ilustração de menino que brinca nas estrelas

Crítica à educação tradicional e ao trabalho infantil permeiam a narrativa fantástica e apaixonante do livro A Casa da Madrinha, de Lygia Bojunga

Neste 2018, faz 40 anos que Lygia Bojunga lançou o livro A Casa da Madrinha. A obra, categorizada como infanto-juvenil, é encantadoramente perturbadora à medida que descreve situações e lança reflexões sobre infâncias, exclusões, escola tradicional, e busca por um ideal de maneira tão atual, por uma construção narrativa que mistura o real e o fantástico. Literatura como deleite, como fascínio sim, mas também como instrumento de denúncia, de crítica, de análise social e de transformação. Um bom instrumento para iniciar com os filhos diálogos de questionamento e análise sobre o mundo. 

 

 

Alexandre, o menino personagem que move toda a contação, é criança nossa, de todos os dias, aquela que encontramos nos semáforos vendendo bombons. E é tão fácil reconhecer que a Escola Osarta do Pensamento, que a autora descreve na obra e é utilizada para condicionar os quereres de uma pavão cheio de beleza e 'marra',  é essa que se multiplica em outdoors, tradicional, conteudista, alienante, que rejeita quem não se adequa, quem acredita que a escola é também um espaço de formação para a cidadania e não tão somente para provas. Mais atual, impossível.

 

Parte da capa de uma das edições do livro / Divulgação Internet

 

Mas, para além disso, existem os sonhos e os amigos que encontramos na jornada. São resistências, inspirações e forças. Pessoas que trazem magia, imaginação, fantasia, que deixam a vida mais leve em meio a dureza da lida. Alexandre também conta com eles e isso faz toda a diferença. A casa da madrinha, perseguida por Alexandre, é a metáfora que abarca nossos sonhos todos, aquele ideal de vida que desenhamos em objetivos e metas, mas, ao mesmo tempo, que é tão seletiva. Nem todos conseguem alcançá-la. Temos que viver escapando de tanta coisa, como Alexandre.  É preciso vencer medos para conquistar, como o personagem aprende no caminho. A Casa da Madrinha é, sobretudo um livro de esperanças. 

 

 

Convidamos uma pessoa de quem o Vida Ciranda é muito fã para também conversar conosco sobre o livro. Temos a honra de acolher a análise sensata e tão oportuna da pesquisadora Vanessa Passos, doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC), integrante do Grupo de Pesquisa - Espaços de Leituras: Cânones e Bibliotecas (PPGLetras UFC). Vanessa é estudiosa de Lygia Bonjunga e compartilha conosco  um pouco da riqueza de apreensões que ela carrega do livro A Casa da Madrinha. Encantem-se, como eu me encantei. Boa leitura! 

 

 

Entre viagens e livros, em direção à Casa da madrinha, de Lygia Bojunga
Por Vanessa Passos

Arquivo pessoal

Quantas e quais infâncias existem? Infâncias no plural, porque o retrato de infância perfeita é apenas fruto de uma idealização romantizada deste período. No livro A casa da madrinha, Lygia Bojunga mostra-nos a infância difícil de Alexandre. Em vez de brinquedos, ursos, carrinhos, bola, ele trazia consigo uma caixa com gelo e sorvete para vender na praia, outras vezes, trazia uma caixa com objetos para fazer mágica nas ruas do Rio de Janeiro para receber alguns trocados. Sua vida era um malabarismo entre o jogo de cintura e a imaginação para sobreviver, driblando a escassez em que vivia.
Apesar de abordar assuntos pertinentes, como: o trabalho infantil, a pobreza e o abandono da escola, a escritora brasileira não o faz de forma pedagógica ou panfletária. A autora não diz (com um tom utilitário), mas mostra (num tom estético), através de cenas bem delineadas e diálogos fluidos, a miséria de um garoto que mora no morro – uma infância muitas vezes esquecida por nós e pelos livros.

 

 

Quantos livros já lemos para nossos filhos, irmãos, sobrinhos, primos, amigos, para as nossas crianças, ou ainda, para a criança que ainda somos e podemos ser, que trazem à tona esta realidade? A realidade daqueles que povoam sinais nas ruas, nos terminais de ônibus, nas favelas...

 

 

Nessa narrativa, escrita pelo viés do realismo fantástico, temos uma realidade cruel que se funde à fantasia. Com a leitura, encontramos Pavão que fala tremidinho; Casa da Madrinha, que é o lugar dos sonhos, Esperança. Apesar de todas as dificuldades, Alexandre tem fé, guarda a certeza de que “Agora eu posso viajar toda a vida. Quando o medo bater, eu ganho dele e pronto.”

 

 

O livro ainda traz uma crítica metafórica à repressão dos direitos de liberdade de expressão, através do personagem Pavão, o qual é obrigado a ir para a Escola Osarta, uma escola que tem por objetivo atrasar o pensamento dos alunos. O curioso é que a palavra “Osarta” significa atraso ao contrário. Lygia brinca com isso, dizendo que colocaram este nome para não dar tanta bandeira do que eles realmente queriam fazer no colégio. Depois de passar por uma série de torturas e ter seu pensamento costurado, o Pavão perdeu parte da memória e passou a ter um pensamento raso, não questionador.  De semelhante modo, a professora da escola que Alexandre frequentou, tinha uma maleta cheia de pacotes e de cores, ela fazia brincadeiras, deixava os alunos contarem suas histórias. Inventava e reinventava jeitos de dar aula. Todos os alunos adoravam. Mas a diretora não gostou: “Que matemática era aquela que a Professora estava inventando? Não gostou da invenção.”

 

 

Enfim, o livro conduz a uma viagem maravilhosa, que permanece mesmo depois da última página. Então, observamos que a vida é uma viagem constante. No caminho, encontramos muitos percalços, mas é importante seguir, sempre em frente. Quem sabe um dia podemos chegar à casa da madrinha, o grande desejo de Alexandre. Certamente, lá estará o menino, encostado na porta azul-marinho com a flor amarela pendurada e uma chave na mão esperando-nos com um sorriso no rosto.

 

 

SERVIÇO:

A Casa da Madrinha 
Autora: Lygia Bojunga
20ª edição: 2015, 17ª impressão
Ilustrações: Regina Yolanda
Casa Lygia Bojunga
Preço médio: R$ 30

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