A importância do carnaval na educação das crianças. Faz sentido?

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Carnaval nos lembra alegria, fantasia, povo, rua. Remete-nos a brincar junto, todos juntos. Engaja-nos em um movimento cultural que tem em essência e força o coletivo, o público, o relacionamento, a convivência, a igualdade, a diversidade, a celebração da vida, a esperança. Há tradições e histórias de um povo, de povos, no carnaval. Há hinos, marchinhas e sambas em que a criatividade, a irreverência e o amor são cantados em expressão popular. Não à toa, há no carnaval muita importância para a infância.

 

Bem antes de a igreja católica enquadrar o carnaval como evento pagão, na Idade Média, e limitá-lo ao pecado dos prazeres mundanos, a festa já existia para celebrar colheitas e farturas, louvar a natureza e subverter papéis sociais. Depois, à Europa do século XIX coube a difusão das máscaras e fantasias. No Brasil, o carnaval nos chegou pelos portugueses e sua manifestação inicial era o entrudo, praticado pelos escravos em brincadeiras de guerra de água, farinha e limões de cheiro. Após, tomou os salões das elites e se popularizou nas ruas pelos cordões, ranchos, marchinhas, afoxés, frevos, maracatus, escolas de sambas, trios elétricos. Preparar-se, vestir-se para o carnaval é, para mim, também vestir-se de uma consciência formada por fatores variados, destaco aqui apenas quatro deles, ligados aos valores que considero importantes que cultivemos desde as crianças bem pequenininhas: o coletivo, o significado da fantasia/personagem, o espaço público e a cultura popular.

Quando levamos as crianças para brincarem o carnaval, com todos os cuidados e cautelas que já descrevemos noutro postvalorizamos o coletivo, a convivência, o relacionamento com o outroValorizamos a igualdade, em que o riso dispersa barreiras e a união vem pelo canto, pela música, pela dança, pelo brincar. Não há diferenças, há diversidade. E há muito respeito implícito e explícito aí.

Nestes tempos em que há críticas, inclusive, para o fantasiar-se, acredito que tudo está na maneira como conduzimos a escolha do personagem na nossa própria consciência e como espalhamos essa consciência, principalmente, às nossas crianças. Certa vez, joguei o questionamento na minha timeline e uma amiga respondeu dizendo que estava confusa porque tinha escolhido fantasiar o filho de pescador, mas em nenhum momento pensou estar desrespeitando a profissão. Ela, menina de praia, de sol, de mar, que reverencia a rotina e a riqueza do litoral, no dia a dia dela com a família, quis vestir o filho de valores que extrapolam as vestimentas. É no conceito dela que eu também acredito. Se eu me fantasio de Frida Kahlo, é minha homenagem a Frida, meu jeito de engrandecê-la em mim e a partir de mim.

Escolher o local da festa também me inquieta. Sei, tenho toda consciência da insegurança que nos ronda. Neste ano, em que a onda de violência e os ataques vindos das facções criminosas nos acuou e  ainda nos amedronta, põe-nos em alerta, vimos experimentando a multiplicação dos festejos de carnavais nos shoppings, especialmente, os infantis. Aliás, essa tendência de viver o popular em ambientes fechados e particulares já vem de algum tempo. Ainda assim, eu sou pelo espaço público. Por favor, não me levem a mal, não faço mimimi, não sou radical, mas não me permito ser refém do medo. Minha compreensão passa pelo viver positivamente a cidade e me permitir isso, pelo experimentar a igualdade, a diversidade, a brincadeira, a cultura e o coletivo, tendo sob os pés chãos que contam a minha história, arredores que fazem parte da minha identidade enquanto ser social. Falo sobre o direito das crianças à cidade, sobre o fortalecimento da cidadania delas, de elas conhecerem suas belezas e seus problemas, o que as aproxima de vivências humanas e empáticas. Falo sobre a criação da memória afetiva e o cultivo, desde cedo, de um sentimento de pertencimento ao que é dela, de fato, ao que está e estará sob os cuidados de preservação e sob a responsabilidade e o compromisso dela para valorizar e intervir. O afeto move mudanças.

A cultura popular acaba perpassando os fatores já citados e mais: o carnaval acolhe e mesmo revela ao mundo as diversas manifestações de uma heterogeneidade cultural que é da nossa formação, que deveria existir em harmonia, dialogada. Seja pelos folguedos, maracatus, axés, toadas de boi, blocos de rua, escolas de samba, trios elétricos… quando contemplamos os desfiles ou participamos deles, com ou sem fantasia, quando ouvimos, compartilhamos músicas e danças, estamos vivendo uma cultura rica que se reúne ali. Independente se concorda ou não com esta ou aquela manifestação, ao vivermos a diversidade com respeito, no carnaval, ensinamos às crianças, pelo exemplo, que existem visões de mundo variadas e que o respeito faz de nós seres de bem (con)viver. A força do ensinar a respeitar tem efeito semelhante ao exigir respeito dos outros. Brincar o carnaval tem sido uma forma de também resistir a tantas intolerâncias. E existir.

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