Priscila e a mãe na fachada

A sustentabilidade que não apenas reflete o consumo, mas espalha alegria e transforma a cidade

“Tô ferrada!”. Foi a primeira frase que a empresária Priscila Noronha Freitas, 32, disse ao ver o espaço que o pai havia alugado e propunha a ela, naquele fevereiro, montar ali a loja de artigos femininos com que tanto ela sonhava. “Diferente, claro, de tudo que eu pensei. Era um lugar que estava abandonado fazia muito tempo, tudo era feio por fora e por dentro, tudo destruído: paredes, telhas, fachada... e tinha muito lixo em frente, no entorno”, relembra. Ainda assim, Priscila resolveu apostar na ideia do pai.

Prestes a se formar em Administração, ela arregaçou as mangas e, com a ajuda dos pais e dos três irmãos, ousou, reinventou, descobriu, se encantou. Transformou abandono em presença, cinza em arco-íris. Com a ajuda da mãe, fez, do lixo, reflexão e consciência ambiental para a comunidade dos arredores. Pelos ensinamentos do pai metalúrgico, criou sensibilidades e belezas para decorar, escreveu novo conceito, construiu identidade. Pelos cuidados e olhares da tia, dona de um galpão de reciclagem, fez parte do antigo casarão abandonado, no bairro Joaquim Távora, na esquina da avenida Visconde do Rio Branco, com a rua Abaiara, uma marca de sustentabilidade e capricho, por inteiro: o seu Casarão Bazar & Brechó.

O espaço foi alugado em fevereiro de 2017. Os pais de Priscila trabalham com metalurgia há muito tempo, na esquina do mesmo casarão, com entrada pela rua Lauro Maia, oposta ao ponto alugado para a filha. Logo depois do contrato fechado, a metalúrgica cresceu um pouco mais e ocupou metros quadrados ao lado do que iria ser a loja da Priscila.

 

Vigilância do lixo
Um mês depois, a família preparou um almoçou de comemoração pelo aluguel, afinal a metalúrgica cresceu e a filha única da família ganhara um espaço para montar seu sonho. Foi quando se deram conta “da podridão, do tanto de rato, da sujeira. Foi aí que nossa luta começou”, destaca dona Angeleide Noronha, 54, mãe da Priscila. Todos se envolveram na transformação do lugar: enquanto o marido e os quatro filhos se dedicaram à reforma da estrutura, dona Angeleide assumiu a “vigilância do lixo”.

 

 

Ela conta que o caminhão do lixo passa em dias específicos, durante a semana, mas o pessoal ainda o largava de qualquer jeito em dias errados, o que causava mau cheiro e atraía ratos, baratas e outros bichos. “Todo mundo culpava o galpão de reciclagem pelos ratos, pelas baratas. Não, a reciclagem é limpa, organizada. As pessoas não se tocavam que eram elas mesmas as culpadas”. Foi o primeiro comportamento que dona Angeleide buscou não apenas mudar, mas conscientizar.
“Não adiantava nada dizer que era errado, que não podia, eles vinham colocar de madrugada, chegava era carro pra descarregar entulho e lixo na esquina”, conta. Ela resolveu ser mais radical. “Eu me sentei para vigiar e dizia: se botar o lixo eu te denuncio”. Dona Angeleide começou também a correr a vizinhança para conversar sobre a importância de não colocar lixo naquela área, e até a dormir no galpão, com ouvidos bem atentos, a fim de reprimir comportamentos que ignoravam toda a campanha que a família vinha fazendo.

 

 

A loja abriu as portas no agosto seguinte. Já em funcionamento, ainda assim, vinham carros despejar lixo. “E a mãe ia pra confusão mesmo. Ela virou a referência aqui, a cuidadora da rua. Depois, os próprios vizinhos começaram também a vigiar. Não foi fácil. Ainda não é, porque tem gente que ainda bota de tudo que não presta aqui”, relata Priscila. “Mas graças a Deus, estamos conseguindo”, emenda dona Angeleide.

