Estrelário é o novo espetáculo da Edisca, em cartaz a partir de hoje, 14

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A Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente (EDISCA)  abre as portas do seu teatro para apresentar suas novas estrelas, a 10ª geração de jovens dançarinos da Escola, que já possui 28 anos de atuação. Com coreografia de Dora Andrade e Gilano Andrade, o espetáculo Estrelário está em cartaz hoje, amanhã e sábado, trazendo a última apresentação de uma trilogia que tem no sagrado sua temática costurante. A entrada é uma lata de leite em pó.

Estrelário fala sobre a natureza e as tantas mágicas existenciais que habitam o mundo, dentre as quais, a mais extraordinária e encantadora: o ser humano, a única criatura que atua a partir de suas escolhas livres capazes de moldar o mundo. Criar-se e recriar o mundo não é dado, necessita de imaginação e ação, assim diz a mensagem da apresentação.

Dora conta que o balé de Estrelário traz uma experiência sensitiva, estética e plástica. Fala de seres que, em suas diversidades, participam de uma rede de colaboração e afinidades necessárias que podemos definir como solidariedade. O verdadeiro milagre eclode quando saímos dessa dimensão natural e adentramos o campo da transcendência. A ideia é mostrar que somos feitos da mesma substância das estrelas e das intimidades do átomo. Segundo Dora, somos parte de um todo grandioso que se multiplica e se diversifica sem cessar, mostrando em sua expansão o caminho de volta para a unidade.

A Edisca inova neste novo espetáculo não apenas por fazer, pela primeira vez, a apresentação de sua nova geração de artistas, mas de fazê-lo no palco do seu Teatro. “Quero trazer as pessoas para conhecerem a Edisca. Quero que as pessoas também se conectem com esse espaço que é da cidade”, justifica Dora.

Trilogia do Sagrado
A trilogia finalizada pelo espetáculo Estrelário, começou com a apresentação de Sagrada, em 2011, que tratava de todas as formas de vida, da água e provocava a reflexão acerca do que estamos fazendo com o meio ambiente. O segundo espetáculo foi Religare, em 2015, que fazia uma conexão do humano com o divino. “É óbvio que não tem nada a ver com um balé religioso, mas essa relação com o divino é inerente ao humano”, explica Dora.

Em Estrelário, 17 dançarinos brilham em uma apresentação forte, inquietante, pulsante diante de uma plateia que se mostra, desde os primeiros minutos, imersa na construção da narrativa que pretende sacudir certezas e incitar reflexões. São quarenta minutos de inebriamento.

Escola que move inspirações e transforma
Em um cantinho dos bastidores do ensaio geral, que o Vida Ciranda acompanhou na última terça, 12, Lorana, de 8 anos, não perdia nenhuma movimentação. Os olhinhos brilhavam diante da apresentação do grupo, no palco. De onde eu estava, pude perceber a vibração da menina, que parecia imitar os movimentos dos dançarinos, com os pés, pernas, braços, mãos, de maneira bem leve e desempedida de qualquer atenção que pudesse chamar para si. Ela é irmã de uma das estrelas do espetáculo, a Rélvia Monteiro, de 19 anos. Lorana é também aluna da Edisca desde os 7 anos e tem na irmã a principal inspiração. A menina que sonha em ser também dançarina se emociona quando fala da alegria de ver a irmã no palco. “Minha irmã está conseguindo o que ela sempre sonhou”.

Nos bastidores, Lorana observa a irmã no palco, cheia de orgulho

Rélvia vive a Edisca desde os 8 anos. “O maior legado da Edisca nas nossas vidas é porque a gente passa a acreditar mais em si, nos nossos sonhos. Vi que a dança pode ser minha profissão também, mas não apenas. O mundo aqui parece todo possível. É muito transformador estar aqui”, conta Rélvia que, aos 15 anos, montou uma escolinha de dança no bairro onde mora desde que nasceu, na Sapiranga. “É a Escola de Dança Rélvia Monteiro. Só para crianças. A gente tem tanta gratidão por tudo que recebe aqui que é impossível não querer repassar a outras crianças a oportunidade que teve um dia”, descreve orgulhosa. Logo depois da montagem da escola própria, Rélvia passou a dar aulas de dança na escola pública e já dá aulas de balé clássico também em grandes escolas de dança, em Fortaleza. Ela pensa em cursar fisioterapia, na Universidade.

De Sobral a Fortaleza
Amanda Arruda, 42, tem sua vida permeada pela trajetória de Dora Andrade e da Edisca. Começou cedinho, com três anos e meio, ainda em Sobral, no Teatro São João, como aluna da Dora e logo passou a acompanhar a professora “pra todo lado que ela ia, até pedir donativos. Meu castigo maior, quando eu era criança era os meus pais me proibirem de acompanhar a Dora”, conta Amanda. Hoje, já mãe de três filhos, faz da Edisca sua “segunda casa. Sou voluntária aqui. É minha terapia. Quando não estou bem, venho pra cá e tudo melhora”.

Amanda em um dos espaços favoritos dela, na Edisca, a casa em miniatura

Ela não seguiu a dança como profissão, tornou-se cerimonialista ainda na adolescência, mas os valores que aprendeu com Dora e com a Edisca guiam seus passos até hoje: “Tudo o que eu aprendi sobre solidariedade, sobre ajudar o outro, sobre doar, aprendi com ela [Dora]. Tenho uma gratidão imensa”.

