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Saiba como participar da navegação pelo rio Ceará, no VC Experiência 2

Chegamos à segunda edição do Vida Ciranda Experiência trazendo um dos passeios mais queridos e solicitados por todos que nos acompanham: a navegação pelo rio Ceará. Trata-se de uma extensão de conhecimentos que trazemos do Ecomuseu do Mangue, em Sabiaguaba, durante a primeira edição do Experiência. Vamos passear por uma área também de Foz, com a abundante biodiversidade dos mangues. Será na manhã do dia 27 de maio.

 

Pier da Barra, durante maré baixa, nosso ponto de partida e chegada

Foz, encontro do rio com o mar

De blusa listrada, seu Alberto, proprietário do Albertu's Restaurante e responsável pelas embarcações em que navegaremos. Realiza os passeios "há mais de 20 anos". Ao lado dele, Davi, morador da comunidade da Barra desde que nasceu, um dos monitores do nosso passeio.

Ponte José Martins Rodrigues sobre o rio Ceará, que liga a faixa litorânea de Fortaleza às praias do litoral oeste

 

Na programação que estamos preparando, além de uma hora e meia de navegação (ida e volta da comunidade Guaié, em Caucaia), haverá conversas com moradores antigos da Barra do Ceará e com monitores, que vão nos explicar um pouco mais sobre a história do espaço, e passeio a pé por uma área de mangue, em um banco de areia conhecido pela comunidade local de Proa do Miguel, que, pela Tábua das Marés, deve estar à mostra, durante nosso trajeto. Nesta parada rápida, será possível interagir mais com a região, principalmente, com os caranguejos, seus principais moradores. Será possível banhar-se rio, caso os participantes desejem. Na Comunidade Guaié, um pouco mais à frente, vamos contemplar mais uma vista linda e degustar piabinhas assadas com suco enquanto batemos um papo com moradores do lugar, pescadores, também indígenas, sobre a atividade da pesca em si e a realidade local.

 

A taxa de participação individual é de R$ 45, com promoções para famílias acima de três integrantes, incluindo crianças de todas as idades. O valor refere-se ao ônibus ida e volta, lanche completo, acesso às embarcações, monitores contratados para nos contar mais sobre a história do lugar e auxiliar o grupo com dúvidas e necessidades ao longo do passeio, kit primeiros socorros de uso coletivo e degustação de piabinhas assadas com suco, na comunidade Gauié. Durante o trajeto no ônibus, haverá também sorteios e distribuição de brindes, além das primeiras orientações, principalmente, para os pequenos navegantes. Todas as crianças devem estar acompanhadas por seus responsáveis. Serão ofertadas somente 50 vagas que serão divididas pelos dois barcos contratados, com barqueiros e embarcações devidamente autorizados pela Capitania dos Portos.

Divulgação DN

Seu Alberto

 

O bairro por uma foz cheia de vida, de beleza e de história
Localizado no extremo oeste de Fortaleza, é um dos bairros mais populosos da Capital. A Barra do Ceará é o bairro mais antigo de Fortaleza, com 414 anos, considerado o berço de toda a nossa história, mais antiga do que mesmo a criação da cidade Fortaleza. A colonização iniciou-se nos primeiros anos do século XVII por Pero Coelho de Souza e Martins Soares Moreno, este eternizado também na literatura pelo escritor José de Alencar no romance Iracema, publicado em 1865. Do amor de Martins com a mais bela nativa tabajara nasceu Moacir, que, de acordo com a lenda, é o primeiro cearense mestiço.

 

Inicialmente, o capitão português Pero Coelho fez uma ocupação militar na barra do rio então Siará, onde construiu uma paliçada, e deu a esse pequeno forte de madeira o nome de São Tiago, primeira edificação das nossas terras, onde hoje se localiza o marco zero da cidade. A ocupação foi destinada à expulsão dos franceses, que estavam na serra da Ibiapaba. O português Martins chegou pouco tempo depois e rebatizou o local como Forte de São Sebastião.

