luquinhas deitado na Casa Cravo

Fazer tudo, Fazer nada!

 

Fabiana Azeredo de Oliveira
É autora do livro Miracema do Ceará.
Mestre em Psicologia, Psicanalista, Arte terapeuta e Artista Visual.

Escreve mensalmente para o Vida Ciranda.

 

Quem nunca disse:
Férias!!! Uhuuuu! Tempo de fazer nada, jogar as pernas para o ar, ficar na janela de bobeira, montar imagens nas nuvens, ouvir o marulho do mar, enterrar os pés na areia quentinha, fazer tudo e fazer nada! Quem nunca?

Vamos então organizar umas idéias sobre esse Fazer tudo, Fazer nada! Temos a sensação, na nossa cega adultice, que a correria do dia a dia dá uma camuflada nas angústias e nas coisinhas chatas da vida, concorda? Parece-nos que o fazer tudo cura tudo e deixamos o fazer nada de lado, não damos importância a ele. Porque ele parece inoperante. A palavra NADA incomoda. Associamos o nada ao VAZIO.

A bela poesia musicada por Chico Buarque “Copo vazio“ releva que um copo vazio está cheio de ar e traduz bem o conteúdo do vazio. Na poesia, o vazio passa a ter conteúdo, passa a ser cheio e tudo muda. E quando Manoel de Barros também submete o vazio a ser pensado como conteúdo, ele diz:

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

O vazio parece mesmo ter conteúdo. Porque no vazio, cabem coisas e coisas. Os poetas sempre sabem muito, então, seguindo esse rastro de saber, associemos a semelhança do vazio como o nada. Já ouvimos a expressão “fulano tá boiando…“ quando um fulano parece estar ausente em uma conversa, disperso, flutuando. Mas talvez o fulano esteja bem atento a si mesmo!

Os encontros com nós mesmos, quase sempre, acontecem quando nos descuidamos e parece, mas só parece, que estamos ausentes. E é aí que surge a famosa “criatividade“, essa rica via de escape que utilizamos para nos fazer presentes.

A sensação de ausência, de vazio, de nada, nos faz criar. A arte emerge de um estar vazio e muitos, muitos instantes de um fazer nada, para só depois fazer. Pergunte a um artista sobre uma obra que ele fez. Pergunte o que ele estava pensando naquele momento. Se ele for muito sincero, certamente vai dizer: “sei lá o que eu pensava…Pensava em nada!” E quanta decepção para quem escuta isso.

Todo esse blá-blá-blá para dizer que uma criança quando não tem nada para fazer, não se engane, ainda assim ela está fazendo! Pois a criatividade também emerge desse nada, de instantes do nada. É quando advém a necessidade de criar, de que algo tome conta e se faça.

A palavra agora é CRIATIVIDADE. Sim, ela surge de instantes contemplativos de nós com nós mesmos! E como conseguimos isto? Parando… leia este “parando”  bem devagar…  p a r a n d o… em ritmo desacelerado e aproveite a belezura de criar um outro ritmo. O ritmo de fazer nada.

Esse desdobramento é feito pelas crianças na maior moleza. Com o tempo elas perdem esta capacidade, infelizmente. A adultice nos faz perder muitas coisas. Até perder a capacidade de fazer nada! Incrível, né?
Para a psicanálise, é a partir da Falta que a pessoa é impulsionada a promover movimentos internos, mais especificamente: Desejos! É a Falta que alimenta os processos de criação. O artista, o poeta criam a partir de suas Faltas.

A criação advém de instantes vazios, porque esses vazios estão cheios para extravasar. A infância hoje está assoberbada de atividades, como é a vida adulta. Como é a estressante rotina da vida adulta. É sabido, desde tempos remotos, que a infância diferencia-se em muito da vida adulta e, infelizmente, ainda se insiste em colocar o lugar da criança dentro de um contexto adultizado, cheio de responsabilidades e de tarefas puramente didáticas.

A criação é seara livre. Cria-se a partir da liberdade de criar. Cria-se no brincar. O brincar também é livre. A infância é feita de matéria essencialmente livre. Vimos nesses tempos sombrios, escolas preparando crianças para concursos massificantes, através de uma demanda exaustiva e desumana. Algumas escolas preparam material de férias para estudo. Como assim? Férias com atividades escolares?

Na clínica psicanalítica tenho observado que a cada finalização de semestre, os pais estão deveras estressados com as intensas atividades escolares dos filhos e filhos mais estressados ainda. O sentimento fortemente negativo em relação à escola me leva a pensar que as crianças estão funcionando no ambiente escolar como o adulto que odeia o seu trabalho.

A criança na escola deveria estar aprendendo a amar o conhecimento e não a odiá-lo. A queixa que se repete nos pais é que na hora das tarefas, os filhos querem brincar. Porque crianças, podem crer, têm um saber pautado na sutileza de ser. Portanto, sabem mais do que imaginamos. Sabem que o brincar por si só, restaura a potência de criação e é onde se descobre o eu. Existem coisas que só se descortinam no brincar.

Como diz o psicanalista infantil Winnicott, no livro O brincar e a realidade, ” É no brincar, e, talvez, apenas no brincar, que a criança ou adulto fruem sua liberdade de criação. É através da percepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o sujeito sente que a vida é digna de ser vivida”. O brincar ao qual Winnicott se refere aqui, é um brincar livre. É a aposta de liberdade no ato. Portanto, associado a um algo não direcionado, mas potentemente criador.

O fazer nada nas férias, relaxe… pode relevar esse fazer tudo e pode tudo criar! Deixe que sua criança escolha um momento de fazer nada e ainda assim ela estará fazendo algo, se isso te consola. O incômodo desse fazer nada é seu, e não dela. Deixe que sua criança possa criar. Deixe que ela silencie, ou ouça uma musica quietinha ou, girando de tonta, aparando o ar nas palmas das mãos. Deixe que ela fique de bobeira olhando pela janela, contando os carros que passam, ou não. Deixe que ela apenas sinta o gosto de fazer nada e assim ela estará pronta para não desistir de criar. E assim ela irá encher o copo vazio, de tudo que a faz feliz!

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