Jogos de desmaio e outras brincadeiras perigosas. Psicóloga do Instituto Dimicuida dá dicas de como proteger os filhos

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Se você tem dificuldades de fazer com que seu filho largue o celular, o tablet ou o computador para fazer outra atividade que não seja ver desenhos ou vídeos a ermo, na internet, você não está sozinho. Arrisco dizer que, se não todos nós, pais e mães, passamos por isso hoje, posso apostar que uma grande maioria compartilha esse drama, essa apreensão, esse medo pela exposição do que está sendo apresentado a eles numa internet ainda tão desconhecida e perigosa.

Divulgação / internet

Mesmo pequenininhos, com 1 ou 2 anos, eles já esperneiam e fazem birra quando lhes tiram o eletrônico, que, nas situações mais responsáveis, lhes foi dado para tentar aquietar a criança, distrair enquanto o adulto tenta resolver problema de adulto. Ufa! Não é fácil. E já peço para quem não for pai, mãe ou cuidador, ou não passa por alguma situação semelhante ainda: não julgue quando virem alguma das situações descritas acima, de entretenimento ou birra. O drama extrapola a boa educação.

Há inúmeros problemas implícitos e explícitos no encantamento que as crianças têm pela internet, segundo diversos estudos já copiosamente divulgados: desde representar riscos à visão e dores nas costas, pela postura errada de ter o celular próximo demais aos olhos e curvar-se de maneira inapropriada para assisti-lo, passando por efeitos de ansiedade e hiper atividade infantis, pela dinâmica de cores e ações aceleradas dos conteúdos assistidos, até o risco de cair em conteúdos perigosos. Daí, o medo.

No último dia 7, acompanhamos de coração saltado o drama da família que perdeu a filha Adrielly, de 7 anos, depois que a menina tentou imitar um youtuber pelo desafio do desodorante, o que causou nela uma parada cardíaca, após inalar grande quantidade de desodorante aerosol. A impressão que temos é que a garantia de segurança que, até pouco tempo oferecíamos a eles dentro de casa, nos foi usurpada pela internet, pelas redes sociais, por outras mídias. O meio da rua, agora, é em todo lugar, a um clique de acesso.

Um dia anterior à morte da menina Adrielly, a associação brasileira Safernet mobilizou a rede em torno do Dia da Internet Segura, dia 6, iniciativa anual com o objetivo de unir e envolver os diferentes atores, públicos e privados, na promoção de atividade de conscientização em torno do uso seguro, ético e responsável das Tecnologias de Informação e Comunicação, nas escolas, nas universidades, nas ONGs e mesmo na rede. A ação envolveu também o papel da família e dos educadores na condução de crianças e adolescentes na internet: desafios, mediação e proteção. Assista aqui, o dia de palestras realizadas em São Paulo.

Pixabay

Não dá mais para ignorar, é preciso arregaçar as mangas e ver maneiras de conviver com a realidade da internet na vida dos filhos. Conversei com a psicóloga Fabiana Vasconcelos, integrante do Comitê de Ciência e Educação do Instituto Dimicuida, responsável pelo desenvolvimento de programas de prevenção. O Instituto foi criado em 2014 pelo empresário Demétrio Jereissati, dois meses depois de ele encontrar o filho caçula Dimitri, de 16 anos, sem vida, com um cinto em volta do pescoço, como consequência da prática do Jogo do Desmaio. Segundo dados do Instituto, as maiores vítimas são crianças e jovens de 4 a 20 anos, que, quase nunca, estão engajados em práticas suicidas. Entenda: são crianças e adolescentes que, realmente, acreditam se tratar de brincadeiras inofensivas, não têm consciência das possíveis consequências. São movidos pela curiosidade e pela euforia, até pela pressão da turma, nessa busca de experimentar, desafiar a si e aos outros, pertencer a grupos. É assustador, de fato, mas é possível evitar.

Segundo a psicóloga, os primeiros e determinantes passos para a prevenção são informar-se, manter-se vigilante e estabelecer com os filhos conversas constantes sobre o que eles veem na internet, desde pequenos, estimular um ambiente de diálogo amistoso, lúdico, de confiança. Confira abaixo a conversa com Fabiana. Entregue-se à tarefa de prevenir a partir do entendimento de como o seu filho se entrega à curiosidade de vasculhar a internet e, sem que a gente saiba, “brincar” com os amigos.

