Mulheres empoderadas pela educação e pela maternidade amparada por meio das empresas onde trabalham

REPORTAGEM II
MATERNIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO

 

Ela casou bem jovem com o homem que lhe despertou o coração, parecia bom. As filhas chegaram logo e as responsabilidades com a casa, com o marido, com as crianças não permitiram que o Ensino Fundamental fosse concluído.  Precisou também trabalhar para complementar a renda. O sonho do casamento foi virando pesadelo. O marido batia nela, nas meninas, deixava faltar comida na mesa. “A gente tinha uns sete anos de casados, quando ele me deu uma surra grande. Ali, eu decidi que aquela seria a última. Peguei minhas filhas, fomos embora. Criei sozinha. Foi um sofrimento só, foi difícil demais, mas sobrevivemos”, relembra Francisca Cleide Oliveira da Silva, 59.

 

Ainda no mercado de trabalho, o semblante da  dona Cleide só muda quando ela fala sobre os dois grandes sonhos realizados nesses anos mais recentes: a aquisição da casa própria e a conclusão do Ensino Médio. Este último, principalmente, só foi possível para ela porque os estudos foram realizados na própria empresa em que ela trabalha, há quase 20 anos. Dona Cleide descreve uma trajetória de incompreensões, antes de se sentir mais acolhida em um ambiente de trabalho. “Já fiz de tudo na vida. Para onde eu ia, não podia nem dizer que eu era mãe porque eu ouvia que o problema era meu, que o patrão não tem nada a ver com isso. Nunca tinha visto em canto nenhum o tratamento que eu tenho aqui”, diz.

 

Quando dona Cleide chegou à empresa atual, Amêndoas do Brasil, recebeu apoio como avó já. Cuidava da neta para a filha mais velha trabalhar. Foi na empresa que encontrou psicóloga e assistentes sociais “para me dar conselhos”, médicos para fazer exames de prevenção, palestras sobre cuidados consigo e com a netinha, sobre controle financeiro, curso de informática e escola. Ah, a escola e aquele sonho de virar enfermeira! Na empresa onde ela trabalha, há uma escola mantida em parceria com o SESI (Serviço Social da Indústria), especificamente para os funcionários. O sonho da  dona Cleide sempre foi cursar enfermagem na faculdade, mas não tinha tempo nem para concluir o Ensino Fundamental, trabalhando o dia inteiro. Quando a neta ficou maiorzinha, e com o incentivo dos colegas de trabalho, voltou à sala de aula.

 

 

“Ah, certamente, eu não teria voltado a estudar se fosse pra ir pra uma escola normal. Aqui, o horário é diferente, a gente não pega ônibus lotado, já fica aqui depois do expediente e acaba em um horário que é cedo ainda pra voltar pra casa. É bom demais!”, se alegra. Quando perguntada sobre o local de que mais gosta na empresa, nos leva para a sala de estudos, onde funciona uma pequena biblioteca, aponta os livros que mais gosta de ler e, com olhar fixo na capa de um deles, resume o valor de conseguir sonhar agora com a “faculdade de enfermagem dos meus sonhos”, depois da aposentadoria que está bem pertinho de chegar.

 

“Eu sempre entendi o valor da educação, mas não conseguia chegar perto desse sonho. Aqui na empresa, a oportunidade foi que chegou perto de mim. Acho que eu conseguir estudar é bom não é só pra mim, mas é um exemplo que eu quero deixar pras minhas filhas, pras minhas netas. E eu sou muito agradecida à empresa, né, pelos sonhos que eu realizei aqui, por conseguir me enxergar com mais valor. Pra muita gente, se aposentar é parar. Para mim, acho que agora é que a vida vai começar de vez. E eu sou muito grata aqui por isso”, comemora dona Cleide.

 

Alegria, acolhimento e informação durante a gestação

– Corre! O Grupo de Gestantes já começou!
– Já? Está  pertinho de duas e meia… – olho para o relógio em alusão à pontualidade do evento.
– Elas chegam cedo. São bem disciplinadas, querem tirar todas as dúvidas, aproveitar o tempo.
– O Grupo dura 1 hora?
– Não, a tarde inteira.
– Elas estão no horário de trabalho delas?
– Sim, mas no dia da reunião do Grupo são liberadas à tarde.

Da esquerda pra direita: Mariana, Fernanda, Lisivone, a enfermeira Juliana e Carolina

Meu encontro com um grupo de quatro grávidas da empresa Mercadinhos São Luiz aconteceu numa tarde de quinta-feira. A reunião do Grupo de Gestantes é realizada uma vez por mês. Naquela tarde, o tema foi cuidados com o bebê recém nascido. Elas mal me perceberam entrar, tão concentradas que estavam. A enfermeira Juliana Torres ouve e responde com cuidado todas elas, mostra vídeos, faz simulações com uma boneca, apresenta exemplos práticos. Depois do bate-papo inicial, uma pausa para o lanche que já está servido. Tem frutas, sucos, pães. Algumas aproveitam para esticar o papo com a enfermeira.

 

É a primeira gravidez da compradora Carolina Vieira, 35, que espera por Liz. Da operadora de caixa Fernanda Pires, 32, vai chegar o terceiro menininho da família, o João, que está sendo gestado há quatro meses. É também João o primeiro filho da operadora de caixa Lisivone Queiroz Martins, 33, grávida de 8 meses, já de licença maternidade. Tornar-se mãe também é novidade para a Mariana Aquino, 25. Ela não é funcionária da empresa, e sim o marido. Todas já trabalharam em outras empresas e reconhecem o valor do que viveram naquela tarde.

“É a primeira vez que eu passo uma gravidez mais tranquila, emocionalmente. Não planejamos. E isso me deixou muito fragilizada, até mesmo porque estou na empresa há bem pouco tempo. Quando avisei, me surpreendi com a alegria, o abraço de carinho e as felicitações dos meus chefes. Isso fez toda a diferença para aceitar este novo filho. Hoje, estou amando a chegada dele, eles me ajudam e me preparam”, nos conta Fernanda. Durante a primeira gravidez, Fernanda não trabalhava e a preocupação vinha com os custos que o bebê iria lhe trazer. Na segunda gravidez, já estava no mercado. Sofreu com assédios morais de chefes que sugeriam a insatisfação pela fase que ela vivia. “Não facilitavam minha vida. Não deixaram nem eu fazer chá de fraldas na empresa, precisei alugar um espaço fora e convidar os colegas que me davam apoio”, lamenta.

 

Mariana curte a chegada do primeiro filho, acolhida pela empresa onde o marido trabalha, depois de um pedido de demissão traumática que ela se viu obrigada a fazer

 

Algo parecido aconteceu com a Mariana. Promotora de vendas de uma rede de supermercados, pedira demissão há pouco tempo porque não aguentou a pressão que passou a sofrer depois que comunicou à chefia da gestação. “Eles mudaram minha função pra uma que exigia muito mais esforço meu, mudaram minha rota, me colocaram para trabalhar em uma loja mais distante em que eu pegava mais  ônibus. Tentei conversar com eles várias vezes, mas o estresse estava tão grande que eu reswolvi sair  para ter uma gravidez mais tranquila. Eles forçaram meu pedido de demissão. Pra mim, foi bem traumático”, relembra com tristeza.  Hoje, ela e o filho recebem os benefícios como esposa de um funcionário.

 

Quem cuida do Grupo de Gestantes do Mercadinhos São Luiz, existente já há 20 anos, é a encarregada pelo setor de Qualidade de Vida, do RH da empresa, Juliana Sena, com quem tive o diálogo inicial deste texto. Ela nos explica que o projeto é parte de um conjunto de ações voltadas para famílias e filhos da empresa. “Há orientação pré-natal, oficinas, palestras que focam não apenas nos cuidados com o bebê, mas cuidados com a mãe, biológico e psicológico também. Tudo sem falar nas flexibilizações de horários.. é um olhar diferenciado que a gente lança às mulheres. A gente está implantando agora os encontros de pós-parto, para que elas possam vir, confraternizar, tirar as dúvidas que já vivem na prática, trazerem os bebês”, enumera Juliana.

 

Carolina atenta às explicações da enfermeira. “Nos faz querer ser sempre melhores aqui”.

 

Tanto cuidado, traz recompensas para os objetivos também de rendimentos das funcionárias.  “ A gente trabalha com tranquilidade, com certeza. E Feliz, sabe. É diferente. A gente percebe que a empresa vive a felicidade da gravidez junto com a gente. Somos paparicas, isso nos cativa, nos faz querer ser sempre melhores aqui dentro”, resume Carolina.

A série Maternidade no Ambiente Corporativo
Terceira

As empresas cearenses Amêndoas do Brasil e Mercadinhos São Luiz sâo referências brasileiras de cuidado com as mulheres, com as mães e com as famílias. Conheça as rotinas de atenção que elas oferecem às funcionárias na terceira matéria da série Maternidade no Mercado Corporativo, que será publicada nesta semana.

Ontem

Ontem, na primeira reportagem da série, conversamos com a fotógrafa Karine Andrade, mãe de duas meninas, a mais nova, Alícia, de 6 anos, é portadora de cardiopatia congênita. Recentemente, ela passou por um processo de demissão delicado que envolveu sua maternidade.  Leia aqui

Roda de Conversa Maternidade e Mercado de Trabalho 

Vamos nos encontrar presencialmente? Será amanhã, dia 16, às 18h30min, na Transforme Coworking (Rua Barbosa de Freitas, 1035, Aldeota). Leve suas dúvidas, experiências e sugestões para compartilhar conosco! Vamos melhorar as condições nas mulheres mães no ambiente de trabalho.

 

Na ocasião, também haverá uma exposição cultural com fotos da fotógrafa Karine Andrade, ouvida na primeira reportagem da série. Vendas no local com preços variados.

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Saiba como participar da navegação pelo rio Ceará, no VC Experiência 2

Chegamos à segunda edição do Vida Ciranda Experiência trazendo um dos passeios mais queridos e solicitados por todos que nos acompanham: a navegação pelo rio Ceará. Trata-se de uma extensão de conhecimentos que trazemos do Ecomuseu do Mangue, em Sabiaguaba, durante a primeira edição do Experiência. Vamos passear por uma área também de Foz, com a abundante biodiversidade dos mangues. Será na manhã do dia 27 de maio.

 

Pier da Barra, durante maré baixa, nosso ponto de partida e chegada

Foz, encontro do rio com o mar

De blusa listrada, seu Alberto, proprietário do Albertu's Restaurante e responsável pelas embarcações em que navegaremos. Realiza os passeios "há mais de 20 anos". Ao lado dele, Davi, morador da comunidade da Barra desde que nasceu, um dos monitores do nosso passeio.

Ponte José Martins Rodrigues sobre o rio Ceará, que liga a faixa litorânea de Fortaleza às praias do litoral oeste

 

Na programação que estamos preparando, além de uma hora e meia de navegação (ida e volta da comunidade Guaié, em Caucaia), haverá conversas com moradores antigos da Barra do Ceará e com monitores, que vão nos explicar um pouco mais sobre a história do espaço, e passeio a pé por uma área de mangue, em um banco de areia conhecido pela comunidade local de Proa do Miguel, que, pela Tábua das Marés, deve estar à mostra, durante nosso trajeto. Nesta parada rápida, será possível interagir mais com a região, principalmente, com os caranguejos, seus principais moradores. Será possível banhar-se rio, caso os participantes desejem. Na Comunidade Guaié, um pouco mais à frente, vamos contemplar mais uma vista linda e degustar piabinhas assadas com suco enquanto batemos um papo com moradores do lugar, pescadores, também indígenas, sobre a atividade da pesca em si e a realidade local.

 

A taxa de participação individual é de R$ 45, com promoções para famílias acima de três integrantes, incluindo crianças de todas as idades. O valor refere-se ao ônibus ida e volta, lanche completo, acesso às embarcações, monitores contratados para nos contar mais sobre a história do lugar e auxiliar o grupo com dúvidas e necessidades ao longo do passeio, kit primeiros socorros de uso coletivo e degustação de piabinhas assadas com suco, na comunidade Gauié. Durante o trajeto no ônibus, haverá também sorteios e distribuição de brindes, além das primeiras orientações, principalmente, para os pequenos navegantes. Todas as crianças devem estar acompanhadas por seus responsáveis. Serão ofertadas somente 50 vagas que serão divididas pelos dois barcos contratados, com barqueiros e embarcações devidamente autorizados pela Capitania dos Portos.

Divulgação DN

Seu Alberto

 

O bairro por uma foz cheia de vida, de beleza e de história
Localizado no extremo oeste de Fortaleza, é um dos bairros mais populosos da Capital. A Barra do Ceará é o bairro mais antigo de Fortaleza, com 414 anos, considerado o berço de toda a nossa história, mais antiga do que mesmo a criação da cidade Fortaleza. A colonização iniciou-se nos primeiros anos do século XVII por Pero Coelho de Souza e Martins Soares Moreno, este eternizado também na literatura pelo escritor José de Alencar no romance Iracema, publicado em 1865. Do amor de Martins com a mais bela nativa tabajara nasceu Moacir, que, de acordo com a lenda, é o primeiro cearense mestiço.

 

Inicialmente, o capitão português Pero Coelho fez uma ocupação militar na barra do rio então Siará, onde construiu uma paliçada, e deu a esse pequeno forte de madeira o nome de São Tiago, primeira edificação das nossas terras, onde hoje se localiza o marco zero da cidade. A ocupação foi destinada à expulsão dos franceses, que estavam na serra da Ibiapaba. O português Martins chegou pouco tempo depois e rebatizou o local como Forte de São Sebastião.

 

Em 1637, chegam na Barra invasores holandeses que tomam o forte dos portugueses. Em 1644, os guerreiros dos povos nativos atacam os holandeses e acabam com a presença de invasores na Barra do ceara. O Forte Schoonenborch, que conhecemos hoje como a 10ª Região Militar, só iria surgir anos depois, na desembocadura do rio Pajeú, por uma invasão holandesa chefiada por Matias Beck. Logo depois, os holandeses entregaram-se ao portugueses, que mudaram o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Somente em 1726, com a instalação de uma vila à margem do rio Pajeú, próximo ao Forte, reconhece-se o início a cidade de Fortaleza.

 

Na década de 1930, a construção de um hidroporto  começou a dar ao bairro maior expressão no contexto de Fortaleza. Com a construção da avenida Leste Oste, na década de 1970, passou a integrar o circuito de bairros industriais da zona oeste. A partir daí, ocorreu também intensa ocupação das dunas da Barra do Ceara, como reflexo de uma demanda reprimida por habitação.

 

A ponte José Martins Rodrigues, inaugurada em 1997 pelo prefeito Juraci Magalhães, liga a faixa litorânea de Fortaleza às praias do litoral oeste. Possui uma extensão de 633, 75 metros e mede 20,2 metros de altura. O Cuca da Barra foi o primeiro Cuca construído, inaugurado pelo presidente Lula em 2009, como Cuca Che Guevara. Chegou para atenuar uma demanda de lazer e formação para a juventude local com a pretensão de atender 3.500 jovens por dia. À época,  foi considerado o maior equipamento cultural público da América Latina.

 

Nossa Experiência Inicial 
O Vida Ciranda navegou no rio Ceará pelo projeto Reconhecendo Fortaleza, em dezembro de 2017. É inesquecível, principalmente, para as crianças. Abaixo, você pode acompanhar como foi o passeio, a fim de ir se apropriando do muito que viveremos. Algumas pessoas fotografas também estarão conosco no próximo dia 27. 

Lucélia Souto

No trajeto, paramos um pouco em um banco de areia que fica à mostra, quando a maré está baixa. Nele, as crianças podem interagir mais com o espaço e com a fauna local, como os caranguejos, e mesmo com pescadores que costumam estar lá. 

