Existe educação para a morte?

0
54

Eu confesso que ainda não fui acometida pela crise existencial “de onde eu vim e para onde eu vou?”. Até aqui, só me ocorreram questionamentos acerca de “quem sou, como posso melhorar, quem posso me tornar?”… Hoje, tento trabalhar minha espiritualidade a partir do reconhecimento de mim como parte de um todo, que deve existir em equilíbrio, a partir do respeito ao outro.

No meio dos significados sobre existências, algo sim me inquieta: a morte. E não é pelo aspecto de me questionar sobre vida após a morte, ou, necessariamente, em que tempo ou como ela vai me ocorrer, mas se é possível compreendermos, apesar do impacto e da tristeza da ausência, de maneira um pouco mais serena e racional, que a morte é um processo natural (ou que deveria ser!) de toda vida. Aliás, também de ciclos, de amores, de ideias, de planos…

É óbvio que a maneira como se encara a morte decorre, na maioria das vezes, das crenças religiosas que se carrega e da maneira como ela também chega. Certamente, é mais fácil aceitar uma pessoa já bem idosa morrer do que aceitar uma criança morrer; é mais fácil aceitar a morte quando ela chega a uma pessoa já bem idosa que dorme e não acorda, do que a uma criança que morre atingida por uma “bala perdida” ou em situação de assalto.  Sei que o sentimento muda diante dessas situações. E sei que existem fatores inexplicáveis também que nos angustiam diante da morte.

Ainda assim, tenho gasto algumas horas pesquisando, lendo, conversando sobre a possibilidade de termos os sentimentos mais fortalecimentos diante dela, venha ela a quem venha, em que tempo venha e como venha. E trato aqui de comportamentos fortalecidos diante do que ainda não aconteceu, do que, talvez, seja imprevisível a curto ou médio prazos, e não do que pode ser a cura de traumas que já se instalaram.

Eu não me inquietava tanto com isso até acompanhar o processo de dor e morte da minha mãe, nos meus anos iniciais de adulta. Questionei um monte de coisa. Cheguei a negar a possibilidade de dividir minha vida privada com alguém e ter filhos, depois daquele câncer de mama fatal, porque não queria que companheiro e filhos meus sentissem a dor que meu pai, meus irmãos e eu sentimos. Vii-me como li certa vez sobre Manuel Bandeira: tísico desde o final da adolescência, passou toda a vida sob a iminência da morte, talvez, por isso, tenha optado por não casar e ter filhos. Morreu aos 82 anos.

A morte me chegou de maneira bem devastadora, destruiu partes em mim que só aos poucos, e muito na marra de querer sobreviver e superar, foram reconstruídas. Reconectar-me com meus anseios de construir família foi dessas superações. Mas, desde então, me trouxe a vontade crescente de, desde cedo, fortalecer meus filhos para a morte.

Lembro que lá em casa éramos muito poupados. Minha infância teve a sorte de não vivenciar a morte de pessoas muito próximas. Se alguém morria, um pouco mais distante do núcleo familiar, os adultos cochichavam, comentavam pelos cantos, nos pediam para ir brincar, “não é assunto de criança”, calavam na presença dos mais novos. Na adolescência, passei pela situação de ver morrer nos meus braços uma vizinha que se envenenou por causa do namorado.

Ainda assim, cresci achando que a morte era algo quase fantasioso. A priori, pelo menos, meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus amigos, eu os teria todos perto de mim. “Para sempre”.

Neste novembro, como em um novembro há 17 anos, o câncer de mama levou mais uma mulher forte da minha família. Putz! É o tal do fantasma à espreita. E me sacudiu a consciência, tantas vezes fugaz, sobre a brevidade da vida. A qualquer tempo. Reacende a importância de conversar com as crianças sobre o assunto, dentro da maturidade de cada uma, sem precipitá-las a compreensões que mais as deixem confusas ou amedrontadas.

Tenho minhas preces ao universo, à noite, em silêncio. Creio na divindade que se revela no meu dia a dia, nos sorrisos, nos abraços, nos encontros, na amizade, no amor, nas pessoas que surgem nos momentos tão certos e me enchem de esperança, nas pessoas que também me chegam para me fazer questionar certezas e me ensinam tanto. Creio na divindade que se revela quando estou diante do mar, do pôr ou nascer do sol, dessas paisagens exuberantes, da perfeição de tudo que é tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo para acreditar que possa existir, de fato. Minhas gestações e partos, por exemplo, foram momentos divinos para mim.

Acredito nas energias boas e ruins. Acredito que, se emitimos coisas boas ao mundo, recebemos coisas boas. Tenho buscado viver a força dos meus instintos e conhecer mais minhas intuições. Tenho meditado, agradecido, buscado silêncios, falado e julgado menos, ouvido mais o coração.