 

Em 1637, chegam na Barra invasores holandeses que tomam o forte dos portugueses. Em 1644, os guerreiros dos povos nativos atacam os holandeses e acabam com a presença de invasores na Barra do ceara. O Forte Schoonenborch, que conhecemos hoje como a 10ª Região Militar, só iria surgir anos depois, na desembocadura do rio Pajeú, por uma invasão holandesa chefiada por Matias Beck. Logo depois, os holandeses entregaram-se ao portugueses, que mudaram o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Somente em 1726, com a instalação de uma vila à margem do rio Pajeú, próximo ao Forte, reconhece-se o início a cidade de Fortaleza.

 

Na década de 1930, a construção de um hidroporto  começou a dar ao bairro maior expressão no contexto de Fortaleza. Com a construção da avenida Leste Oste, na década de 1970, passou a integrar o circuito de bairros industriais da zona oeste. A partir daí, ocorreu também intensa ocupação das dunas da Barra do Ceara, como reflexo de uma demanda reprimida por habitação.

 

A ponte José Martins Rodrigues, inaugurada em 1997 pelo prefeito Juraci Magalhães, liga a faixa litorânea de Fortaleza às praias do litoral oeste. Possui uma extensão de 633, 75 metros e mede 20,2 metros de altura. O Cuca da Barra foi o primeiro Cuca construído, inaugurado pelo presidente Lula em 2009, como Cuca Che Guevara. Chegou para atenuar uma demanda de lazer e formação para a juventude local com a pretensão de atender 3.500 jovens por dia. À época,  foi considerado o maior equipamento cultural público da América Latina.

 

Nossa Experiência Inicial 
O Vida Ciranda navegou no rio Ceará pelo projeto Reconhecendo Fortaleza, em dezembro de 2017. É inesquecível, principalmente, para as crianças. Abaixo, você pode acompanhar como foi o passeio, a fim de ir se apropriando do muito que viveremos. Algumas pessoas fotografas também estarão conosco no próximo dia 27. 

Lucélia Souto

No trajeto, paramos um pouco em um banco de areia que fica à mostra, quando a maré está baixa. Nele, as crianças podem interagir mais com o espaço e com a fauna local, como os caranguejos, e mesmo com pescadores que costumam estar lá. 

Lucélia Souto

Logo depois da interação com o mangue, iremos à comunidade do Guaié. Estive na comunidade há duas semanas, para uma reunião com alguns pescadores sobre nosso passeio. 

Na foto, da direita para a esquerda, seu Alberto, seu Dantas (pescador, 63, nasceu e se criou na Barra e no rio Ceará), Leonardo (pescador, 39, morador da comunidade Guaié, quem vai nos receber. A esposa dele, Lúcia, índia tapeba, é quem vai assar as piabinhas para nós! Ela não estava no momento desta conversa), Sineudo, um dos monitores do passeio, nasceu e se criou na Barra e no rio Ceará, e eu.

Seu Dantas está disposto a explicar tudo sobre pesca, fauna e flora locais às crianças

Encontramos um balde cheio de caranguejos, na comunidade. Leonardo disse que pega para comer, mas também porque a filha Iasmim, 9 anos, gosta de brincar com os bichinhos. Quando visitamos a comunidade, Iasmim estava na escola

 

CONFIRA ABAIXO TODAS AS INFORMAÇÕES PARA PARTICIPAR DO VIDA CIRANDA EXPERIÊNCIA 2: NAVEGAÇÃO PELO RIO CEARÁ

 

Quando: 27 de maio
Embarque inicial no ponto de encontro ( a divulgar):7h30min.
Desembarque no ponto de encontro: 12h30min.
OBS: O local de embarque inicial e desembarque final será enviado por e-mail aos participantes com inscrição confirmada.

