Com outros voluntários

“Nenhum discurso em casa, falando sobre solidariedade, substitui o que eles vivem aqui”

REPORTAGEM ESPECIAL CRIANÇA DE SER
SOLIDARIEDADE - PARTE 1

Tina soube que a vida poderia ser muito mais no limiar de uma possibilidade de ser menos. No meio do alvoroço de viver a notícia triste e toda angústia de um dia a dia incerto, desconstruíram-se verdades e significados de felicidade. A vivência de uma solidariedade real chegou para Tina quando a mãe dela encontrou-se portadora de um tumor cerebral, ainda em 2001. Como que pela fresta estreita daqueles sentimentos aparentemente inóspitos, de medo e vulnerabilidade, Tina se viu forte e transformadora. Transformada.

Lidar com o câncer da mãe sacudiu conceitos de alegria. Chegaram-lhe aquelas pequenas alegrias tão intensas, tão mais significativas. Tina conheceu mundos, até então distantes demais, mas que se aproximaram tanto que, em certo momento, foi difícil dissociá-los do seu. O filho mais velho nasceu nessa época e na preparação do primeiro aniversário do bebê Fábio, ela compreendeu “que a partir daquele ano em vez de ganhar presentes para comemorar a vida, eu tinha era que agradecer por estar bem, por estar viva”, relembra Tina Pamplona, 42 anos, comerciante, voluntária da Associação Peter Pan (APP) há 16 anos.

 

Tina, o Marido Fábio Queiroz, e os filhos Fabinho e Nina

Tina, o Marido Fábio Queiroz, e os filhos Fabinho e Nina

A primeira festa de aniversário de Fabinho, como é conhecido até hoje pelos corredores do Peter Pan, foi na Associação. Nada de presentes, a festa foi oferecida às crianças em tratamento. E assim são até hoje os festejos de Fabinho e também os da Nina, a filha de 6 anos. Não apenas as comemorações, a rotina da família inteira, desde então, passou a dividir-se pelos dois ambientes: casa e Associação. Tina é muito integrada à instituição, ela e os filhos vivem e convivem com os pacientes e as demandas do Peter Pan por, pelo menos, duas vezes por semana. “Não reconheço mais como caridade, meus filhos não se veem dessa forma, fazendo caridade, principalmente a Nina. Ela passa muito tempo aqui brincando com as crianças, acompanha o tratamento, já entende os limites até onde pode ir com as brincadeira e as ausências dos amiguinhos, em determinados dias; sofre quando essas ausências são ‘para sempre, mas compreende. A morte dói pra eles também, mas foco no valor da vida e em tudo que podemos fazer, sonhar e realizar, enquanto ainda estamos aqui. Foco no valor das pessoas, da saúde’”, compartilha a mãe Tina.

"A morte dói pra eles também, mas foco no valor da vida e em tudo que podemos fazer, sonhar e realizar, enquanto ainda estamos aqui. Foco no valor das pessoas, da saúde"

Aliás, de acordo com a Tina, um dos grandes retornos dessa doação, principalmente, de tempo à Associação, ela enxerga pelos olhos dos filhos. “Em um mundo tão individualista, tão egoísta, competitivo, de pessoas que buscam sempre ter mais, eu os sinto mais humanos. Me emociona vê-los preocupados com o que o outro sente, ajudando, doando o tempo que for necessário para que o outro se sinta melhor, entende?! Nenhum discurso em casa, falando sobre solidariedade para eles, substitui o que eles vivem aqui, quando, na maioria das vezes, nem o pai nem eu estamos perto. Eles vivem uma solidariedade que é natural, que é essência nossa, que deveria ser a prática de todos”, acredita Tina.

Aniversário de Nina, em 2016

Aniversário de Nina, em 2016

REPORTAGEM ESPECIAL CRIANÇA DE SER
SOLIDARIEDADE - PARTE 1

Tina soube que a vida poderia ser muito mais no limiar de uma possibilidade de ser menos. No meio do alvoroço de viver a notícia triste e toda angústia de um dia a dia incerto, desconstruíram-se verdades e significados de felicidade. A vivência de uma solidariedade real chegou para Tina quando a mãe dela encontrou-se portadora de um tumor cerebral, ainda em 2001. Como que pela fresta estreita daqueles sentimentos aparentemente inóspitos, de medo e vulnerabilidade, Tina se viu forte e transformadora. Transformada.

Lidar com o câncer da mãe sacudiu conceitos de alegria. Chegaram-lhe aquelas pequenas alegrias tão intensas, tão mais significativas. Tina conheceu mundos, até então distantes demais, mas que se aproximaram tanto que, em certo momento, foi difícil dissociá-los do seu. O filho mais velho nasceu nessa época e na preparação do primeiro aniversário do bebê Fábio, ela compreendeu “que a partir daquele ano em vez de ganhar presentes para comemorar a vida, eu tinha era que agradecer por estar bem, por estar viva”, relembra Tina Pamplona, 42 anos, comerciante, voluntária da Associação Peter Pan (APP) há 16 anos.

