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Mulheres empoderadas pela educação e pela maternidade amparada por meio das empresas onde trabalham

REPORTAGEM II
MATERNIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO

 

Ela casou bem jovem com o homem que lhe despertou o coração, parecia bom. As filhas chegaram logo e as responsabilidades com a casa, com o marido, com as crianças não permitiram que o Ensino Fundamental fosse concluído.  Precisou também trabalhar para complementar a renda. O sonho do casamento foi virando pesadelo. O marido batia nela, nas meninas, deixava faltar comida na mesa. “A gente tinha uns sete anos de casados, quando ele me deu uma surra grande. Ali, eu decidi que aquela seria a última. Peguei minhas filhas, fomos embora. Criei sozinha. Foi um sofrimento só, foi difícil demais, mas sobrevivemos”, relembra Francisca Cleide Oliveira da Silva, 59.

 

Ainda no mercado de trabalho, o semblante da  dona Cleide só muda quando ela fala sobre os dois grandes sonhos realizados nesses anos mais recentes: a aquisição da casa própria e a conclusão do Ensino Médio. Este último, principalmente, só foi possível para ela porque os estudos foram realizados na própria empresa em que ela trabalha, há quase 20 anos. Dona Cleide descreve uma trajetória de incompreensões, antes de se sentir mais acolhida em um ambiente de trabalho. “Já fiz de tudo na vida. Para onde eu ia, não podia nem dizer que eu era mãe porque eu ouvia que o problema era meu, que o patrão não tem nada a ver com isso. Nunca tinha visto em canto nenhum o tratamento que eu tenho aqui”, diz.

 

Quando dona Cleide chegou à empresa atual, Amêndoas do Brasil, recebeu apoio como avó já. Cuidava da neta para a filha mais velha trabalhar. Foi na empresa que encontrou psicóloga e assistentes sociais “para me dar conselhos”, médicos para fazer exames de prevenção, palestras sobre cuidados consigo e com a netinha, sobre controle financeiro, curso de informática e escola. Ah, a escola e aquele sonho de virar enfermeira! Na empresa onde ela trabalha, há uma escola mantida em parceria com o SESI (Serviço Social da Indústria), especificamente para os funcionários. O sonho da  dona Cleide sempre foi cursar enfermagem na faculdade, mas não tinha tempo nem para concluir o Ensino Fundamental, trabalhando o dia inteiro. Quando a neta ficou maiorzinha, e com o incentivo dos colegas de trabalho, voltou à sala de aula.

 

 

“Ah, certamente, eu não teria voltado a estudar se fosse pra ir pra uma escola normal. Aqui, o horário é diferente, a gente não pega ônibus lotado, já fica aqui depois do expediente e acaba em um horário que é cedo ainda pra voltar pra casa. É bom demais!”, se alegra. Quando perguntada sobre o local de que mais gosta na empresa, nos leva para a sala de estudos, onde funciona uma pequena biblioteca, aponta os livros que mais gosta de ler e, com olhar fixo na capa de um deles, resume o valor de conseguir sonhar agora com a “faculdade de enfermagem dos meus sonhos”, depois da aposentadoria que está bem pertinho de chegar.

 

“Eu sempre entendi o valor da educação, mas não conseguia chegar perto desse sonho. Aqui na empresa, a oportunidade foi que chegou perto de mim. Acho que eu conseguir estudar é bom não é só pra mim, mas é um exemplo que eu quero deixar pras minhas filhas, pras minhas netas. E eu sou muito agradecida à empresa, né, pelos sonhos que eu realizei aqui, por conseguir me enxergar com mais valor. Pra muita gente, se aposentar é parar. Para mim, acho que agora é que a vida vai começar de vez. E eu sou muito grata aqui por isso”, comemora dona Cleide.

 

Alegria, acolhimento e informação durante a gestação

– Corre! O Grupo de Gestantes já começou!
– Já? Está  pertinho de duas e meia… – olho para o relógio em alusão à pontualidade do evento.
– Elas chegam cedo. São bem disciplinadas, querem tirar todas as dúvidas, aproveitar o tempo.
– O Grupo dura 1 hora?
– Não, a tarde inteira.
– Elas estão no horário de trabalho delas?
– Sim, mas no dia da reunião do Grupo são liberadas à tarde.

Da esquerda pra direita: Mariana, Fernanda, Lisivone, a enfermeira Juliana e Carolina

Meu encontro com um grupo de quatro grávidas da empresa Mercadinhos São Luiz aconteceu numa tarde de quinta-feira. A reunião do Grupo de Gestantes é realizada uma vez por mês. Naquela tarde, o tema foi cuidados com o bebê recém nascido. Elas mal me perceberam entrar, tão concentradas que estavam. A enfermeira Juliana Torres ouve e responde com cuidado todas elas, mostra vídeos, faz simulações com uma boneca, apresenta exemplos práticos. Depois do bate-papo inicial, uma pausa para o lanche que já está servido. Tem frutas, sucos, pães. Algumas aproveitam para esticar o papo com a enfermeira.