 

Programação:
7h30min: Boas vindas
7h45min: Embarque no ponto de encontro (local a divulgar)
8h30min: Chegada ao pier da Barra (Albertu's Restaurante)
8h40min: Lanche completo inicial
9h: Início da navegação
9h40min: parada no banco de areia, para interação com o espaço e fauna local, e banho para os participantes que desejarem
10 horas: Embarque para a comunidade Guaié
10h10min: Chegada à comunidade Guaié
10h40min: Embarque de retorno ao pier da barra
11h20min: Chegada ao Pier da Barra
11h30min: Lanche Complementar
11h40min: Embarque de volta ao ponto de encontro
12h20min: Chegada e desembarque no ponto de encontro (local a divulgar)

 

OBS: Não nos responsabilizaremos por atrasos. Começaremos pontualmente, para que as crianças possam aproveitar melhor a manhã

 

Quem pode participar?
O Experiência foi pensado para famílias com crianças a partir de 1 ano.

 

TAXAS

Taxa individual: R$ 45
Três ingressos: R$ 125
Quatro ingressos: R$ 165
Cinco Ingressos: R$ 205
A partir da sexta pessoa do mesmo grupo, o ingresso sai por R$ 40
OBS: Os participantes do Vida Ciranda Experiência 1 possuem 5% de desconto na taxa individual ou sobre o preços promocionais desta segunda edição

 

SERVIÇOS INCLUSOS
- Ônibus ida e volta
- Lanche completo
- Navegação por 1 hora e meia pelo rio Ceará
- Monitores
- Degustação de piabinhas fritas com suco na comunidade do Guaié
- Kit Primeiros Socorros (coletivo)

 

PAGAMENTO
1. O pagamento deve ser realizado por depósito ou transferência bancária na conta abaixo discriminada até o dia 23 de maio.
2. Logo após o depósito, favor encaminhar o comprovante com nome completo e idade dos participantes para o celular número (85) 98954 7374 ou email: sara.rebeca.ac@gmail.com.
3. A inscrição do participante estará sujeita à rejeição, caso o número de inscrição ultrapasse o número de vagas. Nesse caso, haverá a devolução do valor depositado.
4. A ordem de ocupação das vagas será organizada mediante ordem de chegada ao Vida Ciranda do comprovante de depósito e nome completo dos participantes. Assim, é importante que você envie o comprovante e as informações solicitadas logo que o depósito for realizado. Opte por se informar se ainda há vagas, pelos contatos mencionados acima, antes de realizar o depósito.
5. Não nos responsabilizamos pela ausência dos participantes, no dia do passeio, ou atrasos que ocasionem a perda do passeio. O dinheiro não será devolvido, sob estas duas hipóteses, por levarmos em consideração que todos os serviços foram contratados e a quantidade de lanche providenciada para o número de inscritos até o dia 23 de maio.
6. Caso haja necessidade de cancelamento prévio da participação, com as taxas já pagas, o dinheiro só será devolvido se a comunicação chegar ao vida Ciranda com 48 horas antes do dia do passeio (até sexta-feira pela manhã), pelo mesmo motivo citado no item anterior. 

 

Dados da conta
Banco: Caixa Econômica Federal
Agência: 1977
Operação: 013
Conta poupança: 4568-0
CPF: 622.527.043-49
Titular: Sara Rebeca Aguiar de Carvalho

 

OBS: Não serão aceitos inscrições e pagamentos realizados no dia do passeio, mesmo que a quantidade de vagas disponibilizada não tenha sido completada. 

 

 

ORIENTAÇÕES IMPORTANTES

 

Levar o mínimo
Organize-se para levar o mínimo ao passeio. É indispensável documento de identificação das crianças e dos responsáveis. Não ande com grandes quantias em dinheiro, apenas o suficiente para alguma emergência ou consumo extra ao oferecido pelo passeio.

 

Roupas leves, sandálias ou chinelos, acessórios, cuidados indispensáveis
É essencial ir com roupas leves, que possibilitem movimentos livres do corpo, como camisetas de malha fria e bermudas de tactel, de numeração adequada ao tamanho do corpo. Sandálias e chinelos também são indicados. Quem optar pelos tênis, importante saber que eles podem se molhar, além de dificultar a experiência de pôr os pés no chão do mangue, no rio. Acessórios muito indispensáveis: bonés e óculos de sol. Nunca esquecer: protetor solar.

