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Conheça Raley, o menino do mangue que dá palestras sobre como cuidar da natureza

"Cresci brincando no chão,
Entre formigas
Meu quintal é maior
Do que o mundo
Por dentro de nossa casa
passava um rio inventado.
Tudo que não invento
é falso

Era o menino e os bichinhos
Era o menino e o Sol
O menino e o rio
Era o menino e as árvores”
(Manuel de Barros, O Menino e o rio)

 

“Precisamos cuidar da pele do planeta”. A mensagem do garoto Celso Raley Sá Barreto de Freitas, de 9 anos, ecoa pelo Ceará a fora, em auditórios lotados, salas de aula, turmas de educação superior. Há três anos, ele trouxe para si a responsabilidade de multiplicar conhecimentos e consciências. O menino desinibido, simpático, de voz articulada, de gestos carinhosos e olhar cuidadoso para o mundo, vive com os avós maternos desde os seis meses, quando perdeu a mãe. Conhece o ecossistema do mangue na teoria e na prática, como poucas crianças, e faz desse privilégio sua maneira de espalhar a paz e a convivência possível com a natureza.

 

Raley, com avós Rusty e Sineide (arquivo pessoal)

 

Os avós do garoto, Rusty de Sá Barreto e Sineide Crisóstomo, já haviam fundado o Ecomuseu do Mangue quando ele nasceu. Raley é o menino do rio, versado por Manuel de Barros. Só conhece vida com banhos de rio e de mar quase diários, subindo nas raízes aéreas, brincando com os caranguejos, com os pés na lama do mangue; entende sobre as mudanças das marés e a influência das luas, sabe o que é respeitar ciclos de semeio e safra das vegetações, de reprodução dos peixes, moluscos e crustáceos; o menino cresce ouvindo dos avós o valor que a conservação do ecossistema mangue tem para o planeta inteiro, para que a vida seja continuada. O mangue é a rotina dele. “Aqui, o rio é o que mais me encanta. Amo tomar banho nele, cuidar dele”, destaca. 

 

 

A inspiração para falar a grandes plateias, desde os seis anos, além de acompanhar o avô, surgiu quando viu uma criança na televisão falando sobre a importância de cuidarmos da pele do planeta. Dali em diante, por ele mesmo, começou a preparar o que se tornaria a palestra Pele do Planeta, que o faz circular entre adultos bem entendidos em outras áreas, mas que precisam das palavras do menino Raley para compreender que pouco adianta avanços tecnológicos e inovações se tudo isso não caminhar em comunhão com a preservação do meio ambiente.

 

 

“Eu comparo o planeta com o nosso corpo. Os pelos e o cabelos são as árvores. Nossa pele é o chão. Quando a gente joga lixo no chão é como se não tomasse banho, fica cheio de sujeira, enche de doença... se não cuidar, morre. A poluição produz gases que furam a camada de ozônio e ela é o protetor solar do planeta. Sem essa proteção, a gente adoece”, ensina Raley.

 

 

O menino prodígio estuda à tarde numa escola pública do bairro Caça e Pesca, pertinho de onde mora. Enquanto conversávamos, ele já passava com a avó a agenda da próxima palestra, que, naquela semana, foi na escola mesmo. A avó Sineide conta que ele é o primeiro da turma, mas ele emenda a informação rapidamente: não quer virar líder “porque é chato demais ter que ficar arrumando a sala”.

 

 

Raley não é remunerado pelas palestras, que duram em média 25 minutos, mas os avós comentam que sempre negociam com ele pequenos valores, como R$ 5 ou R$ 10, quando ele fala ao público ou ajuda os avós na condução dos grupos de visitantes pelas trilhas do mangue. “É uma maneira de incentivá-lo, mas, principalmente, de ele já ir sabendo a lidar com o dinheiro, a poupar quando quer comprar algo, como o conserto da bicicleta e do skate”, justifica a avó.

 

Raley vai estar conosco no roteiro dentro do Ecomuseu, pelo Vida Ciranda Experiência, no próximo dia 21. No dia em que conheci Raley, ele me levou para um lugar de que ele gosta muito, o Mangue Vermelho, um dos mais legais da trilha que faremos. No caminho até lá, Raley foi me dando uma palhinha do que ele gosta de falar às pessoas. 

 

“O grade problema é que as pessoas não respeitam uma coisa simples: não pode jogar lixo no chão, isso prejudica todo mundo. Lugar de lixo é na lixeira.Me impressiona as pessoas desrespeitarem isso”, lamenta o menino.

 

O menino do mangue sonha com a profissão de design, a mesma do tio, designer de games, que mora no Canadá, quem ele tem como irmão mais velho. Raley já entende que não há nenhuma razão na tecnologia se não for para melhorar e valorizar as relações humanas e suas relações com a natureza.

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