Acompanhamos os bastidores do Natal de Luz, ao lado de Dafne, uma das 130 crianças do Coral de Luz

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FÉRIAS DE BRINCAR
DICA 11 – VER O NATAL DE LUZ NA PRAÇA DO FERREIRA

Às 17 horas em ponto, recebo no celular a mensagem “Já estamos aqui”. Do Uber, informo que estou pertinho. Apesar do atraso, Anne Dafne Oliveira Cavalcante, 8, me recebe com um abraço apertado de carinho. Acompanhada do pai, Raimundo Pereira Cavalcante Neto, 36, ela já está arrumada para o espetáculo em que é uma das protagonistas. A garota, junto com outras 129 crianças e adolescentes, integra o Coral de Luz 2017, do evento Ceará Natal de Luz.

Ao lado dela, vivemos os bastidores de apresentações diárias que não emocionam apenas quem vê o Coral da Praça, mas quem dá voz e organiza todo o processo. O Natal de Luz, como é mais conhecido, é realizado todos os dias, desde 17 de novembro, às 18 horas, na Praça do Ferreira, e segue até o próximo dia 23.

Dafne, a mãe e o irmão

É o segundo ano em que Dafne participa do Natal de Luz. O pai me conta que todos os anos já trazia a família e sempre sentia que a filha curtia muito o momento. Ano passado, decidiu ligar ainda no primeiro semestre para saber da seleção. Não à toa, sentia que a filha já estava preparada para o momento. Dafne faz parte da Orquestra Filarmônica do Ceará há um ano e meio, toca teclado, mas já teve aulas de piano e participa de outros projetos de corais, como nos conta a mãe Fernanda Raquel Oliveira Cavalcante. O jeito acanhado da menina de sorriso acolhedor, de covinhas nas bochechas, também influenciou a decisão do pai. “Tento engajar para ajudar ela a ir perdendo a timidez”, justifica Raimundo.

Dafne com o maestro Gladson Carvalho (arquivo pessoal)

“Desde o primeiro ano, a felicidade é grande. Eu gosto muito de estar aqui”, assim define de pronto a menina luz de rotina agitada, também dedicada aos estudos na escola, na Orquestra, além do futsal e da natação.

Na porta do Excelsior, Dafne despede-se do pai. Apenas as crianças menores sobem o Hotel acompanhadas dos pais. Os familiares das maiores só acompanham até a porta e veem o show da Praça. Era 17h45min, quando subimos juntas as escadarias desgastadas dos sete andares do antigo Hotel Excelsior, na primeira quarta-feira deste dezembro. Delas, já é possível ouvir gargalhadas, gritos entusiasmados e treinos distraídos de letras de músicas quem vêm de vozes aconchegos, que sairão, dali a pouco, Praça do Ferreira a fora, cantando aos visitantes e transeuntes que o tempo de Natal já chegou.

Você não fica nervosa, Dafne?, pergunto. “Não. A gente se acostuma. Só tem dias que eu fico mais emocionada, não sei por quê. Fico com vontade de chorar, mas não é de tristeza. Acho que a alegria é tão grande que a gente chora”, define a emoção.

Dafne com a turma do Coral Angelus, regido pela maestrina Socorro
Crianças do Coral Jóias de Cristo chegando para a apresentação

Apesar da opinião do pai, Dafne se mostra comunicativa e desenvolta quando encontra as outras crianças. Com as colegas Maria Cecília e Maria Isabel, ela divide uma das janelas do Hotel para a apresentação, localizada mais à esquerda do prédio. Enquanto o trio conversa e se prepara, fui dar uma volta pelos arredores. Em todas as janelas as crianças se aprontam, sabem o passo a passo de cor. Tudo parece bem organizado. Não há alvoroço, empurra-empurra, sofreguidão. Percebo compasso e preocupação da turma de coordenadores em conversar com cada criança antes.

Dafne e mais 43 crianças fazem parte do Coral Angelus, liderado pela maestrina Socorro Raulino, responsável por toda a apresentação do Coral de Luz, há 13 anos. Nos outros andares, estão as crianças do Coral Jóias de Cristo, da Associação Nossa Casa Mãe África (ANCMA), do bairro Granja Lisboa. Socorro nos conta que a seleção das crianças começa em agosto, apesar da maioria já ser de anos anteriores. Os ensaios são realizados em outubro e novembro. Cada turma dos dois Corais, com crianças de 1 a 16 anos, se reveza para não precisar vir todas, todos os dias. Dafne, por exemplo, se apresenta às segundas, quartas, sextas e domingos. Nos ensaios, trabalham a voz, o corpo, a letra das músicas e, claro, a disciplina necessária para participarem de apresentações quase diárias. “Há também uma orientação quanto aos bons rendimentos na escola. É importante isso e destacamos aos pais, também, esse ponto”, destaca Socorro.

