criança estrangeira

Infância estrangeira

 

Fabiana Azeredo de Oliveira
É autora do livro Miracema do Ceará.
Mestre em Psicologia, Psicanalista, Arte terapeuta e Artista Visual.
Escreve mensalmente para o Vida Ciranda.

 

O que chamaria de infância estrangeira?

Chamo de infância estrangeira aquela infância que se apresenta através de um estranhamento do universo em seu entorno. O estrangeiro, também chamado de forasteiro nos filmes de faroeste, é visto como um intruso, alguém que fala outra língua, tem modos e costumes diferentes, porta-se, veste-se, arruma-se de modo diferente dos que ali habitam. E provocam estranhamento.

Ainda nos filmes de faroeste, as pessoas fecham portas e janelas quando um estrangeiro aponta do nada na entrada das grandes porteiras da cidade. As cenas, curiosamente, são marcadas, em geral, por nevoeiros e fumaças que escondem a identidade de quem chega ali.

Para desenrolar nossa conversa estrangeira, irei fazer aqui um link com o livro infanto juvenil que escrevi em 2015 que se chama Miracema do Ceará. Quando a  história foi escrita, diria que não escrevi em essência sobre considerar Miracema uma criança estrangeira em seu próprio ambiente, lá na cidade sertaneja de Oliveiras, distrito do município de Tamboril no Ceará. Mas, já pensava, quando a escrevi, na solidão, a que algumas crianças como Miracema, que “funcionam“ um pouco diferente da maioria das crianças, estão sujeitas, na atualidade, por serem vistas estrangeiras em certos ambientes.

Essa triste realidade, assemelha-se, ao meu ver, aos estados de solidão na velhice, em que os miasmas dos mais velhos criam abismos entre idosos e jovens. Os abismos reiteram a veracidade dos estados de SOLIDÃO.

Pois bem. Em alguns segmentos da infância, esses abismos também existem, e degringolam na temida Solidão. Solidão é, antes de tudo, um estado de isolamento, de sentir-se desacompanhado. Um sentimento de estar em local ermo, desértico. É assim que algumas crianças com necessidade de maior acompanhamento, seja cognitivo, seja psíquico, seja a mistura de tudo isso, enfrentam na família, nos espaços públicos, nas escolas.

O primeiro local de socialização de uma criança é, indiscutivelmente, a escola. Não é na pracinha que ela se sente socializada, nem em casa junto com os seus, mas no processo contínuo de convivência e construção que a escola pode lhe proporcionar. A criança que necessita de maiores atenções, seja por qualquer motivo em especial, está sim sujeita a não ser aceita em alguns espaços. E tudo que se quer do mundo é aceitação, não é mesmo!?

Tudo que se deseja do mundo é acolhimento, consolo nas horas tenebrosas, ombro amigo e atenção. Na história de Miracema, seu consolo é o amigo Quinho, o vendedor de ‘chegadin’, que, como ela, também tem um sofrimento de abandono, quando:

“…a mãe fugiu lá para as bandas de Fortaleza, não se sabe se casou, embuchou, ou esqueceu de voltar, só se sabe que deixou Quinho e seu pai que não falam sobre ela, e se alguém pergunta, eles dão um nó no perguntar.“ (página 15)

É nesse encontro de abandono e solidão, que Miracema e Quinho se unem. É no não falar sobre ditos que ainda não podem ser verbalizados, ou expressados em palavras, que Quinho e Miracema unem suas demandas tristes. Porque Miracema, apesar de ter nove anos, não fala como as outras crianças. Quinho fala, mas se cala diante de algo que ainda não pode ser dito. É deste modo que se unem, não falando.

Mais ainda: é no toque do triângulo triangulando que Quinho se enlaça a Miracema. Ele busca uma estratégia para chegar a Miracema, e é bem sucedido. Apesar de Miracema desviar o olhar e, deste modo singular, e, para alguns, paradoxo, é que Miracema busca mais ainda a presença de Quinho. Miracema busca a corporeidade de seu amigo.