Psicóloga Fabiana Vasconcelos, do Instituto Dimicuida Foto: Rádio Câmara/Divulgação

Vida Ciranda: Com que idade as crianças têm começado a se envolver com brincadeiras perigosas? O colégio é o ambiente mais comum?
Fabiana: Nove anos é a idade com que a criança já está começando a entrar nesse circuito de “eu preciso pertencer a um grupo”. E esse pertencer a um grupo vai insistir que a criança tenha um comportamento dentro daquele grupo, que façam as mesmas ações. Então, essas identificações começam a surgir e serem importantes nessa época, em que o grupo é extremamente importante. Porém, nós estamos vendo e sabemos que a partir de 6 anos de idade a criança já pode se envolver em alguma prática dessa, principalmente, se ela tiver acesso a informação sem controle e sem monitoramento.

Vida Ciranda: De onde vêm os principais incentivos? Colegas, internet?
Fabiana: À primeira vista, as crianças estão interagindo nesse meio social por conta de uma necessidade de estar se socializando via mundo digital, isso faz parte do funcionamento do nativo digital, da criança e do adolescente que nasceram na era da internet. À medida em que a gente transforma a vida da criança em uma vida interna, dentro da casa, dentro do apartamento, confinadas em condomínios e com livre acesso a internet, a gente tem uma propensão a que essa criança tente, dentro do circuito que é comum na adolescência, de formar grupos experimentais, de ser criativo, que ela busque essa necessidade nesses caminhos sociais que é do mundo digital, já que ela não tem um externo, não existe um equilíbrio entre experienciar essas coisas no mundo externo. Então, um dos pontos principais é o desequilíbrio entre o tempo de tela e o tempo externo. Quanto tempo se desconecta da rede e passa fazendo atividades saudáveis, atividades externas ao mundo da internet e como isso é monitorado. É preciso ter o controle parental. Os pais precisam compreender a dimensão do risco que a internet tem. É como soltar uma criança numa praça com três bilhões de pessoas e, no Brasil, ela ter acesso a 24 milhões de crianças e adolescentes que acessam a internet, com suas criatividades e experimentações. Antes, a gente tinha um controle. Eram cinco, dez amigos que participavam desse circuito de criatividade, experimentação e formação de grupo. Agora, nós temos a criança exposta e sendo compelida a participar de práticas dentro de um mundo de pessoas que ela não conhece. Então, não tem um respeito, um amor, um cuidado e uma proteção com ela.

Vida Ciranda: Que “brincadeiras” têm se revelado as mais “comuns” entre crianças e adolescentes? Eles sabem delas, principalmente, pela internet?
Fabiana: Nós temos um grupo de desafios [brincadeiras perigosas] que são mais comuns e que tem um número crescente dessa disseminação via plataforma de vídeo. Em 2010, nós tínhamos cerca de 500 vídeos da brincadeira do desmaio, estamos com quase 21 mil vídeos, agora em 2018. A brincadeira do desodorante vem crescendo também com 17 mil e 400 vídeos,  tem também o desafio da camisinha, o desafio da canela em pó, o desafio do super bonder, entre outros. Estes são os números de vídeos que vêm aumentando e se disseminando, à medida em que os anos passam.

“À medida em que a gente transforma a vida da criança em uma vida interna, dentro da casa, dentro do apartamento, confinadas em condomínios e com livre acesso à internet, a gente tem uma propensão a que essa criança tente, dentro do circuito que é comum na adolescência, de formar grupos experimentais, de ser criativo, que ela busque essa necessidade nesses caminhos sociais que é do mundo digital, já que ela não tem um externo, não existe um equilíbrio entre experienciar essas coisas no mundo externo”