De dois em dois anos, as crianças gravam o CD Natal de Luz, que é vendido durante as apresentações por R$ 7. Segundo ela, o CD tem aproximadamente, 40 músicas. Nas janelas do Excelsior, todos os dias, as crianças cantam 12 faixas. “Natal para eles é muito mágico. É um desafio organizar tudo, mas não é difícil juntar todas essas crianças todos os dias, elas são encantadas por esse clima. Muitas são filhas de pais que já cantaram no Natal de Luz. Neste ano, as apresentações começaram mais cedo, o que poderia trazer mais cansaço, mas os pais são muito compromissados. O ritual é o mesmo todo dia, e é raro alguma [criança] faltar”, explica Socorro.

As crianças maiores ajudam as menores a se arrumarem

As crianças enchem de alegria a maioria dos andares já sem uso do primeiro arranha-céu da Capital, fechado como hotel há mais de 50 anos, inaugurado em 1931. É mesmo um encanto acompanhar aquele movimento. Pelas minhas andanças, encontro sorrisos e chamegos de uma pequena cantora com sua mãe. Maria Eduarda tem 1 ano e 7 meses! Sim, ela canta e dança quatro vezes por semana no Coral de Luz. A mãe Elane Alcântara, 29, garante que ela é uma animação só! Aliás, a menininha e o irmão Ezequiel, de 5 anos. Ele é o garoto que abre as cantorias do Coral com um entusiasmado “Feliz Natal para todo mundo”, durante as exibições. “Eu sei cantar todas as músicas. É muito bom aqui”, diz enquanto faz sapequices contidas pela mãe que tenta finalizar a arrumação dele.

A solista Esther Fontenele, de 13 anos, é também uma das estrelas daquela festa. Ela é a representação da simpatia e do entusiasmo que move todo o espírito do evento. “Eu canto aqui desde os quatro anos. Todo ano que eu venho parece que tem mais gente, isso traz uma felicidade tão grande”, resume.

Encontro também Papai Noel, com um “gorro”, digamos, mais regional, e Nossa Senhora, nos últimos preparativos, antes da festa, interpretados pelo ator Uedison Almeida e pela cantora lírica Samira Denoá. Opa! Não há mais tempo para conversar. O tempo urge. Eles me abraçam, sorriem e se guiam até a janela pelo brilho que vem da praça, seguem para assim também iluminar, inclusive, pedidos de um ano novo melhor de pessoas que fazem orações ao longo da apresentação deles.

Formado por quatro pessoas, o grupo da técnica também já se concentra para que nada dê errado. Chegam no comecinho da tarde para testar os equipamentos, um a um.

A apresentação

Começa a apresentação. É realmente emocionante. Dafne se concentra no repertório e na performance. Durante meia hora, as crianças são auxiliadas o tempo inteiro por uma equipe que dá todo o suporte, passando de janela em janela para saber se está tudo bem, oferecendo água e cuidados. Se, lá de baixo, já é emocionante, você imagina do lado das crianças, sentindo a emoção delas? Quando começa a simulação de neve caindo, as crianças parecem se empolgar ainda mais. Algumas fecham os olhos, botam a mão no coração. Outras olham para baixo, acenam aos amigos e parentes que prestigiam o show.

Algumas delas parece que ganham carga extra para cantar, pular, gargalhar, extravasar. Sim, elas se divertem. Não sei se estão sempre dispostas assim todos os dias para cumprir todos os eventos. Além das apresentações no Excelsior, elas também participam de outras exibições públicas, como na Praça Portugal ou em emissoras de TV, ao longo de novembro e dezembro. Como todos nós, existem dias que não estamos a fim de fazer mesmo o que gostamos tanto. Deve ser assim. Socorro diz respeitar.

Em um pequeno tabuleiro localizado no meio da multidão que logo se forma em frente ao Hotel, a maestrina Socorro Raulino conduz a turma inteira. À frente dela, um telão exibe as letras das canções que estão sendo entoadas pelo Coral, o que ajuda as pessoas a cantarem junto e tornarem o evento ainda mais significativo para cada uma.

O público se emociona, alguns disfarçam lágrimas, olham para os lados, escondem-se (ou se justificam e amenizam dores) nos beijos aos filhos, principalmente, quando a solista Esther canta “Noite Feliz” e Samira Denoá, que interpreta Nossa Senhora, dá vida à canção Ave Maria. A música “Oh, Happy Day” finaliza as exibições de maneira alegre e convidativa, não apenas a um retorno no dia seguinte, mas a um dia a dia mais leve, cheio de fraternidade e esperança.

