da cozinha, há banheiros e refeitório adaptados às várias faixas de idade das crianças.

 O mobiliário de madeira crua para uso das crianças do Berçário e do Infantil I foi pensado para possibilitar a exploração livre e o desenvolvimento das capacidades motoras

No andar de cima ficam as turmas do Infantil III a V. Uma escada em leve caracol, com proteção nas laterais, carregada de lembranças de traquinagens da Fernanda e dos três irmãos, nos conduz até elas. Há também um elevador de acessibilidade adequado às crianças. Em cima, cores identificam os espaços de sala de aula de acordo com os ciclos de aprendizagem. Todas ventiladas por janelas largas com aberturas apenas por venezianas.

As turmas do Infantil III a V funcionarão em salas no andar de cima, identificadas por cores diferentes

No quintal, há piscina protegida por grades altas e uma rampa que nos conduz à terra. No dia em que visitamos, Fernanda ainda finalizava o espaço. Segundo ela, haverá horta, tanques de areia e parque sonoro. Para além do muro, segundo a fonoaudióloga, há um terreno já da escola a ser incorporado na rotina ao ar livre das crianças. Torcemos para que a área de contato das crianças com a terra seja aumentada em breve.

“Aqui não vamos ter alunos, vamos ter crianças, estão aqui para descobrir, brincar, vivenciar. Quando decidimos montar uma escola, já pensamos que ela não seria nos moldes de uma escola comum. Muitas se dizem construtivistas, mas não o são, de fato. Nosso esforço é para que as abordagens com que escolhemos trabalhar, confiadas pelos pais, sejam realmente seguidas por toda a equipe”, garante Fernanda.

Currículo e Atividades extras
Fernanda explica que “a importância do Brincar, o aprender brincando, é a base de tudo o que pretendemos fazer aqui”. Ela reforça a importância do ambiente preparado e seguro e o fortalecimento de vínculo com o cuidador, pelo cuidado, o afeto e o brincar. “A base do indivíduo está na infância, no brincar. Se ele não brinca, em algum momento, vai sentir falta desse tempo mais tarde. Priorizamos o brincar livre, a ludicidade e a fantasia das crianças como mediadores de todo processo ”, considera.

A proposta pedagógica inclui, segundo a fonoaudióloga com extensa experiência em UTI Neonatal, o máximo de experiências sensoriais, expressivas, corporais, de relações sociais e ligadas à natureza. O currículo elenca também projetos literários e musicais, ateliê de artes, esportes, como natação e capoeira, e passeios culturais. A partir dos 3 anos, as crianças verão Inglês e Libras, não pela visão do método tradicional, mas “propondo vivências e atividades”, acrescenta Fernanda.

Nosso esforço é romper com o modo escolarizante e assistencialista da Educação atual. Não necessariamente as crianças vão sair daqui alfabetizadas. Não é nossa principal preocupação. Nosso foco são as experiências, a autonomia em diversos aspectos e os projetos delas próprias, principalmente, a partir dos três anos, que elas devem vivenciar sempre em grupos, em cooperação”, emenda.

Fernanda acrescenta ainda que a escola está toda pensada para tornar-se uma instituição Selo Verde. "A escola está projetada para receber teto solar, coletar água da chuva, fazer a coleta seletiva do lixo, e preparada para utilizar amplamente, principalmente nas atividades com as crianças, materiais reciclados", enumera.

Aliás, o uso de materiais reciclados é destacado por Fernanda nas brincadeiras das crianças como forma de estimular a imaginação e a criatividade. "Não teremos nenhum brinquedo pré-fabricado. Vamos trabalhar a construção e a desconstrução a partir dos reciclados. É tudo tão simples e rico ao mesmo tempo. Prezamos por um mundo de criação, de imaginação, de autonomia. Está faltando isso. A educação hoje é muito assistencialista e diretiva ", esclarece a Fernanda.

Número de estudantes e formação dos professores
Fernanda nos conta que a Escola se prepara para receber oito bebês no Berçário e cerca de 60 crianças em turmas únicas do Infantil I ao V, o que reserva uma média de 12 alunos por turma. Em cada sala, Fernanda assegura, uma professora e uma auxiliar. “Desde o começo pensamos em poucas crianças. Queremos qualidade e não quantidade”, justifica Fernanda.

Uma equipe de 10 pedagogas está sendo formada nas abordagens Pickler e Reggio Emilia, há cerca de 1 ano. Todo processo de formação foi desenvolvido pela própria equipe de responsáveis pela escola. O material pedagógico utilizado no aperfeiçoamento dos professores, de acordo com Fernanda, foi desenvolvido a partir de referências bibliográficas e consultas a profissionais das faculdades de educação do Estado. “A ideia é que a gente também possa oferecer formação a professores de fora”, planeja.

Valor
Fernanda não explicitou o valor da mensalidade, mas disse estar na média de valores da Educação Infantil da cidade, das redondezas, sem taxa de matrícula.

Horários de aulas
Manhã: 7h30min – 11h30min
Tarde: 13h30min –17h30min
Integral – Escola Projeto Vivências Integradas (PVI) - 7h30min - 17h30min

Fachada da escola quando a visitamos, no dia 31 de outubro

Vagas e Matrículas
Bercário – 8 vagas.
Infantil I – V – aproximadamente 60 vagas.
Matrículas, com desconto, vão até 7 de dezembro. Do dia 7 de dezembro em diante, não incluso desconto. “Oficialmente, as matrículas vão até a última segunda-feira (29) de janeiro (quando começam as aulas), mas o tempo de matrícula é bastante flexível na Educação Infantil, aqui. Enquanto houver vagas, podemos ver as possibilidades”, tranquiliza Fernanda.

SERVIÇO:
Aquarela Espaço Infantil
Endereço: Rua Manoel Firmino Sampaio, 311, Patriolino Ribeiro.
Próximo à nova sede da OAB Ceará, na Washington Soares.
Mais informações / Marcação de visitas: (85) 3241 3289 / 3121 8220 / 98882 1972
E-mail: contato@aquarelaespacoinfantil.com.br