Vida Ciranda: Filhos mais carentes da atenção dos pais são mais vulneráveis?
Fabiana: Não há um perfil específico de que criança ou adolescente vai se submeter a uma prática dessa. Como eu falei, faz parte do desenvolvimento natural da criança, ela se desafiar. Por volta dos 11 anos de idade, ela vai compreender que ela precisa sobreviver no mundo externo e à medida que esse mundo externo impõe para ela desafios, ela vai testar esses desafios porque ela precisa saber-se como sujeito, como indivíduo. Então, é normal testar os limites das emoções, do corpo, de que ser social ela é, do que ela pertence, do que ela gosta, do que ela desgosta. Nesse processo, para o adolescente ou o pré-adolescente,  ser de um grupo é extremamente importante e significante. Então, o que sustenta um pouco essa criança é ela ter uma capacidade reflexiva quanto à participação naquela prática. Isso a gente vê muito pouco, hoje em dia, nas escolas: a existência de um espaço para trabalhar a competência socioemocional. As escolas estão tão focadas em conteúdo e sucesso acadêmico que não existe mais exploração cultural de arte, de esportes e de emoções. O recomendado são 30 minutos mensais para o desenvolvimento de competência socioemocional, onde a criança e o adolescente possa falar sobre as questões do dia a dia, o que incomoda, que sentimentos ela tem, o que significa está participando de um grupo, como dizer não a práticas que são de risco, por que eu não me submeto a um grupo em que eu compreendo que aquilo pode ter uma consequência séria para a minha vida… esses espaços não existem mais nas escolas ou nunca existiu ou existe muito pouco. Em Fortaleza, em não conheço nenhuma escola que trabalhe com competência socioemocional. Nós temos algumas escolas que trabalham com a formação de valores, mas ainda na Educação Infantil ou começo do Ensino Fundamental. Quando os problemas realmente surgem, de existência, que vem o questionamento existencialista do ser humano, por volta dos 10, 11 anos, isso é removido das escolas. E a escola vira somente conteudista.

Vida Ciranda: Há alguma causa, dentro do núcleo familiar, que pode deflagrar o interesse ou o envolvimento “cego” pelas brincadeiras? 
Fabiana: Eu diria que a falta de limite no acesso à rede, à internet, ela pode ser sim um deflagrador. Quando não se compreende que o pai tem sim a responsabilidade de limitar e deve limitar, e a criança fica intermitentemente na frente da tela, com certeza, ela vai, de alguma forma, se submeter a algo que não é saudável. Fora as brincadeiras perigosas, tem uma série de outras pesquisas que compreendem como a saúde da criança é afetada pelo tempo sem limite de tela, seja de sono, de distúrbios alimentares, de cognição, de vista… é um holístico, que fere a integridade da saúde da criança se ela não tiver esse limite de tempo de tela.

Vida Ciranda: Como os pais devem agir em relação ao uso do celular, da internet? Como fazer uma vigilância que deve ser vista pelos filhos como parceria e não, simplesmente, como imposição?
Fabiana: A vigilância como parceria é o limite básico da vida concreta. Se eu digo para uma criança assim: “seu tempo de brincar com os amigos no pátio é de duas horas. Você vai brincar com eles das 16h às 18 horas. Dezoito horas você sobe, toma seu banho e é hora de jantar”. Tem um circuito de rotina. Se eu imponho esse circuito de rotina para o mundo concreto, eu imponho esse mesmo circuito de rotina para o mundo digital, ele não é diferente. Os pais estão vivendo no mundo digital como se fosse algo assim: “ah, é o super dragão, eu não consigo lutar contra”. Não é isso, ele faz parte do circuito normal. A gente vai compreender isso a partir do Manual do Uso da Internet, pela Sociedade Brasileira de Pediatria [Acesse aqui Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital], que coloca o tempo com as idades, as necessidades da criança, de se manter saudável nessa habilidade de balancear o tempo de tela com o tempo real da criança. Então, esse limite, é a partir da dinâmica da família, conversado, estipulado e é dito. Então, os pais que compreendem esses limites e desde cedo colocam para a criança: “eu estou lhe protegendo dos riscos e eu compreendo como esses riscos devem ser evitados”, a criança compreende que é uma regra da casa. As crianças precisam ter limites, do mesmo jeito que tem que ter limite no mundo do concreto, tem que ter limite no mundo digital. Isso tudo numa conversa, no papel de pai e mãe. “Isso pode e isso não pode por causa disso. Vamos pensar um pouco juntos”. Deve sempre ser um processo reflexivo.