Lucélia Souto

Logo depois da interação com o mangue, iremos à comunidade do Guaié. Estive na comunidade há duas semanas, para uma reunião com alguns pescadores sobre nosso passeio. 

Na foto, da direita para a esquerda, seu Alberto, seu Dantas (pescador, 63, nasceu e se criou na Barra e no rio Ceará), Leonardo (pescador, 39, morador da comunidade Guaié, quem vai nos receber. A esposa dele, Lúcia, índia tapeba, é quem vai assar as piabinhas para nós! Ela não estava no momento desta conversa), Sineudo, um dos monitores do passeio, nasceu e se criou na Barra e no rio Ceará, e eu.

Seu Dantas está disposto a explicar tudo sobre pesca, fauna e flora locais às crianças

Encontramos um balde cheio de caranguejos, na comunidade. Leonardo disse que pega para comer, mas também porque a filha Iasmim, 9 anos, gosta de brincar com os bichinhos. Quando visitamos a comunidade, Iasmim estava na escola

 

CONFIRA ABAIXO TODAS AS INFORMAÇÕES PARA PARTICIPAR DO VIDA CIRANDA EXPERIÊNCIA 2: NAVEGAÇÃO PELO RIO CEARÁ

 

Quando: 27 de maio
Embarque inicial no ponto de encontro ( a divulgar):7h30min.
Desembarque no ponto de encontro: 12h30min.
OBS: O local de embarque inicial e desembarque final será enviado por e-mail aos participantes com inscrição confirmada.

 

Programação:
7h30min: Boas vindas
7h45min: Embarque no ponto de encontro (local a divulgar)
8h30min: Chegada ao pier da Barra (Albertu's Restaurante)
8h40min: Lanche completo inicial
9h: Início da navegação
9h40min: parada no banco de areia, para interação com o espaço e fauna local, e banho para os participantes que desejarem
10 horas: Embarque para a comunidade Guaié
10h10min: Chegada à comunidade Guaié
10h40min: Embarque de retorno ao pier da barra
11h20min: Chegada ao Pier da Barra
11h30min: Lanche Complementar
11h40min: Embarque de volta ao ponto de encontro
12h20min: Chegada e desembarque no ponto de encontro (local a divulgar)

 

OBS: Não nos responsabilizaremos por atrasos. Começaremos pontualmente, para que as crianças possam aproveitar melhor a manhã

 

Quem pode participar?
O Experiência foi pensado para famílias com crianças a partir de 1 ano.

 

TAXAS

Taxa individual: R$ 45
Três ingressos: R$ 125
Quatro ingressos: R$ 165
Cinco Ingressos: R$ 205
A partir da sexta pessoa do mesmo grupo, o ingresso sai por R$ 40
OBS: Os participantes do Vida Ciranda Experiência 1 possuem 5% de desconto na taxa individual ou sobre o preços promocionais desta segunda edição

 

SERVIÇOS INCLUSOS
- Ônibus ida e volta
- Lanche completo
- Navegação por 1 hora e meia pelo rio Ceará
- Monitores
- Degustação de piabinhas fritas com suco na comunidade do Guaié
- Kit Primeiros Socorros (coletivo)

 

PAGAMENTO
1. O pagamento deve ser realizado por depósito ou transferência bancária na conta abaixo discriminada até o dia 23 de maio.
2. Logo após o depósito, favor encaminhar o comprovante com nome completo e idade dos participantes para o celular número (85) 98954 7374 ou email: sara.rebeca.ac@gmail.com.
3. A inscrição do participante estará sujeita à rejeição, caso o número de inscrição ultrapasse o número de vagas. Nesse caso, haverá a devolução do valor depositado.
4. A ordem de ocupação das vagas será organizada mediante ordem de chegada ao Vida Ciranda do comprovante de depósito e nome completo dos participantes. Assim, é importante que você envie o comprovante e as informações solicitadas logo que o depósito for realizado. Opte por se informar se ainda há vagas, pelos contatos mencionados acima, antes de realizar o depósito.
5. Não nos responsabilizamos pela ausência dos participantes, no dia do passeio, ou atrasos que ocasionem a perda do passeio. O dinheiro não será devolvido, sob estas duas hipóteses, por levarmos em consideração que todos os serviços foram contratados e a quantidade de lanche providenciada para o número de inscritos até o dia 23 de maio.
6. Caso haja necessidade de cancelamento prévio da participação, com as taxas já pagas, o dinheiro só será devolvido se a comunicação chegar ao vida Ciranda com 48 horas antes do dia do passeio (até sexta-feira pela manhã), pelo mesmo motivo citado no item anterior. 

 

Dados da conta
Banco: Caixa Econômica Federal
Agência: 1977
Operação: 013
Conta poupança: 4568-0
CPF: 622.527.043-49
Titular: Sara Rebeca Aguiar de Carvalho

 

OBS: Não serão aceitos inscrições e pagamentos realizados no dia do passeio, mesmo que a quantidade de vagas disponibilizada não tenha sido completada. 

 

 

ORIENTAÇÕES IMPORTANTES

 

Levar o mínimo
Organize-se para levar o mínimo ao passeio. É indispensável documento de identificação das crianças e dos responsáveis. Não ande com grandes quantias em dinheiro, apenas o suficiente para alguma emergência ou consumo extra ao oferecido pelo passeio.

 

Roupas leves, sandálias ou chinelos, acessórios, cuidados indispensáveis
É essencial ir com roupas leves, que possibilitem movimentos livres do corpo, como camisetas de malha fria e bermudas de tactel, de numeração adequada ao tamanho do corpo. Sandálias e chinelos também são indicados. Quem optar pelos tênis, importante saber que eles podem se molhar, além de dificultar a experiência de pôr os pés no chão do mangue, no rio. Acessórios muito indispensáveis: bonés e óculos de sol. Nunca esquecer: protetor solar.

 

O banho no rio Ceará
O banho não está incluso na programação, mas poderá ser realizado a critério do participante, quando pararmos em um local conhecido pela população local como Proa do Miguel, um banco de areia que aparece quando a maré está um pouco mais baixa. Pela Tabua de Marés, será possível pararmos para experienciar e contemplar do local.

 

Quanto à balneabilidade, na área da praia, a Semace contraindica o banho. Na área em que iremos estar, no rio Ceará, segundo levantamento realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, por meio do relatório Observando Rios, lançado em março de 2018, a área está própria para banho.

 

Clique aqui para saber mais sobre o local com balneabilidade condenada pela Semace, na Barra do Ceará. Você também pode baixar o aplicativo Semace Balneabilidade. Clique aqui para saber mais sobre o aplicativo.

 

Clique aqui para conhecer o relatório Observando os Rios 2018, lançado em março de 2018, pela SOS Mata Atlântica.

 

Garrafinha de água
Pedimos que todos levem suas garrafinhas particulares de água. Lá, teremos água para todos, a fim de reabastecermos as garrafinhas.

 

Primeiros Socorros
Teremos um kit coletivo de primeiros socorros com: tesoura, termômetro, luvas, anti-alérgico líquido (Polaramine) e em creme (Histamin) para ferimentos e picadas de insetos; anti-térmico e analgésico (Tylenol Criança), antisséptico (Kuramed), álcool em gel para limpeza das mãos, soro fisiológico, seringas, esparadrapo, algodão, band-aid, gazes, ataduras, lenços, repelente de insetos e cotonetes. Caso a criança ou o adulto não utilize algum dos remédios descritos e faça uso de uma medicação específica, não esqueça de pô-la na bolsa.

 

Lanches
Serviremos frutas, salada de frutas, aveia, granola, sucos naturais de fruta, sanduiches de pão integral com queijo branco, peito de peru, patê de atum e alface, e bolos. Ainda assim, fique à vontade para levar outra refeição, principalmente às crianças, que melhor seja aceito ao paladar dela. Prezamos por alimentação saudável, o mais natural possível.

 

O QUE É O VIDA CIRANDA EXPERIÊNCIA?
O Experiência é uma iniciativa do movimento Vida Ciranda, que pensa as educações e as infâncias de maneira questionada e questionadora, responsável, comprometida com o meio ambiente, com o outro e consigo através de seus atores. Utiliza-se como meio difusor de informações o jornalismo especializado nas duas áreas por este site Vida Ciranda, direcionado aos pais, às famílias. O site está no ar há dez meses. É conduzido por Sara Rebeca Aguiar, jornalista e professora há quase quinze anos, com formação nas duas áreas. Também educomunicadora, pesquisa a relação tecnologia, infância e literatura infantojuvenil.

 

Estamos na segunda edição do Vida Ciranda Experiência. A primeira aconteceu no Ecomuseu Natural do Mangue, no dia 21 de abril mais recente. Foi pensado a fim de incentivar a cidadania infantil desde cedo, no direito de que todas as crianças têm à cidade onde moram. Pelo Experiência, quer se estimular o tempo de qualidade entre pais e filhos, e criar vínculos afetivos e sentimento de pertencimento com o espaço onde vivem. Partimos da concepção de que ninguém cuida direito daquilo que não conhece ou que não tem qualquer laço afetivo, em que a história do lugar passe também por sua própria história.

 

O Experiência propõe passeios por Fortaleza e Região Metropolitana. Todos os meses, nas primeiras segundas feiras, é lançado um novo lugar que deve ser experienciado no último domingo do mês em curso. A taxa de participação varia de acordo com o local a ser visitado e o que será oferecido ao participante. 

 

Confira matéria produzida pelo jornal O POVO sobre nossa experiência no Ecomuseu Natural do Mangue:

https://www.opovo.com.br/jornal/cidades/2018/04/grupo-participa-de-aula-de-campo-no-mangue-do-rio-coco.html

 

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Fontes de pesquisa para referências históricas  nesta reportagem:

http://www.fortalezaemfotos.com.br/2011/03/bairros-de-fortaleza-barra-do-ceara.html

https://www20.opovo.com.br/app/colunas/opovonosbairros/2013/05/02/noticiasopovonosbairros,3049107/bairro-mais-antigo-de-fortaleza-tem-409-anos-de-historia.shtml

http://www.fortalezanobre.com.br/2011/03/barra-do-ceara-406-anos.html

Livro Fortaleza - de dunas andantes a cidade banhada de sol, do escritor Flávio Paiva. 

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Conheça a família que idealizou e dá vida ao Ecomuseu do Mangue

Ele já foi militar e trabalhou com publicidade e marketing, em grandes empresas, como Coca-cola, mas não se encontrou o suficiente nessas atividades para se sentir realizado profissionalmente. Desde o comecinho da vida adulta, tem do lado uma mulher forte, decidida a acompanhá-lo. Os dois são movidos pela certeza que os conduz, até hoje: o amor pela família, pelo motociclismo, pela liberdade, pela natureza, pelo mar. O alagoano Rusty de Sá Barreto, 56, e a pedagoga pernambucana Sineide Crisóstomo, 56, chegaram a Fortaleza no finzinho de 1993, já casados, com os três filhos: João Paulo, Rusty Júnior e Rayanne. Vieram para cá com o desejo de montar eventos para motociclistas, como rally, enduro, motocross e motorromaria. Moraram na Varjota, no Papicu, no Curió, até conhecerem Sabiaguaba. E se apaixonarem pelo lugar. E fazerem dele morada “para sempre”, a partir de 1998.

 

 

Inicialmente, Rusty conheceu quem ele chama de “Zé Tartaruga”, o nativo mais antigo que “ nos recebeu com muito carinho”, como conta. Logo, buscou uma casa para viver ali. Conseguiu um espaço pequeno, vendido pelo próprio Zé. Montou nele o que seria o primeiro bar da família, chamado de Pró-Sabiaguaba, “o bar para quem gosta de aventura sobre duas rodas, assim explicado por Rusty. Pouco depois, o bar recebeu nome em que já carregava os olhares diferentes dos donos para a região em que se instalaram: Barraca Econativos. Nesse começo empreendedor, os espaços foram pensados para reunir motociclistas e promover eventos direcionados a eles.

 

 

Passado algum tempo, já com restaurante bem estruturado e casa da família bem montada ao lado, o nome do local passou a ser Quatro Elementos, em alusão aos elementos da natureza: ar, água, terra e fogo. Tudo caminhava bem. O negócio era lucrativo. Foi quando aconteceu o que, para Rusty, significou a primeira sacudida real sobre qual o propósito da vida. A provocação veio de uma cliente ao perguntar a um dos garçons: ‘quem são os outros elementos? Eu só vejo aquele cabeludo e barbudo...”. Rusty diz que ficou em choque diante da pergunta porque se tratava de “uma pessoa aparentemente bem informada” e que pareceu algo pejorativo. Ainda assim, explicou que se tratava dos elementos naturais e a relação daquele espaço de lazer com todo o potencial científico-ecológico da região. Na verdade - anos depois, ele compreenderia melhor - era uma explicação para ele próprio. E a “ficha começou a cair”.

Rusty, Sineide e o neto Raley (arquivo pessoal)

 

"Um empresário sem missão ambiental" 
Naquela época, o Bar Quatro Elementos já era local bem frequentado e ele começou a perceber a falta de cuidado das pessoas com o espaço, por meio de maneiras preocupantes de agir. Dali, veio a percepção que para ele foi a segunda sacudida sobre o seu objetivo de vida. “Eu me dei conta de que as pessoas não conhecem a natureza, o ambiente, não tem consciência. E eu, apesar de acreditar em todos os benefícios do meio ambiente, tinha um bar igual aos outros, gerador de lixo, de impacto, um empresário sem missão ambiental, aproveitador do meio ambiente, colaborador da degradação da beleza do lugar”, lamenta. 

 

 

Rusty relata que o incômodo aumentava à medida que ele refletia sobre como o bar interferia na vida daquele ecossistema, o impacto dele na vida das tartarugas e dos caranguejos, por exemplo. “Muitos animais morriam pelo lixo que eu ajudava a produzir. Reconheci, naquela época, que o bar não estava mais atendendo as minhas necessidades pessoais, nem minhas, nem da minha família. E fechei o bar”, descreve.

 

Rusty, Sineide e os filhos Rusty Jr e João Paulo (arquivo pessoal)

 

A decisão pesou no orçamento da família. Mas Rusty, com o apoio de Sineide, não abriu mão, apesar do conflito que lhe chegou: como sustentar a família, a partir de então? Ele relembra que foi alvo de chacotas e críticas de alguns amigos e vizinhos, que comentavam: “Tu fechou o restaurante para cuidar da natureza? Tá doido!”. Mas nada os fez desistirem. Rusty diz que passou dois meses sem nenhuma atividade remunerada, depois do fechamento da empresa, mas começou a estudar, a pesquisar, a participar de seminários, cursos, viajar para entender melhor de que maneira eles poderiam estar ali, ajudando a conscientizar as pessoas. Fazia bicos, trabalhos soltos com marketing, publicidade para irem se mantendo.

 

 

Começou, então, um projeto de educação ambiental. Incentivo pelo amigo Ivan Oliveira, montou o Educar Sabiaguaba, em 2001, embrião do que se tornaria o Ecomuseu. “Até ali eu não sabia muito bem o que eu estava fazendo, não sabia direito o que responder quando as pessoas me perguntavam sobre o Educar Sabiaguaba. Sabia que eu estava mudando uma atitude. Fiz artesanato, permacultura, medicina natural, farmácia viva, me abasteci de informação e de capacitação. O Educar funcionava em uma barraca tradicional, sem muitos recursos, era tudo muito rústico. Dessa escola ambiental nasceu o que seria um primeiro ensaio do Museu do Mangue”. recorda. 

 

 

A museologia social e o nascimento do Ecomuseu
Paralelo a tanta mudança, Sineide trabalhava em alguns projetos da Prefeitura, como educadora, e dava aulas em escolas particulares. Mais para frente, passou a se dedicar ao projeto ao lado do marido e conciliá-lo com um trabalho na ETUFOR [Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza], no terminal da Messejana, das 17h às 23 horas.

