Por mais salas de cinema adaptadas às crianças!

Quando eu levei Gabriel ao cinema pela primeira vez, ele tinha pouco mais de 3 anos. Ele sempre adorou filmes. Acho que como boa parte das crianças. E sempre foi barulhento enquanto assiste. Gosta de vibrar com as conquistas dos heróis, de soltar gritos ou interjeições de surpresa, de comentar as cenas que mais o empolgam, de gargalhar diante da graça inesperada e dos sustos dos personagens. Acho que como boa parte das crianças.

Sabendo que a experiência de cinema é diferente da experiência de assistir a um filme no sofá de casa, cuidei para escolher um filme sem cenas muito fortes, sem elementos que pudessem impressionar demais ou que mexessem em algum assunto mais delicado. Preferi escolher um filme continuação, em que ele já conhecesse os personagens para gerar mais engajamento e conforto no ambiente diferente. Naquela idade, ele conseguia assistir num boa um filme inteiro. Cheguei ao cinema determinada a lhe assegurar um pontapé inicial bem bacana no clima da sétima arte. E a ordem era o deixar à vontade para expressar as emoções que aquela experiência lhe trouxesse. Minha premissa, claro, não seguia as regras de um cinema para adultos.

Nós 🙂 Foto: Helaine Oliveira / FAZ

Logo de cara, o escuro o incomodou e ele preferiu estar no meu colo a ocupar um assento sozinho. Quando o filme começou, diante das manifestações do Gabriel, fomos “lembrados” da necessidade do silêncio, diversas vezes. Não apenas. Eu também o precisei conter nas inúmeras vezes em que ele levantava e pulava. Ele sempre olhava para mim e dizia um magoado… “Own mamãe”. Ainda assim, fomos outras vezes. Gabriel curtia, cada vez mais “comportado”.

Pois bem. Ontem (15), vivenciamos a primeira vez do Lucas no cinema. Ele tem pouco mais de dois anos. Gosta de filmes tanto quanto Gabriel. E é tão animado quanto o irmão durante a exibição. A oportunidade surgiu pelo convite carinhoso de uma amiga. Tratava-se de uma sessão adaptada para crianças autistas. A ideia inicial era eu ir sozinha porque se tratava de uma vivência profissional, como jornalista, mas não tive com quem os deixar e eles foram a tiracolo.

E como foi bom levá-los. E como foi bom me deparar com um clima de cinema para crianças como o que eu pensei que era, havia dois anos. Diante do encantamento com a tela tão grande, Lucas aproveitou bastante, expressou-se como quis, com a espontaneidade que é tão natural das crianças. Com a liberdade e a segurança que as luzes acesas do ambiente lhe confiavam. Se não houve repreensões? Sim, houve. Do Gabriel. Diversas vezes, ele tolhia o irmão dizendo que era errado falar ou rir alto, ficar em pé e pular. Olhava pra mim como se perguntasse: “Você não vai falar nada?” Eu o puxava com carinho para um abraço e dizia: “Hoje pode“. Ele resistiu àquela liberdade por um momento, mas logo se entregou a ela. E eu vi duas crianças assistindo a um filme com plenitude. Assim como o fazem em qualquer outra atividade. Aliás, vi um cinema lotado de crianças assistindo a um filme infantil. Curtindo, de fato. Sem diferenças de comportamento entre elas. Todas, crianças.

Enquanto eles assistiam, eu contemplava não apenas crianças, mas pais confortáveis (eu, inclusive), curtindo o cinema junto, sem tensões de certas regras que, no fundo, só condicionam nossas crianças a padrões tão opressores. Por quê? Para quê? Acredito no limite necessário ao bem-estar delas, naqueles que lhes tragam confiança, autoestima, equilíbrio emocional, não em limites que tirem delas as características tão importantes e fortalecedoras de ser e estar no mundo como crianças.

