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Fotógrafo faz registros diários da filha para documentar a conquista dos primeiros passos

PROJETO FÉRIAS DE BRINCAR 
DICA 21 - FOTOGRAFAR PROCESSOS DE APRENDIZADOS DAS CRIANÇAS POR PERÍODOS CONTÍNUOS

 

No correr das rotinas, vivemos poesias que se destacam na nossa jornada. Momentos com a família, com os filhos, com os amigos que bem podiam ser guardados em um potinho mágico, pelo qual fosse possível voltar e reviver sempre que a saudade apertasse. Enquanto vivemos, a importância, às vezes, nos escapa e só nos damos conta dela quando os dias passam. Talvez, a fotografia seja em essência muito desse potinho; por ela, fica mais fácil o retorno às lembranças marcantes. O fotógrafo carioca Raphael Bózeo, de 32 anos, acredita nisso.

 

Pai da Maria, de 10 meses, há pouco tempo, ele resolveu registrar o dia a dia da filha, que ele considera um todo de poesia. Prestes a andar, a menina Maria vem conquistando o mundo no engatinhar e já ensaia os primeiros passos. Raphael, para além do amor que sente pela filha, enxergou na curiosidade, nas descobertas, nos olhares, sorrisos, abraços, nas primeiras dores e frustrações da infância concreta que tem em casa, a necessidade de registros que extrapolam os momentos descontraídos ou de lazer em que se tem uma máquina fotográfica na mão; o fotógrafo enxergou naqueles cliques a valorização da família em si, da felicidade que existe nessas “horinhas de descuido”, como já ensinou Guimarães Rosa, e quis conversar com o mundo sobre isso. Raphael vem fazendo do registro da infância da Maria um compromisso diário de amor, de doação, de contemplação, de gratidão... tudo guardado no potinho das lentes da máquina fotográfica dele.

 

 

O projeto #MariaTodoDia365 está no 49º dia hoje e se propõe lançar ao longo de um ano inteirinho, diariamente, um registro público da rotina da menina Maria. Jornalista e fotógrafo profissional da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Macaé/RJ, Raphael realiza também projetos particulares de fotografia documental de famílias e assina a página do Facebook Não basta ser pai há 1 ano, quando decidiu escrever sobre as emoções que vinha sentindo desde o dia em que soube da chegada da filha, para, assim, dividir, compartilhar, trocar e aprender mais sobre a paternidade.

 

Aliás, o olhar sensível de Raphael para a infância é demonstrado em outras iniciativas, como fotografar somente crianças em um jogo de futebol, área a que também se dedica como profissional, para contar a história de um título pela ótica dos pequenos torcedores. Seus cliques foram destaque no GloboEsporte.com, do Rio de Janeiro, e tiveram repercussão nacional. Além das fotos das crianças, há um texto muito bacana desse olhar, escrito também por Raphael, que vale a pena ser lido! 

 

O projeto de fotografia #MariaTodoDia365 vem encantando as redes sociais. Raphael me conta que se inspirou no fotógrafo Renato DPaula, que, há cerca de dois anos, começou a fazer registros do dia a dia da filha Isabele pelo projeto #Isababe365. Uma pequena crônica escrita também por Raphael acompanha cada fotografia do projeto, contando um pouco a história dos cliques. Em um dos mais bonitos, Maria olha um livrinho de fotografias que a mamãe Camila preparou para o pai, na passagem do aniversário mais recente dele. Noutro clique, um dos que Raphael mais gosta, a menininha chora e é acalentada nos braços da mãe, depois de uma pancada na cabeça. Projeto emocionante. 

 

 

Conversei com Raphael no limiar da mudança de um ano para o outro. Acompanhe abaixo a entrevista e saiba muito mais sobre o projeto e sobre a maneira linda que Raphael pretende encerrá-lo. Deleite-se com esse pai fotógrafo apaixonado pelas duas funções e inspire-se! Que tal começar um projeto assim com quem ama? Pode ser com seus filhos pequenos ou maiores, pode ser com seus pais ou com aquele grupo de amigos especial.  

 

 

Vida Ciranda: O que mais motivou você a começar o projeto?
Raphael Bózeo: Talvez, seja o projeto mais incrível, mais encantador que eu estou fazendo e que eu fiz nos últimos tempos. O que me motivou, na verdade, foi deixar um legado para ela. Eu vi um outro fotógrafo fazendo com a filha, achei incrível e quis fazer com a minha filha antes de ela estar andando, para pegar esse processo antes: ela engatinhando, depois andando, para contar essa história. Apesar de ser uma maneira de estar divulgando um pouco do meu trabalho fotográfico, isso é para ela. Quando ela tiver uns 20, 30 anos, ela vai poder saber e conhecer, por meio de fotos, como ela viveu essa primeira parte da vida dela. É um registro da história dela.

 

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Vida Ciranda: Há preocupação com produção, com poses, em "arrumar" a Maria, antes das fotos?
Raphael Bózeo: Eu tento imprimir nas fotos uma coisa mais documental, do que acontece, realmente, no dia a dia dela. Não é pegar a Maria, fantasiar a Maria, botar ela num fundo e fotografar. Eu prefiro situações mais do dia a dia. Curiosamente, a foto de hoje [ 31 de dezembro, 2017] é uma selfie, porque tem muito do que ela está aprendendo, ela botou a língua para fora, então eu, Camila e ela botamos a língua para fora. A foto está bem a gente mesmo. Nem é a proposta do projeto, mas resolvi colocar porque esse tipo de foto não deixa de ser um documento nosso de um momento incrível. Então, eu acho que o mais importante é que seja um registro que conte a história da pessoa, registros que daqui a 20, 30 anos, a pessoa vai ver. Pode-se fazer com uma criança de 4 anos, de 10 anos, com uma pessoa de 15 anos. O mais importante é fotografar como uma maneira de contar a história.