 

 

Com o Educar, começaram a chegar os grupos de crianças e professores. Pelo olhar das crianças, vieram duas outras constatações que ajudaram a delinear o que o Ecomuseu é hoje. “Durante as visitas, as crianças perguntavam: ‘tio, onde estão os animais?’. Por mais que eu explicasse para elas que os animais estavam ali, na natureza, o caranguejo, os peixes... elas queriam ver, conhecer. E surgiu a necessidade de ter um acervo. Daí, veio a ideia do Museu. E começamos nossa coleção, com a ajuda de pescadores, de outras instituições", esclarece Rusty. O ambientalista destaca outro fato que aconteceu e o ajudou a entender sua função ali. "A professora me chamava para eu guiar a visita, explicar sobre o lugar. E eu fazia. Eu me sentia tão bem, tão feliz com aquilo. Claro, eu era o guia e passei a me dar conta disso”, descobre-se com um sorriso no falar.

 

Em 2004, Rusty conheceu o conceito de museologia social “e a minha cabeça mudou. Compreendi que isso era tudo o que a gente fazia ali”. Rusty se debruçou sobre o assunto de maneira determinada. Dos estudos perseverantes, nasceu o Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam). Naquela redescoberta, Rusty só começava a ter consciência do trabalho que estava desenvolvendo. 

 

 

O pesquisador Mirleno Lívio Monteiro de Jesus, em sua dissertação de Mestrado, defendida em 2015, pelo Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira, da Faculdade de Educação, da UFC, estudou o Ecomuseu do Mangue de maneira aprofundada. Segundo o estudioso, ecomuseu é um modelo contemporâneo de museu. “ Neste tipo de museu, membros de uma comunidade tornam-se atores do processo de formulação, execução e manutenção do mesmo, sendo ou podendo ser, em algum momento, assessorado por um museólogo. Tal conceito traz, em seu bojo, a ideia de preservação e colocação de amostras para lazer, pesquisa, memória, educação e comunicação de específicos acervos ecológicos”, diz o texto da dissertação.

 

 

Associação dos Amigos do Ecomuseu
De lá para cá, começou maior atuação do casal e maior visibilidade em torno da atividade que desenvolviam. O projeto foi cadastrado na Rede Cearense de Museologia Social, depois no Sistema Estadual de Museus. Há 12 anos, existe a estrutura de conhecer a área pelas trilhas, pensadas por Rusty a partir de suas pesquisas. Durante algum tempo, Rusty e a família resistiu fazer do Ecomuseu uma ONG, regida por Estatuto e CNPJ, “porque a gente queria ser reconhecido simplesmente como cidadãos que estavam ali para cuidar da natureza e conscientizar as pessoas, mas percebemos a necessidade de termos CNPJ para participarmos de editais, de financiamentos, pra gente conseguir se manter, manter a estrutura e poder oferecer mais serviços para a população”, justifica.

 

 

Assim, no dia 8 de agosto de 2011, nasce a Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue, que confere ao Ecomuseu o reconhecimento e a legitimidade jurídica de que precisava. Apesar de estar localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) da Sabiaguaba, na foz do Rio Cocó, o Ecomunam se mantém no espaço pelo trabalho feito nele e por ele. “O que autoriza a gente a estar aqui é o trabalho que gente realiza”, acredita Rusty.

 

 

No dia 27 de março mais recente, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Ceará (Sema) divulgou os nomes que fazem parte do Conselho Gestor Consultivo do Parque Estadual do Cocó. A Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue foi eleita em primeiro lugar para participação no Conselho, dentro das vagas que devem ser ocupadas por ONGs e movimentos sócio-ambientais.

 

 

A força para superar as dores e as dificuldades
Quem visita o espaço pela primeira vez, impressiona-se com a simplicidade. De fato, trata-se de uma construção bem modesta que abriga um acervo de animais taxidermizados, carcaças de peixes e tartarugas e diversos tipos de caranguejos que contam muito da história do ecossistema manguezal. É nele e por ele que Rusty e a esposa reafirmam, todos os dias, sua missão na vida.

 

Em 2009, o casal sentiu a pior das dores ao perder a filha Rayanne em uma morte violenta aos 20 anos. O mais novo dos três filhos de Rayanne tinha 6 meses, na época, e, desde então, mora com os avós. Conhecemos um pouco mais o menino, aqui no Vida Ciranda. É Raley, o garoto prodígio que dá palestras pelo Ceará inteiro disseminando a importância de cuidar do meio ambiente.

 

 

O Ecomuseu, a chegada dos oito netos, “o dia a dia com a meninada das escolas”, a esperança que enxergam nas novas gerações ajudam Rusty e a esposa a irem superando as dores e as dificuldades financeiras e de reconhecimento, são forças para seguirem acreditando. “Agora, eu sou feliz, posso dizer para você de coração aberto, com brilho no olhar. Eu encontrei aqui o meu propósito de vida”, festeja Rusty. “Aqui, é a vida da gente. Hoje, eu me dedico integralmente às atividades do Ecomuseu”, emenda Sineide.

 

 

Atualmente, o Ecomuseu e a família de Rusty e Sineide vivem, basicamente, das contribuições que as escolas e os demais grupos de visitantes dão para a realização das aulas de campo. Não há outra fonte de renda ou mantenedor. É um espaço que recebe constantemente pesquisadores e conta com um time de voluntários da comunidade local e de estudantes de cursos superiores relacionados ao meio ambiente.  Rusty vem cursando Gestão Ambiental pela UNINTER, “é pelo diploma, mas é também para saber mais e mais para dar conta dessa riqueza toda aqui”, planeja. 

SERVIÇO:
Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam)
Rua nove, Sabiaguaba. CEP: 60183-651
Contatos para agendamento: 98749 5286 (Rusty)

foto destaque

Conheça Raley, o menino do mangue que dá palestras sobre como cuidar da natureza

"Cresci brincando no chão,
Entre formigas
Meu quintal é maior
Do que o mundo
Por dentro de nossa casa
passava um rio inventado.
Tudo que não invento
é falso

Era o menino e os bichinhos
Era o menino e o Sol
O menino e o rio
Era o menino e as árvores”
(Manuel de Barros, O Menino e o rio)

 

“Precisamos cuidar da pele do planeta”. A mensagem do garoto Celso Raley Sá Barreto de Freitas, de 9 anos, ecoa pelo Ceará a fora, em auditórios lotados, salas de aula, turmas de educação superior. Há três anos, ele trouxe para si a responsabilidade de multiplicar conhecimentos e consciências. O menino desinibido, simpático, de voz articulada, de gestos carinhosos e olhar cuidadoso para o mundo, vive com os avós maternos desde os seis meses, quando perdeu a mãe. Conhece o ecossistema do mangue na teoria e na prática, como poucas crianças, e faz desse privilégio sua maneira de espalhar a paz e a convivência possível com a natureza.

 

Raley, com avós Rusty e Sineide (arquivo pessoal)

 

Os avós do garoto, Rusty de Sá Barreto e Sineide Crisóstomo, já haviam fundado o Ecomuseu do Mangue quando ele nasceu. Raley é o menino do rio, versado por Manuel de Barros. Só conhece vida com banhos de rio e de mar quase diários, subindo nas raízes aéreas, brincando com os caranguejos, com os pés na lama do mangue; entende sobre as mudanças das marés e a influência das luas, sabe o que é respeitar ciclos de semeio e safra das vegetações, de reprodução dos peixes, moluscos e crustáceos; o menino cresce ouvindo dos avós o valor que a conservação do ecossistema mangue tem para o planeta inteiro, para que a vida seja continuada. O mangue é a rotina dele. “Aqui, o rio é o que mais me encanta. Amo tomar banho nele, cuidar dele”, destaca. 

 

 

A inspiração para falar a grandes plateias, desde os seis anos, além de acompanhar o avô, surgiu quando viu uma criança na televisão falando sobre a importância de cuidarmos da pele do planeta. Dali em diante, por ele mesmo, começou a preparar o que se tornaria a palestra Pele do Planeta, que o faz circular entre adultos bem entendidos em outras áreas, mas que precisam das palavras do menino Raley para compreender que pouco adianta avanços tecnológicos e inovações se tudo isso não caminhar em comunhão com a preservação do meio ambiente.

 

 

“Eu comparo o planeta com o nosso corpo. Os pelos e o cabelos são as árvores. Nossa pele é o chão. Quando a gente joga lixo no chão é como se não tomasse banho, fica cheio de sujeira, enche de doença... se não cuidar, morre. A poluição produz gases que furam a camada de ozônio e ela é o protetor solar do planeta. Sem essa proteção, a gente adoece”, ensina Raley.

 

 

O menino prodígio estuda à tarde numa escola pública do bairro Caça e Pesca, pertinho de onde mora. Enquanto conversávamos, ele já passava com a avó a agenda da próxima palestra, que, naquela semana, foi na escola mesmo. A avó Sineide conta que ele é o primeiro da turma, mas ele emenda a informação rapidamente: não quer virar líder “porque é chato demais ter que ficar arrumando a sala”.

 

 

Raley não é remunerado pelas palestras, que duram em média 25 minutos, mas os avós comentam que sempre negociam com ele pequenos valores, como R$ 5 ou R$ 10, quando ele fala ao público ou ajuda os avós na condução dos grupos de visitantes pelas trilhas do mangue. “É uma maneira de incentivá-lo, mas, principalmente, de ele já ir sabendo a lidar com o dinheiro, a poupar quando quer comprar algo, como o conserto da bicicleta e do skate”, justifica a avó.

 

Raley vai estar conosco no roteiro dentro do Ecomuseu, pelo Vida Ciranda Experiência, no próximo dia 21. No dia em que conheci Raley, ele me levou para um lugar de que ele gosta muito, o Mangue Vermelho, um dos mais legais da trilha que faremos. No caminho até lá, Raley foi me dando uma palhinha do que ele gosta de falar às pessoas. 

 

“O grade problema é que as pessoas não respeitam uma coisa simples: não pode jogar lixo no chão, isso prejudica todo mundo. Lugar de lixo é na lixeira.Me impressiona as pessoas desrespeitarem isso”, lamenta o menino.

 

O menino do mangue sonha com a profissão de design, a mesma do tio, designer de games, que mora no Canadá, quem ele tem como irmão mais velho. Raley já entende que não há nenhuma razão na tecnologia se não for para melhorar e valorizar as relações humanas e suas relações com a natureza.

cha de ideias valerira pinheiro1_2012

“Como coreógrafa, eu tenho na criança minha maior inspiração”, diz a artista Valéria Pinheiro em entrevista exclusiva

Em dezembro último, a coreógrafa cearense Valéria Pinheiro anunciou ao cenário cultural o fechamento do Teatro das Marias, equipamento que ela dirige há quase 20 anos, com forte atuação no processo de difusão e formação em diversas linguagens artísticas, no Ceará. Diretora artística da Cia Vatá, Valéria reforça "já não tem mais pernas para segurar o Teatro", que passa por dias difíceis para se manter. O anúncio foi recebido com tristeza pela classe artística. Além de performances adultas, Valéria se destaca também na criação de produções artísticas para crianças, já tendo trabalhado em escolas, ONGs, assentamentos, principalmente, para populações de baixa renda.

 

Valéria, durante espetáculo Compilation. Foto: Noel Belgin

 

Valéria conversou conosco em uma dessas iniciativas para os curumins, como ela gosta de chamar  as crianças e os amigos próximos, no dia 11 de janeiro de 2018. Durante os meses de dezembro e janeiro, ministrou a Escola de Musicais para Crianças, em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, através do edital Cultura Infância 2016, com execução em 2017/2018, e o Café Teatro das Marias / ABCVATA (Associação de Brincantes da Cia Vatá). Não foi tão difícil reconhecer nela outra criança em seu palco sagrado das Marias.

 

Ao fundo, Valéria com as crianças, em uma sessão da Escola de Musicais para Crianças / Colônia de Férias para Curumins, em janeiro 2018

 

Marcada pelas influências da cultura popular nordestina, de Juazeiro, onde nasceu, e pelas etnias indígenas, do Amazonas, para onde se mudou ainda criança, com os pais e as duas irmãs, depois da morte do irmão mais velho, a garota brincante cursou Engenharia Civil, sofreu as consequências das desigualdades de gênero na profissão, e optou pelo voo ao Rio de Janeiro. Lá, construiu companhia de dança, foi artista premiada, alavancou a carreira e tornou realidade grandes sonhos. Fez mestrado em Análise de Sistemas, doutorou-se em Inteligência Artificial. Pelas máquinas, aprendeu a força do natural, da energia humana, da sensibilidade, do coração. Trabalha com crianças e adolescentes desde sempre, em projetos que a fazem brilhar os olhos e continuar acreditando na brincadeira como um grande propulsor de um maior conhecimento de si para viver em harmonia com o outro.

 

Porto Iracema das Artes / Divulgação Internet

Com Valéria Pinheiro, o Vida Ciranda faz uma homenagem, neste Dia Internacional das Mulheres, a todas as mulheres, guerreiras, conquistadoras, com sangue no olho, que não têm medo dos desafios que a vida lhes apresenta, que não temem recomeços, mulheres guiadas pela força do humano e do coração.

 

 

Nesta entrevista, concedida exclusivamente ao Vida Ciranda, Valéria comenta sobre a decisão de encerrar o Teatro das Marias, poetiza sua vida com a família, fala com carinho da herança emocional para o brincar que herdou, principalmente, do pai. Conta sobre o começo da Cia Vatá, que fundou ainda na década de 1990, e do seu Marias. Faz duras críticas à gestão cultural estadual e municipal e a maneira como o governo Roberto Cláudio vem conduzindo as políticas de revitalização da Praia de Iracema. Denuncia abandonos, entristece-se com a, segundo ela, apatia da sociedade civil diante do que vem sendo decidido por representantes políticos locais e nacionais. Desacredita no Plano Fortaleza 2040. E não esmorece quando fala de um recomeçar no sertão, como mulher arretada que vingou dele. Expressa força suficiente juntar as malas e brilhar noutros horizontes, parece mesmo ter a energia inesgotável de uma criança.

 

Acomode-se, a entrevista é longa. Entregue-se a esta conversa, ela vai te prender do início ao fim. 

 

Vida Ciranda: Você tem influências culturais diferentes muito fortes na sua trajetória, não é?
Valéria: Eu sempre tive esse lugar da Cultura Popular muito perto de mim porque eu sou filha de um mestre de reisado [Dorgival Pinheiro]. Em 1965, meu único irmão homem faleceu com 8 anos de idade. Eu tinha 6 anos. Então, foi uma experiência bem difícil para minha família, meu pai não conseguiu mais morar no Ceará. O irmão dele nos levou para Manaus, e ele recomeçou na Zona Franca de Manaus. Então, eu saio desse lugar e vivo minha infância e juventude em Manaus, uma cidade, naquela época, com desenvolvimento muito diferente do que a gente vê hoje. Então, eu tive experiências com aldeias indígenas. No quintal onde eu morava, tinha igarapé e do lado de lá tinha uma etnia, e por mais que o pai dissesse 'não saia daqui, não atravesse o rio', a gente acabava indo, atravessar o rio e brincar com os índios do lado de lá. Então, eu saí da cultura popular e fui para uma cultura étnica muito forte. Mais adiante, quando eu começo a entender minha personalidade, vejo que tem muito desse sentido étnico e cultural, tradicional.

