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A importância do carnaval na educação das crianças. Faz sentido?

Carnaval nos lembra alegria, fantasia, povo, rua. Remete-nos a brincar junto, todos juntos. Engaja-nos em um movimento cultural que tem em essência e força o coletivo, o público, o relacionamento, a convivência, a igualdade, a diversidade, a celebração da vida, a esperança. Há tradições e histórias de um povo, de povos, no carnaval. Há hinos, marchinhas e sambas em que a criatividade, a irreverência e o amor são cantados em expressão popular. Não à toa, há no carnaval muita importância para a infância.

 

LUKA SANTOS / G1 PERNAMBUCO

 

Bem antes de a igreja católica enquadrar o carnaval como evento pagão, na Idade Média, e limitá-lo ao pecado dos prazeres mundanos, a festa já existia para celebrar colheitas e farturas, louvar a natureza e subverter papéis sociais. Depois, à Europa do século XIX coube a difusão das máscaras e fantasias. No Brasil, o carnaval nos chegou pelos portugueses e sua manifestação inicial era o entrudo, praticado pelos escravos em brincadeiras de guerra de água, farinha e limões de cheiro. Após, tomou os salões das elites e se popularizou nas ruas pelos cordões, ranchos, marchinhas, afoxés, frevos, maracatus, escolas de sambas, trios elétricos. Preparar-se, vestir-se para o carnaval é, para mim, também vestir-se de uma consciência formada por fatores variados, destaco aqui apenas quatro deles, ligados aos valores que considero importantes que cultivemos desde pequenininhos: o coletivo, o significado da fantasia/personagem, o espaço público e a cultura popular.

 

 

Quando levamos as crianças para brincarem o carnaval, com todos os cuidados e cautelas que já descrevemos noutro postvalorizamos o coletivo, a convivência, o relacionamento com o outro. Valorizamos a igualdade, em que o riso dispersa barreiras e a união vem pelo canto, pela música, pela dança, pelo brincar. Não há diferenças, há diversidade. E há muito respeito implícito e explícito aí.

 

 

Nestes tempos em que o fantasiar-se está sob intervenções, acredito que tudo está na maneira como conduzimos a escolha do personagem na nossa própria consciência e como espalhamos essa consciência, principalmente, às nossas crianças. Na última semana, joguei o questionamento na minha timeline e uma amiga respondeu dizendo que estava confusa porque tinha escolhido fantasiar o filho de pescador, mas em nenhum momento pensou estar desrespeitando a profissão. Ela, menina de praia, de sol, de mar, que reverencia a rotina e a riqueza do litoral, no dia a dia dela com a família, quis vestir o filho de valores que extrapolam as vestimentas. É no conceito dela que eu também acredito. Se eu me fantasio de Frida Kahlo, é minha homenagem a Frida, meu jeito de engrandecê-la em mim e a partir de mim.

 

 

 

Escolher o local da festa também me inquieta. Sei, tenho toda consciência da insegurança que nos ronda. Neste ano, enquanto acompanhamos, amedrontados e acuados, os números crescentes de violência, vimos experimentando a multiplicação dos festejos de carnavais nos shoppings, especialmente, os infantis. Ainda assim, eu sou pelo espaço público. Por favor, não me levem a mal, não faço mimimi, não sou radical, mas não me permito ser refém do medo. Minha compreensão passa pelo viver positivamente a cidade e me permitir isso, pelo experimentar a igualdade, a diversidade, a brincadeira, a cultura e o coletivo, tendo sob os pés chãos que contam a minha história, arredores que fazem parte da minha identidade enquanto ser social. Falo sobre o direito das crianças à cidade, sobre o fortalecimento da cidadania delas, de elas conhecerem suas belezas e seus problemas, o que se aproxima de vivências humanas e empáticas. Falo sobre a criação da memória afetiva e o cultivo, desde cedo, de um sentimento de pertencimento ao que é dela, de fato, ao que está e estará sob os cuidados de preservação e sob a responsabilidade e o compromisso dela para valorizar e intervir. O afeto move mudanças. 

 

 

A cultura popular acaba perpassando os fatores já citados e mais: o carnaval acolhe e mesmo revela ao mundo as diversas manifestações de uma heterogeneidade cultural que é da nossa formação, que deveria existir em harmonia, dialogada. Seja pelos folguedos, maracatus, axés, toadas de boi, blocos de rua, escolas de samba, trios elétricos... quando contemplamos os desfiles ou participamos deles, com ou sem fantasia, quando ouvimos, compartilhamos músicas e danças, estamos vivendo uma cultura rica que se reúne ali. Independente se concorda ou não com esta ou aquela manifestação, ao vivermos a diversidade com respeito, no carnaval, ensinamos às crianças, pelo exemplo, que existem visões de mundo variadas e que o respeito faz de nós seres de bem (con)viver. A força do ensinar a respeitar tem efeito semelhante ao exigir respeito dos outros. Brincar o carnaval tem sido uma forma de também resistir a tantas intolerâncias. E existir.