“Não sinto preguiça de vir. Vou pra casa com saudade. Sinto muita saudade e tristeza quando as apresentações terminam. A minha alegria é ver que as pessoas ficam mais felizes quando nos veem”, me diz Dafne já em tom de despedida, enquanto nos abraçando. Eu, agradecendo. Ela, se preparando para tirar a roupa que torna o Natal dela ainda mais feliz, dia sim, dia não.

Depois da apresentação, a turma se reúne para lanchar e festejar mais uma noite emocionante

Abaixo, a solista Esther fala um pouquinho sobre a emoção de participar do Coral de Luz:

Depois, é hora do Papai Noel
Quando o Coral de Luz finaliza a apresentação, Papai Noel desce para uma casinha montada em frente ao Hotel. Lá, ele recebe as crianças para tirar fotos. A possibilidade de uma foto profissional é disponibilizada aos pais. Cada uma custa R$ 15. Rapidinho, uma filha gigante se forma. Nela, encontramos a enfermeira Rafaela Brito, 27. Grávida de 8 meses de Bernardo, Rafaela trouxe as sobrinhas Maria Clara, 5, Maria Júlia, 3, e a mãe Fátima Brito, 60. “O que é mais gostei foi do Papai Noel e da neve”, disse Clara. Para Júlia, o encantamento foi outro. “Daquele música Bate o Sino Pequenino”, sorriu.

Maria Clara, 5, Maria Júlia, 3, Rafaela, 27, Bernardo (na barriga) e a mãe de Rafaela, dona Fátima Brito, 60.

Rafaela diz que são públicos cativos das apresentações. “Acho que representa mesmo o Clima de Natal, é música, é alegria, é paz. E a praça fica muito mais bonita, com enfeites, com as luzes. Compramos o CD para levar para casa esse clima que a gente vive aqui”. Dona Fátima relembra o tempo em que vinha antes e agora. Segundo ela, “antes parecia que tinha o espírito de Natal nas pessoas. Hoje, as pessoas estão mais duras. Mas a gente se renova vindo aqui”, alegra-se.

Ceará Nata de Luz
Neste ano, a noite de abertura do 21º Ceará Natal de Luz contou com a presença do cantor Jorge Vercillo. A decoração e a iluminação do Natal de Luz enfeitam também a Avenida Monsenhor Tabosa, o Paço Municipal, o Palácio da Abolição, o Centro de Eventos, o Estoril, a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL), a Federação das CDLs do Ceará (FCDL-CE), a Universidade de Fortaleza (Unifor) e o Centro Cultural do BNB.

Toda a decoração está alinhada com o tema “Cuidar e preservar a vida”. Na Praça do Ferreira, é possível trocar garrafas pets por mudas de plantas frutíferas ou ornamentais. As atividades e espetáculos natalinos do Ceará Natal de Luz são apresentados também no Cineteatro São Luiz e na Praça Portugal. O Ceará Natal de Luz é uma realização da CDL de Fortaleza, Instituto CDL de Cultura e Responsabilidade Social e Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. E conta com o patrocínio das seguintes empresas e instituições: Sesi/Fiec, Indaiá, Esmaltec, Nacional Gás, Café Santa Clara, Zenir, Moinho Dias Branco, Casa Pio, Enel, Newland, Câmara de Vereadores, Prefeitura de Fortaleza, Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e Banco do Nordeste. Tem ainda o apoio da Romana, da Progastro, do Sindiônibus, do Sistema Verdes Mares, da Faculdade CDL e do Governo do Estado do Ceará.

Orientações importantes
Para quem sentiu vontade de assistir ao Natal de Luz, ainda dá tempo. A apresentação começa às 18 horas e segue até sábado, dia 23. Desde as 17 horas o movimento na Praça já é grande, principalmente, nos fins de semana. Importante chegar cedo para curtir com mais calma a Praça, que está bem iluminada, e exibe ainda a tradicional árvore montada. Leve garrafas pets para as crianças trocarem por mudinhas. Os estacionamentos privativos costumam estar já lotados ou a ponto de fechar, nesse horário. Se puder, opte por transporte coletivo ou mesmo táxi. Traga água para crianças. Há muitos vendedores ambulantes vendendo pipoca, doces, churros, por um preço médio de R$ 2, além de brinquedos artesanais, por um preço médio de R$ 5.

SERVIÇO:
Apresentação do Natal de Luz
Local: Praça do Ferreira
Horário: 18 horas
Última apresentação 2017: dia 23 de dezembro.

Para saber mais sobre a seleção de cantores para o Natal de Luz 2018:
Coral Angelus 

Socorro Raulino: 99994 8283

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