A paz aparente e o recrutamento impiedoso de crianças e adolescentes ao tráfico

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Nestes dias em que a cidade parece estar mais calma, passados os ataques das facções criminosas que espalharam medo e clausura pela cidade, nos primeiros dias do ano, refugiamo-nos sob a paz do que está invisível para a maioria de nós. Afinal, o que não nos atinge, diretamente, não nos aflige, não nos incomoda, não nos move. Enquanto espaços e bens públicos e privados eram incendiados e destruídos, as pessoas viviam sob o terror de serem diretamente atingidas pela violência, de que suas rotinas particulares fossem impactadas. Não quero aqui desmerecer o transtorno de todos nós e diminuir a sensação de insegurança que compartilhamos. Mas convido você, agora, a pensar sobre as invisibilidades que continuam existindo mesmo que não estejam trazendo impactos diretos ao conforto e a comodidade de uma rotina sem imprevistos.

Alex Gomes (AP) in El País

Durante as ‘ondas de terror’ na cidade, como ficaram intitulados os episódios de violência de janeiro, li uma matéria que me fez refletir muito e me fez voltar a uma outra que eu havia lido em dezembro. A matéria de janeiro é “Adolescentes estariam recebendo R$ 1 mil para incendiar ônibus em Fortaleza”, publicada no site do O OPOVO, em 7 de janeiro de 2019, cinco dias depois do começo dos ataques. Dentro da matéria, mais informações sobre valores e autores dos atos criminosos: “O valor varia de acordo com o delito, indo de R$ 1 mil por ataques a ônibus até R$ 5 mil a incêndios de grandes proporções (…). Até esse domingo (6/1), chegava a 34 o número de adolescentes apreendidos por suspeita de envolvimento”.

A matéria de dezembro intitulada “Mãe, se não entrar, eu morro”, publicada no O OPOVO no dia 19 de dezembro de 2018, escrita pelo repórter Thiago Paiva, traz o drama de uma mãe solteira, professora, que, há cinco anos, tenta manter o filho longe do tráfico. A reportagem faz parte de uma série que descreve a angústia e a falta de caminhos de jovens que querem sair das facções, mas não veem luzes na escuridão. Uma tristeza.

Qual a relação entre as duas matérias? Onde quero chegar para fazer uma relação direta com a paz aparente que vivemos hoje? No relato da mãe, na matéria de dezembro, existe abandono, mais que tudo. O abandono do companheiro e pai passa a ser o de menos, talvez. O abandono que mais dói vem do social. Abandono do Estado, da sociedade. Uma sequência de atores que falham e causam mais consequências de dor. “A professora reitera a necessidade de uma política pública que proporcione a não entrada, bem como a saída de jovens da facção”, diz o texto da reportagem de dezembro.

Revoltamo-nos com a queima dos bens públicos, mas não enxergamos a covardia imensa que existe por trás daquele aceite adolescente de queimar bens públicos. Não quero vitimizar adolescentes que erram, mas quero destacar sim que o terror de janeiro (e todos os dias para a periferia) foi também caracterizado pelo abandono de crianças e adolescentes ao tráfico e à própria sorte, na medida em que as próprias famílias de boa parte deles também o foram.

Enquanto eu lia a matéria de janeiro, lembrava de estudantes de Ensino Fundamental 2 que passaram por mim, enquanto professora de uma escola pública, no Serviluz, durante todo o semestre passado. Lembrava do relato que eles me traziam todos os dias acerca da rotina que viviam na periferia da Capital, dominada pela facção GDE (Guardiões do Estado): expulsões de suas casas em outro bairro (“Saímos com a roupa do corpo, tia. Não deixaram nem eu tirar os meus brinquedos”); tiroteios no meio da madrugada; meninos e meninas que testemunham assassinatos de irmãos, pai, mãe, primos, amigos; vínculos afetivos com a família enfraquecidos ou destroçados; incapacidade para digerir, emocionalmente, uma série de carências, conflitos e traumas; solidão.

Diante da leitura da matéria de janeiro, eu não conseguia olhar para aqueles adolescentes que incendiavam a aparente paz social com olhos de punição, de raiva, de criminalização. Por trás daqueles atos de terror, eu via o filho daquela mãe solitária que tenta a todo custo manter o seu menino longe do tráfico. Ela preocupa-se com o filho, mas precisa passar o dia fora para trabalhar. Quem a ajuda? A escola de tempo integral que impõe rotina de 7 horas diárias de aulas, pondo alunos e professores exaustos trancafiados em salas de aula sem nenhum aporte prático e significativo de construção de conhecimento?  Agora, a sociedade e o Estado, omissos, cobram daquela mãe a boa educação do filho.

Por trás da adrenalina de queimar símbolos de uma sociedade que não faz o menor sentido àqueles adolescentes, eu ouvia a voz de um dos meus alunos de 11 anos contando que o motivo da perna manca foi o tiro que recebeu ao tentar salvar o irmão mais velho de um acerto de contas de traficantes; eu ouvia a voz fininha, sucumbida de tristeza, de outro aluno de 13 anos que descrevia que não tinha mais mãe “porque eles mataram ela na minha frente”.

O recrutamento do tráfico é impiedoso, compra a alma de crianças e adolescentes em troca de dinheiro fácil, e de compreensões ilusórias e traiçoeiras sobre proteção, inclusão social, família, autoestima, confiança, alegria, sucesso, justiça, vida, curta vida… e morte. Dos presídios, os cabeças do tráfico dão ordens de comando e focam na parte mais vulnerável do Sistema todo, que deveria ser de Garantia de Direitos. De Defesa. de Promoção. De Controle e de Efetivação de Direitos.

Não, não é fácil. Enquanto eu lia a matéria da oferta de R$ 5 mil para adolescentes incendiarem prédios públicos, eu só conseguia pensar que o recrutamento do tráfico “preenche” carências dolorosas nas histórias de traumas e sofrimentos que muitos daqueles jovens carregam em si, desde cedo demais. A periferia, principalmente, está entregue às facções. Não há paz. E me sensibiliza muito a luta das famílias, principalmente das mães, quase sempre sozinhas, que precisam trabalhar para manter a casa e educar seus filhos, sem o apoio de políticas públicas mais eficientes que ofereçam caminhos outros de formação, de lazer, de um futuro bom.

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