 

É a primeira gravidez da compradora Carolina Vieira, 35, que espera por Liz. Da operadora de caixa Fernanda Pires, 32, vai chegar o terceiro menininho da família, o João, que está sendo gestado há quatro meses. É também João o primeiro filho da operadora de caixa Lisivone Queiroz Martins, 33, grávida de 8 meses, já de licença maternidade. Tornar-se mãe também é novidade para a Mariana Aquino, 25. Ela não é funcionária da empresa, e sim o marido. Todas já trabalharam em outras empresas e reconhecem o valor do que viveram naquela tarde.

“É a primeira vez que eu passo uma gravidez mais tranquila, emocionalmente. Não planejamos. E isso me deixou muito fragilizada, até mesmo porque estou na empresa há bem pouco tempo. Quando avisei, me surpreendi com a alegria, o abraço de carinho e as felicitações dos meus chefes. Isso fez toda a diferença para aceitar este novo filho. Hoje, estou amando a chegada dele, eles me ajudam e me preparam”, nos conta Fernanda. Durante a primeira gravidez, Fernanda não trabalhava e a preocupação vinha com os custos que o bebê iria lhe trazer. Na segunda gravidez, já estava no mercado. Sofreu com assédios morais de chefes que sugeriam a insatisfação pela fase que ela vivia. “Não facilitavam minha vida. Não deixaram nem eu fazer chá de fraldas na empresa, precisei alugar um espaço fora e convidar os colegas que me davam apoio”, lamenta.

 

Mariana curte a chegada do primeiro filho, acolhida pela empresa onde o marido trabalha, depois de um pedido de demissão traumática que ela se viu obrigada a fazer

 

Algo parecido aconteceu com a Mariana. Promotora de vendas de uma rede de supermercados, pedira demissão há pouco tempo porque não aguentou a pressão que passou a sofrer depois que comunicou à chefia da gestação. “Eles mudaram minha função pra uma que exigia muito mais esforço meu, mudaram minha rota, me colocaram para trabalhar em uma loja mais distante em que eu pegava mais  ônibus. Tentei conversar com eles várias vezes, mas o estresse estava tão grande que eu reswolvi sair  para ter uma gravidez mais tranquila. Eles forçaram meu pedido de demissão. Pra mim, foi bem traumático”, relembra com tristeza.  Hoje, ela e o filho recebem os benefícios como esposa de um funcionário.

 

Quem cuida do Grupo de Gestantes do Mercadinhos São Luiz, existente já há 20 anos, é a encarregada pelo setor de Qualidade de Vida, do RH da empresa, Juliana Sena, com quem tive o diálogo inicial deste texto. Ela nos explica que o projeto é parte de um conjunto de ações voltadas para famílias e filhos da empresa. “Há orientação pré-natal, oficinas, palestras que focam não apenas nos cuidados com o bebê, mas cuidados com a mãe, biológico e psicológico também. Tudo sem falar nas flexibilizações de horários.. é um olhar diferenciado que a gente lança às mulheres. A gente está implantando agora os encontros de pós-parto, para que elas possam vir, confraternizar, tirar as dúvidas que já vivem na prática, trazerem os bebês”, enumera Juliana.

 

Carolina atenta às explicações da enfermeira. “Nos faz querer ser sempre melhores aqui”.

 

Tanto cuidado, traz recompensas para os objetivos também de rendimentos das funcionárias.  “ A gente trabalha com tranquilidade, com certeza. E Feliz, sabe. É diferente. A gente percebe que a empresa vive a felicidade da gravidez junto com a gente. Somos paparicas, isso nos cativa, nos faz querer ser sempre melhores aqui dentro”, resume Carolina.

A série Maternidade no Ambiente Corporativo
Terceira

As empresas cearenses Amêndoas do Brasil e Mercadinhos São Luiz sâo referências brasileiras de cuidado com as mulheres, com as mães e com as famílias. Conheça as rotinas de atenção que elas oferecem às funcionárias na terceira matéria da série Maternidade no Mercado Corporativo, que será publicada nesta semana.

Ontem

Ontem, na primeira reportagem da série, conversamos com a fotógrafa Karine Andrade, mãe de duas meninas, a mais nova, Alícia, de 6 anos, é portadora de cardiopatia congênita. Recentemente, ela passou por um processo de demissão delicado que envolveu sua maternidade.  Leia aqui

Roda de Conversa Maternidade e Mercado de Trabalho 

Vamos nos encontrar presencialmente? Será amanhã, dia 16, às 18h30min, na Transforme Coworking (Rua Barbosa de Freitas, 1035, Aldeota). Leve suas dúvidas, experiências e sugestões para compartilhar conosco! Vamos melhorar as condições nas mulheres mães no ambiente de trabalho.

 

Na ocasião, também haverá uma exposição cultural com fotos da fotógrafa Karine Andrade, ouvida na primeira reportagem da série. Vendas no local com preços variados.

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