Hoje, decidi fechar a porta do quarto, pôr os fones no ouvido e escrever

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Este é o primeiro texto que eu escrevo em 2018. Não tinha conseguido até agora. Hoje, 8/1, uma rotina de dona de casa e mãe ainda me atordoa e desafia para que eu não consiga também. Está tudo atrasado: textos, filhos, casa… Mas eu estou aqui.

A coisa mais difícil do mundo para mim é ter que deixar meus filhos na sala, em frente à televisão, numa manhã de sol e de férias, com as bicicletas que eles ganharam no Natal, encostadas no canto da sala. Chega a doer dar as costas, imersa em pedidos de “brinca comigo”. Mas, hoje, decidi vir para cá e escrever, como uma necessidade que também grita fora e dentro de mim.

A casa está em um abandono só. A pia está cheia de louças, a sala está um caos: há brinquedos e restos de comida do lanche da manhã por todo canto. Os banheiros estão sujos, nossa estante de livros há tempos precisa de um olhar cuidadoso, o guarda-roupa dos meninos está uma rampa de incompreensão. A bolsa dos passeios do fim de semana ainda está sobre a mesa, cercada também de brinquedos e objetos que a gente vai passando e deixando, na correria: tem pente, colher, perfume, algodão, roupas largadas… sim, porque não tive nenhuma disposição para mexer nessa desordem. Estou com dor de cabeça pelo cansaço e pela consciência de largar tudo, filhos e casa, mas me apego ao prazer de conquistar metas e sonhos, de compromissos que assumi comigo, com meu eu apenas, bem antes de assumir outros eus. O prazer e a realização que eu sinto quando estou lá, sinto também por estar aqui.

Decidi largar hoje porque nesses últimos dias não estive aqui para estar lá. Nesses dias, lavei a louça, fiz o almoço saudável, limpei o chão, organizei quartos, lavei roupas, limpei banheiros. Pelo toc de gostar de “tudo nos eixos”, fui feliz. Durante esses dias, tirei-os de frente das telas e fomos à pracinha, viajamos, fomos à praia,  produzimos brinquedos, inventamos brincadeiras, visitamos parentes, pegamos sol, gastamos alegria, amor e energia, fortalecemos aquele desenvolvimento saudável. Cumpri o papel da mãe politicamente correta e fui muito feliz.

É a segunda vez que passo as férias deles trabalhando como autônoma, com eles integralmente em casa. Estou bem cansada. Às vezes, penso se esta de empreendedorismo é mesmo para mim. Os dias com eles me toma um tempo danado e, se não estou com eles, me sinto exausta, física e mentalmente, desejando minha cama o tempo inteiro. Até quando decido trabalhar e não estar com eles, escrevo com visitas frequentes de pedidos para pôr no colo, de dedinhos que driblam minhas mãos e abrem páginas, enviam mensagens sem querer, desligam o computador… escrevo com reflexões entremeadas por gritos de discussão que batalham pelas cores preferidas, pelos tamanhos… porque um é mais velho que o outro, porque um viu primeiro que o outro, porque um tem mais que outro, porque um colocou o desenho primeiro na TV que o outro, porque um ganhou o jogo de tabuleiro mais vezes que o outro, ou, simplesmente, porque certo objeto é de um deles e não há acordos de divisão.

Se o silêncio chega, escrevo ainda mais rápido porque sei que logo logo há um preço que me será cobrado por ter me mantido alheia ao motivo do silêncio. Quando o silêncio não é quebrado pelo choro de um ou de outro, que caiu no meio das intrigas e brincadeiras juntos, há folhas, cadernos, livros riscados, rasgados, desenhados. Há cremes derramados, há cocô espalhado pelo quarto inteiro, há banheiro cheio de água e espuma do sabonete que eu comprei havia poucos dias, há coisas quebradas ou alimentos derramados, espalhados próximo à geladeira, há guarda-roupas transformados em loja de fantasias, com todas as mercadorias disponíveis aos clientes, na cama, ou pelo chão; há o ateliê com todo o material de pintura, costura e recicláveis abaixo.

E eu saio, gritando com os dois. Sim, grito. Vigio-me, mas sou real. Depois do fogo apagado, retomo o trabalho, desconcentrada, descabelada, pondo-me em um esforço de concentração para pegar o ritmo abandonado há pouco e tentar entender novamente o que está sendo construído ali na tela do computador. Retorno, ainda assim, agradecendo por, pelo menos, eles estarem ilesos. Retorno, tensa, à espera do motivo da próxima interrupção. Trabalhar em casa, sem ajuda de quem possa distrair as crianças noutras atividades, não.. não é fácil.

Mas, hoje, decidi fechar a porta, pôr os fones no ouvido e estar aqui, graças a um tempo mais disponível do marido que também trabalha em casa. O projeto Férias de Brincar, do Vida Ciranda, está atrasado e a relação tão legal, com um monte de atividades que até já fizemos, me pergunta a toda hora em qual tempo será publicada. Há entrevistas para serem marcadas, há fontes para serem contatadas, há pautas para serem desenvolvidas, pesquisadas. Há um site (novinho em folha!) por que me apaixono todo dia, me esperando. O almoço, hoje, certamente, será a quentinha da dona Luci.

Bom, mas, agora, eu estou aqui. As costas, a cabeça doem ainda pelo cansaço acumulado depois de dias de viagens, de doenças, de eventos familiares. Tirando a manhã do dia 1º em que passamos na emergência de um hospital, foram dias bonitos sim. Dedicação que me arrancou da escrita, da pesquisa, das leituras de jornalista e me fez viver o Vida Ciranda na teoria que o justifica.

Estou aqui. Torçamos para que, daqui para mais tarde, saiam textos. Haha Antes disso, torço para que, no fim das contas, existam apenas desordens arrumáveis… depois do anoitecer. No fundo, são essas as desordens que me movem, que justificam ações e decisões, desordens que me definem, me fortalecem, marcam existência e propósito. Desordens que, no fim das contas, também são conquistas. Amor. 🙂

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