A importância de garantir o acesso à escola para as meninas

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*Publicado, inicialmente, em 5 de março de 2018.

“Usei a educação para emancipação. Eu ensinei minhas alunas a desaprenderem a lição da obediência. Eu ensinei meus alunos a desaprenderem a lição da denominada pseudo-honra”. A fala é do educador paquistanês Ziauddin Yousafzai, pai da ativista Malala, durante uma conferência TED, em 2014. Malala foi a pessoa mais nova a receber o prêmio Nobel da Paz, aos 17 anos, naquele mesmo ano, por seu grande engajamento pelos direitos das mulheres. Foi baleada pelo Taliban em 2012 por se atrever a ir à escola.

Nas palavras do pai de Malala há todo o sentido de um árdua luta, que, certamente, também será lembrada no próximo dia 8, quando o mundo reflete a mulher. Desaprender sobre obediência muda o parâmetro do que deve ser obedecido e questiona seus fins. A quem interessa a resignação feminina? Da mesma forma, desaprender sobre honra, incita mudar o conceito do que é honra para o menino diante do feminino e ele passa a não olhar a mulher com inferioridade, como uma serva, mas a olha de igual para igual, em direitos e deveres. Isso muda tudo.

Eu poderia escrever infinitas linhas sobre a desigualdade de gênero, a herança histórica dessa dominação e as consequências horrendas disso, mas vou me restringir, um pouco, ao direito tantas vezes violado de as meninas irem à escola e a importância disso para um mundo inteiro. Em julho do ano passado, durante uma visita à capital chilena, Irina Bokova, diretora da Unesco, alertou: pelo menos, 62 milhões de meninas no mundo não têm acesso à educação, as mulheres representam dois terços dos 758 milhões de adultos analfabetos do mundo, o que “prejudica todas as sociedades, freia o desenvolvimento e mina os esforços de paz”, acrescentou Bokova.

O filme Girl Rising, lançado há exatamente 6 anos, é dos mais representativos da luta para garantir educação às meninas, ao meu ver. Conta as histórias de nove meninas extraordinárias que vivem em países pobres (Camboja, Nepal, Índia, Egito, Peru, Haiti, Serra Leoa, Etiópia e Afeganistão ) e enfrentam implacáveis circunstâncias para conseguir acesso à educação. Por ele, é possível conhecer Azmera, uma etíope que, aos 13 anos, se recusou a casar à força, Ruksana, uma menina que vivia nas ruas da Índia e cujo pai se sacrificou para garantir educação à filhas, e Wadley, uma menina de 7 anos que mora no Haiti e, mesmo sendo rejeitada pelos professores, volta à escola todos os dias para exigir seu direito de estudar.

Educar meninas é multiplicar consciências, é barrar heranças de misérias e injustiças, é fazer disseminar educação igualitária para filhos e filhas. À época do lançamento de Girl Rising, Justin Reever, um dos produtores do documentário, justificou o propósito do filme a partir do que vinha observando em várias comunidades pobres que conseguiram quebrar os ciclos de miséria. Segundo ele, a solução simples estava sendo educar as garotas. Justin reconheceu a força da transformação movida pelas mães que buscam o melhor para os filhos. O ensino escolar fortalece as meninas. A falta de informações sobre seus direitos e a falta de consciência de si, do seu potencial e do seu poder de mudança tira das mulheres o poder da tomada de decisões. Um outro bom filme que fala sobre o direito das mulheres à educação é o premiado iraniano-afegão “Às cinco da tarde”, lançado em 2003.

Em setembro de 1995, durante a quarta conferência mundial dedicada à mulher, na China, o então o Secretário-Geral da ONU , Kofi Annan, disse a um auditório lotado: “Não existe um instrumento de desenvolvimento mais eficaz que a potenciação da mulher (…). A alfabetização das mulheres é um fator chave para melhorar a saúde, a alimentação e a educação na família, assim como para o empoderamento das mulheres para que participem na toma de decisões na sociedade”.

Em um dos trecho mais importantes do livro Para Educar Crianças Feministas, a autora Chimamanda Ngozi Adichiedestaca o poder da leitura, dos livros, da informação na educação da filha da amiga a quem a autora direciona o manifesto. “Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser”. Não há caminhos para empoderamento, emancipação, independência, sem educação.

É incontestável o poder que uma mulher bem informada tem a favor de si, dos filhos e da comunidade. Neste mês, exaltemos as vitórias, mas não nos esqueçamos que ainda há muito para se conquistar. Ainda somos vítimas de inúmeras violências, inacreditáveis até, principalmente em países pobres, em comunidades tribais e patriarcais. E, mesmo nas sociedades ditas mais evoluídas. ainda não se sabe lidar bem com a mulher, a exemplo das que ocupam altos postos corporativos e de representatividade pública, mas que continua tentando ser a mãe que é necessário ser, a dona de casa que se despreza. O mundo ainda não sabe acolher e conciliar funções conquistadas e direitos tão inatos. Sem falar nas humilhações e subserviências rotineiras, mais comuns na Ásia meridional, na África subsaariana e Ásia ocidental. É preciso cuidar das meninas, das mulheres mães, garantir a elas viver plenamente  o que lhes é próprio por natureza, principalmente, se isso fizer parte de suas escolhas, é o que vai garantindo a renovação das mentalidades, das forças, das esperanças pela paz, ano após ano.

É por isso que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro deste ano, sobre mulheres grávidas e mães de crianças de até 12 anos que estejam em prisão provisória (que não foram condenadas) nos chegou com tanta alegria. O direito de deixar a cadeia e ficar em prisão domiciliar até seu caso ser julgado dar à mãe que, por ventura, tenha errado diante da sociedade, a oportunidade não apenas de poupar as crianças da sua ausência, mas tentar construir do lado delas uma outra história para si e para os filhos. A decisão representa a esperança.  É dar prioridade absoluta às crianças e reconhecer o papel insubstituível da mãe. Do contrário, violações aos direitos da mulher gestante, parturiente e mãe violam também os direitos das crianças.

Assim, se retomarmos a frase do educador Ziauddin, é preciso prezar pela igualdade nos discursos aos filhos, sob pena de um todo que não se renova para a paz, e entender que se cuidamos das meninas e lhes assegurarmos uma educação de qualidade, cuidamos também da consciência de mulheres e mães que sabem seus direitos e lutam por eles, e isso significa lutar pelos filhos e pelas famílias. Isso significa lutar e cuidar de todos. No fim da palestra, Ziauddin registra uma pergunta que muitos lhe fazem: o que há de especial na orientação que ele deu a Malala que a deixou tão corajosa, destemida e segura? Ele responde. “Não me perguntem o que eu fiz, perguntem o que eu não fiz. Eu não cortei suas asas. Foi só isso”.

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