“O que sustenta um pouco essa criança é ela ter uma capacidade reflexiva quanto à participação naquela prática. Isso a gente vê muito pouco, hoje em dia, nas escolas: a existência de um espaço para trabalhar a competência socioemocional. As escolas estão tão focadas em conteúdo e sucesso acadêmico que não existe mais exploração cultural de arte, de esportes e de emoções”. 

Vida Ciranda: O pais devem iniciar conversas com os filhos, mesmo que eles nunca tenham iniciado nada, nem demonstrem qualquer sinal de que estão se envolvendo com algum risco? A prevenção passa também pela antecipação de informação aos filhos?
Fabiana: Prevenção em casa passa sim por uma prevenção antes que seja mencionado qualquer coisa. Não é que você vá listar os desafios [as brincadeiras perigosas] e dizer para a criança não fazer. Isso é incitar a prática. Você vai fazer uma educação reflexiva de uso de julgamento com a criança à medida em que você acompanha o que ela assiste na internet, dentro do tempo limite que ela usa. Por exemplo, se ela diz “Mãe, vou assistir aqui o Youtube, agora”. Tudo bem. Não é trancado no quarto, não pode ser isolado. Eletrônicos são sempre na exposição dos pais. Então, ela está lá, olhando, assistindo, e, de repente, aparece algo que a mãe considera de risco. Pode ser qualquer coisa, pode se um by cross, o pessoal fazendo vários movimentos super arriscados. Aí, você pode fazer uma reflexão junto com a criança:
– Nossa, filho, ele é profissional?
– Não, mãe, ele é amador?
– É mesmo? Amador? Mas ele usa toda a proteção necessária para não se machucar?
– Ah, ele usa, tem a joelheira, a cotoveleira, tem o capacete, tem um sapato específico para não machucar a perna.
– Nossa, que massa! Isso é algo que lhe interessa?
– Acho que eu gostaria de fazer.
– Bom, mas seria legal se a gente usar isso como um treinamento, pra você ver como é que movimenta e tal.
Esse acompanhamento para o que é de risco se expande para outras coisas, ele tem que ser sempre reflexivo e acompanhado. E não: “olha, estão aqui as brincadeiras [perigosas] e você não deve fazer isso”. Se você fizer isso você está incitando a prática. Ela deve ser uma conversa diária. A intervenção e a proteção para o mundo digital é uma conversa diária, é um acompanhamento que acontece sempre. “Quem você assiste? Por que assiste? O que você acha? Como isso aí é bom para a sua saúde? Olha, ele não é mais adolescente!” Porque existem vários “fazedores” de canais que não são mais adolescentes e você pode questionar isso junto com o seu filho. “Olha, por que esse homem está fazendo uma prática adolescente? Não lhe parece errado? Se fosse uma pessoa [desconhecida] numa praça pública convidando você para fazer isso e não fosse uma criança, você iria?” Então, você começa a fazer esse diálogo onde a criança compreende o mundo digital como um perigo concreto.

“a falta de limite no acesso à rede, à internet, ela pode ser sim um deflagrador. Quando não se compreende que o pai tem sim a responsabilidade de limitar e deve limitar, e a criança fica intermitentemente na frente da tela, com certeza, ela vai, de alguma forma, se submeter a algo que não é saudável (…). As crianças precisam ter limites, do mesmo jeito que tem que ter limite no mundo do concreto, tem que ter limite no mundo digital. Isso tudo numa conversa, no papel de pai e mãe. ‘Isso pode e isso não pode por causa disso. Vamos pensar um pouco juntos’. Deve sempre ser um processo reflexivo.”