 

Arquivo pessoal

 

Vida Ciranda: Quando é que você sai de Manaus para o mundo?
Valéria: Em 1979, o pai sofre um infarto e resolve voltar para o Ceará. Na época, eu estava no 2º ano de Engenharia Civil, na Universidade Federal do Amazonas. Meu pai consegue um emprego federal na Docas [Companhia Docas]. E eu sou transferida para a UFC [Universidade Federal do Ceará], tento terminar aqui, mas, no meio de tudo isso, consegui uma bolsa de estudos em Brooklyn e fui fazer Engenharia Civil em Nova York, dois anos e meio. Nessa época, eu era apaixonada pela área de exatas. E aí, para sobreviver para além da mesada do pai, eu trabalhava no Central Park, com todos os tipos de artes que trabalham o corpo, como patinação artística, essas coisas. Me aproximei, aprendi essas artes, foi tutora e comecei a entender isso como possibilidade de sobrevivência, meu corpo começava a acordar para algumas experiências que eu já tinha vivido antes, com as etnias no Amazonas, com o sertão, com meus pais e avós, enfim. Uma mistura ali de tudo isso.

 

Vida Ciranda: Mas aí você voltou para o Ceará para concluir a Engenharia?
Valéria: Nessa época eu já estava totalmente abduzida pela arte. Eu começava a entender que a Engenharia não era exatamente o que eu queria. Meu pai conseguiu um emprego para mim na Docas [Cais do Porto, Fortaleza, CE] e eu tive experiências bem frustrantes lá, por eu ser mulher. Minha especialização na Engenharia era Portos, Rios e Canais, mas na construção do píer em que eu trabalhei, acho que em 1982, fui proibida como mulher de fazer a inspeção submersa, na água. Isso me enlouqueceu. Foi minha primeira grande frustração. Botei a mochila nas costas e disse: “não quero mais Engenharia”. Meu pai enlouqueceu, todo mundo enlouqueceu e fui para o Rio de Janeiro.

 

Arquivo Pessoal

 

Vida Ciranda: Foi em busca da arte, da dança no Rio Janeiro?
Valéria: Chegando ao Rio de Janeiro, para que eu tivesse um “paitrocínio”, fiz uma escolha meio aleatória por um mestrado. Entrei na PUC [Pontifícia Universidade Católica] para fazer Análise de Sistemas. E me apaixonei pelos computadores. Mas aí, quando eu terminei, eu também já estava muito vestida da arte carioca. Eu estava na CAL [Escola das Artes de Laranjeiras], já fazia tablado, já fazia alguma coisa de televisão, trabalhava com alguns atores, já tinha espaço na Globo, eu já tinha conquistado um espaço meu no Rio de Janeiro. Mas aí meu pai ameaçava: 'você vai voltar'... e aí eu pensava: 'cara, eu preciso de um doutorado'. E fui fazer Inteligência Artificial, também pela PUC, do Rio.

 

Vida Ciranda: Inteligência Artificial (risos)?
Valéria: (Risos) E foi muito engraçado porque eu fiquei muito apaixonada pelo sistema que trabalhava o campo magnético dos corpos que perdiam partes, como numa folha. Meu trabalho foi o seguinte: quando eu quebro uma folha de árvore, quanto tempo esse campo magnético ou o campo que fazia parte do inteiro ainda fica com vida? E isso foi muito bacana, porque mais à frente eu conheci alguns filósofos, fui estudar corpo sem órgãos.

 

Arquivo Pessoal (Juazeiro)

 

Vida Ciranda: E você era muito dedicada à Academia?
Valéria: Não. Até porque eu nunca tive vontade de Academia, eu briguei com a Academia o tempo inteiro. Eu acho a Academia chata ‘pra caralho’, eu acho a Academia uma verdadeira prisão, quando deveria ser uma verdadeira liberdade. A gente já vem de uma prisão chamada escola... A Academia te prende quando você não pensa igual a eles. Eu terminei a defesa do meu doutorado sem entregar a parte escrita porque eu disse: 'eu não compactuo com nenhum desses filósofos, nenhum desses conceitos, eu não tenho aspas no meu trabalho. Vocês vão aceitar?' Então, fui quebrando protocolos. A Academia nos deixa em um tempo que não é esse, precisamos desse tempo atual, eu preciso desse corpo, desde o corpo sujeito até o corpo pensante, que se modifica a cada tempo, mas não, eu tenho que ter regras. Eu não queria Academia.

 

 

Vida Ciranda: Mas aí você concluiu Inteligência Artificial?
Valéria: Eu terminei Inteligência Artificial porque eu já era coreógrafa, me interessava muito mesmo trabalhar corpo de imanência, ou seja, que corpo é esse, como o pai, por exemplo, com quase 80 anos, que desce, sobe, toca pífano... enfim, que corpo é esse, rural, que existe hoje, que é tão diferente do corpo urbano.. qual é a diferença? Que temporalidade é essa? Como coreógrafa, me interessava muito. Eu, corpo urbano, tenho menos vida? Por quê? Que tempo é esse que parece mais esgarçado. Então, no meu doutorado, eu quis estudar e fui para esse lado, que já era o lugar da arte, já tinha um lugar do tempo. Eu já achava, e acho até hoje, que o sertão tem esse tempo esgarçado e que, por isso, as pessoas do sertão passam pela vida de uma forma mais intensa. E não é à toa que eles vivem mais tempo. Eles comem o simples, mas o mais forte, comem muito milho, muitas raízes, trabalham muito fortemente, então tem o corpo que é absolutamente diferente desse corpo nosso, ridículo, urbano, que está dentro do carro, senta a bunda no computador, está com milhões de controles na mão, não pensa tanto, se alimenta com o que já está pronto na geladeira... enfim.. tem esse lugar muito diferente.

 

Em Marrrocos, durante viagem com a Cia Vatá, em 2016

 

 

Vida Ciranda: Então, foram quantos anos no Rio, antes de voltar para o Ceará?
Valéria: Eu fiquei no Rio de 83 até 2000. Foi mestrado, doutorado, construção da Cia Vatá, abertura da Catsapá [Centro de Artes do Tempo Sapateado], uma escola de musicais que existe no Rio de Janeiro até hoje. Lá, em 1986, a gente ficou em cartaz com uma obra chamada Na cola do Sapateado [musical infantojuvenil] durante, nossa, nem sei... para você ter ideia ela hoje já está na terceira geração, tem a neta daquela que foi a minha primeira atriz. É muito bacana. Essa obra me deu uns prêmios que foram importantíssimos, me aproximou da televisão, do cinema. Mais ou menos em 1997, meu pai adoece, sofre um infarto e eu sinto muita necessidade de ficar mais perto dele porque a gente tinha brigado, depois fizemos as pazes, mas eu continuei no Rio.

 

 

Vida Ciranda: Seus pais sempre acompanhavam você, seus trabalhos?
Valéria: 
O tempo inteiro. No começo, foi bem complexo para eles, mas, muitas vezes, eu estava entrando em cena, no Rio de Janeiro, quando eu via na primeira cadeira eles dois. Tinham pego o avião só para ir assistir ou uma obra ou minha estreia, enfim, acabaram de alguma forma me aceitando como artista.

 

Com a mãe Maria (arquivo pessoal)

 

Vida Ciranda: E aí, em 2000, você veio embora para Fortaleza?
Valéria: E aí em vim embora para Fortaleza em janeiro de 2000. Eu tinha minha Companhia de Dança que eu tinha montado no Rio de Janeiro, em 94, já vinha me apresentando pelo Rio, São Paulo, Minas. Vinha trabalhando muito fortemente já como esse corpo brincante, que eu chamo como corpo brincante. Eu tinha a linguagem do sapateio muito forte, mas trabalhava muito com o viés da dança contemporânea. Quando eu vim embora, a Cia ficou lá. As pessoas se dissiparam e alguns ficaram. Hoje, são os diretores, donos e organizadores da Catsapá. Chegando aqui, eu montei minha Cia de Dança, genuinamente cearense, e foi muito bacana, que é a Cia Vatá.

 

 

Vida Ciranda: E o Teatro das Marias, quando ele surge na sua vida?
Valéria: Quanto mais eu trabalhava aqui, mas eu tinha necessidade de espaço, porque era sempre muito complexo. Eu ensaiava com os meninos ou no meu deque, na piscina do meu pai, ou na garagem que era quente para caramba. Até o momento em que eu cheguei para o meu pai e disse... isso foi em 2004: ‘pai, eu queria muito, meu sonho, me ajuda, eu queria muito um teatro’. Ele riu. Quando foi em junho de 2005, ele chegou para mim e disse: 'vamos ali no cartório comigo'. Me levou no cartório e aí passou o apartamento do Rio de Janeiro, que ele tinha comprado para eu estudar, para o meu nome. Eu disse: ‘pai, o senhor tá fazendo isso? Olha, eu vou pegar um avião amanhã, foi vender e volto para montar meu teatro!’. Aí ele disse: ‘faça tudo isso, só não fala para sua mãe que eu fiz isso’ (risos). Fui para o Rio, vendi mal para caramba meu apartamento. Eu me lembro que era um apartamento que podia estar em 2 milhões, sei lá, eu vendi por 300 e poucos mil, em 2005. Aí eu cheguei aqui enlouquecida: “pai, eu quero um lugar”.

 

Com o pai Dorgival (arquivo pessoal)

 

Vida Ciranda: E como foi a escolha por esse espaço?
Valéria: Eu tinha paixão pelo Dragão do Mar, e a Praia de Iracema tem toda uma ligação afetiva comigo, com a minha adolescência, minhas férias, eu sempre vinha para cá. A gente achou esse espaço aqui que era um galpão no chão, e o cara não quis vender. Meu pai tentou de todas as formas comprar. Eu lembro que ele olhava para mim e dizia: ‘você tem certeza? Você vai investir tudo aqui? Isso aqui é o que eu estou deixando para você. É isso que você quer? Você vai investir tudo em um espaço que não é seu?’ E foi tudo muito louco porque ele e minha mãe foram muito contra que eu fizesse isso. Eu conversei com o dono desse espaço, ele me deu 18 meses de carência.. que é nada... e eu peguei toda a grana do apartamento e construí esse espaço.

 

 

Vida Ciranda: E a Cia Vatá cresceu.
Valéria: Sim. No final de 2005, já não era só a Cia Vatá aqui dentro. Éramos nós, a comunidade que vinha assistir aqui dentro. Comecei a trazer todo mundo para dentro, outros coletivos vieram para cá também. O Teatro das Marias passou a ser esse espaço cultural que não era mais a Cia Vatá, era uma coisa da cidade. Muitos projetos vinham para cá, a gente começou a fazer parceria com o Sesc, com o BNB, com o próprio Dragão do Mar.

 

 

 

Vida Ciranda: Você mesma escrevia os projetos para participar dos editais?
Valéria: Sempre. Eu vinha com essa experiência do Rio de Janeiro porque para eu sobreviver lá, eu fui produtora durante muito tempo. Fui produtora muitos anos de Jonas Bloch, Claúdia Abreu. Trabalhei anos com José Wilker, trabalhei com a Xuxa 12 anos. Então, eu tenho todo um aprendizado sobre esse lugar da produção, esse lugar da organização, de buscar captação de recursos.

 

Foto: Andrea Bardawil (arquivo pessoal)

 

 

Vida Ciranda: E como foi se deparar com a política pública cultural, a política dos editais pela Cia Vatá?
Valéria: Lula fez com Gilberto Gil uma coisa que é muito parecida com o que se tem na Europa, nos Estados Unidos, na minha experiência de produção, que é a sociedade olhar para a cultura se fazendo pertencer e entendendo que quanto mais ela investe na Cultura, melhora a qualidade de vida. E alguma coisa acontece a partir de 2012 que a gente tem uma queda na construção de política pública. A gente perde a política pública que a gente havia conquistado ao longo desses, sei lá, 12 anos.. e a gente tem vindo com quedas, com quedas... eu acho que o auge de tudo isso é a saída da Dilma, quando a gente fica absolutamente perdido. Entra o Temer e diz assim: ‘tchau, Ministério da Cultura’. Foi uma loucura porque quando ele coloca na caneta o tchau caem todas as Políticas Públicas (PP). Quando volta, a gente volta sem PP, a gente volta sem o Mais Cultura, a gente volta sem a política de construção de editais. Então, a gente está no zero, numa luta, de novo, por toda PP Federal.

 

 

Vida Ciranda: E no Ceará?
Valéria: 
Ao longo disso tudo, no estado do Ceará, a gente tem dois governos que, simplesmente, sequer olham para a cultura cearense. A gente tem uma Luizianne Lins que alavanca, bacanérrimo, a Prefeitura, transformando uma Fundação numa Secretaria de Cultura. Com ela, a gente começa a ganhar muitas PPs nas duas gestões. A gestão petista, por incrível que pareça, por mais que esteja uma loucura agora... de alguma forma, a gente tem construção de PPs. Há um governo municipal em diálogo com a sociedade, que pensa cultura como um todo, como entretenimento, como arte, cultura, como aquele lugar em que eu vivo, que eu quero, como mobilidade. A gente começa a ter Fortaleza alavancando para isso. E aí quando entra Roberto Cláudio, enlouquece porque ele vai só para uma mobilidade de concreto e esquece toda a humanização. Então, a gente fica com uma cidade sem nenhum tecido afetivo, uma cidade que não tem calçada. Tem noção? Como funciona um lugar que não tem calçada, onde a calçada é o lugar do encontro, é o lugar da passagem .... então, eu falo com melhor propriedade do lugar onde eu vivo, que é a Praia de Iracema.

 

 

Vida Ciranda: Como está a Praia de Iracema (PI) pelo seu olhar?
Valéria: A gente tem uma PI absolutamente cooptada pelas drogas, não por outra coisa, porque não tem nenhum tipo de oportunidade de inclusão. O tempo inteiro a própria sociedade quer ver invisível esse lugar. As PPs, de uma forma geral, acabaram com a PI, com a construção desse elefante branco chamado aquário, que a gente conseguiu impedir. Nós, da classe, fomos lá, impedimos, mas, com relação a isso, eles isolaram o Poço da Draga, uma das comunidades mais antigas e mais belas... É óbvio que a comunidade tem problema? Tem problema! Como uma comunidade pode viver no século XXI sem saneamento básico? E aí não é da vontade do governo colocar saneamento básico porque o governo quer exterminar o Poço da Draga, o governo quer exterminar o Oitão, o Baixa Pau... ou seja, todas as favelas que estão por aqui [Praia de Iracema], ele quer exterminar, não interessa... então, ele vem fazendo uma política de higienização bunda! Eu acho que é isso que está me deixando mais sem energia para lutar, eu acho. Se eu tivesse a sociedade civil comigo, talvez eu tivesse com uma bandeira e fosse manter o Teatro das Marias, mas eu acho que a gente está apático. O que está acontecendo? Não sei.

 

Durante o espetáculo mais recente '233 A, 720 Khalos'

 

 

Vida Ciranda: Então, você acha que a PI foi abandonada não apenas pelos governantes, mas pela população também?
Valéria: Eu acho a sociedade civil culpada por absolutamente tudo que está acontecendo, esta apatia a tudo que o governo está nos dando. Neguinho bateu panela, fez um monte de coisas e depois calou. Cadê essas pessoas? Cadê esses filhos da puta? Muito triste! É a sensação que eu tenho, e eu não tenho nada a perder, não estou vinculada a nada. Você pode entrar aqui e fazer uma auditoria. Eu não tenho nada errado, portanto, eu não tenho rabo preso. Eu acho que 70% da sociedade está com rabo preso. Que medo é esse? A sensação que eu tenho é que, como a gente tem um Congresso abduzido pela corrupção, a base da pirâmide, que somos nós, está sufocada, sem poder subir para algum lugar. Está todo mundo abduzido de alguma forma, o que é isso? Por mais que eu não tenha dois filhos como você, tenho vontade de botar minha bandeira na mão e correr na rua, que futuro é esse que essas crianças vão ter, que cidade é essa que eu vou dar para elas? Ninguém se mobiliza.