 

O banho no rio Ceará
O banho não está incluso na programação, mas poderá ser realizado a critério do participante, quando pararmos em um local conhecido pela população local como Proa do Miguel, um banco de areia que aparece quando a maré está um pouco mais baixa. Pela Tabua de Marés, será possível pararmos para experienciar e contemplar do local.

 

Quanto à balneabilidade, na área da praia, a Semace contraindica o banho. Na área em que iremos estar, no rio Ceará, segundo levantamento realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, por meio do relatório Observando Rios, lançado em março de 2018, a área está própria para banho.

 

Clique aqui para saber mais sobre o local com balneabilidade condenada pela Semace, na Barra do Ceará. Você também pode baixar o aplicativo Semace Balneabilidade. Clique aqui para saber mais sobre o aplicativo.

 

Clique aqui para conhecer o relatório Observando os Rios 2018, lançado em março de 2018, pela SOS Mata Atlântica.

 

Garrafinha de água
Pedimos que todos levem suas garrafinhas particulares de água. Lá, teremos água para todos, a fim de reabastecermos as garrafinhas.

 

Primeiros Socorros
Teremos um kit coletivo de primeiros socorros com: tesoura, termômetro, luvas, anti-alérgico líquido (Polaramine) e em creme (Histamin) para ferimentos e picadas de insetos; anti-térmico e analgésico (Tylenol Criança), antisséptico (Kuramed), álcool em gel para limpeza das mãos, soro fisiológico, seringas, esparadrapo, algodão, band-aid, gazes, ataduras, lenços, repelente de insetos e cotonetes. Caso a criança ou o adulto não utilize algum dos remédios descritos e faça uso de uma medicação específica, não esqueça de pô-la na bolsa.

 

Lanches
Serviremos frutas, salada de frutas, aveia, granola, sucos naturais de fruta, sanduiches de pão integral com queijo branco, peito de peru, patê de atum e alface, e bolos. Ainda assim, fique à vontade para levar outra refeição, principalmente às crianças, que melhor seja aceito ao paladar dela. Prezamos por alimentação saudável, o mais natural possível.

 

O QUE É O VIDA CIRANDA EXPERIÊNCIA?
O Experiência é uma iniciativa do movimento Vida Ciranda, que pensa as educações e as infâncias de maneira questionada e questionadora, responsável, comprometida com o meio ambiente, com o outro e consigo através de seus atores. Utiliza-se como meio difusor de informações o jornalismo especializado nas duas áreas por este site Vida Ciranda, direcionado aos pais, às famílias. O site está no ar há dez meses. É conduzido por Sara Rebeca Aguiar, jornalista e professora há quase quinze anos, com formação nas duas áreas. Também educomunicadora, pesquisa a relação tecnologia, infância e literatura infantojuvenil.

 

Estamos na segunda edição do Vida Ciranda Experiência. A primeira aconteceu no Ecomuseu Natural do Mangue, no dia 21 de abril mais recente. Foi pensado a fim de incentivar a cidadania infantil desde cedo, no direito de que todas as crianças têm à cidade onde moram. Pelo Experiência, quer se estimular o tempo de qualidade entre pais e filhos, e criar vínculos afetivos e sentimento de pertencimento com o espaço onde vivem. Partimos da concepção de que ninguém cuida direito daquilo que não conhece ou que não tem qualquer laço afetivo, em que a história do lugar passe também por sua própria história.

 

O Experiência propõe passeios por Fortaleza e Região Metropolitana. Todos os meses, nas primeiras segundas feiras, é lançado um novo lugar que deve ser experienciado no último domingo do mês em curso. A taxa de participação varia de acordo com o local a ser visitado e o que será oferecido ao participante. 

