A mulher como a força renovadora destes já velhos tempos

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Nesta semana, nossos textos e reflexões têm sido, prioritariamente, sobre a menina e a mulher, sobre a força que ela representa para a sociedade, sobre os desafios pesados que enfrenta diariamente, sobre a dor e a culpa de não conseguir dar conta sozinha de tantas responsabilidades, e sobre as consequências de todo um ciclo de desassistências.

A nossa dica de leitura desta semana é o livro A Mulher no Terceiro Milênio, de Rose Marie Murano, uma das primeiras a falar sobre os problemas da mulher no Brasil Moderno.  A resenha que trazemos hoje é um enorme presente que o Vida Ciranda recebeu. Vem da jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em literatura cearense Lílian Martins, também mãe do menino lindo Saulo, de 2 anos. 

Há algumas semanas, Lilian postou nas redes sociais a leitura do livro e não me furtei do desejo de pedir a ela que nos escrevesse contando o que achou dele. Ela topou de pronto a proposta!  Ler Lilian e suas percepções é situar-se muito além da leitura da obra que foi analisada, é reconhecer na própria Lilian uma das heroínas destes dias. E que bom saber que ela está próxima. E inspira.

Na resenha que segue abaixo, Lilian delineia com maestria os significados da obra, instiga para pensarmos juntos sobre funções, igualdade de gênero e a necessidade urgente de estabelecermos novos parâmetros na relação homem-mulher. Nossa convidada conclama para uma leitura engajada do livro, pelas palavras e pela vida de Rose Marie Muraro, pelo olhar de mãe, profissional, filha, neta, amante, mulher comprometida dela própria. Ela sabe do que está falando. Muita gratidão pela resenha, Lílian! Aproveite!

Resenha Lilás: A Mulher no Terceiro Milênio
Por Lílian Martins 

 

 

 

 

 

 

 

“Educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”. Rose Marie Muraro

O livro “A Mulher no Terceiro Milênio: uma história da mulher através dos tempos e suas perspectivas para o futuro”, de Rose Marie Muraro (1930-2014), deve ser leitura fundamental, desde a escola, para todas nós mulheres! A obra, publicada em 1993, segue atualíssima e provoca reflexões e embates até mesmo para aquelas já iniciadas no campo das questões feministas e de gênero. Sinto até vergonha por não ter conhecido esse livro antes, mas, ao mesmo tempo, me sinto felizarda de ter feito sua leitura, hoje, Balzaquiana que sou e com um filho de dois anos de idade. Pois a maternidade e a chegada dos 30 anos, desperta em nós uma forma diferente de ver o mundo e enxergar prioridades. E é importante que, a essa altura, nossas leituras também venham corroborar com esse novo pensamento de ser uma pessoa melhor e integralmente mulher, mãe, filha, neta, amante, tudo ao mesmo tempo e agora!

Para quem pensa que eu falo de uma autora estrangeira, se engana! Apesar do nome de origem francesa, falo de uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX, nascida no Rio de Janeiro, Estado em que, hoje, revive uma ditadura militar e que, quando na década de 60, perseguiu Rose Marie Muraro por ser uma das primeiras vozes nacionais a clamar por direitos iguais entre homens e mulheres. Em “A Mulher no Terceiro Milênio”, a autora nos convida a refletir sobre essas relações de poder e violência em que homens e mulheres são e estão subjugados através das relações de trabalho e, atualmente, reforçados pelo sistema capitalista.

Dividido em três partes, o livro examina aspectos femininos desde a época do surgimento do Homo Sapiens e desconstrói o paradigma das primeiras sociedades das quais originaram a nossa civilização Ocidental. De forma clara e em linguagem muito simples, a pensadora nos apresenta um conjunto de pesquisas que corroboram por delinear a árvore genealógica de nossa civilização e evidencia o “progresso civilizatório”, questionando as relações de poder e cooperação advindas desde os primeiros povos dos quais nosso campo científico se debruçou.

A maternidade está posta no livro desde a sua primeira parte, intitulada No princípio era a mãe em que Marie Muraro explica o que são sociedades matriarcais, matrilineares e matrifocais, diferença fundamental para questionarmos a nossa realidade atual e, mais ainda, para entendermos como o advento das sociedades patriarcais dissolveram a mentalidade religiosa feminina da criação oriunda dos primeiros mitos. Aliás, se tem alguma imagem que simbolize melhor a criação divina seria uma mulher, afinal somos nós quem geramos e parimos. Então, é um homem o símbolo de criador universal por quê?

A segunda parte do livro E o Verbo Veio Muito Depois discute sobre a origem da dominação do homem sobre a mulher, o aperfeiçoamento das tecnologias, o lucro e a presença do Estado centralizador a partir de estudos sobre as sociedades pastoris, agrárias e os grandes impérios da antiguidade.

Por fim, Marie Muraro faz a indagação que todas nós mulheres devemos nos fazer ao menos uma vez na vida  Mas Afinal, o Que Quer a Mulher? E é nesse questionamento de olhar para si e para o futuro que a autora evoca uma transformação social frente a tragédia anunciada da crise do mundo capitalista, do autoritarismo e do patriarcado. Para Muraro, o mundo está encerrando um ciclo e a paz social renascerá quando a sociedade se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra em um gesto primitivo de solidariedade e partilha.

A mensagem final do livro é um chamamento a todas nós mulheres cis ou trans, homens binários e não binários, enfim, pessoas humanas que desejam o bem na construção de um mundo melhor e mais fraterno para nossos filhos e filhas. A obra torna a sua leitura ainda mais instigante só em saber do esforço da escritora que nasceu quase cega, mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida que, ao fim de seus dias, ditava seus livros com o intuito de não parar de publicar. Formada em física e economia, Muraro, ao longo da sua existência, se dedicou a estudar a condição humana, especialmente, a condição feminina e foi ela quem no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero tão mal compreendida até os dias atuais.

Rose Marie Muraro morreu aos 83 anos de câncer na medula óssea. Foi Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente Lula, Patrona do Feminismo Brasileiro e, em 2009, criada a Fundação Cultural Rose Marie Muraro. Mulherada, uni-vos nesta leitura edificante e inspiradora!

SERVIÇO:

A mulher no Terceiro Milênio
Autor: 
Rose Marie Muraro
Editora: 
Rosa dos Tempos 
Preço Médio: 
R$ 40
Atenção! Esgotado em algumas livrarias,
verificar disponibilidade

 

 

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