 

 

Vida Ciranda: Como é que você vê essa atual revitalização proposta para a PI?
Valéria: Na verdade, não existe. É uma higienização. Ele [Prefeito Roberto Cláudio] primeiro fez o seguinte: a periferia contra a periferia, porque ele não entende que a PI também é uma periferia. Então, ele diz: 'eu vou trazer a periferia para dentro'. Sendo que a periferia é quem mais está sofrendo, porque, de repente, ele traz as pessoas para cá e quer que as pessoas se sintam pertencentes sem nenhum tecido afetivo, sem sequer saber o que aconteceu aqui, não existe passado. Para você ter uma ideia, cara, a gente pega o nosso Estoril. Meu Deus do céu! Quem estiver perto da minha idade... porque você é jovem, mas eu tenho 58 anos. Minha juventude inteira de férias foi ali no Estoril, com shows, com conversas.. coisa mais gostosa do mundo! A Ponte Metálica era o grande encontro da juventude cearense e não era juventude elitista não. Agora, o que é que acontece? A Prefeitura vem e entrega a cidade para o Capital, ou seja, eu tenho empreiteiras e mais empreiteiras com interesse... Se você vir o Plano Fortaleza 2040, você vai ficar chocada.

 

 

Vida Ciranda: O que mais impressionou você nele?
Valéria: Eu tive uma conversa olho no olho, ouvido no ouvido, discussão e discussão com o arquiteto do Dragão do Mar, Fausto Nilo. Nesse lançamento do Plano Fortaleza 2040 [que aconteceu em agosto de 2017], estávamos os dois, porque por eu ser polêmica sempre me chamam. No projeto, Fausto entende a Monsenhor Tabosa como local de construção de arranha-céus onde a população possa morar, para que exista população morando por essas áreas aqui. Sendo que ele esquece... não existe nada com relação ao Poço da Draga, nada com relação a nós todos aqui... é uma exterminação, a construção de um grande aglomerado de arranha-céus, onde embaixo possam vir a ser lojinhas, para virar uma Ipanema. A ideia que eles querem é Ipanema, Leblon, onde a Praia de Iracema seja o metro quadrado mais caro do mundo. Então, quanto mais rápido eles exterminarem todas aquelas casinhas que ainda resistem ali, mais rápido eles vão construir o metro quadrado mais caro da cidade. E o tempo inteiro é a ideia do aquário que está ali como um grande projeto, é tão absurdo isso! Me dá uma revolta tão grande isso, companheira! Porque se você parar para pensar: somos o Estado de maior seca dentro da região Nordeste. Eu mesma moro numa região que custa R$ 140 por semana o caminhão pipa de água. E aí você vem fazer um aquário importando a água? Me dá um nó na cabeça!

 

Ensaio fotográfico _ Espetáculo 233 A, 720 Khalos

 

 

Vida Ciranda: Sobre o movimento da cultura que está acontecendo na PI, o Conselho da Praia de Iracema, o que você acha?
Valéria: Sei qual é. Estou no movimento. Bem complexo também. Eu fico muito preocupada porque é um movimento arranjado, não é um movimento da sociedade civil. Não é. O senhor Roberto Cláudio convida a dedo algumas pessoas do poder público, duas ou três pessoas da PI e cria o Conselho da PI [empossado no dia 25 de agosto de 2017]. Aí, eu pergunto: cara pálida, como é que você não chamou Carri Costa [ator e diretor da Companhia Cearense de Molecagem, responsável pelo Teatro da Praia, situado na rua José Avelino]? Ele está aqui há 37 anos! Como você não chamou alguém do Alpendre [Casa de Arte Pesquisa e Produção, situado na rua José Avelino], que está aqui há séculos? Como você não me chamou, que tenho 18 anos aqui? Como você não chamou a Isabel, do Poço da Draga [Isabel Cristina Lima, moradora da comunidade do Poço, responsável pela ONG Velaumar]? Então, tem alguma coisa errada. A Rejane Reinaldo [atriz, responsável pelo Teatro da Boca Rica, situado na rua Dragão do Mar, atual gestora da Coordenadoria de Criação e Fomento, da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor] lançou uma convocatória para o Teatro da Boca Rica. Como assim, cara pálida, tu acha que só é tu? Eu fui para a internet, desfiz a convocatória dela e disse: 'ok, se você é a Praia de Iracema, todos estaremos sim no Teatro da Boca, mas para defendermos a PI'. E aí, começa o movimento. Foi uma discussão muito ferrenha. Nenhum pensamento, de fato, construído para pensar afeto. Eu não posso construir a PI sem afeto. Rejane é uma pessoa que eu tenho absolutamente muito carinho, a gente é muito próxima artisticamente, eu tenho uma admiração artística por ela inenarrável, mas acho que no momento em que ela vestiu a camisa do governo, ela esqueceu tudo o que poderia fazer estando ali, pelo lado de cá. Não sei, talvez seja uma rixa minha, eu não estou no governo. Eu só fico pensando: 'por que está acontecendo isso?' Como é que a gente tem uma Secretaria da Cultura no município tão apática?

 

 

Vida Ciranda: E como você que está chegando a repercussão do fechamento do Teatro das Marias para os atores da Cultura do estado?
Valéria: 
Para você ter uma ideia, um dia desses [6 de janeiro], eu brinquei na internet, eu estava desmontando o andar de cima [do Teatro das Marias], me deu uma tristeza.. fui para internet, postei só ‘meu deus, eu pensei que fosse ser menos doloroso’. Isso fez... trrrrrrrrrrrrrrrr.... [fez gesto em alusão à postagem se espalhando na rede social] ... isso espalhou, Facebook, Instagram subiu, e o outro falou, que o outro falou, que o outro falou ...

 

 

Vida Ciranda: Os amigos repercutiram. E as Secretarias da Cultura? 
Valéria: A Secretaria da Cultura [do Estado] já havia conversado comigo. Eu estava no hospital, me ligou o Paulo Linhares [presidente do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura]: ‘Valéria, como assim você vai fechar Marias?’ Falei: ‘Paulo, isso não é nenhuma novidade, a gente já vem conversando’. Por sinal, só para você ter uma ideia, o último encontro que eu havia tido com Paulo Linhares foi em dezembro. Estávamos ambos dentro da Secretaria da Cultura do Estado. O Secretário de Cultura, Fabiano Piúba, tinha acabado de falar comigo porque eu havia ido lá e falado: ‘Fabiano, eu não tenho mais pernas para segurar... ‘

 

 

Vida Ciranda: Isso foi quando?
Valéria: 
Se eu não me engano, foi dia 19 de dezembro. Quando eu conversei com Fabiano e falei: ‘eu acho que eu não tenho mais pernas para segurar Marias, quer dizer, não é mais só o Teatro das Marias, mas um problema muito maior, eu venho aqui como artista te pedir para que você salve o Dragão do Mar porque a sensação que eu tenho é que a gente precisa achar uma forma de a família voltar a habitar o Dragão do Mar, uma forma de organizar os camelôs que estão lá, porque a droga está junto’.

 

 

Vida Ciranda: Você sente que os usuários de drogas e a violência têm aumentado na PI, no entorno do Dragão?
Valéria:
Eu trabalho com população de rua e usuário de droga [Desde 2006, Valéria coordena o Ponto de Cultura Ubuntu, voltado para a população de rua e usuários de drogas que trafegam pelos arredores do Teatro das Marias]. Eles chegam para mim e dizem: ‘dona Val, nós estamos vendendo agora é a céu aberto no Dragão do Mar’. É óbvio que você tem o camelô que é pai de família, mas você tem o Dragão do Mar tomado por foodtrucks [carros que vendem comida], e são empresários. Não se preocupe que não são pessoas que nem nós, sem dinheiro para pagar aluguel de Marias não. São empresários que colocam terceiros lá. Nesses foodtrucks também estão sendo distribuídas drogas. Então, ou você tem coragem como Estado de entrar e conversar, impedir e inibir isso, organizando os camelôs, trazendo a organização sanitária... não é higienização de pessoas, mas sanitária. Para que que eu funcione como Teatro e tenha esse Café aqui, eu pago todo ano imposto para que eu esteja de acordo com a vigilância sanitária. Eu tenho visitas quase que mensalmente, se eu tiver qualquer coisa errada aqui, eu levo multas absurdas.

 

 

Vida Ciranda: Você conversou sobre isso com o Fabiano e com o Paulo?
Valéria: O tempo inteiro a gente vem conversando sobre isso. O Paulo Linhares odeia quando a gente fala “nós, os arredores do Dragão”, mas não tem como não dizer porque o Dragão, por ser esse tamanho enorme, cada evento que ele faz em que ele não dialoga com a gente, a gente tem que fechar as portas. Por quê? Porque a violência triplica, a multiplicação de drogas é enorme, eles [organização Dragão do Mar] pegam os guardas montados, colocam os cavalos protegendo e o que a gente recebe é a bosta do cavalo. E eu disse isso tudo na cara do senhor Paulo Linhares. Então, naquele dia quando a gente se encontrou, depois que eu falei com o Piúba, eu disse: ‘Paulo, que bacana te ver agora, a gente está na véspera do Natal e eu vim pedir ao secretario da cultura que salve o Dragão do Mar’. Ele enlouqueceu.

 

 

Vida Ciranda: E o Paulo te ligou, de novo, quando?
Valéria: E depois de tudo isso, ele me liga, no dia 8 de janeiro, se eu não me engano, para dizer: 'você não pode fechar o Teatro das Marias'. Sabe quando você fica, assim, sem saber o que dizer?

 

 

Vida Ciranda: Você acha que vai existir uma solução para que o Teatro das Marias não feche?
Valéria: Eu não tenho nenhuma esperança. Eu passei 15 anos esperando um diálogo com o Dragão do Mar. De qualquer forma, eu disse para eles assim: ‘todo o investimento no espaço físico fui eu quem fez. Ou seja, gastei toda a minha grana aqui. Vou sair e o dono do espaço vai ter um espaço pronto. A luva é 20 mil que o cara vai me dar por tudo que eu já fiz aqui, ou seja, é nada. Então, se não for eu [para administrar], fica com o espaço’.

 

 

Vida Ciranda: Então, a decisão de fechar o Marias já está tomada...
Valéria: Porque eu não sei se eu vou querer me manter na PI se a sociedade de uma forma geral não quiser brigar, não quiser acordar. Vou trabalhar no sertão porque cada vez que eu ando lá eu vejo olhos ávidos, uma vontade enorme.. eu devo isso ao sertão.

 

 

Vida Ciranda: Agora, é no sertão.
Valéria: Eu estou sem nenhum tostão. Eu não vou ter dinheiro para botar minhas coisas em um matulão e levar para o sertão. Eu não tenho nem dúvida de que eu quero o sertão. Queria ter a dignidade de um ano mais aqui, com muita calma, organizando este teatro e montando aos poucos um galpão para mim no sertão. Eu tenho as terras que meu pai me deixou. Mas eu não tenho nada, não tenho nem onde colocar meu computador lá. Eu estou indo para um lugar que não tem água, não tem internet.

 

 

Vida Ciranda: Onde é lá?
Valéria: Um lugar chamado Sítio Mãe d’água, distrito da cidade de Jati, a última cidade no estado do Ceará, quase fronteira com Pernambuco. 

 

 

Vida Ciranda: E quais são os planos para o sertão?
Valéria: Eu fui para lá no dia 23 [dezembro de 2017] e fiquei até o dia 6 de janeiro [2018]. Passei esses dias pesquisando, conversando com as pessoas. Vi que a demanda lá são mulheres entre 35 e 90 anos e criança entre 0 e 8 anos de idade, que é a grande demanda. A única escola que tem no distrito, nas terras que meu pai doou, vai fechar, porque, segundo a escola, não tem mais crianças, as crianças estão indo para um outro nível. Mas não é, o motivo é político. Os vereadores estão levando para onde eles têm influência, estão tirando da vila. Então, quando eu cheguei lá, juntei as mulheres e falei: 'vocês não vão deixar fazer isso'. Eu vou começar a fazer um movimento no sertão enorme. Vou fazer com que as mulheres mais velhas tenham possibilidade de ler, em um segundo turno. A ideia é também um galpão de geração de renda para essas mulheres a partir das potencialidades delas, e eu quero trabalhar com as crianças. Vai ser Teatro das Marias, no sertão. Absolutamente igual, tudo igual. Eu tenho uma vontade muito grande. Eu estou mandando para o universo, tenho certeza que vai rolar, só queria um pouco mais de tempo.

 

 

Vida Ciranda: Você é muito próxima da infância. Fala o que vem representando, para você, a Escola de Musicais para Crianças, a Colônia de Férias Curumins.
Valéria: A força que eu tenho para trabalhar é para transformar. Quando eu venho para cá, brincar com as crianças de manhã, eu estou produzindo alegria em mim, isso me faz sobreviver, me faz existir. A minha produção de alegria me mantem em pé, me mantem forte. Aí, eu pergunto: o que te produz alegria, você , sociedade civil? Fico pensando: que epidemia é essa? Ninguém se mobiliza. Não, bicho, eu quero produzir minha arte. Então, eu vou brincar com as crianças. Acho que por isso eu quero ir pro sertão, porque lá a situação é ainda mais dolorosa.

 

Vida Ciranda: O seu encantamento com a infância tem relação com a sua própria infância?
Valéria: Eu fui a criança mais feliz que você possa imaginar porque eu venho de uma família que tem na infância, na construção do eu sujeito um cuidado inenarrável. Tive uma mãe que foi diretora de escola o tempo inteiro, e um pai que era vaqueiro e brincante. Minha mãe era uma pedagoga formada, dava aulas de francês, uma dama. Meu pai era um homem do sertão, mas viajou o mundo inteiro, fez a vida dele acontecer, na construção da Zona Franca, no Amazonas. Quantas vezes, fui trabalhar com meu pai, lembro que ele me dizia: 'no papel, número é número em qualquer linguagem do mundo. Se você sabe fazer conta, é multiplicar o dinheiro dele pelo meu, e eu sei o que eu quero e o que ele quer. Pronto'.

 

 

Vida Ciranda: Quer dizer que seu pai foi mestre de reisado?
Valéria: Sempre foi um grande artista meu pai, coisa mais linda do mundo, grande sapateador, tocava violão como ninguém, poeta de cordel genial. Sempre foi comerciante, mas eu acho que eu herdo dele esse lugar da calma, no sentido da brincadeira. Ele foi muito brincante. O valor dele era o do encontro. Não ligava para o dinheiro. Foram 56 anos de muito amor dos dois, dele e da minha mãe, e de muito cuidado com a gente. Foram cinco filhos. A primeira filha nasceu morta, minha mãe teve eclampse . Em seguida nasceu meu irmão, depois minha irmã mais velha, nasceu eu depois, e minha irmã mais nova. Meu irmão morreu por causa de um problema renal com 8 anos. 

 

 

Vida Ciranda: Além da dor da perda do irmão, me diz algo que te marcou na infância?
Valéria: Eu até brinco que me pai criou a gente em gaiolas de ouro. Por exemplo, por mais que eu tivesse tido uma infância com tudo que você possa imaginar, não tem uma criança que não queira uma bicicleta, não é?! Meu pai nunca me deu uma bicicleta. Ele dizia: ‘me peça o mundo, mas não me peça uma bicicleta. Bicicleta vai matar’. Eu me lembro que quando ganhei meu primeiro cachê, botei meu pai dentro do carro, fui para o Romcy e comprei uma bicicleta. (risos) Aí disse para ele: ‘o senhor vai agora no carro que eu vou de bicicleta’. Então, só tive bicicleta depois de velha.  Mas meu pai nos fez ser criança o máximo que a gente pode ser criança: subir em arvore, ter cavalo, sonhar, meu Papai Noel existiu durante muito tempo. A imaginação e a utopia da criança sempre foram muito vivas com ele. A gente herdou dele um lugar de mundo muito saudável, onde a família de fato é a grande raiz. Nesse instante, por exemplo, a família inteira está muito junto comigo.