 

Confira matéria produzida pelo jornal O POVO sobre nossa experiência no Ecomuseu Natural do Mangue:

https://www.opovo.com.br/jornal/cidades/2018/04/grupo-participa-de-aula-de-campo-no-mangue-do-rio-coco.html

 

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Fontes de pesquisa para referências históricas  nesta reportagem:

http://www.fortalezaemfotos.com.br/2011/03/bairros-de-fortaleza-barra-do-ceara.html

https://www20.opovo.com.br/app/colunas/opovonosbairros/2013/05/02/noticiasopovonosbairros,3049107/bairro-mais-antigo-de-fortaleza-tem-409-anos-de-historia.shtml

http://www.fortalezanobre.com.br/2011/03/barra-do-ceara-406-anos.html

Livro Fortaleza - de dunas andantes a cidade banhada de sol, do escritor Flávio Paiva. 

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Conheça a família que idealizou e dá vida ao Ecomuseu do Mangue

Ele já foi militar e trabalhou com publicidade e marketing, em grandes empresas, como Coca-cola, mas não se encontrou o suficiente nessas atividades para se sentir realizado profissionalmente. Desde o comecinho da vida adulta, tem do lado uma mulher forte, decidida a acompanhá-lo. Os dois são movidos pela certeza que os conduz, até hoje: o amor pela família, pelo motociclismo, pela liberdade, pela natureza, pelo mar. O alagoano Rusty de Sá Barreto, 56, e a pedagoga pernambucana Sineide Crisóstomo, 56, chegaram a Fortaleza no finzinho de 1993, já casados, com os três filhos: João Paulo, Rusty Júnior e Rayanne. Vieram para cá com o desejo de montar eventos para motociclistas, como rally, enduro, motocross e motorromaria. Moraram na Varjota, no Papicu, no Curió, até conhecerem Sabiaguaba. E se apaixonarem pelo lugar. E fazerem dele morada “para sempre”, a partir de 1998.

 

 

Inicialmente, Rusty conheceu quem ele chama de “Zé Tartaruga”, o nativo mais antigo que “ nos recebeu com muito carinho”, como conta. Logo, buscou uma casa para viver ali. Conseguiu um espaço pequeno, vendido pelo próprio Zé. Montou nele o que seria o primeiro bar da família, chamado de Pró-Sabiaguaba, “o bar para quem gosta de aventura sobre duas rodas, assim explicado por Rusty. Pouco depois, o bar recebeu nome em que já carregava os olhares diferentes dos donos para a região em que se instalaram: Barraca Econativos. Nesse começo empreendedor, os espaços foram pensados para reunir motociclistas e promover eventos direcionados a eles.

 

 

Passado algum tempo, já com restaurante bem estruturado e casa da família bem montada ao lado, o nome do local passou a ser Quatro Elementos, em alusão aos elementos da natureza: ar, água, terra e fogo. Tudo caminhava bem. O negócio era lucrativo. Foi quando aconteceu o que, para Rusty, significou a primeira sacudida real sobre qual o propósito da vida. A provocação veio de uma cliente ao perguntar a um dos garçons: ‘quem são os outros elementos? Eu só vejo aquele cabeludo e barbudo...”. Rusty diz que ficou em choque diante da pergunta porque se tratava de “uma pessoa aparentemente bem informada” e que pareceu algo pejorativo. Ainda assim, explicou que se tratava dos elementos naturais e a relação daquele espaço de lazer com todo o potencial científico-ecológico da região. Na verdade - anos depois, ele compreenderia melhor - era uma explicação para ele próprio. E a “ficha começou a cair”.

Rusty, Sineide e o neto Raley (arquivo pessoal)

 

"Um empresário sem missão ambiental" 
Naquela época, o Bar Quatro Elementos já era local bem frequentado e ele começou a perceber a falta de cuidado das pessoas com o espaço, por meio de maneiras preocupantes de agir. Dali, veio a percepção que para ele foi a segunda sacudida sobre o seu objetivo de vida. “Eu me dei conta de que as pessoas não conhecem a natureza, o ambiente, não tem consciência. E eu, apesar de acreditar em todos os benefícios do meio ambiente, tinha um bar igual aos outros, gerador de lixo, de impacto, um empresário sem missão ambiental, aproveitador do meio ambiente, colaborador da degradação da beleza do lugar”, lamenta. 