 

 

Loja sustentável
À medida que os ratos e as baratas iam embora, chegavam as cores, as flores, a beleza. Depois de uma super transformação na estrutura, chegou a hora de decorar, de dar uma identidade ao lugar e Priscila contou com a tia, proprietária de um galpão de reciclagem ao lado. Ela conta que tudo, desde os manequins, passando pelos móveis, objetos de decoração, quadros, etiquetas das roupas, papel de parede, tapetes, até os acessórios que os manequins usam e s sacolinhas de os clientes levaram as mercadorias são retirados de materiais que chegam à reciclagem, em meio a buscas incansáveis, procuras nos carros dos catadores de rua e sob sugestões da tia. Depois de lavados, pintados, customizados, repaginados, os objetos passam a integrar a decoração do brechó.

 

 

Do lado de fora da loja, não é diferente. Há flores e vegetais ornamentais plantados dentro de pneus coloridos que recebem com alegria os clientes. Para a época de carnaval, Priscila acrescentou guarda-chuvas de todas as cores para enfeitá-los ainda mais. E há uma charmosa manequim com roupas alegres chamando a atenção de quem passa pela avenida Visconde e se surpreende com a mudança que aconteceu no local.

 

“Nossa! Eu achei demais. Passo aqui todo dia e fico admirada com a transformação. É muita visão dessa moça porque apostar em um local tão marginalizado, que você não dava nada... e hoje está aí! Um exemplo, não é!?”, nos falou Marisa Pontes de Vasconcelos, 42, vendedora, passante cotidiana da avenida, caminho para o trabalho dela.

 

A parede que segue a lateral da rua Abaiara, próxima à entrada da loja, também ganhou atenção especial da Priscila. Ela mesma, com as sobras de tinta que encontrava no galpão da tia, pintou e encheu de imagens positivas o cinza sujo. “Tudo fomos nós que fizemos, que pintamos”, orgulha-se Priscila.

 

 

“O mais importante foi esse outro olhar para a cidade, o benefício para todo mundo que mora aqui perto foi maravilhoso. Por que quem é gostava de passar aqui todo dia e só ver lixo, coisa suja? Ninguém! Mas ninguém estava nem aí, botava, aí vem ela e a mãe dela e disseram não... trouxeram só beleza. Muito bem!”, comenta dona Teresinha de Castro Ribeiro, 67, moradora da rua Lauro Maia.

 

 

Para justificar o processo que moveu Priscila à reinvenção e a guiou pelos caminhos da sustentabilidade para dar forma ao sonho, ela fala da educação que teve em casa, destaca os valores sustentáveis que sempre guiaram a família, principalmente, para a reciclagem, para a reutilização.

 

 

“Meu pai sempre foi de CRI-A-ÇÃO (disse pausadamente, com bastante destaque). Nossa! A palavra criação é a boca dele. Na nossa casa sempre teve um quartinho de bugigangas que ele acumula porque diz que de algo que não se quer mais dá pra criar outra coisa. Quando vejo uma ideia de customização na internet, por exemplo, ele vem e me diz: veja mas tente criar do seu jeito, crie. Ele não gosta de cópia, diz que a gente tem apenas que se inspirar. Acho que é muito dentro daquela concepção de fazer acontecer com o que se tem, não é? Somos de uma família pobre, sempre fomos incentivados para a reutilização, então isso nos deu uma criatividade imensa, e meu pai é muito assim”, descreve Priscila.

 

"Para justificar o processo que moveu Priscila à reinvenção e a guiou pelos caminhos da sustentabilidade para dar forma ao sonho, ela fala da educação que teve em casa, destaca os valores sustentáveis que sempre guiaram a família, principalmente, para a reciclagem, para a reutilização". 

 

 

Paixão por brechós
Antes do casarão, Priscila trabalhou “a vida inteira” com pregão eletrônico, até o dia em que um comentário do chefe a fez refletir e pensar na possibilidade de abrir o próprio negócio. “Ele me disse: ‘você tem uma capacidade muito grande, mas não sabe usar isso ao seu favor’. Pensei: ‘como eu não vou usar isso pra mim, pra ganhar dinheiro pra mim?’ ”. Depois disso, saiu do emprego e montou uma loja virtual, chamada Pink Fashion Bazar, um ensaio para o que viria depois. “Já era com roupas seminovas. Eu já gostava de brechós! Fazia feirinha em todo canto, com as amigas, na família, com as minhas roupas, com as roupas dos meus irmãos, já tinha facilidade pra trocar, já conhecia a rede de pessoas de brechós pela cidade. Passava sempre os sábados e domingos em feirinhas por vários bairros. Fiz isso por dois anos”, conta Priscila.