Vida Ciranda: Como está o cenário cearense, dentro do cenário nacional, de crianças e adolescentes que se envolvem em brincadeiras perigosas? Os números têm aumentado, diminuído? Por quê?
Fabiana: No Ceará, a gente tem mais acesso aos números porque nós estamos aqui [Fazem parte do Instituto Dimicuida]. Nós não temos número oficial da Segurança Pública. Infelizmente, os casos são pouquíssimo investigados, menos de 20% da morte total de jovens, e eles são catalogados imediatamente como suicídios, não temos uma estatística oficial. Muitos pais, em Fortaleza, tiveram que emplacar uma luta pela mudança do laudo para morte acidental por asfixia mecânica.  Informalmente, no Brasil, tem-se 21 casos. Em Fortaleza, nós temos 2 casos de desodorante aerossol e 1 caso do jogo do desmaio, em que nós temos as famílias próximas ao Instituto. Nós sabemos que é praticado, que existe um número muito maior, mas que nós não temos a oficialidade para falar sobre, infelizmente.

Vida Ciranda: Que outro aspecto você considera importante nessa educação digital também para os pais, para a sociedade em geral?
Fabiana: 
Nós temos uma luta muito grande, existe um projeto de lei [PL 7170/17] na instância federal com a deputada Josi Nunes (PMDB-TO) para alteração do Marco Civil da Internet [Lei 12.965/2014]. Existe um documento no Brasil que regulamenta esses vídeos, mas, infelizmente, nem ele é fiscalizado, nem é feito de uma forma realmente eficiente. O que nós pedimos é que a monetização dessas práticas de risco para adolescentes não aconteça mais nessas plataformas de vídeo. Porque à medida em que nós dissemos assim: um comportamento precisa ser monitorado, guiado porque o adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal maturado suficiente para compreender toda a extensão do risco que ele corre, e é por isso que ele precisa de um adulto monitorando, aí vem uma plataforma de vídeo e diz: nós pagamos por esse comportamento. Então, estamos valorando, dando um valor monetário para uma prática que, na verdade, é retirar a vida. Que mensagem é essa que a gente está mandando para a criança e para o adolescente? Que a integridade da saúde dele, que a vida dele não tem a menor importância. Ela tem importância, somente, na medida em que eu ganho dinheiro com o risco que ela corre. Então, a gente tem que mudar isso numa perspectiva até de valor social. Isso é o mais importante, no momento. Que a gente consiga que o poder público tome, realmente, a frente disso e consiga que essa monetização seja retirada porque nós estamos atribuindo valor social a isso. E isso é triste. Uma criança de 9, 10 anos de idade, que o que ela quer ser é performance de plataforma de vídeo.. o que é que acontece com as profissões que realmente têm significação no mundo social? Cadê a criança que quer ser professor, veterinário, bombeiro, médico, advogado, aquelas que, realmente, compõem o tecido social e são de importância. Estamos falando de algo que é fugaz, é efêmero e não traz absolutamente nada de valor social ou de vida. Então, é isso que a gente tem que resgatar, compreender que valor é esse que a gente está dando? O mundo digital agora tem qual peso na vida da gente? O que é que está acontecendo realmente na vida social? Porque eu não vejo de uma foram positiva. Não vamos retirar a internet, não é essa a proposta de forma alguma, mas o uso dela tem que ser seguro, tem que ser compreendida como uma ferramenta e não como meio de vida. O valor atribuído a ela é que eu a utilizo à medida que ela me faz bem e não que ela me utiliza e que agora eu só existo com ela. A gente tem que compreender isso e mudar o ciclo.

“O que nós pedimos é que a monetização dessas práticas de risco para adolescentes não aconteça mais nessas plataformas de vídeo. Porque à medida em que nós dissemos assim: um comportamento precisa ser monitorado, guiado porque o adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal maturado suficiente para compreender toda a extensão do risco que ele corre, e é por isso que ele precisa de um adulto monitorando, aí vem uma plataforma de vídeo e diz: nós pagamos por esse comportamento. Então, estamos valorando, dando um valor monetário para uma prática que, na verdade, é retirar a vida. Que mensagem é essa que a gente está mandando para a criança e para o adolescente? Que a integridade da saúde dele, que a vida dele não tem a menor importância. Ela tem importância, somente, na medida em que eu ganho dinheiro com o risco que ela corre.”