Nesse contexto, venho conversando com as crianças sobre a importância de aproveitarmos cada instante, sobre acreditar nos sonhos e buscar realizá-los. Tenho, cada dia mais, conversado sobre a grandiosidade de ser grato, sorrir para as pessoas, ser generoso e agir com delicadeza, mas também sobre não deixar que alguém os machuque, e sobre dizer não quando algo minimamente os incomodar.

Acredito que a nossa eternidade passa também pelas relações respeitosas, empáticas e solidárias que estabelecemos todos os dias. E é nesse conceito que venho aprendendo a resguardar minha eternidade neles. Seja em qualquer tempo em que eu me for da vida deles, venho aprendendo que falar sobre morte é também viver intensamente com eles, não é só ler livros ( e basta uma googada simples para ver que existem milhares na literatura para crianças que falam sobre o assunto!)  que trazem situações concretas, mesmo com toda a beleza da abstração das poesias… Talvez, ainda não sei, aceitar melhor o morrer seja reconhecer e ser grato pelo tempo incrível que se gastou o viver.

Tento, muitas vezes, com certo esforço, rememorar em mim os momentos exatos em que minha mãe me falou todas as palavras de conforto que eu ouço dela, hoje em dia, em todos os momentos mais difíceis, quando eu sei que seu colo seria o meu consolo e conforto mais necessários. Não consigo. E não sei direito por quê. A tese de que mais tenho me aproximado é que não houve momentos exatos, preparados só para aconselhamentos sobre vida, morte, desafios, dores, dificuldades.

Talvez, todas as palavras de consolo que eu, meio magicamente, ouço dela, quando mais preciso, tenham me chegado em um dia comum de compras no supermercado, enquanto ela fazia o almoço e eu lavava as louças, dentro do ônibus, no caminho para a escola, enquanto experimentava uma roupa na loja, na hora de dormir, sentadas na calçada esperando o sono chegar. Somos mesmo um quebra-cabeças de dias vividos. E, se vividos intensamente no amor e no aprendizado, eles ficam. Não como mapas. Mas como bússolas.

Tenho consciência de que esses dias não me blindaram da dor imensurável da perda. Sim, sei que a dor é impossível não sentir, mas há um fortalecimento que nos faz viver melhor o luto e as superações. Por isso, minha inquietude para pesquisar sobre e não negar aos meus filhos os momentos de viver as mortes, simbólicas ou não, que já perpassam suas rotinas: seja do ano que finda, seja de animais de estimação, seja de pessoas que não retornam mais.

Em mim, o ensinamento sobre a morte para as crianças ainda está sendo construído, mas penso, como já defendo em relação a tantos outros assuntos, que não é necessário entrar no cru de detalhes assustadores, macabros, ou em especulações ideológicas e metafísicas. Penso que a morte pode ser vista como uma referência concreta e fundamental para construirmos o significado da vida, junto com eles. Acho que ela nos humaniza. E abre espaços para também falarmos sobre medos, tristezas, dificuldades, lutos. É tudo da vida. E também faz parte do universo infantil.

————

Esta foto foi tirada no último dia 17 deste novembro, três dias antes de perdemos uma pessoa querida. Naquele domingo, levei-os ao cemitério comigo para, juntos, fazermos uma prece a vovó Teresinha. Óbvio, não preciso ir ao cemitério para isso. Não costumo ir no Dia de Finados nem fui no dia 10 (quando completaram os 17 anos de ausência). Mas sei que, para as crianças, é um pouco mais concreto estar ali para falar para eles daquele dia triste de 2002.

Contei a eles sobre uma despedida em uma manhã chuvosa. Descrevi o local como um espaço de tristezas, mas também de esperanças. Falei um pouco sobre nossa conexão com a mãe natureza, com a terra, para falar rapidamente sobre o enterrar…

Construí metáforas sobre a chuva como lágrimas que vinham também do céu, mas sobre a água que limpava e preparava também uma nova morada para a vovó, também e para além dos nossos corações. Eles vivem a fase do transformar-se em estrela, depois da morte, principalmente o Lucas (4 anos), que ainda não consegue distinguir vida e morte. Sinto que eles se sentem confortáveis com essa concretude. Mesmo Gabriel ( 7 anos), que já vem conseguindo entender a morte como processo definitivo e permanente. Não me alvoroço com o que é politicamente correto. Desde cedo, eu aprendi a senti-los, à revelia de todos os manuais.

Na ocasião, eles tiveram curiosidades sobre “as outras pessoas que estavam ali”, sobre “o túmulo com tantos nomes”, referindo-se ao acidente aéreo na serra da Aratanha. Conversamos sobre, caminhando pelo espaço. Naturalmente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here