Câncer de mama: um fantasma à espreita*

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Carlus Campos / OPOVO

Faz dois anos que eu publiquei este texto. Ele não perde a validade porque, acho, que os fantasmas não desaparecem, nós é que vamos aprendendo a conviver com eles. Neste 2017, faz 15 anos que o meu conviver com um fantasma específico é um aprendizado constante sobre a vida e sobre o que realmente vale a pena ser vivido.

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Ainda hoje, falar e escrever sobre o assunto é, antes, fechar os olhos e respirar fundo. Quando o câncer de mama chegou lá em casa, eu estava saindo da adolescência, curtindo o primeiro semestre da faculdade e vivendo as sofreguidões de uma paixonite nova. O momento em que soube que minha mãe estava doente foi, pelo que consigo recordar, dos poucos mais confusos que já vivi. Sentimos uma tristeza imensurável, mas houve esperança também.

Os 23 meses que se seguiram à confirmação do diagnóstico foram de imersão em uma rotina até então distante demais. Ninguém na família, paterna ou materna, havia passado por isso antes dela. Vieram as cirurgias, as quimio e radioterapias, os enjoos atenuados por água de coco e uva verde. Era muito vaidosa e ainda lembro, como há 10 minutos, do choro dela quando o cabelo começou a cair.

Carlus Campos / OPOVO

Não sei se passei a reparar mais, mas os sorrisos dessa época foram também os mais bonitos, ríamos de tudo e por quase nada; os abraços também, eu acho, foram os mais apertados e eu não me poupava de pedi-los em qualquer hora do dia:
– Por que agora, filha?
– Não sei, mãe, deu vontade.
E saía apressadamente porque tinha sempre uma lágrima desleal que não me obedecia.

Não tivemos a sorte da superação da doença e a morte dela me conduziu, por um tempo, a uma existência quase mecânica, automática. E me trouxe um fantasma que, dia a dia, há treze anos, eu vou tentando driblar, dizendo em pensamentos e ações que eu estou fazendo tudo certinho para ele sumir de vez, que ele não é de nada, mas sei que está à espreita, como a existência dos monstros que vêm da imaginação das crianças, mesmo quando os adultos insistem em dizer que eles não existem.

Depois que meus filhos chegaram, apesar do medo, me sinto mais forte para lutar contra esse fantasma. Tento não descuidar dos exames, da alimentação, do ritmo mais leve de vida. O câncer de mama que eu conheci no começo da minha vida adulta é, para mim, ironicamente, uma das razões de eu querer ser todos os dias, melhor mãe, melhor esposa, melhor filha, melhor profissional, melhor amiga, melhor irmã. Atravesso a madrugada porque sei (ah, essa mania que os adultos têm de achar que sabem tudo!…) que os monstros e os fantasmas vão embora ou esmaecem ao amanhecer.  No meu amanhecer, eles desaparecem em cada sorriso que recebo dos meus filhos quando o sol brilha.

*Texto originalmente publicado no jornal O POVO, em 1º de outubro de 2015.

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