 

 

Com essa experiência, a então estudante de Administração já vislumbrava ter um espaço físico. Claro, uma loja de roupas seminovas, como ela gosta de que sejam chamadas as peças. Apesar do susto inicial diante do desafio lançado pelo pai, não tardou em agarrar aquela oportunidade para tornar seu sonho real: um brechó todo pensado pelo conceito da sustentabilidade, como o seu produto já a sugeria. Assim, o ano de 2017, ela dedicou à organização da loja e ao término da faculdade. Nem o namoro de 5 anos resistiu à força do seu propósito. “Ele me perguntou se era o namoro ou o negócio. Claro que eu escolhi o meu negócio”, fala com o brilho nos olhos de quem não está arrependida.

 

A empresária Priscila e a decoração toda sustentável do Brechó, feita por ela. 

 

 

O produto que move Priscila é herança da mãe, que comprava roupas para a família “boas, de marca e por preços bem baratinhos”, o que a fez enxergar ali a chance de um negócio que a conectava com a própria essência.  "Sou apaixonada por brechós há muito tempo, 90% das minhas roupas são de brechó, acho que só não são as roupas de academia e as peças íntimas, biquínis. Lá em casa, a gente nunca teve besteira com nada. Pela influência da minha mãe, passei a ir sempre em brechós e, então, passei a ter um olhar mais clínico pras lojas e pro mercado, também como consumidora”, justifica.

 

 

 

O comércio de brechós
Como empresária, Priscila vê o comércio de roupas seminovas ainda envolto de muito preconceito, principalmente, em Fortaleza, mas reforça que é um mercado que vem se expandindo devido ao apelo cada vez maior de  se construir um mundo mais responsável em relação ao consumo. “Tudo é muito caro, hoje em dia. E as pessoas estão se conscientizando que não há mal algum usar o que já foi do outro. Tenho muita mercadoria que nem sequer foi usada, com etiqueta da loja original, porque a pessoa compra, mas depois não sabe direito com que combinar, abusa a peça e ela se perde no guarda-roupa. Quando chega aqui,  outro cliente se encanta e dá certo”, explica a dinâmica. E completa. “Eu adoro essa pegada de reutilizar, de criar, aprendo muito com as clientes, elas mesmas me ensinam muitas combinações de roupas”.

 

 

Alias, o que não faltam são clientes, de vários perfis. “Tenho clientes desde desempregadas que compram blusinhas de R$ 5, até advogadas, engenheiras, que vêm comprar roupas pra irem pras festas. Muitos são também professores, estudantes da faculdade [Maurício de Nassau, que se localiza ao lado do Casarão] e também pessoas que passam pela avenida e entram pela primeira vez. Se admiram, gostam, sempre voltam”, diz envaidecida.

 

 

A empresária explica que muito do sucesso do Casarão diz respeito ao novo conceito de brechó que vem se consolidando. “Cada vez mais as pessoas percebem que não é loja de coisa antiga, empoeirada. Toda semana tem novidades. Aqui, as pessoas encontram uma loja de qualidade, com preço justo, arrumadinha. Está como eu sonhei, agora, e todo dia está melhor porque todo dia eu tenho ideias para oferecer o melhor para o meu cliente. Eu me realizo aqui”, sorri.

... até a sacola, feita por Priscila, em que o cliente leva os produtos comprados

 

Priscila com a mãe, dona Angeleide

SERVIÇO:
O Casarão Bazar vende roupas femininas e infantis, de tamanhos variados.
Horário de Funcionamento: aberta todos os dias, de segunda a sexta, das 9h às 18 horas, e aos sábados, das 9 h ao meio-dia.
Endereço: avenida Visconde do Rio Branco, 2164, próximo à Faculdade Maurício de Nassau, esquina com a rua Abaiara. 
Primeira evento da Loja, que reúne pequenos produtores: Bazar Mix, dia 3 de março, das 8h às 13 horas.