Tina, o Marido Fábio Queiroz, e os filhos Fabinho e Nina

A primeira festa de aniversário de Fabinho, como é conhecido até hoje pelos corredores do Peter Pan, foi na Associação. Nada de presentes, a festa foi oferecida às crianças em tratamento. E assim são até hoje os festejos de Fabinho e também os da Nina, a filha de 6 anos. Não apenas as comemorações, a rotina da família inteira, desde então, passou a dividir-se pelos dois ambientes: casa e Associação. Tina é muito integrada à instituição, ela e os filhos vivem e convivem com os pacientes e as demandas do Peter Pan por, pelo menos, duas vezes por semana. “Não reconheço mais como caridade, meus filhos não se veem dessa forma, fazendo caridade, principalmente a Nina. Ela passa muito tempo aqui brincando com as crianças, acompanha o tratamento, já entende os limites até onde pode ir com as brincadeira e as ausências dos amiguinhos, em determinados dias; sofre quando essas ausências são ‘para sempre, mas compreende. A morte dói pra eles também, mas foco no valor da vida e em tudo que podemos fazer, sonhar e realizar, enquanto ainda estamos aqui. Foco no valor das pessoas, da saúde’”, compartilha a mãe Tina.

"A morte dói pra eles também, mas foco no valor da vida e em tudo que podemos fazer, sonhar e realizar, enquanto ainda estamos aqui. Foco no valor das pessoas, da saúde"

Aliás, de acordo com a Tina, um dos grandes retornos dessa doação, principalmente, de tempo à Associação, ela enxerga pelos olhos dos filhos. “Em um mundo tão individualista, tão egoísta, competitivo, de pessoas que buscam sempre ter mais, eu os sinto mais humanos. Me emociona vê-los preocupados com o que o outro sente, ajudando, doando o tempo que for necessário para que o outro se sinta melhor, entende?! Nenhum discurso em casa, falando sobre solidariedade para eles, substitui o que eles vivem aqui, quando, na maioria das vezes, nem o pai nem eu estamos perto. Eles vivem uma solidariedade que é natural, que é essência nossa, que deveria ser a prática de todos”, acredita Tina.

 Aniversário de Nina, em 2016

A mãe de Tina morreu há quatro anos, mas lhe deixou o maior dos legados. “Compreendi com a doença dela o quanto nós precisamos do outro. Não é que eu fosse egoísta, ruim. Não. E a maioria de nós não é, claro, mas nós nos esquecemos do outro. A gente vive uma rotina tão corrida, diz sempre que não tem tempo para o trabalho voluntário, por exemplo, de que precisa trabalhar para pagar as contas, que nos esquecemos de ser mais humanos, de olhar o outro com mais cuidado. Para mim, que sou mãe, é a certeza de que estou formando seres melhores para conviver com respeito, com tolerância com o outro”, declara.

"Nenhum discurso em casa, falando sobre solidariedade para eles, substitui o que eles vivem aqui, quando, na maioria das vezes, nem o pai nem eu estamos perto. Eles vivem uma solidariedade que é natural, que é essência nossa, que deveria ser a prática de todos”.

Há bem pouco tempo, Tina fundou o JAPP (Jovem Amigo Peter Pan), voltado para formar e realizar ações solidárias pela atuação de jovens de 14 a 20 anos. “Foi pensando no meu filho e na geração a partir dele que eu montei o grupo. Quero muito que outros jovens possam viver o que eles vivem aqui. Eles precisam compreender que juntos eles podem muito mais que estando sozinhos, cada um preocupado com sua profissão, com a sua vida. Sozinhos, a gente não faz nada, não vai pra frente”. A ideia do grupo é também integrar a família: enquanto os adolescentes estão realizando alguma ação, as mães deles, por exemplo, também podem vir para conversar com as mães das crianças e dos adolescentes em tratamento, oferecer um abraço, uma palavra de esperança, ou apenas a companhia, estar perto. "Isso faz uma diferença enorme”, justifica Tina.

No último sábado, dia 30, Nina comemorou o aniversário de 6 anos. Como de costume, comemorou junto com as crianças da Associação Peter Pan. Outra criança dividia com Nina os motivos do festejos, um garoto muito conhecido e querido por todos na instituição. Há sete anos, ele vive a rotina de tratamentos contra o câncer. Diante da chegada dos nove anos do garoto, todos apressaram uma festa improvisada. Era preciso correr. Os médicos estão desanimados. Tina conta que Nina tem ciência de que o amigo pode virar estrelinha a qualquer hora. Nesta semana, Tina nos contou que não foi fácil, "mas foi tão mágico, um dos momentos mais emocionantes de todos os meus anos de Peter Pan", emociona-se Tina.

ASSOCIAÇÃO PETER PAN
Desde 1996, a Associação Peter Pan desenvolve ações de tratamento médico especializado, atendimento humanizado e diagnóstico precoce, fundamental à cura, que é disseminado em cidades do interior, por meio do Núcleo Mais Vida, com projetos de capacitação em sinais e sintomas para profissionais da saúde. Oferece apoio e assistência a crianças e adolescentes com câncer, e seus familiares. Atualmente, conta com 306 voluntários e 78 contratados. De acordo com a Associação, cerca de três mil crianças e adolescentes são atendidas.

Para ajudar como voluntário ou com doações:
Rua Alberto Montezuma, 350, Vila União
Contatos: 4008 4109 / 98892 0135
Site: www.app.org.br

O Especial Ser Criança é uma realização do site www.vidaciranda.com.br. Durante o período de 2 a 29 de outubro de 2017, diversos pais, cuidadores, professores, crianças e pesquisadores falarão sobre as temáticas Solidariedade, Brincar, Formação Cultural das Crianças e Inclusão em publicações diárias e semanais, no site e nas redes sociais do projeto:
Instagram: @vidaciranda
Facebook: @vidaciranda
Twitter: @VidaCiranda

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