Débora de Pinho_mural de flores

Projeto Rua Sustentável vem espalhando beleza e consciência ambiental pela rua Dom Sebastião Leme e aos seus transeuntes

Artistas: Thiago Meneses (Mãe Verde, à direita). Pais, estudantes (à esquerda).

Rua que acolhe rostos sisudos e pede outras chances aos sorrisos, ao encantamento, à contemplação, à poesia em rotinas tantas vezes desconcertantes. Rua que espalha cores, formas, sensibilidade, bom humor, humanidade. Rua como galeria de arte. Rua de cuidado, de afeto, de respeito. Rua sustentável. Desde o dia 29 de abril deste ano, a rua Dom Sebastião Leme, no bairro de Fátima, em Fortaleza, vem sendo emoldurada pelo carinho, impresso em muros, postes, praças e ações, a partir da iniciativa da psicóloga de educação infantil Rosane Limaverde, da Escola Vila que está localizada na mesma via.

Artista: Marina Soares

Também moradora do espaço, Rosane desejou algo além de um corredor de casas, prédios, comércios, com lixos espalhados e praça mal cuidada, no trajeto diário que percorre de casa ao trabalho. Desejou leveza pelo olhar e por boas práticas a quem trafegasse por ali, e mobilizou a comunidade escolar. A ideia foi abrigada na proposta pedagógica da instituição e se tornou projeto permanente.

Idealizadora da Pedagogia Ecossistêmica, a Escola Vila desenvolve, ao longo do ano, seis grandes projetos, em todas as turmas, do Infantil ao 9º ano: O Ser no Social, O Ser na Descoberta de seus Valores e suas Raízes, O Ser Natureza, O Ser na Tradição, Vigilantes do Planeta e Construindo um Mundo Melhor. O Rua Sustentável passou a trafegar por todos os temas e vai desaguar na última proposta do ano.

Dessa forma, diretores, coordenadores, professores, pais, estudantes e muitos moradores do bairro foram fisgados pela ideia de Rosane e, há quase cinco meses, aos poucos, muros e consciências vêm se transformando.

Artistas: José Nascimento e Fernanda Limaverde

Artista: Débora de Pinho

“Não é só para embelezar a rua, mas fazer com que os moradores se vejam como responsáveis, como cuidadores dela. Ações simples, como separar o lixo para a reciclagem e colocar em local adequado, já faz muita diferença. Isso tudo reflete, inclusive na segurança. A gente está implantando aqui, mas com vontade que outras pessoas em outras ruas possam também fazer parte dessa corrente”, convida Rosane.

Artista: Armando Syba

Até agora, nove grandes painéis já foram pintados por quinze artistas, além da colaboração de diversos pais e estudantes. Todos as mensagens distribuem amor, paz, esperança, reflexão e boa convivência Leme a fora. Boa parte dos artistas que colaboraram possui uma relação afetiva com a escola, como ex-alunos, pais ou não. Todos voluntários. A tinta utilizada pelos artistas foi doação das empresas Luva Materiais de Construção, localizado bem próximo à escola, e da Fortaleza Tintas.

Segundo a psicóloga, a ideia agora é também abrir à participação de outros artistas para que façam parte dessa galeria a céu aberto. É uma chamada ao pertencimento, à doação ao outro, à gentileza.

Artistas: Cris Graffiti, Wryel Mad, Luks Graffiti e Carlos Voik.

Artista: Raisa Lima Saraiva

"A gente está implantando aqui, mas com vontade que outras pessoas em outras ruas possam também fazer parte dessa corrente”, convida Rosane.

Artistas: pais, estudantes

"A ideia agora é também abrir à participação de outros artistas para que façam parte dessa galeria a céu aberto."

Artista: Thyago Nóbrega

Cuidado com a praça
Resíduos domésticos embalados sem distinção e postos na calçada sem atenção ao dia de coleta, cocôs de cachorros nas passagens sob a cumplicidade de donos menos avisados sobre a gentileza, montes de entulho e restos de poda jogados a esmo ou na praça São Cristovão, que medeia a via. Cenários que também incomodam a psicóloga e que serão alvos de campanhas educativas e convites ao maior envolvimento da população local para a limpeza e a manutenção.

