Conheça a família que idealizou e dá vida ao Ecomuseu do Mangue

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Ele já foi militar e trabalhou com publicidade e marketing, em grandes empresas, como Coca-cola, mas não se encontrou o suficiente nessas atividades para se sentir realizado profissionalmente. Desde o comecinho da vida adulta, tem do lado uma mulher forte, decidida a acompanhá-lo. Os dois são movidos pela certeza que os conduz, até hoje: o amor pela família, pelo motociclismo, pela liberdade, pela natureza, pelo mar. O alagoano Rusty de Sá Barreto, 56, e a pedagoga pernambucana Sineide Crisóstomo, 56, chegaram a Fortaleza no finzinho de 1993, já casados, com os três filhos: João Paulo, Rusty Júnior e Rayanne. Vieram para cá com o desejo de montar eventos para motociclistas, como rally, enduro, motocross e motorromaria. Moraram na Varjota, no Papicu, no Curió, até conhecerem Sabiaguaba. E se apaixonarem pelo lugar. E fazerem dele morada “para sempre”, a partir de 1998.

Inicialmente, Rusty conheceu quem ele chama de “Zé Tartaruga”, o nativo mais antigo que “ nos recebeu com muito carinho”, como conta. Logo, buscou uma casa para viver ali. Conseguiu um espaço pequeno, vendido pelo próprio Zé. Montou nele o que seria o primeiro bar da família, chamado de Pró-Sabiaguaba, “o bar para quem gosta de aventura sobre duas rodas, assim explicado por Rusty. Pouco depois, o bar recebeu nome em que já carregava os olhares diferentes dos donos para a região em que se instalaram: Barraca Econativos. Nesse começo empreendedor, os espaços foram pensados para reunir motociclistas e promover eventos direcionados a eles.

Passado algum tempo, já com restaurante bem estruturado e casa da família bem montada ao lado, o nome do local passou a ser Quatro Elementos, em alusão aos elementos da natureza: ar, água, terra e fogo. Tudo caminhava bem. O negócio era lucrativo. Foi quando aconteceu o que, para Rusty, significou a primeira sacudida real sobre qual o propósito da vida. A provocação veio de uma cliente ao perguntar a um dos garçons: ‘quem são os outros elementos? Eu só vejo aquele cabeludo e barbudo…”. Rusty diz que ficou em choque diante da pergunta porque se tratava de “uma pessoa aparentemente bem informada” e que pareceu algo pejorativo. Ainda assim, explicou que se tratava dos elementos naturais e a relação daquele espaço de lazer com todo o potencial científico-ecológico da região. Na verdade – anos depois, ele compreenderia melhor – era uma explicação para ele próprio. E a “ficha começou a cair”.

Rusty, Sineide e o neto Raley (arquivo pessoal)

“Um empresário sem missão ambiental”
Naquela época, o Bar Quatro Elementos já era local bem frequentado e ele começou a perceber a falta de cuidado das pessoas com o espaço, por meio de maneiras preocupantes de agir. Dali, veio a percepção que para ele foi a segunda sacudida sobre o seu objetivo de vida. “Eu me dei conta de que as pessoas não conhecem a natureza, o ambiente, não tem consciência. E eu, apesar de acreditar em todos os benefícios do meio ambiente, tinha um bar igual aos outros, gerador de lixo, de impacto, um empresário sem missão ambiental, aproveitador do meio ambiente, colaborador da degradação da beleza do lugar”, lamenta.

Rusty relata que o incômodo aumentava à medida que ele refletia sobre como o bar interferia na vida daquele ecossistema, o impacto dele na vida das tartarugas e dos caranguejos, por exemplo. “Muitos animais morriam pelo lixo que eu ajudava a produzir. Reconheci, naquela época, que o bar não estava mais atendendo as minhas necessidades pessoais, nem minhas, nem da minha família. E fechei o bar”, descreve.

Rusty, Sineide e os filhos Rusty Jr e João Paulo (arquivo pessoal)

A decisão pesou no orçamento da família. Mas Rusty, com o apoio de Sineide, não abriu mão, apesar do conflito que lhe chegou: como sustentar a família, a partir de então? Ele relembra que foi alvo de chacotas e críticas de alguns amigos e vizinhos, que comentavam: “Tu fechou o restaurante para cuidar da natureza? Tá doido!”. Mas nada os fez desistirem. Rusty diz que passou dois meses sem nenhuma atividade remunerada, depois do fechamento da empresa, mas começou a estudar, a pesquisar, a participar de seminários, cursos, viajar para entender melhor de que maneira eles poderiam estar ali, ajudando a conscientizar as pessoas. Fazia bicos, trabalhos soltos com marketing, publicidade para irem se mantendo.

Começou, então, um projeto de educação ambiental. Incentivo pelo amigo Ivan Oliveira, montou o Educar Sabiaguaba, em 2001, embrião do que se tornaria o Ecomuseu. “Até ali eu não sabia muito bem o que eu estava fazendo, não sabia direito o que responder quando as pessoas me perguntavam sobre o Educar Sabiaguaba. Sabia que eu estava mudando uma atitude. Fiz artesanato, permacultura, medicina natural, farmácia viva, me abasteci de informação e de capacitação. O Educar funcionava em uma barraca tradicional, sem muitos recursos, era tudo muito rústico. Dessa escola ambiental nasceu o que seria um primeiro ensaio do Museu do Mangue”. recorda.

A museologia social e o nascimento do Ecomuseu
Paralelo a tanta mudança, Sineide trabalhava em alguns projetos da Prefeitura, como educadora, e dava aulas em escolas particulares. Mais para frente, passou a se dedicar ao projeto ao lado do marido e conciliá-lo com um trabalho na ETUFOR [Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza], no terminal da Messejana, das 17h às 23 horas.