 

 

Rusty relata que o incômodo aumentava à medida que ele refletia sobre como o bar interferia na vida daquele ecossistema, o impacto dele na vida das tartarugas e dos caranguejos, por exemplo. “Muitos animais morriam pelo lixo que eu ajudava a produzir. Reconheci, naquela época, que o bar não estava mais atendendo as minhas necessidades pessoais, nem minhas, nem da minha família. E fechei o bar”, descreve.

 

Rusty, Sineide e os filhos Rusty Jr e João Paulo (arquivo pessoal)

 

A decisão pesou no orçamento da família. Mas Rusty, com o apoio de Sineide, não abriu mão, apesar do conflito que lhe chegou: como sustentar a família, a partir de então? Ele relembra que foi alvo de chacotas e críticas de alguns amigos e vizinhos, que comentavam: “Tu fechou o restaurante para cuidar da natureza? Tá doido!”. Mas nada os fez desistirem. Rusty diz que passou dois meses sem nenhuma atividade remunerada, depois do fechamento da empresa, mas começou a estudar, a pesquisar, a participar de seminários, cursos, viajar para entender melhor de que maneira eles poderiam estar ali, ajudando a conscientizar as pessoas. Fazia bicos, trabalhos soltos com marketing, publicidade para irem se mantendo.

 

 

Começou, então, um projeto de educação ambiental. Incentivo pelo amigo Ivan Oliveira, montou o Educar Sabiaguaba, em 2001, embrião do que se tornaria o Ecomuseu. “Até ali eu não sabia muito bem o que eu estava fazendo, não sabia direito o que responder quando as pessoas me perguntavam sobre o Educar Sabiaguaba. Sabia que eu estava mudando uma atitude. Fiz artesanato, permacultura, medicina natural, farmácia viva, me abasteci de informação e de capacitação. O Educar funcionava em uma barraca tradicional, sem muitos recursos, era tudo muito rústico. Dessa escola ambiental nasceu o que seria um primeiro ensaio do Museu do Mangue”. recorda. 

 

 

A museologia social e o nascimento do Ecomuseu
Paralelo a tanta mudança, Sineide trabalhava em alguns projetos da Prefeitura, como educadora, e dava aulas em escolas particulares. Mais para frente, passou a se dedicar ao projeto ao lado do marido e conciliá-lo com um trabalho na ETUFOR [Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza], no terminal da Messejana, das 17h às 23 horas.

 

 

Com o Educar, começaram a chegar os grupos de crianças e professores. Pelo olhar das crianças, vieram duas outras constatações que ajudaram a delinear o que o Ecomuseu é hoje. “Durante as visitas, as crianças perguntavam: ‘tio, onde estão os animais?’. Por mais que eu explicasse para elas que os animais estavam ali, na natureza, o caranguejo, os peixes... elas queriam ver, conhecer. E surgiu a necessidade de ter um acervo. Daí, veio a ideia do Museu. E começamos nossa coleção, com a ajuda de pescadores, de outras instituições", esclarece Rusty. O ambientalista destaca outro fato que aconteceu e o ajudou a entender sua função ali. "A professora me chamava para eu guiar a visita, explicar sobre o lugar. E eu fazia. Eu me sentia tão bem, tão feliz com aquilo. Claro, eu era o guia e passei a me dar conta disso”, descobre-se com um sorriso no falar.

 

Em 2004, Rusty conheceu o conceito de museologia social “e a minha cabeça mudou. Compreendi que isso era tudo o que a gente fazia ali”. Rusty se debruçou sobre o assunto de maneira determinada. Dos estudos perseverantes, nasceu o Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam). Naquela redescoberta, Rusty só começava a ter consciência do trabalho que estava desenvolvendo. 

 

 

O pesquisador Mirleno Lívio Monteiro de Jesus, em sua dissertação de Mestrado, defendida em 2015, pelo Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira, da Faculdade de Educação, da UFC, estudou o Ecomuseu do Mangue de maneira aprofundada. Segundo o estudioso, ecomuseu é um modelo contemporâneo de museu. “ Neste tipo de museu, membros de uma comunidade tornam-se atores do processo de formulação, execução e manutenção do mesmo, sendo ou podendo ser, em algum momento, assessorado por um museólogo. Tal conceito traz, em seu bojo, a ideia de preservação e colocação de amostras para lazer, pesquisa, memória, educação e comunicação de específicos acervos ecológicos”, diz o texto da dissertação.