 

 

máscara carnaval

10 dicas e locais na cidade para viver o pré-carnaval com as crianças

FÉRIAS DE BRINCAR
DICA 26 - CURTIR O PRÉ-CARNAVAL

Eu sou pela diversão, pela alegria, pela gargalhada, pelo povo. Sou pelo que me faz história e me enche de memórias felizes. E tem tempo junto mais descontraído de viver do que carnaval ou pré-carnaval? Eu gosto! Para além da profanidade a que o significado original faz referência, eu vejo dias de alegria, de diversão, de cultura. Aqui em casa, com as crianças, são dias de inventar fantasias para dançar e brincar com os amigos. De poucas coisas elas gostam taaaanto do que se fantasiar e dançar, não é!? 

Pela cidade, há festas bem bacanas que são pensadas para as crianças. Prefiro as que acontecem em espaços públicos, que são gratuitas, democráticas.  No jornal O POVO de hoje, há um artigo meu que fala sobre o assunto. Eu o reproduzo completo abaixo.

Em blocos para as famílias ou pensados exclusivamente para as crianças, na rua ou em locais fechados, alguns cuidados são importantes para que a criança também possa curtir numa boa: 

1. FILTRO SOLAR
Boa parte das festanças que sugiro acontece pela manhã, ao ar livre. Não esqueça o filtro solar e o reaplique a cada 2 horas. Se a fantasia permitir, tente o uso do boné.  Ainda assim, não exagere na exposição das crianças ao sol, depois das 10 horas. 

2. HIDRATAÇÃO E LANCHES SAUDÁVEIS

Saia de casa munido de bastante água e frutas, acondicionados em um recipiente térmico, para oferecer as crianças de vez em quando. Evite alimentos de fácil contaminação, como embutidos (presuntos, salsichas e salames), maionese e molhos cremosos, principalmente, se for para comprá-los na rua. 

3. FANTASIA
Dependendo do local e do horário da festa, é preciso bom senso para que tipo de fantasia você pode combinar com a criança, para que ela use. Pense no bem estar  e no conforto dela, tente explicar isso a ela. Vestidos de princesa, cheios de saias rodadas, pesados, de tecidos quentíssimos ou fantasias de personagens e super heróis que vestem dos pés à cabeça, de tecido quente também, emborrachados, ou cheios de sobreposições, enfadam a criança rapidinho. Verifique se o cinto aperta, se o elástico incomoda, se a tiara machuca. Além disso, o excesso de suor pode causar brotoejas e roupas  desconfortáveis podem ocasionar dermatite irritativa nos pequenos.  Independente da fantasia, prefira tênis a sandálias ou chinelos. 

4. TINTAS E MAQUIAGENS
Não pinte rosto e corpo das crianças com materiais que não sejam específicos para elas ou tintas com base aquosa. Produtos inadequados podem causar alergia. 

5. MÁSCARAS, BALÕES, BRINCADEIRAS
Se for usar máscaras, verifique bem se ela está adequada ao rosto da criança, se não dificulta a respiração ou causa risco de sufocamento em determinadas situações. Balões e bexigas também precisam de olhares cuidadosos. Quando estouram, podem ser engolidos com facilidade e causar engasgos. Algumas brincadeiras, fantasias ou apelidos podem incentivar comportamentos agressivos ou desrespeitosos. Fique atento!

6. PERCURSOS DO BLOCO
Se optar por levar as crianças em blocos que fazem um percurso pela cidade, escolha os de percurso curto. Talvez, não seja uma boa levar crianças muito pequenininhas. Cinco nos é uma idade em que as crianças já curtem muito mais diversões assim. 

7. IDENTIFICAÇÃO
Mesmo em local fechado, acho importante colocar uma pulseirinha com nome completo da criança, nome dos pais/responsáveis e telefones. Converse com ela sobre o assunto, diga para que serve e como aquela identificação pode ajudá-la, caso ela se perca dos pais. Se a criança for maior, uma outra opção, além da pulseira, é marcar um local, um ponto de encontro para ela ir, sempre que perder de vista o responsável. 