Vida Ciranda : Conta um pouco sobre o Instituto Dimicuida.
Fabiana:
 O Instituto Dimicuida nasceu em 2014, após a morte de um rapaz de 16 anos, pela prática popularmente conhecida como Jogo do Desmaio. A família que perdeu o Dimi, que dá nome ao Instituto, passou por um processo de entendimento do que tinha acontecido porque a prática era completamente desconhecida e eles chegaram até um instituição na França, que é a Apeas [Association de Parents d’Enfants Accidentés par Strangulation].  Apeas é uma instituição criada por pais que perderam filhos pela mesma prática. Então, os pais de Dimi passaram uma temporada na França, compreendendo não só do que se tratava isso, assim também como iniciar um projeto pelo qual levasse o conhecimento dessas práticas para a população brasileira. Eles, como pais do Dimi, próximos, atentos, envolvidos, com um jovem que era super criativo, cheio de vida, de planos para o futuro, aventureiro, gostava muito de inventar, um criador, gostava de fazer máquinas, adorava natureza, animais…  eles queriam entender como é que isso tinha passado despercebido. Então, eles trouxeram essa formação da Franca para cá. O fundador, pai Demétrio Jereissati, teve também  acesso a pesquisadora Juliana Guilheri. Ela fez uma pesquisa de mestrado e doutorado com jogos de não oxigenação. A tese foi concluída em 2016. Os números dela indicam que das 1395 crianças (brasileiras e francesas) que ela entrevistou em formato de prevenção, 40% já tinham feito uma prática de não oxigenação ou continuavam praticando e 10% desse número tinham chegado ao desmaio; 33% dessas crianças se submeteram a práticas por pressão de pares ou pressão dos colegas do grupo. Uma das primeiras ações do Instituto Dimicuida, após compreender tudo isso, foi um Colóquio Internacional em 2015 com profissionais da saúde, pais, educadores, segurança pública da França, Estados Unidos e África do Sul, para levar a informação. Em 2016, o 2º Colóquio aprofundou esse conhecimento, trazendo de uma forma mais precisa ainda o que poderia ser feito em um programa de prevenção. Reunimos quase 500 profissionais na cidade de Fortaleza. A partir daí nós compreendemos que estávamos lidando com um elemento chamado internet. E na pesquisa da Juliana identificava o espaço de escola e de condomínios em que eles se agrupavam para fazer as práticas, que não eram somente a do jogo do desmaio. O jogo do desmaio é o “fundador”, continua sendo a base do trabalho porque ele continua crescendo apesar de a gente não ouvir a mídia falar sobre isso, mas os números continuam crescendo. O desafio do desodorante não é uma prática de agora, que surgiu arrebatando crianças em 2018. Infelizmente, é uma prática que vem se alastrando e se disseminando nas plataforma de vídeo desde 2010. E por que agora? Porque agora cresce mais o acesso à internet. Na última pesquisa, da TIC Kids Online, verificou-se que 24 milhões de crianças, entre 9 e 17 anos de idade, tem acesso à internet no Brasil, em todas as classes socais. É um numero muito alto. Não é brincadeira.

“Os números dela [da pesquisadora Dra. Juliana Guilheri] indicam que das 1395 crianças (brasileiras e francesas) que ela entrevistou em formato de prevenção, 40% já tinham feito uma prática de não oxigenação ou continuavam praticando e 10% desse número tinham chegado ao desmaio; 33% dessas crianças se submeteram a práticas por pressão de pares ou pressão dos colegas do grupo.”

Vida Ciranda: Para as família que queiram conhecer melhor o trabalho do Instituto Dimicuida, se informar melhor sobre o assunto, como é que faz?
Fabiana: 
Nós temos um grupo de pais. O contato inicial é feito via site do Instituto. O apoio aos pais é dado diretamente pelos fundadores, que são os pais do Dimi. A busca é tentar compreender uma dor, uma perda para algo tão contemporâneo. Esse grupo de pais ajuda na compreensão e no entendimento do que é essa dor.

 

SERVIÇO:
Instituto Dimicuida
Para saber mais sobre o que são as brincadeiras perigosas, quem participa, como se propaga e quais os sinais de um praticante, acesse aqui

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