Quando o medo intimida a esperança

Quando o medo intimida a esperança

Sempre fui pelos espaços públicos, espalho a importância de ocuparmos a cidade como maneira de também exercitar e inflar a cidadania. Incentivar famílias a desfrutarem, principalmente, das praças e dos parques, foi dos principais motivadores ao início do Vida Ciranda. Meus filhos vivem esse conceito desde bem bebês e não o faço apenas por eles, mas por mim. Sou da rua, do ser livre, do conversar com estranhos, do sentir e me emocionar com as histórias de desconhecidos, do ver acontecer. Acho que aprendi muito sobre vida externa na sorte de ter sido criada entre animais soltos, em uma natureza respeitada por seus ciclos de semeios e safras.

 

 

Meus sentidos foram estimulados desde cedo para o lado de fora, para o contato, o outro, o visível, o descoberto, a luz. Dentre tantas experiências, as que me chegam por lembranças de mais afeto são a bodeguinha que meu pai mantinha em casa e me possibilitou uma comunicação muito rica com o lado de fora do meu núcleo, as tardes de leitura atrepada nos pés de manga e cajueiro que me conduziam para uma visão além das copas das árvores - em que parecia que eu poderia alcançar o infinito só de olhar apertado, e a ansiedade de olhar para o céu todos os fins de tarde, esperando da luz da lua a autorização para ir brincar no terreiro. A morte da minha mãe, no fim da minha adolescência, ao mesmo tempo em que me pôs ainda mais para fora de casa, para fugir de recordações que machucavam, fortaleceu em mim a importância de viver a cidade intensamente.

 

 

Ainda que eu busque honrar uma trajetória de valorização de viver o mundo e as áreas públicas, por favor, me permitam confessar uma fraqueza que me dilacera por estes dias: venho sentindo medo pela alma rueira que tenho e por incentivar que outras pessoas possam se permitir também conquistar ruas, praças e parques com seus filhos; sofro ao imaginar, por segundos, uma vida fechada. Não, não por desacreditar que viver a cidade é necessário para que possamos construir crianças mais conscientes de si e do seu entorno, mas por temer a insegurança. Por favor, me perdoem. Por estes dias, o medo me chegou impiedoso. Acho que esse danado se valeu da minha condição de mãe, acertou minha fragilidade, tirou sarro da esperança e da coragem que me movem, riu delas, se achou um ‘sentimentão da porra’ e, que tirano(!), me fez questionar essências e bandeiras.

 

 

O medo me chegou, principalmente, pelas lágrimas de amigos inspiradores que me são exemplos de luta, de força, de ocupação, de resistência, de esperança; pelas palavras de receio que expressaram por terem vivido situações de intimidação à coragem, presenciado mortes e verem manchadas lembranças de alegria, liberdade e conquistas. O choro deles me doeu, ver no olhar deles aquele medo intruso e mal vindo, tentando encontrar morada, e ouvir deles “nunca tinha me sentido assim” me doeu profundamente. Passei dias bem mal.

 

 

 

Um dia antes da morte da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), havia conversado com meu marido sobre o temor de ser vítima do que tanto se combate. Isso, de fato, por minutos, me gelou, por favor, me perdoem falar em covardia em tempos que nos exigem tanta coragem.

 

 

Desde criança, ouço dos meus pais que sou teimosa. Em meio a tantos fatos e sentimentos que nos forçam a emudecer e desaparecer dos espaços públicos, repousa em mim uma resiliente esperança, essa criança serelepe e traquina que consegue sempre encontrar uma brecha nas prisões que nos paralisam. Ela é meu conforto e consolo, me reabilita. Grita em mim mais alto a esperança quando mães amigas me dizem que preferem criar os filhos fechados em condomínios e me vejo diante delas dizendo “vamos experimentar a pracinha do bairro”.

 

 

Porque mais presente que o medo em mim está a convicção de que se não fosse pela força dos que me inspiram, talvez eu não acreditasse tanto na beleza e na amplitude cidadã que movem minhas práticas. Eu creio que a morte dos que tombam em batalhas não finaliza ideais, mas eterniza com ainda mais vigor exemplos, sonhos e lutas. A consequência das lutas de esperança, pela paz e pela justiça, é a redução exponencial de tantas vidas que se perdem. Se aqueles que me inspiram me ensinaram tanto sobre espalhar força, resistência e alegria pela cidade não seria de bom tom retribuí-los com meu esmorecimento quando, por acaso, por alguns minutos, eles precisam de ajuda para retornar à arena. E voltam ainda mais fortalezas. 

 

 

 

Sei que tememos e que dói tanta violência e insegurança, mas reforço meu convite para vivermos a cidade. Não a abandonemos. Vamos pensar estratégias para estarmos mais juntos, mais unidos, para espalharmos alegria pela alegria, não pela vingança. Alegria pela vida. Claro, dar conta das variáveis que nos conduzem a esse sentimento de insegurança não depende apenas da nossa alegria na praça. Porém, à medida que estamos mais nas praças, estamos mais presentes, nos tornamos todos mais vigilantes, cuidadores, zelosos; criamos nos nossos filhos a consciência de que aquele espaço também é deles e nem precisamos falar isso explicitamente. Não há aquele que queira ver abandonado o espaço em que possui tantas lembranças de amor, de amizade, de alegrias, de gentilezas. É na infância que construímos as principais justificativas de quem seremos mais tarde. Afastar as crianças do conviver com a cidade significa afastar da sociedade inteira, de hoje e de amanhã, alguma chance de paz social que possamos ter um dia. Porque, há aí também outro desejo: a de que a minha força e a esperança também possa ser inspiração aos meus filhos. 

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