 

 

Vida Ciranda: Os dois já morreram?
Valéria: Minha mãe morreu ano passado, meu pai em 2009. Tudo que eu ensino para as crianças, eu brinquei com meus mestres, eu brinquei de maneiro-pau, de reisado, fui rainha do reisado no colo do meu pai, eu toquei, eu cantei, eu sapateei. Fora as brincadeiras indígenas, que a gente aprendeu. Foi muito legal! Isso contribuiu para quem eu sou hoje.

 

 

Vida Ciranda: É muito viva a criança que você tem aí dentro, não é?!
Valéria: Eu tenho um lugar com a criança que me fascina. Eu não sou mãe, mas eu tenho tantas crianças por quem eu sou apaixonada, e apaixonada nesse lugar da brincadeira. Para mim, a brincadeira não tem tamanho nem idade. Mesma coisa que eu estou fazendo com as crianças aqui, eu experimento esteticamente com o adulto e é a mesma coisa. Ou seja, essa técnica que eu criei, que é o corpo brincante, ela é uma forma de você ter, independente do seu intelecto, que muda de 4 anos para 60 anos, mas você ter um lugar no seu corpo que é da criança. Eu aprendo o tempo inteiro com as crianças, elas não têm nenhum juízo de valor. Nesse brincar, o estético dela é o que ela está sentindo. Para mim, como coreógrafa, é a maior inspiração, em todos os sentidos. Eu tenho na corporeidade das crianças um lugar da verdade que é muito forte.

 

 

Vida Ciranda: Além da Colônia de Férias para Curumins, fala um pouco de outras iniciativas para a infância que você tocou.
Valéria: Eu comecei a trabalhar com as crianças com a Xuxa, no Rio de janeiro. Viajei durante muito tempo pelos assentamentos, pelo sertão. Trabalhei durante nove anos em uma ONG em Horizonte, só com as crianças. Teve um projeto aqui que foi lindo, pela Prefeitura de Fortaleza, se chamava Dançando na Escola, aconteceu durante quatro anos. Foi a coisa mais linda! Dei aula de dança no Pirambu. Em 2007, trouxe crianças do Grande Bom Jardim, que já eram um pouquinho maiores, estavam já na idade meio adolescentes, 9 e 12 anos de idade, e ficaram comigo até completarem 18 anos, em uma experiência bem bacana de montagem de espetáculos.

 

 

ESTA ENTREVISTA FOI ATUALIZADA, HOJE, DIA 8 DE MARÇO DE 2018
Valéria passou essas semanas mais recentes de fevereiro e primeiros dias de março/2018, na Alemanha, cumprindo compromissos profissionais, falando sobre suas obras, como diretora artística, produtora cultural, atriz e coreógrafa, e dando aulas em universidades alemãs.

 

 

Vida Ciranda: Suas decisões sobre o fechamento do Teatro das Marias e o trabalho no sertão permanecem? Alguma novidade vinda da Secretaria da Cultura?
Valéria: Ainda não tenho nenhuma resposta positiva ou negativa do Paulo Linhares sobre Marias. Mas meu deadline é março. Entrego o galpão dia 5 de abril, se nada acontecer até lá. E vou para o Sertão, começar tudo, sem um tostão.

ilustração de menino que brinca nas estrelas

Crítica à educação tradicional e ao trabalho infantil permeiam a narrativa fantástica e apaixonante do livro A Casa da Madrinha, de Lygia Bojunga

Neste 2018, faz 40 anos que Lygia Bojunga lançou o livro A Casa da Madrinha. A obra, categorizada como infanto-juvenil, é encantadoramente perturbadora à medida que descreve situações e lança reflexões sobre infâncias, exclusões, escola tradicional, e busca por um ideal de maneira tão atual, por uma construção narrativa que mistura o real e o fantástico. Literatura como deleite, como fascínio sim, mas também como instrumento de denúncia, de crítica, de análise social e de transformação. Um bom instrumento para iniciar com os filhos diálogos de questionamento e análise sobre o mundo. 

 

 

Alexandre, o menino personagem que move toda a contação, é criança nossa, de todos os dias, aquela que encontramos nos semáforos vendendo bombons. E é tão fácil reconhecer que a Escola Osarta do Pensamento, que a autora descreve na obra e é utilizada para condicionar os quereres de uma pavão cheio de beleza e 'marra',  é essa que se multiplica em outdoors, tradicional, conteudista, alienante, que rejeita quem não se adequa, quem acredita que a escola é também um espaço de formação para a cidadania e não tão somente para provas. Mais atual, impossível.

 

Parte da capa de uma das edições do livro / Divulgação Internet

 

Mas, para além disso, existem os sonhos e os amigos que encontramos na jornada. São resistências, inspirações e forças. Pessoas que trazem magia, imaginação, fantasia, que deixam a vida mais leve em meio a dureza da lida. Alexandre também conta com eles e isso faz toda a diferença. A casa da madrinha, perseguida por Alexandre, é a metáfora que abarca nossos sonhos todos, aquele ideal de vida que desenhamos em objetivos e metas, mas, ao mesmo tempo, que é tão seletiva. Nem todos conseguem alcançá-la. Temos que viver escapando de tanta coisa, como Alexandre.  É preciso vencer medos para conquistar, como o personagem aprende no caminho. A Casa da Madrinha é, sobretudo um livro de esperanças. 

 

 

Convidamos uma pessoa de quem o Vida Ciranda é muito fã para também conversar conosco sobre o livro. Temos a honra de acolher a análise sensata e tão oportuna da pesquisadora Vanessa Passos, doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC), integrante do Grupo de Pesquisa - Espaços de Leituras: Cânones e Bibliotecas (PPGLetras UFC). Vanessa é estudiosa de Lygia Bonjunga e compartilha conosco  um pouco da riqueza de apreensões que ela carrega do livro A Casa da Madrinha. Encantem-se, como eu me encantei. Boa leitura! 

 

 

Entre viagens e livros, em direção à Casa da madrinha, de Lygia Bojunga
Por Vanessa Passos

Arquivo pessoal

Quantas e quais infâncias existem? Infâncias no plural, porque o retrato de infância perfeita é apenas fruto de uma idealização romantizada deste período. No livro A casa da madrinha, Lygia Bojunga mostra-nos a infância difícil de Alexandre. Em vez de brinquedos, ursos, carrinhos, bola, ele trazia consigo uma caixa com gelo e sorvete para vender na praia, outras vezes, trazia uma caixa com objetos para fazer mágica nas ruas do Rio de Janeiro para receber alguns trocados. Sua vida era um malabarismo entre o jogo de cintura e a imaginação para sobreviver, driblando a escassez em que vivia.
Apesar de abordar assuntos pertinentes, como: o trabalho infantil, a pobreza e o abandono da escola, a escritora brasileira não o faz de forma pedagógica ou panfletária. A autora não diz (com um tom utilitário), mas mostra (num tom estético), através de cenas bem delineadas e diálogos fluidos, a miséria de um garoto que mora no morro – uma infância muitas vezes esquecida por nós e pelos livros.

 

 

Quantos livros já lemos para nossos filhos, irmãos, sobrinhos, primos, amigos, para as nossas crianças, ou ainda, para a criança que ainda somos e podemos ser, que trazem à tona esta realidade? A realidade daqueles que povoam sinais nas ruas, nos terminais de ônibus, nas favelas...

 

 

Nessa narrativa, escrita pelo viés do realismo fantástico, temos uma realidade cruel que se funde à fantasia. Com a leitura, encontramos Pavão que fala tremidinho; Casa da Madrinha, que é o lugar dos sonhos, Esperança. Apesar de todas as dificuldades, Alexandre tem fé, guarda a certeza de que “Agora eu posso viajar toda a vida. Quando o medo bater, eu ganho dele e pronto.”

 

 

O livro ainda traz uma crítica metafórica à repressão dos direitos de liberdade de expressão, através do personagem Pavão, o qual é obrigado a ir para a Escola Osarta, uma escola que tem por objetivo atrasar o pensamento dos alunos. O curioso é que a palavra “Osarta” significa atraso ao contrário. Lygia brinca com isso, dizendo que colocaram este nome para não dar tanta bandeira do que eles realmente queriam fazer no colégio. Depois de passar por uma série de torturas e ter seu pensamento costurado, o Pavão perdeu parte da memória e passou a ter um pensamento raso, não questionador.  De semelhante modo, a professora da escola que Alexandre frequentou, tinha uma maleta cheia de pacotes e de cores, ela fazia brincadeiras, deixava os alunos contarem suas histórias. Inventava e reinventava jeitos de dar aula. Todos os alunos adoravam. Mas a diretora não gostou: “Que matemática era aquela que a Professora estava inventando? Não gostou da invenção.”

 

 

Enfim, o livro conduz a uma viagem maravilhosa, que permanece mesmo depois da última página. Então, observamos que a vida é uma viagem constante. No caminho, encontramos muitos percalços, mas é importante seguir, sempre em frente. Quem sabe um dia podemos chegar à casa da madrinha, o grande desejo de Alexandre. Certamente, lá estará o menino, encostado na porta azul-marinho com a flor amarela pendurada e uma chave na mão esperando-nos com um sorriso no rosto.

 

 

SERVIÇO:

A Casa da Madrinha 
Autora: Lygia Bojunga
20ª edição: 2015, 17ª impressão
Ilustrações: Regina Yolanda
Casa Lygia Bojunga
Preço médio: R$ 30

brincadeiras-perigosas-na-internet

Jogos de desmaio são as brincadeiras perigosas mais difundidas na internet, entre crianças e adolescentes. Psicóloga do Instituto Dimicuida dá dicas de como proteger os filhos

Se você tem dificuldades de fazer com que seu filho largue o celular, o tablet ou o computador para fazer outra atividade que não seja ver desenhos ou vídeos a ermo, na internet, você não está sozinho. Arrisco dizer que, se não todos nós - pais e mães, passamos por isso hoje, posso apostar que uma grande maioria sim, compartilha esse drama, essa apreensão, esse medo pela exposição do que está sendo exposto a eles numa internet ainda tão desconhecida e perigosa.

Divulgação/Internet

Mesmo pequenininhos, com 1 ou 2 anos, eles já esperneiam e fazem birra quando lhes tiram o eletrônico, que, nas situações mais responsáveis, lhes foi dado para tentar aquietar a criança, distrair enquanto o adulto tenta resolver problema de adulto. Ufa! Não é fácil. E já peço, para quem não for pai, mãe ou cuidador, ou não passa por alguma situação semelhante ainda: não julgue quando virem alguma das situações descritas acima, de entretenimento ou birra. O drama, amigo, extrapola a boa educação.

 

 

Há inúmeros problemas implícitos e explícitos no encantamento que as crianças têm pela internet, segundo diversos estudos já copiosamente divulgados: desde representar riscos à visão e dores nas costas, pela postura errada de ter o celular próximo demais aos olhos e curvar-se de maneira inapropriada para assisti-lo, passando por efeitos de ansiedade e hiper atividade infantis, pela dinâmica de cores e ações aceleradas dos conteúdos assistidos, até o risco de cair em conteúdos perigosos. Daí, o medo.

 

 

No último dia 7, acompanhamos de coração saltado o drama da família que perdeu a filha Adrielly, de 7 anos, depois que a menina tentou imitar um youtuber pelo desafio do desodorante, o que causou uma parada cardíaca, após inalar grande quantidade de desodorante aerosol. A impressão que temos é que a garantia de segurança que, até pouco tempo oferecíamos a eles dentro de casa, nos foi usurpada pela internet, pelas redes sociais, por outras mídias. O meio da rua, agora, é em todo lugar, a um clique de acesso.

 

 

Um dia anterior à morte da menina Adrielly, a associação brasileira Safernet mobilizou a rede em torno do Dia da Internet Segura, dia 6, iniciativa anual com o objetivo de unir e envolver os diferentes atores, públicos e privados, na promoção de atividade de conscientização em torno do uso seguro, ético e responsável das Tecnologias de Informação e Comunicação, nas escolas, nas universidades, nas ONGs e mesmo na rede. A ação envolveu também o papel da família e dos educadores na condução de crianças e adolescentes na internet: desafios, mediação e proteção. Assista aqui, o dia de palestras realizadas em São Paulo. 

 

 

Não dá mais para ignorar, é preciso arregaçar as mangas e ver maneiras de conviver com a realidade da internet na vida dos filhos. Conversei com a psicóloga Fabiana Vasconcelos, integrante do Comitê de Ciência e Educação do Instituto Dimicuida, responsável pelo desenvolvimento de programas de prevenção. O Instituto foi criado em 2014 pelo empresário Demétrio Jereissati, dois meses depois de ele encontrar o filho caçula Dimitri, de 16 anos, sem vida, com um cinto em volta do pescoço, como consequência da prática do Jogo do Desmaio. Segundo dados do Instituto, as maiores vítimas são crianças e jovens de 4 a 20 anos, que, quase nunca, estão engajados em práticas suicidas. Entenda: são crianças e adolescentes que, realmente, acreditam se tratar de brincadeiras inofensivas, não têm consciência das possíveis consequências; são movidos pela curiosidade e pela euforia, até pela pressão da turma, nessa busca de experimentar, desafiar a si e aos outros, pertencer a grupos. É assustador, de fato, mas é possível evitar. 

 

 

Segundo a psicóloga, os primeiros e determinantes passos para a prevenção são informar-se, manter-se vigilante e estabelecer com os filhos conversas constantes sobre o que eles veem na internet, desde pequenos, estimular um ambiente de diálogo amistoso, lúdico, de confiança. Confira abaixo a conversa com Fabiana. Entregue-se à tarefa de prevenir como o seu filho se entrega à curiosidade de vasculhar a internet e, sem que a gente saiba, “brincar” com os amigos.

 

Psicóloga Fabiana Vasconcelos, do Instituto Dimicuida Foto: Rádio Câmara/Divulgação

 

Vida Ciranda: Com que idade as crianças têm começado a se envolver com brincadeiras perigosas? O colégio é o ambiente mais comum?
Fabiana: Nove anos é a idade com que a criança já está começando a entrar nesse circuito de “eu preciso pertencer a um grupo”. E esse pertencer a um grupo vai insistir que a criança tenha um comportamento dentro daquele grupo, que façam as mesmas ações. Então, essas identificações começam a surgir e serem importantes nessa época, em que o grupo é extremamente importante. Porém, nós estamos vendo e sabemos que a partir de 6 anos de idade a criança já pode se envolver em alguma prática dessa, principalmente, se ela tiver acesso a informação sem controle e sem monitoramento.

 

 

Vida Ciranda: De onde vêm os principais incentivos? Colegas, internet?
Fabiana: À primeira vista, as crianças estão interagindo nesse meio social por conta de uma necessidade de estar se socializando via mundo digital, isso faz parte do funcionamento do nativo digital, da criança e do adolescente que nasceram na era da internet. À medida em que a gente transforma a vida da criança em uma vida interna, dentro da casa, dentro do apartamento, confinadas em condomínios e com livre acesso a internet, a gente tem uma propensão a que essa criança tente, dentro do circuito que é comum na adolescência, de formar grupos experimentais, de ser criativo, que ela busque essa necessidade nesses caminhos sociais que é do mundo digital, já que ela não tem um externo, não existe um equilíbrio entre experienciar essas coisas no mundo externo. Então, um dos pontos principais é o desequilíbrio entre o tempo de tela e o tempo externo. Quanto tempo se desconecta da rede e passa fazendo atividades saudáveis, atividades externas ao mundo da internet e como isso é monitorado. É preciso ter o controle parental. Os pais precisam compreender a dimensão do risco que a internet tem. É como soltar uma criança numa praça com três bilhões de pessoas e, no Brasil, ela ter acesso a 24 milhões de crianças e adolescentes que acessam a internet, com suas criatividades e experimentações. Antes, a gente tinha um controle. Eram cinco, dez amigos que participavam desse circuito de criatividade, experimentação e formação de grupo. Agora, nós temos a criança exposta e sendo compelida a participar de práticas dentro de um mundo de pessoas que ela não conhece. Então, não tem um respeito, um amor, um cuidado e uma proteção com ela.