É uma cena comovente de encontro de pares. É tudo que se deseja na vida: um encontro de pares. Quem nunca sentiu isso? Um lindo encontro amoroso, amigo, esclarecedor do seu próprio ser? Quem sabe Miracema poetize como Fernando Pessoa no Livro do Desassossego (que já é palavra linda de se ler):

“A solidão desola-me, a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença como uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir“.

É na contramão do encontro com Quinho, no desencontro dos olhares, que Miracema encontra o outro e pode Ser através dele. É, diria, que é a oportunidade de uma sercência (palavra inventada) que Miracema encontra ali, no Quinho, no som do seu triângulo, em tudo junto.

Os encontros entre as crianças são mais ricos do que podemos imaginar. Quem nunca viu o olhar de uma criança brilhar quando encontra uma outra criança em um ambiente cheio de adultos? Ou uma cabecinha virando de um lado para outro porque ouviu uma voz de criança ecoando por ali? Os encontros na infância são de uma riqueza imensurável. A solidão na infância é de uma dor imensurável.

Na estória contada, Miracema não consegue acompanhar Ceiça e Cátia de Mariquinha. Ela até ensaia um correr junto, um falar junto, mas não consegue dar conta do ritmo desenfreado das meninas. Porque o ritmo de Miracema tem mais freio, mais receios, talvez, provoca descaminhos nos seus pensamentos, como na poesia de Fernando Pessoa. Mas o sonho, ainda na poesia, “é sua presença como uma distracção especial“.

Para crianças estrangeiras como Miracema ingressarem em algumas escolas, necessitam serem “laudadas“. Isso mesmo! Deverão estar munidas de um passaporte para passarem pela fiscalização especial. Aqui, chamo o laudo de passaporte. Na maioria dos casos, a família busca um neuropediatra que irá definir um diagnóstico, transcrevê-lo numa folha de papel timbrado, carimbado, assinado e daí se consegue o visto para ingressar no ambiente tão sonhado, a escola! Eita, que é uma via sacra!

É deste modo que crianças como Miracema ganham estatuto em seu ambiente de sonho social. Pesado, não é? Não é fácil a infância desses pequenos estrangeiros em terra de quem pensa que ter olhos é rei. Ainda assim, algumas muitas não deixam de ser estrangeiras, mesmo conseguindo o visto, o passaporte, o laudo, o ingresso na escola.

Miracema não teve muita sorte na escola lá das Oliveiras. Sua professora é figura chata e desiste fácil dela. Mas Miracema resiste, como tantas crianças têm resistido à dureza da vida, da solidão, da incapacidade que alguns adultos têm de compreender a infância como um lugar de singularidades. Miracema resiste ao estrangeirismo, ao laudo, ao passaporte vencido, aos miasmas que a afastam das outras crianças.

Não creio que as crianças se afastem de meninas ou meninos como Miracema, que falam um não falar, escrevinham o que querem dizer, e rascunham suas vidas com garatujas que parecem incompreensiveis para alguns, mas que fariam Juan Miró chorar de emoção. Não creio que crianças sejam cruéis a ponto de desprezar crianças como Miracema. Creio que existem adultos legais que transmitem às suas crianças a beleza das diferenças, a beleza de ser singular e estar no mundo. E que o estrangeirismo seja palavra mesmo incompreensível na prática, como alguma coisa desértica, sem lugar e sem tempo.

Contatos:
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Espaço Grão, Rua. Silva Paulet, 3087
(85) 98699 6882 / 3227 6868

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Para saber mais sobre a obra

Miracema do Ceará
Autora: Fabiana Azeredo de Oliveira
Editora: Premius, 2016.
Você encontra na Livraria Cultura

 

 

Sorteio

O Vida Ciranda está sorteando a obra Miracema do Ceará, autografada pela autora, nesta semana (21/8 até 27/8). Acesse nosso Instagram @vidaciranda para concorrer a este livro lindo demais!

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