Entrevista com Rafael Festa, pai que emocionou as redes sociais com texto sobre chegada do filho adotivo Kauan, de 10 anos

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A adoção extrapola entendimentos sobre por quê, como, o quê, quando. Claro, a adoção parte da decisão de ter um filho, mas é o dia a dia que vai explicando o que move, não há teorias fechadas. E isso não se restringe apenas a querer ser pai e mãe. É muito mais. Adotar é multiplicar amor. Mais que isso, é também permitir ser ainda mais amado. É desafio para os dois lados. Como nas relações biológicas, é uma relação conquistada na rotina. Pai, mãe e filhos não nascem prontos, em nenhuma condição. A construção da família é também pelos olhares, pelos toques, pelos conflitos, pelas alegrias, pelas conquistas, pelas dificuldades, pela cumplicidade, pelo companheirismo, pelos amanheceres e anoiteceres juntos. A identidade familiar vai se constituindo à medida que os laços se fortalecem e as experiências entre pais, mães e filhos vão justificando aquele encontro que os uniu um dia.

Na noite do último dia 26, o fotógrafo Rafael Festa postou em seu perfil no Facebook a chegada do filho Kauan, de 10 anos. O ganho da guarda do menino, depois da entrada do pedido de adoção, havia chegado naquele dia, com muita alegria para os pais, o fotógrafo Rafael Festa, 32, e para a gerente comercial Tatiani Ziegler, 30. Emocionado, ele postou um texto nas redes sociais que conquistou milhares de curtidas e comentários. Até o fechamento desta matéria (às 16 horas do dia 28 de fevereiro), eram mais de 88 mil compartilhamentos e 40 mil comentários. No texto, Rafael compara toda ansiedade, contentamento, surpresa, beleza e transformação em relação à chegada do filho adotivo ao processo da chegada de um filho biológico. Difícil não se render às palavras de Rafael.

Hoje, Rafael falou ao Vida Ciranda como foi o processo, desde quando ele e a esposa resolveram adotar até o dia em que Kauan, enfim, chegou ao lar. Logo abaixo, reproduzimos o texto que Rafael postou. Após, entrevista exclusiva dele ao Vida Ciranda.

… E O NOSSO BEBÊ NASCEU!

Com 1,44m, 40 quilos e… 10 anos :O
Nossa gestação não foi das mais convencionais. Não vimos nossa barriga crescer (exceto a minha, mas não por este motivo), mas nosso peito já não aguentava mais de tanto aperto.
Tivemos um curso para explicar como seria nossa gravidez.
Ao invés de um teste de farmácia, tivemos uma assistente social nos falando que existia a possibilidade de estarmos grávidos.
Não ouvimos seu coração bater através de uma máquina, mas o nosso acelerou quando uma porta abriu e ele veio em nossa direção.
Não fizemos nenhum ultrassom, mas semana a semana tínhamos nossas visitas para poder ver o rostinho do nosso bebê.
Não experimentamos desejos estranhos nem passamos por enjoos terríveis, mas Deus sabe quão ruins eram os domingos à noite, quando precisávamos levá-lo de volta à casa-lar.
O acompanhamento da gestação não foi feito por enfermeiras e obstetras, mas sim por psicólogas e assistentes sociais.
A correria para montar o quarto do nosso bebê foi a mesma, mas ele estava junto para opinar na decoração.
Não podíamos bradar ao mundo todo que estávamos grávidos, mas sabíamos que o mundo seria pequeno para tanto amor.
As nossas dores de parto foram as angustiantes semanas de espera por decisões burocráticas.
E hoje, o nosso parteiro foi um juiz, sentado em uma cadeira, que assinou um papel e o nosso filho, finalmente, está em nossos braços.
Ao invés de pensar as fases que perdemos, eu gosto de imaginar todas as coisas que já conquistamos e o que ainda vamos conquistar.
Não ouvimos suas primeiras palavras, mas ouvimos ele falar: “Tia, semana que vem quero ir pra sua casa e não quero voltar mais.”
Não acompanhamos seus primeiros passos, mas vamos ser o chão dele em qualquer tombo que a vida quiser dar.
Não o levamos pro seu primeiro dia de aula, mas temos trocado um aprendizado constante a cada dia.
Não ouvimos seu primeiro choro, mas certamente acompanharemos sua primeira desilusão amorosa.
Talvez não consigamos andar com ele no colo por aí, mas aquele colinho no fim do dia ainda tem um sabor especial.
Não tivemos que o colocar em um berço, mas amamos quando ele vai no nosso quarto nos chamar pra dar boa noite pra ele.
Não passamos pela temida fase dos “porquês”, mas estaremos sempre o estimulando a questionar a vida.
Não o vimos aprender a escrever, mas estaremos do seu lado, ajudando a escrever o seu futuro da melhor maneira possível.
Ainda somos “tio” e “tia”, e não nos importamos com isso. O amor incondicional vai além dos títulos. O amamos não pelo que ele sente por nós ou pelo que ele pode nos oferecer, mas sim por que queremos toda a felicidade do universo pra ele.
Ainda estamos aprendendo a ser pai e mãe. Da notícia da gestação até o parto foram 8 meses. Um parto até prematuro 😀
Ainda erramos muito e tenho certeza que isso é uma constante na paternidade. Mas hoje podemos compreender melhor que cada pequena falha foi uma intenção de acertar que não vingou.
Não temos palavras pra agradecer todo o suporte e palavras de incentivo que temos recebido. Nem tentarei colocar nomes aqui pois, certamente, serei injusto com alguém. Mas nosso coração reconhece cada pessoa que tem nos ajudado nessa caminhada.
E que venham todos os clichês sobre pais que sempre ouvimos…”

Vida Ciranda:  Rafael, surpreende você a repercussão do texto que publicou? Em um minuto em que eu tentei acompanhar os comentários, já foram postados mais de 60 novos!
Rafael: Estou muito surpreso. Não imaginava, em hipótese alguma, tanta repercussão assim. Não estou nem conseguindo acompanhar os comentários.