Com o Educar, começaram a chegar os grupos de crianças e professores. Pelo olhar das crianças, vieram duas outras constatações que ajudaram a delinear o que o Ecomuseu é hoje. “Durante as visitas, as crianças perguntavam: ‘tio, onde estão os animais?’. Por mais que eu explicasse para elas que os animais estavam ali, na natureza, o caranguejo, os peixes… elas queriam ver, conhecer. E surgiu a necessidade de ter um acervo. Daí, veio a ideia do Museu. E começamos nossa coleção, com a ajuda de pescadores, de outras instituições”, esclarece Rusty. O ambientalista destaca outro fato que aconteceu e o ajudou a entender sua função ali. “A professora me chamava para eu guiar a visita, explicar sobre o lugar. E eu fazia. Eu me sentia tão bem, tão feliz com aquilo. Claro, eu era o guia e passei a me dar conta disso”, descobre-se com um sorriso no falar.

Em 2004, Rusty conheceu o conceito de museologia social “e a minha cabeça mudou. Compreendi que isso era tudo o que a gente fazia ali”. Rusty se debruçou sobre o assunto de maneira determinada. Dos estudos perseverantes, nasceu o Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam). Naquela redescoberta, Rusty só começava a ter consciência do trabalho que estava desenvolvendo.

O pesquisador Mirleno Lívio Monteiro de Jesus, em sua dissertação de Mestrado, defendida em 2015, pelo Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira, da Faculdade de Educação, da UFC, estudou o Ecomuseu do Mangue de maneira aprofundada. Segundo o estudioso, ecomuseu é um modelo contemporâneo de museu. “ Neste tipo de museu, membros de uma comunidade tornam-se atores do processo de formulação, execução e manutenção do mesmo, sendo ou podendo ser, em algum momento, assessorado por um museólogo. Tal conceito traz, em seu bojo, a ideia de preservação e colocação de amostras para lazer, pesquisa, memória, educação e comunicação de específicos acervos ecológicos”, diz o texto da dissertação.

Associação dos Amigos do Ecomuseu
De lá para cá, começou maior atuação do casal e maior visibilidade em torno da atividade que desenvolviam. O projeto foi cadastrado na Rede Cearense de Museologia Social, depois no Sistema Estadual de Museus. Há 12 anos, existe a estrutura de conhecer a área pelas trilhas, pensadas por Rusty a partir de suas pesquisas. Durante algum tempo, Rusty e a família resistiu fazer do Ecomuseu uma ONG, regida por Estatuto e CNPJ, “porque a gente queria ser reconhecido simplesmente como cidadãos que estavam ali para cuidar da natureza e conscientizar as pessoas, mas percebemos a necessidade de termos CNPJ para participarmos de editais, de financiamentos, pra gente conseguir se manter, manter a estrutura e poder oferecer mais serviços para a população”, justifica.

Assim, no dia 8 de agosto de 2011, nasce a Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue, que confere ao Ecomuseu o reconhecimento e a legitimidade jurídica de que precisava. Apesar de estar localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) da Sabiaguaba, na foz do Rio Cocó, o Ecomunam se mantém no espaço pelo trabalho feito nele e por ele. “O que autoriza a gente a estar aqui é o trabalho que gente realiza”, acredita Rusty.

No dia 27 de março mais recente, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Ceará (Sema) divulgou os nomes que fazem parte do Conselho Gestor Consultivo do Parque Estadual do Cocó. A Associação dos Amigos do Ecomuseu Natural do Mangue foi eleita em primeiro lugar para participação no Conselho, dentro das vagas que devem ser ocupadas por ONGs e movimentos sócio-ambientais.

A força para superar as dores e as dificuldades
Quem visita o espaço pela primeira vez, impressiona-se com a simplicidade. De fato, trata-se de uma construção bem modesta que abriga um acervo de animais taxidermizados, carcaças de peixes e tartarugas e diversos tipos de caranguejos que contam muito da história do ecossistema manguezal. É nele e por ele que Rusty e a esposa reafirmam, todos os dias, sua missão na vida.

Em 2009, o casal sentiu a pior das dores ao perder a filha Rayanne em uma morte violenta aos 20 anos. O mais novo dos três filhos de Rayanne tinha 6 meses, na época, e, desde então, mora com os avós. Conhecemos um pouco mais o menino, aqui no Vida Ciranda. É Raley, o garoto prodígio que dá palestras pelo Ceará inteiro disseminando a importância de cuidar do meio ambiente.

O Ecomuseu, a chegada dos oito netos, “o dia a dia com a meninada das escolas”, a esperança que enxergam nas novas gerações ajudam Rusty e a esposa a irem superando as dores e as dificuldades financeiras e de reconhecimento, são forças para seguirem acreditando. “Agora, eu sou feliz, posso dizer para você de coração aberto, com brilho no olhar. Eu encontrei aqui o meu propósito de vida”, festeja Rusty. “Aqui, é a vida da gente. Hoje, eu me dedico integralmente às atividades do Ecomuseu”, emenda Sineide.

Atualmente, o Ecomuseu e a família de Rusty e Sineide vivem, basicamente, das contribuições que as escolas e os demais grupos de visitantes dão para a realização das aulas de campo. Não há outra fonte de renda ou mantenedor. É um espaço que recebe constantemente pesquisadores e conta com um time de voluntários da comunidade local e de estudantes de cursos superiores relacionados ao meio ambiente.  Rusty vem cursando Gestão Ambiental pela UNINTER, “é pelo diploma, mas é também para saber mais e mais para dar conta dessa riqueza toda aqui”, planeja.

SERVIÇO:
Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam)
Rua nove, Sabiaguaba. CEP: 60183-651
Contatos para agendamento: 98749 5286 (Rusty)

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