 

 

Vida Ciranda: Que “brincadeiras” têm se revelado a mais “comum” entre crianças e adolescentes? Eles sabem dela, principalmente, pela internet?
Fabiana: Nós temos um grupo de desafios [brincadeiras perigosas] que são mais comuns e que tem um número crescente dessa disseminação via plataforma de vídeo. Em 2010, nós tínhamos cerca de 500 vídeos da brincadeira do desmaio, estamos com quase 21 mil vídeos, agora em 2018. A brincadeira do desodorante vem crescendo também com 17 mil e 400 vídeos,  tem também o desafio da camisinha, o desafio da canela em pó, o desafio do super bonder, entre outros. Estes são os números de vídeos que vêm aumentando e se disseminando, à medida em que os anos passam.

 

"À medida em que a gente transforma a vida da criança em uma vida interna, dentro da casa, dentro do apartamento, confinadas em condomínios e com livre acesso a internet, a gente tem uma propensão a que essa criança tente, dentro do circuito que é comum na adolescência, de formar grupos experimentais, de ser criativo, que ela busque essa necessidade nesses caminhos sociais que é do mundo digital, já que ela não tem um externo, não existe um equilíbrio entre experienciar essas coisas no mundo externo"

 

 

Vida Ciranda: Filhos mais carentes da atenção dos pais são mais vulneráveis?
Fabiana: Não há um perfil específico de que criança ou adolescente vai se submeter a uma prática dessa. Como eu falei, faz parte do desenvolvimento natural da criança, ela se desafiar. Por volta dos 11 anos de idade, ela vai compreender que ela precisa sobreviver no mundo externo e à medida que esse mundo externo impõe para ela desafios, ela vai testar esses desafios porque ela precisa saber-se como sujeito, como indivíduo. Então, é normal testar os limites das emoções, do corpo, de que ser social ela é, do que ela pertence, do que ela gosta, do que ela desgosta. Nesse processo, para o adolescente ou o pré-adolescente,  ser de um grupo é extremamente importante e significante. Então, o que sustenta um pouco essa criança é ela ter uma capacidade reflexiva quanto à participação naquela prática. Isso a gente vê muito pouco, hoje em dia, nas escolas: a existência de um espaço para trabalhar a competência socioemocional. As escolas estão tão focadas em conteúdo e sucesso acadêmico que não existe mais exploração cultural de arte, de esportes e de emoções. O recomendado são 30 minutos mensais para o desenvolvimento de competência socioemocional, onde a criança e o adolescente possa falar sobre as questões do dia a dia, o que incomoda, que sentimentos ela tem, o que significa está participando de um grupo, como dizer não a práticas que são de risco, por que eu não me submeto a um grupo em que eu compreendo que aquilo pode ter uma consequência séria para a minha vida... esses espaços não existem mais nas escolas ou nunca existiu ou existe muito pouco. Em Fortaleza, em não conheço nenhuma escola que trabalhe com competência socioemocional. Nós temos algumas escolas que trabalham com a formação de valores, mas ainda na Educação Infantil ou começo do Ensino Fundamental. Quando os problemas realmente surgem, de existência, que vem o questionamento existencialista do ser humano, por volta dos 10, 11 anos, isso é removido das escolas. E a escola vira somente conteudista.

 

 

Vida Ciranda: Há alguma causa, dentro do núcleo familiar, que pode deflagrar o interesse ou o envolvimento “cego” pelas brincadeiras?
Fabiana: Eu diria que a falta de limite no acesso à rede, à internet, ela pode ser sim um deflagrador. Quando não se compreende que o pai tem sim a responsabilidade de limitar e deve limitar, e a criança fica intermitentemente na frente da tela, com certeza, ela vai, de alguma forma, se submeter a algo que não é saudável. Fora as brincadeiras perigosas, tem uma série de outras pesquisas que compreendem como a saúde da criança é afetada pelo tempo sem limite de tela, seja de sono, de distúrbios alimentares, de cognição, de vista... é um holístico, que fere a integridade da saúde da criança se ela não tiver esse limite de tempo de tela.

 

 

Vida Ciranda: Como os pais devem agir em relação ao uso do celular, da internet? Como fazer uma vigilância que deve ser vista pelos filhos como parceria e não, simplesmente, como imposição?
Fabiana: A vigilância como parceria é o limite básico da vida concreta. Se eu digo para uma criança assim: “seu tempo de brincar com os amigos no pátio é de duas horas. Você vai brincar com eles das 16h às 18 horas. Dezoito horas você sobe, toma seu banho e é hora de jantar”. Tem um circuito de rotina. Se eu imponho esse circuito de rotina para o mundo concreto, eu imponho esse mesmo circuito de rotina para o mundo digital, ele não é diferente. Os pais estão vivendo no mundo digital como se fosse algo assim: “ah, é o super dragão, eu não consigo lutar contra”. Não é isso, ele faz parte do circuito normal. A gente vai compreender isso a partir do Manual do Uso da Internet, pela Sociedade Brasileira de Pediatria [Acesse aqui Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital], que coloca o tempo com as idades, as necessidades da criança, de se manter saudável nessa habilidade de balancear o tempo de tela com o tempo real da criança. Então, esse limite, é a partir da dinâmica da família, conversado, estipulado e é dito. Então, os pais que compreendem esses limites e desde cedo colocam para a criança: “eu estou lhe protegendo dos riscos e eu compreendo como esses riscos devem ser evitados", a criança compreende que é uma regra da casa. As crianças precisam ter limites, do mesmo jeito que tem que ter limite no mundo do concreto, tem que ter limite no mundo digital. Isso tudo numa conversa, no papel de pai e mãe. "Isso pode e isso não pode por causa disso. Vamos pensar um pouco juntos". Deve sempre ser um processo reflexivo.

 

 

"O que sustenta um pouco essa criança é ela ter uma capacidade reflexiva quanto à participação naquela prática. Isso a gente vê muito pouco, hoje em dia, nas escolas: a existência de um espaço para trabalhar a competência socioemocional. As escolas estão tão focadas em conteúdo e sucesso acadêmico que não existe mais exploração cultural de arte, de esportes e de emoções". 

 

 

Vida Ciranda: O pais devem iniciar conversas com os filhos, mesmo que eles nunca tenham iniciado nada, nem demonstrem qualquer sinal de que estão se envolvendo com algum risco? A prevenção passa também pela antecipação de informação aos filhos?
Fabiana: Prevenção em casa passa sim por uma prevenção antes que seja mencionado qualquer coisa. Não é que você vá listar os desafios [as brincadeiras perigosas] e dizer para a criança não fazer. Isso é incitar a prática. Você vai fazer uma educação reflexiva de uso de julgamento com a criança à medida em que você acompanha o que ela assiste na internet, dentro do tempo limite que ela usa. Por exemplo, se ela diz “Mãe, vou assistir aqui o Youtube, agora”. Tudo bem. Não é trancado no quarto, não pode ser isolado. Eletrônicos são sempre na exposição dos pais. Então, ela está lá, olhando, assistindo, e, de repente, aparece algo que a mãe considera de risco. Pode ser qualquer coisa, pode se um by cross, o pessoal fazendo vários movimentos super arriscados. Aí, você pode fazer uma reflexão junto com a criança:
- Nossa, filho, ele é profissional?
- Não, mãe, ele é amador?
- É mesmo? Amador? Mas ele usa toda a proteção necessária para não se machucar?
- Ah, ele usa, tem a joelheira, a cotoveleira, tem o capacete, tem um sapato específico para não machucar a perna.
- Nossa, que massa! Isso é algo que lhe interessa?
- Acho que eu gostaria de fazer.
- Bom, mas seria legal se a gente usar isso como um treinamento, pra você ver como é que movimenta e tal.
Esse acompanhamento para o que é de risco se expande para outras coisas, ele tem que ser sempre reflexivo e acompanhado. E não: “olha, estão aqui as brincadeiras [perigosas] e você não deve fazer isso”. Se você fizer isso você está incitando a prática. Ela deve ser uma conversa diária. A intervenção e a proteção para o mundo digital é uma conversa diária, é um acompanhamento que acontece sempre. “Quem você assiste? Por que assiste? O que você acha? Como isso aí é bom para a sua saúde? Olha, ele não é mais adolescente!” Porque existem vários “fazedores” de canais que não são mais adolescentes e você pode questionar isso junto com o seu filho. “Olha, por que esse homem está fazendo uma prática adolescente? Não lhe parece errado? Se fosse uma pessoa [desconhecida] numa praça pública convidando você para fazer isso e não fosse uma criança, você iria?” Então, você começa a fazer esse diálogo onde a criança compreende o mundo digital como um perigo concreto.

 

 

"a falta de limite no acesso à rede, à internet, ela pode ser sim um deflagrador. Quando não se compreende que o pai tem sim a responsabilidade de limitar e deve limitar, e a criança fica intermitentemente na frente da tela, com certeza, ela vai, de alguma forma, se submeter a algo que não é saudável (...). As crianças precisam ter limites, do mesmo jeito que tem que ter limite no mundo do concreto, tem que ter limite no mundo digital. Isso tudo numa conversa, no papel de pai e mãe. 'Isso pode e isso não pode por causa disso. Vamos pensar um pouco juntos'. Deve sempre ser um processo reflexivo."

 

 

Vida Ciranda: Como está o cenário cearense, dentro do cenário nacional, de crianças e adolescentes que se envolvem em brincadeiras perigosas? Os números têm aumentado, diminuído? Por quê?
Fabiana: No Ceará, a gente tem mais acesso aos números porque nós estamos aqui [Fazem parte do Instituto Dimicuida]. Nós não temos número oficial da Segurança Pública. Infelizmente, os casos são pouquíssimo investigados, menos de 20% da morte total de jovens, e eles são catalogados imediatamente como suicídios, não temos uma estatística oficial. Muitos pais, em Fortaleza, tiveram que emplacar uma luta pela mudança do laudo para morte acidental por asfixia mecânica.  Informalmente, no Brasil, tem-se 21 casos. Em Fortaleza, nós temos 2 casos de desodorante aerossol e 1 caso do jogo do desmaio, em que nós temos as famílias próximas ao Instituto. Nós sabemos que é praticado, que existe um número muito maior, mas que nós não temos a oficialidade para falar sobre, infelizmente.

 

 

Vida Ciranda: Que outro aspecto você considera importante nessa educação digital também para os pais, para a sociedade em geral? 
Fabiana:
Nós temos uma luta muito grande, existe um projeto de lei [PL 7170/17] na instância federal com a deputada Josi Nunes (PMDB-TO) para alteração do Marco Civil da Internet [Lei 12.965/2014]. Existe um documento no Brasil que regulamenta esses vídeos, mas, infelizmente, nem ele é fiscalizado, nem é feito de uma forma realmente eficiente. O que nós pedimos é que a monetização dessas práticas de risco para adolescentes não aconteça mais nessas plataformas de vídeo. Porque à medida em que nós dissemos assim: um comportamento precisa ser monitorado, guiado porque o adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal maturado suficiente para compreender toda a extensão do risco que ele corre, e é por isso que ele precisa de um adulto monitorando, aí vem uma plataforma de vídeo e diz: nós pagamos por esse comportamento. Então, estamos valorando, dando um valor monetário para uma prática que, na verdade, é retirar a vida. Que mensagem é essa que a gente está mandando para a criança e para o adolescente? Que a integridade da saúde dele, que a vida dele não tem a menor importância. Ela tem importância, somente, na medida em que eu ganho dinheiro com o risco que ela corre. Então, a gente tem que mudar isso numa perspectiva até de valor social. Isso é o mais importante, no momento. Que a gente consiga que o poder público tome, realmente, a frente disso e consiga que essa monetização seja retirada porque nós estamos atribuindo valor social a isso. E isso é triste. Uma criança de 9, 10 anos de idade, que o que ela quer ser é performance de plataforma de vídeo.. o que é que acontece com as profissões que realmente têm significação no mundo social? Cadê a criança que quer ser professor, veterinário, bombeiro, médico, advogado, aquelas que, realmente, compõem o tecido social e são de importância. Estamos falando de algo que é fugaz, é efêmero e não traz absolutamente nada de valor social ou de vida. Então, é isso que a gente tem que resgatar, compreender que valor é esse que a gente está dando? O mundo digital agora tem qual peso na vida da gente? O que é que está acontecendo realmente na vida social? Porque eu não vejo de uma foram positiva. Não vamos retirar a internet, não é essa a proposta de forma alguma, mas o uso dela tem que ser seguro, tem que ser compreendida como uma ferramenta e não como meio de vida. O valor atribuído a ela é que eu a utilizo à medida que ela me faz bem e não que ela me utiliza e que agora eu só existo com ela. A gente tem que compreender isso e mudar o ciclo.

 

 

"O que nós pedimos é que a monetização dessas práticas de risco para adolescentes não aconteça mais nessas plataformas de vídeo. Porque à medida em que nós dissemos assim: um comportamento precisa ser monitorado, guiado porque o adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal maturado suficiente para compreender toda a extensão do risco que ele corre, e é por isso que ele precisa de um adulto monitorando, aí vem uma plataforma de vídeo e diz: nós pagamos por esse comportamento. Então, estamos valorando, dando um valor monetário para uma prática que, na verdade, é retirar a vida. Que mensagem é essa que a gente está mandando para a criança e para o adolescente? Que a integridade da saúde dele, que a vida dele não tem a menor importância. Ela tem importância, somente, na medida em que eu ganho dinheiro com o risco que ela corre."

 


Vida Ciranda : Conta um pouco sobre o Instituto Dimicuida.
Fabiana:
O Instituto Dimicuida nasceu em 2014, após a morte de um rapaz de 16 anos, pela prática popularmente conhecida como Jogo do Desmaio. A família que perdeu o Dimi, que dá nome ao Instituto, passou por um processo de entendimento do que tinha acontecido porque a prática era completamente desconhecida e eles chegaram até um instituição na França, que é a Apeas [Association de Parents d'Enfants Accidentés par Strangulation].  Apeas é uma instituição criada por pais que perderam filhos pela mesma prática. Então, os pais de Dimi passaram uma temporada na França, compreendendo não só do que se tratava isso, assim também como iniciar um projeto pelo qual levasse o conhecimento dessas práticas para a população brasileira. Eles, como pais do Dimi, próximos, atentos, envolvidos, com um jovem que era super criativo, cheio de vida, de planos para o futuro, aventureiro, gostava muito de inventar, um criador, gostava de fazer máquinas, adorava natureza, animais...  eles queriam entender como é que isso tinha passado despercebido. Então, eles trouxeram essa formação da Franca para cá. O fundador, pai Demétrio Jereissati, teve também  acesso a pesquisadora Juliana Guilheri. Ela fez uma pesquisa de mestrado e doutorado com jogos de não oxigenação. A tese foi concluída em 2016. Os números dela indicam que das 1395 crianças (brasileiras e francesas) que ela entrevistou em formato de prevenção, 40% já tinham feito uma prática de não oxigenação ou continuavam praticando e 10% desse número tinham chegado ao desmaio; 33% dessas crianças se submeteram a práticas por pressão de pares ou pressão dos colegas do grupo. Uma das primeiras ações do Instituto Dimicuida, após compreender tudo isso, foi um Colóquio Internacional em 2015 com profissionais da saúde, pais, educadores, segurança pública da França, Estados Unidos e África do Sul, para levar a informação. Em 2016, o 2º Colóquio aprofundou esse conhecimento, trazendo de uma forma mais precisa ainda o que poderia ser feito em um programa de prevenção. Reunimos quase 500 profissionais na cidade de Fortaleza. A partir daí nós compreendemos que estávamos lidando com um elemento chamado internet. E na pesquisa da Juliana identificava o espaço de escola e de condomínios em que eles se agrupavam para fazer as práticas, que não eram somente a do jogo do desmaio. O jogo do desmaio é o "fundador", continua sendo a base do trabalho porque ele continua crescendo apesar de a gente não ouvir a mídia falar sobre isso, mas os números continuam crescendo. O desafio do desodorante não é uma prática de agora, que surgiu arrebatando crianças em 2018. Infelizmente, é uma prática que vem se alastrando e se disseminando nas plataforma de vídeo desde 2010. E por que agora? Porque agora cresce mais o acesso à internet. Na última pesquisa, da TIC Kids Online, verificou-se que 24 milhões de crianças, entre 9 e 17 anos de idade, tem acesso à internet no Brasil, em todas as classes socais. É um numero muito alto. Não é brincadeira. 