 

 

Associação dos Amigos do Ecomuseu
De lá para cá, começou maior atuação do casal e maior visibilidade em torno da atividade que desenvolviam. O projeto foi cadastrado na Rede Cearense de Museologia Social, depois no Sistema Estadual de Museus. Há 12 anos, existe a estrutura de conhecer a área pelas trilhas, pensadas por Rusty a partir de suas pesquisas. Durante algum tempo, Rusty e a família resistiu fazer do Ecomuseu uma ONG, regida por Estatuto e CNPJ, “porque a gente queria ser reconhecido simplesmente como cidadãos que estavam ali para cuidar da natureza e conscientizar as pessoas, mas percebemos a necessidade de termos CNPJ para participarmos de editais, de financiamentos, pra gente conseguir se manter, manter a estrutura e poder oferecer mais serviços para a população”, justifica.

 

 

Assim, no dia 8 de agosto de 2011, nasce a Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue, que confere ao Ecomuseu o reconhecimento e a legitimidade jurídica de que precisava. Apesar de estar localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) da Sabiaguaba, na foz do Rio Cocó, o Ecomunam se mantém no espaço pelo trabalho feito nele e por ele. “O que autoriza a gente a estar aqui é o trabalho que gente realiza”, acredita Rusty.

 

 

No dia 27 de março mais recente, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Ceará (Sema) divulgou os nomes que fazem parte do Conselho Gestor Consultivo do Parque Estadual do Cocó. A Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue foi eleita em primeiro lugar para participação no Conselho, dentro das vagas que devem ser ocupadas por ONGs e movimentos sócio-ambientais.

 

 

A força para superar as dores e as dificuldades
Quem visita o espaço pela primeira vez, impressiona-se com a simplicidade. De fato, trata-se de uma construção bem modesta que abriga um acervo de animais taxidermizados, carcaças de peixes e tartarugas e diversos tipos de caranguejos que contam muito da história do ecossistema manguezal. É nele e por ele que Rusty e a esposa reafirmam, todos os dias, sua missão na vida.

 

Em 2009, o casal sentiu a pior das dores ao perder a filha Rayanne em uma morte violenta aos 20 anos. O mais novo dos três filhos de Rayanne tinha 6 meses, na época, e, desde então, mora com os avós. Conhecemos um pouco mais o menino, aqui no Vida Ciranda. É Raley, o garoto prodígio que dá palestras pelo Ceará inteiro disseminando a importância de cuidar do meio ambiente.

 

 

O Ecomuseu, a chegada dos oito netos, “o dia a dia com a meninada das escolas”, a esperança que enxergam nas novas gerações ajudam Rusty e a esposa a irem superando as dores e as dificuldades financeiras e de reconhecimento, são forças para seguirem acreditando. “Agora, eu sou feliz, posso dizer para você de coração aberto, com brilho no olhar. Eu encontrei aqui o meu propósito de vida”, festeja Rusty. “Aqui, é a vida da gente. Hoje, eu me dedico integralmente às atividades do Ecomuseu”, emenda Sineide.

 

 

Atualmente, o Ecomuseu e a família de Rusty e Sineide vivem, basicamente, das contribuições que as escolas e os demais grupos de visitantes dão para a realização das aulas de campo. Não há outra fonte de renda ou mantenedor. É um espaço que recebe constantemente pesquisadores e conta com um time de voluntários da comunidade local e de estudantes de cursos superiores relacionados ao meio ambiente.  Rusty vem cursando Gestão Ambiental pela UNINTER, “é pelo diploma, mas é também para saber mais e mais para dar conta dessa riqueza toda aqui”, planeja. 

SERVIÇO:
Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam)
Rua nove, Sabiaguaba. CEP: 60183-651
Contatos para agendamento: 98749 5286 (Rusty)