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Sessão de cinema para autistas e a importância da equidade

Promover a inclusão é promover a equidade, é fazer com que todos se sintam em condições adequadas de serem partícipes de um processo, a partir de suas limitações, mas com foco no que cada um de nós, nenhum a menos, pode fazer e ser para colaborar e experienciar. Pela terceira vez, a Associação Fortaleza Azul (FAZ) promove, em parceria com Cinépolis e Shopoping Riomar Fortaleza, a sessão gratuita de cinema para autistas e seus familiares. A partir das 10 horas de amanhã, sábado, dia 15, será exibido, em duas salas adaptadas, o filme Meu Malvado Favorito 3

De acordo com Fernanda Cavalieri, presidente da FAZ, há a consciência de que não se trata de uma inclusão perfeita, já que é uma sessão separada de uma sessão convencional. “O que queremos é gerar confiança nas famílias. A maioria dos familiares de crianças com autismo tem medo de levá-las para o novo, porque tudo pode assustar numa sessão comum: o escuro, o barulho… não é inclusão essa separação, mas entendemos a sessão adaptada como um processo de adaptação mesmo e de segurança para estar em uma sessão comum”, defende Fernanda. Ela conta que pais que participaram das sessões anteriores já comemoram a ida mais tranquila a sessões não adaptadas.

Um segundo aspecto positivo apontado por Fernanda é a questão social. Na sessão adaptada, o acesso da família inteira da criança é gratuito.  Mãe de gêmeos com autismo, Fernanda explica que a maioria das famílias renuncia a ida ao cinema convencional, que não é uma diversão barata, porque sabe que a diversão pode acabar nos primeiros 20 minutos, porque a criança se assusta com algo, quer ficar em pé, ir pra perto da tela ou simplesmente perde o interesse e quer ir embora. “Na sessão adaptada, família e criança se tranquilizam, a criança vai compreendo a experiência de estar no cinema e a família não precisa ficar contendo a criança com medo do que o outro possa dizer. “, destaca Fernanda.

O terceiro aspecto muito positivo é a troca entre as famílias. “O diagnóstico tem sido cada vez mais precoce, então famílias recém diagnosticadas têm acesso a outras famílias, com mais experiência e confiança nessa convivência com o autismo. Essa  troca, esse contato é muito bacana”, comemora Fernanda.

A iniciativa da FAZ me emociona e me entusiasma porque reconheço nela a sensibilidade real da equidade, aquela que devemos perseguir e que tantas vezes nos escapa quando agimos e falamos em prol da inclusão. Não se trata de favor, não se trata de cumprirmos um protocolo do politicamente correto, mas de assegurarmos direitos! Nestes tempos tão difíceis de desrespeitos aos direitos dos indivíduos e de desleixo com o cumprimento de deveres, a sessão adaptada e gratuita a autistas e familiares enaltece aspectos importantes do exercício pleno da cidadania. Promover equidade não é fácil. Mas o conviver em si não é. Caminhar junto significa o olhar constante para o outro com empatia e com sentimento de cooperação, significa olhar pra si como parte do mundo e não como o mundo inteiro em si. Porque se é para evoluirmos, evoluamos todos juntos, cada um com suas particularidades sim e não há este que não as tenha, tão diferentes. Somos diferentes. Este é o desafio da convivência. Esta é a riqueza das relações.

Cerca de 500 famílias são esperadas para assistir ao filme Meu Malvado Favorito 3, em duas salas com luz ambiente, som moderado e sem apresentação de trailers, como exige o público. Semelhante às duas outras sessões, que ocorreram em 2016, participantes poderão doar material escolar e de higiene pessoal que serão distribuídos para o Centro de Integração Psicossocial do Ceará, conhecido como Bem-me-Quer, localizado no bairro Praia do Futuro.

A FAZ está em atuação há 2 anos e 4 meses e já festeja grandes avanços por ações de conscientização do Trastorno do Espectro do Autismo (TEA), bem como de inclusão social. Entre as ações estão Uma Sinfonia Diferente – primeiro musical do Nordeste feito por pessoas com autismo, realizado em abril de 2016, e a participação no evento Ação Global, com a inserção de um stand sobre autismo em parceria com o SESI.

Serviço:
Sessão gratuita de Cinema para familiares e crianças com TEA
Data:
15 de julho – sábado
Horário: 10h
Local: Cinépolis Shopping Riomar (Rua. Des. Lauro Nogueira, 1500 – Papicu)