 

 

"Os números dela [da pesquisadora Dra. Juliana Guilheri] indicam que das 1395 crianças (brasileiras e francesas) que ela entrevistou em formato de prevenção, 40% já tinham feito uma prática de não oxigenação ou continuavam praticando e 10% desse número tinham chegado ao desmaio; 33% dessas crianças se submeteram a práticas por pressão de pares ou pressão dos colegas do grupo."

 

 

Vida Ciranda: Para as família que queiram conhecer melhor o trabalho do Instituto Dimicuida, se informar melhor sobre o assunto, como é que faz?
Fabiana: 
Nós temos um grupo de pais. O contato inicial é feito via site do Instituto. O apoio aos pais é dado diretamente pelos fundadores, que são os pais do Dimi. A busca é tentar compreender uma dor, uma perda para algo tão contemporâneo. Esse grupo de pais ajuda na compreensão e no entendimento do que é essa dor.

 

 

SERVIÇO:
Instituto Dimicuida
Para saber mais sobre o que são as brincadeiras perigosas, quem participa, como se propaga e quais os sinais de um praticante, acesse aqui

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A importância do carnaval na educação das crianças. Faz sentido?

Carnaval nos lembra alegria, fantasia, povo, rua. Remete-nos a brincar junto, todos juntos. Engaja-nos em um movimento cultural que tem em essência e força o coletivo, o público, o relacionamento, a convivência, a igualdade, a diversidade, a celebração da vida, a esperança. Há tradições e histórias de um povo, de povos, no carnaval. Há hinos, marchinhas e sambas em que a criatividade, a irreverência e o amor são cantados em expressão popular. Não à toa, há no carnaval muita importância para a infância.

 

LUKA SANTOS / G1 PERNAMBUCO

 

Bem antes de a igreja católica enquadrar o carnaval como evento pagão, na Idade Média, e limitá-lo ao pecado dos prazeres mundanos, a festa já existia para celebrar colheitas e farturas, louvar a natureza e subverter papéis sociais. Depois, à Europa do século XIX coube a difusão das máscaras e fantasias. No Brasil, o carnaval nos chegou pelos portugueses e sua manifestação inicial era o entrudo, praticado pelos escravos em brincadeiras de guerra de água, farinha e limões de cheiro. Após, tomou os salões das elites e se popularizou nas ruas pelos cordões, ranchos, marchinhas, afoxés, frevos, maracatus, escolas de sambas, trios elétricos. Preparar-se, vestir-se para o carnaval é, para mim, também vestir-se de uma consciência formada por fatores variados, destaco aqui apenas quatro deles, ligados aos valores que considero importantes que cultivemos desde pequenininhos: o coletivo, o significado da fantasia/personagem, o espaço público e a cultura popular.

 

 

Quando levamos as crianças para brincarem o carnaval, com todos os cuidados e cautelas que já descrevemos noutro postvalorizamos o coletivo, a convivência, o relacionamento com o outro. Valorizamos a igualdade, em que o riso dispersa barreiras e a união vem pelo canto, pela música, pela dança, pelo brincar. Não há diferenças, há diversidade. E há muito respeito implícito e explícito aí.

 

 

Nestes tempos em que o fantasiar-se está sob intervenções, acredito que tudo está na maneira como conduzimos a escolha do personagem na nossa própria consciência e como espalhamos essa consciência, principalmente, às nossas crianças. Na última semana, joguei o questionamento na minha timeline e uma amiga respondeu dizendo que estava confusa porque tinha escolhido fantasiar o filho de pescador, mas em nenhum momento pensou estar desrespeitando a profissão. Ela, menina de praia, de sol, de mar, que reverencia a rotina e a riqueza do litoral, no dia a dia dela com a família, quis vestir o filho de valores que extrapolam as vestimentas. É no conceito dela que eu também acredito. Se eu me fantasio de Frida Kahlo, é minha homenagem a Frida, meu jeito de engrandecê-la em mim e a partir de mim.

 

 

 

Escolher o local da festa também me inquieta. Sei, tenho toda consciência da insegurança que nos ronda. Neste ano, enquanto acompanhamos, amedrontados e acuados, os números crescentes de violência, vimos experimentando a multiplicação dos festejos de carnavais nos shoppings, especialmente, os infantis. Ainda assim, eu sou pelo espaço público. Por favor, não me levem a mal, não faço mimimi, não sou radical, mas não me permito ser refém do medo. Minha compreensão passa pelo viver positivamente a cidade e me permitir isso, pelo experimentar a igualdade, a diversidade, a brincadeira, a cultura e o coletivo, tendo sob os pés chãos que contam a minha história, arredores que fazem parte da minha identidade enquanto ser social. Falo sobre o direito das crianças à cidade, sobre o fortalecimento da cidadania delas, de elas conhecerem suas belezas e seus problemas, o que se aproxima de vivências humanas e empáticas. Falo sobre a criação da memória afetiva e o cultivo, desde cedo, de um sentimento de pertencimento ao que é dela, de fato, ao que está e estará sob os cuidados de preservação e sob a responsabilidade e o compromisso dela para valorizar e intervir. O afeto move mudanças. 

 

 

A cultura popular acaba perpassando os fatores já citados e mais: o carnaval acolhe e mesmo revela ao mundo as diversas manifestações de uma heterogeneidade cultural que é da nossa formação, que deveria existir em harmonia, dialogada. Seja pelos folguedos, maracatus, axés, toadas de boi, blocos de rua, escolas de samba, trios elétricos... quando contemplamos os desfiles ou participamos deles, com ou sem fantasia, quando ouvimos, compartilhamos músicas e danças, estamos vivendo uma cultura rica que se reúne ali. Independente se concorda ou não com esta ou aquela manifestação, ao vivermos a diversidade com respeito, no carnaval, ensinamos às crianças, pelo exemplo, que existem visões de mundo variadas e que o respeito faz de nós seres de bem (con)viver. A força do ensinar a respeitar tem efeito semelhante ao exigir respeito dos outros. Brincar o carnaval tem sido uma forma de também resistir a tantas intolerâncias. E existir.

 

 

máscara carnaval

10 dicas e locais na cidade para viver o pré-carnaval com as crianças

FÉRIAS DE BRINCAR
DICA 26 - CURTIR O PRÉ-CARNAVAL

Eu sou pela diversão, pela alegria, pela gargalhada, pelo povo. Sou pelo que me faz história e me enche de memórias felizes. E tem tempo junto mais descontraído de viver do que carnaval ou pré-carnaval? Eu gosto! Para além da profanidade a que o significado original faz referência, eu vejo dias de alegria, de diversão, de cultura. Aqui em casa, com as crianças, são dias de inventar fantasias para dançar e brincar com os amigos. De poucas coisas elas gostam taaaanto do que se fantasiar e dançar, não é!? 

Pela cidade, há festas bem bacanas que são pensadas para as crianças. Prefiro as que acontecem em espaços públicos, que são gratuitas, democráticas.  No jornal O POVO de hoje, há um artigo meu que fala sobre o assunto. Eu o reproduzo completo abaixo.

Em blocos para as famílias ou pensados exclusivamente para as crianças, na rua ou em locais fechados, alguns cuidados são importantes para que a criança também possa curtir numa boa: 

1. FILTRO SOLAR
Boa parte das festanças que sugiro acontece pela manhã, ao ar livre. Não esqueça o filtro solar e o reaplique a cada 2 horas. Se a fantasia permitir, tente o uso do boné.  Ainda assim, não exagere na exposição das crianças ao sol, depois das 10 horas. 

2. HIDRATAÇÃO E LANCHES SAUDÁVEIS

Saia de casa munido de bastante água e frutas, acondicionados em um recipiente térmico, para oferecer as crianças de vez em quando. Evite alimentos de fácil contaminação, como embutidos (presuntos, salsichas e salames), maionese e molhos cremosos, principalmente, se for para comprá-los na rua. 

3. FANTASIA
Dependendo do local e do horário da festa, é preciso bom senso para que tipo de fantasia você pode combinar com a criança, para que ela use. Pense no bem estar  e no conforto dela, tente explicar isso a ela. Vestidos de princesa, cheios de saias rodadas, pesados, de tecidos quentíssimos ou fantasias de personagens e super heróis que vestem dos pés à cabeça, de tecido quente também, emborrachados, ou cheios de sobreposições, enfadam a criança rapidinho. Verifique se o cinto aperta, se o elástico incomoda, se a tiara machuca. Além disso, o excesso de suor pode causar brotoejas e roupas  desconfortáveis podem ocasionar dermatite irritativa nos pequenos.  Independente da fantasia, prefira tênis a sandálias ou chinelos. 

4. TINTAS E MAQUIAGENS
Não pinte rosto e corpo das crianças com materiais que não sejam específicos para elas ou tintas com base aquosa. Produtos inadequados podem causar alergia. 

5. MÁSCARAS, BALÕES, BRINCADEIRAS
Se for usar máscaras, verifique bem se ela está adequada ao rosto da criança, se não dificulta a respiração ou causa risco de sufocamento em determinadas situações. Balões e bexigas também precisam de olhares cuidadosos. Quando estouram, podem ser engolidos com facilidade e causar engasgos. Algumas brincadeiras, fantasias ou apelidos podem incentivar comportamentos agressivos ou desrespeitosos. Fique atento!

6. PERCURSOS DO BLOCO
Se optar por levar as crianças em blocos que fazem um percurso pela cidade, escolha os de percurso curto. Talvez, não seja uma boa levar crianças muito pequenininhas. Cinco nos é uma idade em que as crianças já curtem muito mais diversões assim. 

7. IDENTIFICAÇÃO
Mesmo em local fechado, acho importante colocar uma pulseirinha com nome completo da criança, nome dos pais/responsáveis e telefones. Converse com ela sobre o assunto, diga para que serve e como aquela identificação pode ajudá-la, caso ela se perca dos pais. Se a criança for maior, uma outra opção, além da pulseira, é marcar um local, um ponto de encontro para ela ir, sempre que perder de vista o responsável. 

8. SEGURANÇA
No dia ou no horário em que escolher estar com as crianças na folia, evite ingerir bebidas alcoolicas. Embalados pelo ritmo mais frenético das músicas e toda a agitação, muitas vezes, não nos damos conta que estamos passando do limite. Isso pode causar atenção reduzida aos pequenos, o que é um grande risco. 

9. SPRAYS DE ESPUMA, CONFETES, SERPENTINAS
Evite os sprays de espumas ou locais em que eles estejam sendo utilizados, para evitar alergias e ardências na pele e nos olhos das crianças. Caso você esteja preparando uma festinha entre os amiguinhos, prefira sempre confetes e serpentinas de papel a metalizados, que podem causar choques em contato com fios desencapados, que passaram despercebidos.  

10. LIMITES DE TOLERÂNCIA
Respeite o limite das crianças. Choros constantes, enjoos e birras podem ser sinais de cansaço e de que a festa acabou para elas. Respeite. Saia de casa sabendo que sair com crianças, principalmente, a locais de grande aglomeração, barulho e agitação significa, em alguns dias, despedir-se da turma um pouco mais cedo do que o esperado. Faça isso numa boa, afinal o que vale é a diversão que vocês já viveram intensamente juntos. Cuide das lembranças, promova momentos de alegria, de paz, de respeito, de amor. Eles vão para além do carnaval e conduzem recordações, aprendizados e exemplos pelo ano inteiro. 

SUGESTÕES DE LOCAIS DE PRÉ-CARNAVAIS PARA CRIANÇAS, PARA AS FAMÍLIAS
SÁBADO, DIA 20
Iracema Meu Amor (família)
Local: Avenida Monsenhor Tabosa, entre as ruas Gonçalves Ledo e João Cordeiro
Horários: 16h às 20 horas.
Atrações: Banda Pacote de Biscoito, Bloco Bons Amigos e Convidados

Espaço Mais Infância Ceará
Local: Praça Luíza Távora 
Endereço: Avenida Santos Dumont, 1589
Horário: O Espaço abre às 14 horas e a programação na Praça começa às 18 horas. 
Atrações: Banda Só Alegria

 

DOMINGO, DIA 21
Iracema Meu Amor (infantil)
Local: Passeio Público
Endereço: Rua Dr. João Moreira, s/n, ao lado da Santa Casa de Misericórdia, Centro
Horário: 9h às 11 horas. 
Atrações: Banda Só Alegria e Banda Pacote de Biscoito

6º Sivozinha Folia (infantil)
Local: Casa José de Alencar 
Endereço: Av. Washington Soares, 6055 - José de Alencar.
Horário: 9h às 12 horas. 
Doação: Uma lata de leite em pó
Atrações: Alê-grando Recreação, Trupe Sorriso e Descoladinhos Mix

Bloco Baixaria (Baixinhos do Mincharia) - (Infantil)
Local: Largo Mincharia
Endereço: Rua dos pacajus, 5, Praia de Iracema
Horário: 16 h às 19 horas. 

 Artigo completo sobre a importância de vivermos a cidade, no carnaval e noutras épocas
Aqui, link para matéria do O POVO, publicada hoje (20/1/18).


O dia a dia das crianças tem sido cada vez mais limitado a locais privados. As famílias têm escolhido os condomínios fechados para criar os filhos e o lazer direcionado aos apelos consumistas dos shoppings.

Nesses tempos em que estamos trocando história e memória por roda-gigante, em que nos fazemos apáticos a áreas verdes sendo reduzidas, espaços culturais sendo fechados e festas populares, tão de rua, tão democráticas em essência, sendo transferidas para os shoppings, é bom refletir sobre o conceito de cidadania que queremos que os nossos filhos aprendam. Cidadania responsável é conviver com empatia. Não há empatia se não conhecemos. Se não conhecemos não há cuidado. Se não há cuidado há desprezo, há esquecimento, há apatia, há exclusão, há violência.

A violência é reflexo da segregação, da omissão. As crianças precisam conhecer a cidade, andar pelas ruas, conhecer suas belezas e seus problemas. Elas são cidadãs, não podemos negar às crianças o direito à cidade, a viver esse relacionamento que gera comprometimento, afeto e responsabilidade desde cedo entre elas. Quanto mais nos fecharmos, mais seremos coagidos, violados, resumidos. Viver a cidade é resistir, é subverter à maquiagem de “segurança e conforto” que querem nos empurrar goela a baixo; é ensinar às crianças olhares mais humanos de conhecer, de preocupar-se com o outro, olhares de cooperação, e não de individualismo. Sou mãe preocupada e zelosa também. Sou pelos carnavais nos espaços públicos!