Crônica_5fev2018

Desigualdades sociais marcam trajetórias e podem trazer consequências dolorosas

Lviv's Yard od Lost Toys / NICKDREWE

São 3h22min da madrugada de sexta para sábado, 3. Acabo de ler matérias e artigos sobre a chacina que aconteceu na comunidade de Cajazeiras, na primeira hora do último dia 27, e deixou 14 mortos, há exatamente uma semana. Já decorei por recortes de todos os artigos lidos que, em 2017, o Ceará contabilizou 5.134 homicídios. Nem acabou janeiro e a chacina dos 14 já era a segunda ocorrência, sucedida, dois dias depois, por outra de 10 mortos. Anotei no caderno ao lado, não sei bem para quê, algumas das medidas que o governo do estado quer adotar para conter o crime organizado. Li sobre as facções. Facções que dividem pessoas, demarcam territórios, modificam rotinas, expulsam dignidades e sonhos, espalham insegurança. Li sobre facções que fortalecem abismos sociais e personificam um dos grandes males da sociedade atual, talvez, o maior medo dela: a violência.

 

Parei várias vezes no decorrer das leituras que eu vinha selecionando havia dias para fazer. Protelei, é certo. Há alguma intenção nisso. Fui tomar água, tomar um café, fui ao banheiro. Fui dobrar os lençóis que eu havia estendido no varal, no dia anterior. Acho que a gente tenta refúgios no meio de tanto intragável. Dá um nó na garganta, como se o sentido utilizado para a leitura fosse o paladar e não a visão. Há algum sentido nisso. Deixa um ranço quando números, relatos, histórias de dor das pessoas vão descendo sensibilidade a dentro. Se me perguntassem minha opinião a respeito, agora, eu não saberia dizer. Eu só consegui lembrar de outras narrativas de dor, indiferença, indignação e superação que já passaram (e ficaram!) por mim, em mim. 

 

Lembrei famílias com quem conversei em 2011, moradoras de uma área de risco no bairro Vila Velha; lembrei crianças que brincavam na lama, no lixo. Lembrei a total ausência de serviços básicos ali para uma vida com dignidade mínima. Lembrei a fala da mãe ao filho de 4 anos sobre o que comer diante da fome que ele reclamava: “Não sei”.

 

Lembrei a criança de 11 anos que, depois de participar de uma ação violenta contra uma médica, na Praia do Futuro, em 2013, não entendia o alvoroço de toda polícia, imprensa e demais da sociedade em torno do ocorrido: “isso acontece todo dia lá onde eu moro e ninguém nunca vai atrás”, justificou a menina moradora de uma das comunidades pobres da Praia do Futuro.

 

Lembrei a garota de voz corajosa e decidida, de coque alto na cabeça, óculos de aros arredondados, com quem conversei no Caic Maria Alves, no bairro Bom Jardim, em maio de 2016. Concomitante à greve dos professores estaduais, o Maria Alves foi a primeira instituição de ensino médio em Fortaleza a aderir ao movimento de estudantes que ocupavam as escolas, Brasil a fora, por melhorias na educação básica. Ao lado do galpão onde ela recebia e passava telefonemas, organizava os grupos de alunos participantes da ocupação e orientava quem buscava informações, havia um cavalete como suporte para um cartaz que apresentava a programação do dia, na mobilização. Diante de horários que versavam sobre reflexões acerca de racismo, questões de gênero, desigualdade social, políticas públicas, democratização de acesso e da comunicação, perguntei a ela quem havia proposto aquelas atividades. Ela, em uma demonstração de obviedade à resposta, me lançou a queima roupa um incontestável “Nós, estudantes!”. Silêncio. Ela se aproximou um pouco mais e completou enfática: “Isso aqui é o que a gente quer encontrar na escola e não encontra”. Pediu licença e saiu para atender alguém que a chamava.

 

 

Lendo os tantos artigos sobre a chacina, lembrei o rapaz Felipe Rima que conheci em 2015 cujo sonho adolescente de ser chefe do tráfico de drogas, em uma comunidade do Papicu, foi substituído pelo desejo de fazer poesia da própria realidade e espalhar lições de esperança de futuro bom para outros jovens; lições que Felipe conheceu quando teve contato com um projeto social que mudou seu jeito de pensar e agir na vida, que fez o mundo se render a ele por aplausos e não pelo medo; lições mediadas “por aquela pedra no caminho”, da poesia de Drummond, assim como Felipe gosta de contar.

 

 

De repente, me deu a louca na cabeça – Imaginem só, que grande bobagem! – de tentar imaginar quem eram, pelo já tinham passado, o que um dia sonharam para si e sonham hoje as pessoas que integram essas facções que aterrorizam tanto, que desafiam governos, nações... a paz. De repente, me deu a louca de imaginar, de pensar, de me perguntar sobre, sei lá, talvez... que abismos em si eles carregam, quantas ausências, quantas negligências, quantos abandonos por todos os lados já sofreram.

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