 

 

Vida Ciranda: Há alguma novidade na sua relação com a Maria, depois do projeto? Seu olhar para ela, para a relação de vocês vem mudando, de alguma forma?
Raphael Bózeo: Além de desenvolver meu olhar fotográfico, eu tento enxergar a minha filha no dia a dia, sabe. Ao invés de eu estar preocupado com uma maneira de registrar minha filha de um jeito que eu quero que as pessoas vejam, eu tento mostrar exatamente como ela vive. Eu tenho percebido que tem sido muito bacana, minha esposa está muito satisfeita. Eu ficaria muito triste se eu não estivesse conseguindo fazer. Tento fazer um exercício contrário: se não existir isso, como seria e como eu me sentiria se não fizesse isso. Então, é mais legal você imaginar e ver lá na frente.

 

Vida Ciranda: Como foi se tornar pai  e pai da Maria?
Raphael Bózeo: A Maria foi muito planejada. A gente se programou para ter a Maria. Um fato curioso é que eu fiquei sabendo que a Camila estava grávida no dia 12 de junho, Dia dos Namorados, e a Maria nasceu no dia 14 de fevereiro, que é o Valentine’s Day, Dia dos Namorados em outros países. Então, ela veio já com muito amor, em duas datas simbólicas para o amor. Desde então, eu me propus ser pai com ela, de ser presente, de registrar, de viver a paternidade muito ativamente. O projeto #MariaTodoDia365 me aproxima ainda mais dela. Uma das coisas que eu acho mais incrível é você olhar para a foto e sentir voltar aquele momento, sabe.

 

 

Vida Ciranda: Há alguma foto ou fotos de que você gosta mais?
Raphael Bózeo: Uma foto de que eu gosto muito é ela olhando a chuva pela janela do carro. Quando eu a vi olhando pelo vidro, concentrada, fui bem devagarzinho no carro. Outra foto é do dia em que ela tinha batido com a cabeça no apoio da cama e minha esposa abraçou, ela ainda com os olhinhos cheios de lágrimas. É isso: cada foto acaba tendo uma história. Quando ela estiver entendendo e eu for contar a história de cada foto, é uma maneira de ela conhecer um pouco mais de como foi esse primeiro projeto, entre 1 e 2 anos de idade dela, como ela foi amada, então, a gente volta naquele dia e sente as emoções e a gente se emociona e isso gera um envolvimento que gera uma conexão muito grande entre a gente. Eu tenho muita foto antiga da minha família. Não tinha as facilidades que têm hoje e você se emociona. Imagina você tendo as possibilidades de hoje, com a tecnologia. Hoje, qualquer pessoa pode registrar, guardar, não falo apenas de maneira profissional.

 

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Vida Ciranda: Você já vem recebendo feedbacks das pessoas sobre o projeto?
Raphael Bózeo: Eu recebo muitos, alguns no Instagram @raphaelbozeo, outros no Facebook, na página Não basta ser pai,  que eu fiz para contar, armazenar, registrar algumas coisas que eu gostaria de falar para ela, e dividir com as pessoas alguns textos também. Muitos amigos comentam nas fotos, entram em contato comigo, no bate-papo informal mesmo. As pessoas falam das fotos, do trabalho, como é incrível ter esse registro, que gostariam de fazer, é uma coisa muito legal por saber que pode estar sendo um legado e motivando outras pessoas a fazerem a mesma coisa.

 

Vida Ciranda: Como você pretende guardar esses registros para entregá-los depois para a Maria?
Raphael Bózeo: No final do projeto #MariaTodoDia365 vai ter um vídeo contando a história dessas 365 fotos, vai ter um álbum de fotos, como um livro, que eu vou personalizar para ela, com as 365 mais um plus no final, com algumas fotos que não entraram no projeto oficial.

 

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Vida Ciranda: Você pretende continuar o projeto 365 noutra fase da Maria?
Raphael Bózeo: Não sei se eu pretendo continuar o projeto 365 na internet, mas certamente vou registrar diariamente para ter esses registros sim. Vou ver como vai ser quando terminar este. De repente, crio um outro tipo de projeto, não sei, para divulgar na internet. Prefiro terminar este, para depois organizar direitinho. O que eu acho que não pode parar é eu estar fotografando, registrando, guardando. Existe uma grande preocupação de deixar de viver os momentos para fotografar também. Então, às vezes, você não consegue viver tão intensamente se você estiver tão preocupado com a foto, mas eu acho que com muito esforço você consegue conciliar as duas coisas. Você consegue viver deixando a máquina um pouco de lado.

 

Vida Ciranda: Numa época em que tudo parece passar tão rápido, em que não aproveitamos tanto momentos tão bonitos que vivemos, a fotografia documental é muito importante para deter felicidades e relembrar...
Raphael Bózeo: Tenho um projeto de fotografia documental, de storytelling, de contar histórias dos dias de grupos de amigos, de famílias, de passar um dia, um fim de semana com uma família. É muito importante essas memórias. Hoje, qualquer pessoa pode fazer com um smartphone, mas o profissional é um olhar diferente, de uma pessoa de fora. Eu também escrevo sobre as pessoas que eu fotografo. Escrevo muito para a Maria. As fotos não são para o fotógrafo, são para as pessoas que fotografamos, é a história delas.