8. SEGURANÇA
No dia ou no horário em que escolher estar com as crianças na folia, evite ingerir bebidas alcoolicas. Embalados pelo ritmo mais frenético das músicas e toda a agitação, muitas vezes, não nos damos conta que estamos passando do limite. Isso pode causar atenção reduzida aos pequenos, o que é um grande risco. 

9. SPRAYS DE ESPUMA, CONFETES, SERPENTINAS
Evite os sprays de espumas ou locais em que eles estejam sendo utilizados, para evitar alergias e ardências na pele e nos olhos das crianças. Caso você esteja preparando uma festinha entre os amiguinhos, prefira sempre confetes e serpentinas de papel a metalizados, que podem causar choques em contato com fios desencapados, que passaram despercebidos.  

10. LIMITES DE TOLERÂNCIA
Respeite o limite das crianças. Choros constantes, enjoos e birras podem ser sinais de cansaço e de que a festa acabou para elas. Respeite. Saia de casa sabendo que sair com crianças, principalmente, a locais de grande aglomeração, barulho e agitação significa, em alguns dias, despedir-se da turma um pouco mais cedo do que o esperado. Faça isso numa boa, afinal o que vale é a diversão que vocês já viveram intensamente juntos. Cuide das lembranças, promova momentos de alegria, de paz, de respeito, de amor. Eles vão para além do carnaval e conduzem recordações, aprendizados e exemplos pelo ano inteiro. 

SUGESTÕES DE LOCAIS DE PRÉ-CARNAVAIS PARA CRIANÇAS, PARA AS FAMÍLIAS
SÁBADO, DIA 20
Iracema Meu Amor (família)
Local: Avenida Monsenhor Tabosa, entre as ruas Gonçalves Ledo e João Cordeiro
Horários: 16h às 20 horas.
Atrações: Banda Pacote de Biscoito, Bloco Bons Amigos e Convidados

Espaço Mais Infância Ceará
Local: Praça Luíza Távora 
Endereço: Avenida Santos Dumont, 1589
Horário: O Espaço abre às 14 horas e a programação na Praça começa às 18 horas. 
Atrações: Banda Só Alegria

 

DOMINGO, DIA 21
Iracema Meu Amor (infantil)
Local: Passeio Público
Endereço: Rua Dr. João Moreira, s/n, ao lado da Santa Casa de Misericórdia, Centro
Horário: 9h às 11 horas. 
Atrações: Banda Só Alegria e Banda Pacote de Biscoito

6º Sivozinha Folia (infantil)
Local: Casa José de Alencar 
Endereço: Av. Washington Soares, 6055 - José de Alencar.
Horário: 9h às 12 horas. 
Doação: Uma lata de leite em pó
Atrações: Alê-grando Recreação, Trupe Sorriso e Descoladinhos Mix

Bloco Baixaria (Baixinhos do Mincharia) - (Infantil)
Local: Largo Mincharia
Endereço: Rua dos pacajus, 5, Praia de Iracema
Horário: 16 h às 19 horas. 

 Artigo completo sobre a importância de vivermos a cidade, no carnaval e noutras épocas
Aqui, link para matéria do O POVO, publicada hoje (20/1/18).


O dia a dia das crianças tem sido cada vez mais limitado a locais privados. As famílias têm escolhido os condomínios fechados para criar os filhos e o lazer direcionado aos apelos consumistas dos shoppings.

Nesses tempos em que estamos trocando história e memória por roda-gigante, em que nos fazemos apáticos a áreas verdes sendo reduzidas, espaços culturais sendo fechados e festas populares, tão de rua, tão democráticas em essência, sendo transferidas para os shoppings, é bom refletir sobre o conceito de cidadania que queremos que os nossos filhos aprendam. Cidadania responsável é conviver com empatia. Não há empatia se não conhecemos. Se não conhecemos não há cuidado. Se não há cuidado há desprezo, há esquecimento, há apatia, há exclusão, há violência.

A violência é reflexo da segregação, da omissão. As crianças precisam conhecer a cidade, andar pelas ruas, conhecer suas belezas e seus problemas. Elas são cidadãs, não podemos negar às crianças o direito à cidade, a viver esse relacionamento que gera comprometimento, afeto e responsabilidade desde cedo entre elas. Quanto mais nos fecharmos, mais seremos coagidos, violados, resumidos. Viver a cidade é resistir, é subverter à maquiagem de “segurança e conforto” que querem nos empurrar goela a baixo; é ensinar às crianças olhares mais humanos de conhecer, de preocupar-se com o outro, olhares de cooperação, e não de individualismo. Sou mãe preocupada e zelosa também. Sou pelos carnavais nos espaços públicos!