Pedagogia Edisca é “Por que não?”
Bate-papo exclusivo com Dora Andrade

Dora conversou com o Vida Ciranda, já quando as 17 estrelas do espetáculo estavam indo embora, depois do ensaio geral do grupo, e a sede da Edisca se preparava para fechar, naquela tarde. Sentou-se com carinho e à vontade em uma cadeira disposta à minha frente. Pediu para fumar, como um relaxo depois de um dia cheio e exaustivo. Bastou uma primeira pergunta para que eu fosse imergindo em uma história de esperança, de acreditação, de força, de persistência, de resiliência, de dedicação e de esforço que justifica toda a força de atuação e de transformação que a Edisca carrega na sua trajetória de quase três décadas.

Foi impossível cortar ou transcrever a fala de Dora em perguntas e respostas. As reflexões iam fluindo uma após a outra. E eu não ousei interromper sua fala e meu aprendizado diante dela. Abaixo, elenquei trechos importantes da nossa conversa, que versaram sobre espiritualidade, sobre a base de valores sociais, humanos e éticos sobre a qual a Edisca se edificou, sobre qualidade da educação formal.

“Há uns sete anos, quebramos um paradigma aqui, com estudantes nossos alcançando o ensino superior. Meninos e meninas que não tinham nenhum parente que, sequer, teve oportunidade de sonhar com a faculdade, alcançavam o sonho do ensino superior. Isso muda tudo. É autoestima, é dar a eles a certeza de que podem conquistar o mundo inteiro. Hoje, já perdi a conta de quantos já estão na faculdade”.

“A Edisca é laica, não tem religião, mas essa relação com o divino é inerente, intrínseco ao humano. Espiritualidade não tem a ver com religião. Quando observo grandes invenções, leio um bom livro, ouço uma composição bonita… fico pensando que é impossível que não haja nada de divino ali. Não falo aqui de pessoas que empreenderam grandes feitos, mas de pessoas como nós.  Há uma fagulha de divino dentro de todos nós”.

“Tenho uma pretensão gigantesca. Nunca fiz espetáculos para mero entretenimento, eu gosto de pensar em um espetáculo como um artista, de retratar e tentar trazer à tona questões que angustiam para que as pessoas se sintam tocadas na pele, no espirito, em qualquer lugar”.

“Acho que a população precisa aprender a repensar a pobreza. Há uma dívida social com os pobres que precisa ser paga. Hoje, a sociedade vê a galera da periferia como um problema. A Edisca quebrou um paradigma quando eu lutei para que ela fosse instalada em um espaço que não fosse invisível. As pessoas acham normal que projetos sociais sejam instalados na periferia, cheios de carência, de maneira invisível ao restante da cidade, em que seus beneficiados acabem se enxergando também como apartados do restante da cidade.  Não. Quando eu pensei a Edisca, pensei a escola em um local bem estruturado, em que os estudantes pudessem trafegar pela cidade para chegar à escola, que vissem e fossem vistos. A cidade é todos nós”.

“As pessoas me perguntavam qual a pedagogia da Edisca. Eu acho que é a “Por que não?”. Não houve na Edisca uma construção planejada, foi uma construção intuitiva. Não houve teorias. Foi como tirar o pneu com o carro andando. Naquela época [há quase 30 anos anos] não se falava tanto em arte-educação e era o que nós já fazíamos aqui. Foi Antônio Carlos Gomes da Costa [quem dá nome ao Teatro da Edisca] que, depois de alguns anos, teorizou nossa prática e a chamou de Pedagogia Interdimensional, que contempla o intelecto, a paixão que faz as pessoas se moverem, a capacidade de se relacionar e a transcedência, o mistério, a espiritualidade”.

“Fiquei chocada quando entrei em uma grande escola aqui de Fortaleza. A higiene era quase hospitalar, não tinha nenhum cartaz que fizesse referência ao humano, só vi números, destaques, aprovações em grandes centros de formação do país. Eu acho que educação de qualidade não se resume a isso, tem que ter vivência artística, relações humanas solidárias, criatividade. Onde trabalhamos isso na escola? O que se tem hoje não é suficiente para transformar”.

“Aqui na Edisca dizem que eu sou muito exigente. Eu acredito que a exigência é um sinal de respeito. A exigência só não pode ser maior que a compreensão. Quem está na Edisca não faz de conta que estuda na Edisca. Eles são observados o tempo todo. Há relatórios quinzenais, mensais. Quem está aqui tem que honrar essa oportunidade. Se não, não tem proveito”.

“A Edisca tem hoje uma capacidade máxima de atendimento de 400 alunos. Hoje, temos pouco mais de 300. Estou lutando para conseguir trazer mais crianças. O custo per capita de uma criança na Edisca é R$ 470 por mês. Fico pensando que cada adolescente que cumpre medida socioeducativa nos centros custa cerca de R$ 1700. E o que acontece depois de 1 ano com a maioria desses jovens, nesses espaços? São espaços de formar monstros sociais, não tem nada de educativo. Onde estamos investindo dinheiro corretamente? Não falo somente em dinheiro, mas o preço humano e o social que pagamos por esses maus investimentos são imensuráveis”.

SERVIÇO
Espetáculo: ESTRELÁRIO – EDISCA
Local: Teatro da Edisca – Prof. Antônio Carlos Gomes da Costa
Endereço: Rua Desembargador Feliciano de Ataíde, 2309 – Água Fria
Data: 14, 15 e 16 de março de 2019
Horários: 18h e 20h
Duração: 40 minutos
Ingresso: Uma lata de leite em pó. Troca nos dias das apresentações, na portaria do Teatro EDISCA, a partir de 13h.
Classificação indicativa: Livre

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