Cadê o ouvidor (e o contador!) de histórias que estava aqui?

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Onde está aquele bebê que adorava ouvir histórias? Onde se escondeu aquele menininho que pedia para eu repetir incontáveis vezes a mesma história e, em todas as vezes, a ouvia com um brilho de encantamento no olhar, como se eu a estivesse contando pela primeira vez? Onde foi parar aquele garoto que, todas as noites, me pedia para eu o contar uma história diferente e que ia dormir triste quando eu o frustrava com um “hoje não tem história porque a mamãe está cansada”?

 

pixabay

Aquele moleque curioso, que me pedia explicações sobre a junção das letras, das sílabas, das palavras… com sede de ler… cadê ele? Já adolescente, encontro um rapaz sem saco para leituras, principalmente, as extensas demais, sem figuras ou diálogos que aliviem essa decifração, hoje, tão tediosa. Deve ser culpa da TV, do videogame… e, atualmente, do celular e da internet, então?!

Como pouquíssimos, o autor Daniel Pennac nos conduz com afeto e segurança a um encontro perturbador com nosso íntimo de mãe, de pai, de cuidador, de professor, de mediador da leitura e nos põe diante, não apenas, das nossas vivências de conquistas na área, mas, dos nossos medos, dos nossos arrependimentos, dos nossos passos em falso, frente à construção de leitores“Como um romance” é de leitura emocionante, principalmente, se você já vive situações de mediação com crianças e adolescentes. Já o li mais de uma vez, e sempre fico mexida com a sequência de acontecimentos apresentados pelo autor em uma narrativa inovadora, leve, deliciosa, mas ao mesmo tempo tão densa. O livro me chegou pela indicação da querida escritora cearense Socorro Acioli, durante o Ateliê de Narrativas que ela desenvolve na Livraria Cultura, e desde então, é um dos preferidos do meu conjunto de livros.

Daniel Pennac constrói para a reflexão dos adultos um livro nos moldes do que crianças e adolescentes, certamente, adorariam encontrar por aí, de linguagem simples, de estrutura narrativa convidativa, que dialoga com o leitor porque conhece a realidade de mediação como poucos, mas que não deixa a desejar quanto a firmeza e a profundidade da mensagem que quer passar. Quando a leitura deixa de ser prazer e se torna obrigação, há grandes riscos de afastamento, segundo o autor. E como inseri-la no contexto de casa e da escola, sem necessariamente acompanhá-la da famigerada pergunta: “E o que você entendeu do texto?”

Não há como sair da página 1 e chegar a página 167 sem se perguntar: “Será que a culpa é mesmo da TV, do videogame, da internet, do celular… ou das falhas dos mediadores que os cercam que se distanciaram ?” São as crianças e adolescentes que se desinteressaram da leitura ou fomos nós que, depois de um tempo, nos desinteressamos de sermos contadores de histórias para eles? Vale tirar algumas horas para ler o livro!

SERVIÇO:

Como Um Romance, de Daniel Pennac
Editora Rocco 1993.
Preço Médio: R$ 25

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