A relação amistosa possível entre maternidade e mercado de trabalho

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Neste dia do trabalho, e por este mês, algumas das nossas reflexões serão sobre a relação maternidade e mercado de trabalho. É possível uma convivência em que consigamos nos realizar como profissionais, nas empresas, e dar em casa a atenção de que nossos filhos e, por conseguinte, uma sociedade inteira precisam? Sim, eu acredito que sim! Não me refiro aqui a conciliações que se relacionam ao empreendedorismo materno. Refiro-me a conciliações entre filhos e ambientes corporativos. Acredito numa harmonia entre mercado de trabalho e maternidade não apenas pelos esforços das mães e das famílias, mas também por uma sensibilidade e consciência maior de empresários e gestores de Recursos Humanos. Não vejo estes como vilões, se já não disponibilizam às funcionárias rotinas de serviço mais flexíveis. Penso que falta ajuda mútua nessa compreensão, diálogos mais abertos, conversas mais empáticas, mais próximas, responsabilização conjunta.

Meu foco aqui não são as mulheres que se reinventam, se redescobrem, buscam válvulas de escape para continuar existindo enquanto profissionais, depois de abrirem mão da rotina corporativa pelos filhos, pela família. Não, apesar de reconhecer toda a força desse movimento que move mundos e transforma pré-conceitos. Conheço-o a fundo. Faço parte dele. Neste mês, porém, me refiro às mulheres mães que estão no mercado e se desdobram para dar conta da boa educação que todos exigem. Numa sociedade ainda tão machista, a pressão sobre a mãe é imensa; e é preciso levar em consideração que muitas crianças só têm a mãe com quem contar, no fim das contas. Ainda assim, no meio de tanta desigualdade, a grande maioria das mães não tem o apoio para tentar conciliar os inúmeros papeis, inclusive o de mantenedora da casa, não tem possibilidades de um dia a dia de trabalho mais flexível a fim de acompanhar mais de perto períodos de desenvolvimento infantil tão essenciais para um prosseguir saudável da civilização.

Está na ponta da língua de todos a teoria de que as crianças precisam ser acompanhadas pela família. Todos sabemos que educar filhos não é apenas garantir alimentação, escola, vestuário. Educar é também, e mais importante, estar junto. Tudo o que vivemos, ensinamos, compartilhamos com os nossos filhos, inclusive a ausência, será vivido como reflexo por uma sociedade inteira. A família não é instituição sozinha no mundo, ela existe também como dependente das relações externas que construímos. E precisa de uma rede de apoio que a fortaleça e não que a fragilize, incluso nesta rede de apoio o mercado de trabalho. Daí, seguindo essa lógica, reconheço no artigo 227, da Constituição Federal, uma das muitas verdades que ainda pomos bem pouco em prática: cuidar da criança e do adolescente “é dever da família, da sociedade, do estado”.

Louvo o empreendedorismo materno. Como já escrevi, há uma força nele imensurável. O empoderamento das mulheres pelo empreendedorismo é algo transformador, de fato, para elas, para as famílias e para a sociedade. Mas há também nele um viés de que falamos pouco: ao deixar o mercado de trabalho porque ele não permite uma adequação às exigências da maternidade e da criação dos filhos, traz-se para a família a resignação, a conformidade de que cabe APENAS à família a responsabilidade de cuidar das novas gerações. O que, pela Lei, isso não é verdade, ou não deveria ser. A máxima de “os incomodados que se retirem” vale aqui. As mulheres se retiram e tentam se reinventar lá fora, sem a certeza de que vai dar certo , sem apoio nem mesmo de uma formação mínima que possa prepará-la para essa nova fase. O empreendedorismo, mesmo ele, precisa também ser uma escolha, não uma submissão. E ressalto: nem todas, talvez boa parte, têm como sair, e nem quer, do mercado corporativo, o que não invalida a responsabilidade social das empresas.

Pela concepção do artigo 227, todos somos responsáveis pela educação das crianças, porque essa boa educação exige sim o compromisso de uma aldeia por completo, de todas as funções sociais que fazem parte dela. A ausência da família, dos pais, o abandono que as crianças e os adolescentes sentem e vivem, nestes novos tempos, causam desequilíbrios emocionais, muitas vezes, irreversíveis. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) apontam a depressão como uma das principais causas de morte de crianças e adolescentes por suicídio. De acordo com o Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, o suicídio é realidade e está crescendo no país. De 2002 a 2012 houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 14 anos. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o aumento foi de 33,5%. A depressão, o suicídio são faces também de relações sociais mal compreendidas, como o bullying. São problemas que se alastram e ganham proporções imensas se não bem acompanhados. E o papel da família presente é fundamental; a responsabilização e o comprometimento da sociedade inteira nesses males são urgentes. O aumento da violência é também uma dessas faces funestas de relações socais distantes e frágeis, e, não nos iludamos, ele está imerso também nessa discussão.

Precisamos interligar as redes e as relações para começar a pensar como unidade, não dá mais para pensar repartido. Se uma parte dessa ciranda não gira direito, não está preocupada com a maneira como suas práticas incidem sobre a vida do outro, a consequência atinge todos. Em se tratando de mercado de trabalho, há saídas para se viver relações mais humanas, mais empáticas entre o mercado e a maternidade. Há pouco previsto já em lei sobre flexibilização de horários para mães e pais que precisam se ausentar para cuidar dos filhos, mas há boas práticas erguidas por setores de RH (Recursos Humanos) de empresas mais sensíveis que precisam ser conhecidos, reconhecidos, enaltecidos.

A flexibilização nada tem a ver com relações permissivas acerca de metas que uma profissional precisa cumprir em sua rotina de trabalho, mas em pensar juntos maneiras de as duas realidades coexistirem com benefícios para os dois lados. Penso que faltam diálogos, informações, conhecimentos mais contemporâneos nessas relações. O mercado precisa acompanhar os novos tempos não apenas das funções que as mulheres vêm assumindo, diante de desigualdades que precisam ser contornadas, mas da necessidade de assumir de uma vez por todas uma responsabilização que é de todos: cuidar melhor das nossas crianças e dos nossos adolescentes. Todos pagamos o preço desse pensar de realidades ainda tão separado.

Neste mês de maio, vamos refletir melhor sobre o assunto, conhecer famílias, empresas, legislações. Acompanhe o Vida Ciranda para ficar por dentro da nossa agenda de discussões sobre mercado de trabalho e maternidade.

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