Vida Ciranda: O quê, na sua opinião, isso diz sobre o que pensa a sociedade sobre a temática da adoção e sobre a decisão de vocês?
Rafael: A gente percebe que existe muitas dúvidas ainda sobre adoção. Principalmente sobre adoção tardia. Até estou preparando um vídeo sobre as principais dúvidas sobre o assunto. Acho que sai hoje ainda.

Vida Ciranda: Por que decidiram adotar e optaram por uma criança maior?
Rafael: Por conta da nossa rotina, o período gestacional e licença maternidade seria um pouco complicado. Então optamos pela adoção. Desde o início já tínhamos em mente adotar uma criança mais velha. Após o curso de habilitação obrigatório para quem quer adotar, tivemos ainda mais certeza sobre a nossa decisão.

Vida Ciranda: Quais as principais dificuldades que encontraram desde a decisão tomada até serem conquistados pelo filho de vocês, hoje, passando pela burocracia de o ter oficialmente?
Rafael: A principal dificuldade foi a ansiedade. Existe uma parte burocrática que é até necessária para garantir o bem da criança. Às vezes, é um pouco além do que deveria ser, aí gera uma expectativa enorme. Mas fora isso, as coisas aconteceram de forma bem natural.

Vida Ciranda: Durou quanto tempo? Desde a decisão de vocês até tê-lo com vocês?
Rafael: Tivemos nosso primeiro contato com o Fórum no início de junho do ano passado. No final de junho, já fizemos o curso e na mesma semana já conhecemos ele. Desde então, ele vinha todos os finais de semana pra nossa casa. Quando pegou férias em dezembro veio definitivo e agora, final de fevereiro, saiu a guarda.

Vida Ciranda: Como foi chegar até ele, ser conquistado por ele? Como é o nome dele?
Rafael: Nós já tínhamos tido contato com uma Casa Lar, em uma ação que fizemos aqui pela nossa igreja, mas foi muito tempo atrás, a gente nem tinha entrado com processo de adoção, nada. A gente sempre cogitou essa possibilidade, mas a gente nunca tinha conversado realmente sobre isso. Na metade do ano passado, a gente conversando sobre a nossa rotina, percebeu que uma adoção seria o mais viável pra gente, o mais interessante. A gente tinha vontade de ser pai e mãe e optamos pela adoção. Então, o processo foi todo muito rápido. A gente entrou em contato com o Fórum e, na mesma semana que a gente fez o curso de habilitação, a gente já fez contato com o Kauan. Foi bem rápido mesmo.

Vida Ciranda: Vocês não conheciam o Kauan antes?
Rafael: Ainda não.

Vida Ciranda: Como era o perfil da criança para a qual vocês se cadastraram?
Rafael: Deixamos o nosso bem amplo. Entre 3 e 10 anos, independente do sexo, cor, aceitando irmãos, com possibilidade de deficiência física, com HIV. Então, pela abrangência do nosso perfil, foi muito rápido.

Vida Ciranda: E como foi ver o Kauan pela primeira vez? E ele ver vocês? Qual a reação de vocês e o que você acha que ele também sentiu? Ele estava em um abrigo desde bebê?
Rafael: Ele estava há pouco tempo no abrigo e, a princípio, entramos como padrinhos afetivos. Ele não sabia da nossa intenção de adotar. Mas foi tudo muito natural. Ele é um menino muito falante e dominou a conversa conosco.

Vida Ciranda: Tê-lo foi uma escolha entre outras crianças, ou já houve um encaminhamento direcionado?
Rafael: Já foi direcionado o perfil dele direto a nós.

Vida Ciranda: E como tem sido, Rafael? Ele vinha passando os fins de semana com vocês… Como tem sido desde o comecinho? Qual o maior desafio, as alegrias que vocês já vêm vivendo juntos? Está sendo como imaginou?
Rafael: Está sendo muito bom. As coisas foram acontecendo bem naturalmente. Ele é um menino de ouro, super educado e muito amigável com todos. Fora o desafio da ansiedade, o restante foi muito tranquilo.

Vida Ciranda: Tem mais um monte de dúvidas, mas vou deixar que vocês vivam um pouco mais esse momento. Acho que há tantas perguntas q vocês não saberiam responder e nem gostariam, agora… Parabéns pela decisão de vocês!
Rafael: Eu que agradeço, Sara. Obrigado por compartilhar nossa história e incentivar outras pessoas a experimentarem essa sensação maravilhosa pela qual estamos passando.

Vida Ciranda: Ele chegou definitivamente na segunda (26 de fevereiro de 2018), não é?
Rafael: Isso. É a guarda provisória ainda. Mas legalmente já temos todos os deveres e direitos da paternidade.

Vida Ciranda: Em quanto tempo sai a definitiva?
Rafael: Isso varia muito. Não temos uma previsão.

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