Lixos na rua incomodavam a psicóloga Rosane Limaverde

No dia do lançamento do projeto Rua Sustentável, houve passeata ao longo de toda a via. Segurando a faixa, à esquerda, Rosane Limaverde

No dia em que o projeto Rua Sustentável foi lançado, a comunidade da Escola realizou um ato público na praça, antecedido por uma passeata ao longo de toda a rua. Além da plantação de mudas pelas crianças, as pessoas envolvidas na mobilização entoaram versos compostos pelo artista, pai da escola, Davi Silvino especialmente para o projeto que falam sobre o cuidar das árvores, a importância de fazer a coleta seletiva e de manter limpos os espaços de ir e vir. Na ocasião, houve uma ciranda de abraço pela praça. Nela, além de ter parquinhos e quadra para o lazer das crianças e adolescentes, abriga boxes de alimentação, mantidos pela comunidade local e que reforça o lugar como ponto de convivência no bairro.

O lixo é dos problemas mais graves e constantes, na praça São Cristovão. Onde deveria ser o estacionamento, bem próximo ao local onde as crianças brincam, pessoas colocam entulhos e lixos domésticos sem cerimônia, todos os dias. A dona de casa Liliane Dias, 28, mora nos arredores da praça e diz que não gosta de levar o filho de 3 anos para brincar no lugar por causa da sujeira. No dia em que o Vida Ciranda esteve no local, na última sexta, 8, havia também sobra de poda de árvores e restos de móveis de madeira.

Outro problema na pracinha é a manutenção dos equipamentos de lazer. A praça foi uma das que recebeu o projeto Praça Amiga da Criança, da Prefeitura de Fortaleza, há cerca de dois anos. A casinha de madeira das crianças, que existia antes dos brinquedos novos, está interditada há muito tempo, deixando falhas, ferrugens e pregos à mostra, riscos iminentes.

Pessoas em situação de moradia de rua são vistas comumente na pracinha.

Um dos próximos passos para chamar ainda mais a atenção das pessoas para os cuidados com a praça está a realização de um grande evento na manhã do próximo dia 30, sábado. O Feirão Solidário realizado mensalmente nas dependências da Escola Vila, acontecerá na praça. Conforme explica Rosane, haverá feira de trocas de roupas, livros, brinquedos; vendas de produtos orgânicos e artesanais a partir da economia solidária; atividades infantis como teatro e contação de história, e rodas de conversa sobre assuntos diversos.

Quando a história da vida e da rua se fundem
O Comerciante Carlos Ribeiro, 53, morador da rua dom Sebastião Leme “desde que nasceu”, vê todas essas movimentações com grande entusiasmo. Ele tem um mercadinho nas imediações da praça São Cristovão. Nutre grande carinho pela rua “onde meus pais moraram, que me viu nascer, onde casei, criei meus filhos e vivo feliz até hoje”. Entre lembranças da infância na área, ele nos conta sobre as mudanças por que a via tem passado, e a “necessidade de a educação das pessoas acompanhar o ritmo da modernidade”. “Não tinha essa ruma de carro, prédio alto não. Era uma calmaria. Minha lembrança mais forte aqui é das vacarias, dos pés de caju grande que a gente brincava em cima, tirava as frutas. Tinha muito terreno desocupado, muitas árvores. Olha, essa Aguanambi aí, era só vacaria, riacho e horta. Tomei muito banho nesse córrego do rio Pajeú. Agora, ninguém vê mais nem o canal, né?!”, diz Carlos emocionado.

Sobre o projeto, Carlos diz que todo dia aparece gente para lhe perguntar sobre. “Tô achando bonito. Todo mundo comenta, mas ninguém sabe direito ainda quem é que está fazendo”, interpreta. Segundo ele, campanhas educativas devem ser mais frequentes e sugere. “Tem que orientar o povo mesmo. É muita gente que não está nem aí. Tem que conscientizar esse pessoal. Ali na praça, eu acho que se botasse um container grande já resolvia muita coisa dessa imundície. É uma pena tão suja, porque é um local tão agradável pras crianças, pros adultos”, colabora Carlos.

SERVIÇOS:
Para participar do projeto Rua Sustentável
Escola Vila / Psicóloga Rosane Limaverde
(85) 3227 0551 / 99190 8778

Feirão Solidário na Praça São Cristovão
Dia 30 de setembro, às 8h30min.
Rua dom Sebastião Leme

Abaixo, confira o vídeo oficial do projeto Rua Sustentável. Letra e interpretação: Davi Silvino

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