Júbilo: um livro sobre reencontros e despertares

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Quando o livro nos chegou, eu já tinha ouvido falar dele. E já era apaixonada. Nunca o tinha lido, mas li resenhas tão bonitas escritas por pessoas tão bonitas que sabia que a qualidade dele não seria diferente. Ainda assim, me surpreendi in-fan-ci-a-men-te!

Júbilo é daqueles livros de sentir cada vírgula, de ir lendo aos pouquinhos que é para não deixar escapar nenhum sentido, nenhum detalhe das imagens que sabem tão bem fazer pareia com as palavras. Não é um livro que traz só linhas, traços e cores, mas, entrelinhas. Pela história do velho-menino Juvenal, a gente se enxerga, se sacode inteiro, se emociona. Juvenal é um velho jardineiro, de repente, sem emprego que descobre que a felicidade verdadeira se encontra nas reinvenções da realidade, como, certa vez, já nos inspirou Clarice Lispector.

E jardineiro se aposenta? Cuidar de folhas e flores parece algo assim como ser poeta, pintor, amigo, mãe, pai, irmão, cantor… não? – Já nos adverte a autora da obra. É algo que vai além de patrões e salários, vem do sublime, é aquele íntimo que transborda, imana, reverbera. Mas Juvenal só foi mesmo descobrir tudo isso depois que ficou sem emprego.

A história constrói paralelos incríveis para significados de palavras que, no dia a dia, a gente ignora ou acha mesmo que não existem tantos sentidos possíveis porque não entende que a vida ultrapassa o comum, o visível. Riqueza, pobreza, tudo, nada, cheio, vazio, velhice, infância… liberdade, paraíso…

E, de repente, no meio da tristeza do desamparo, Juvenal consegue enxergar dentro de si. Sabe aquela versão de você – mais doce, mais brincalhona e cheia de graça, mais intensa, mais agitada e imprudente, menos temerosa, mais agora, mais curiosa, mais feliz –  que já ficou para trás há um tempão? Ela retorna para Juvenal. E tudo se transforma.

A beleza do livro está no encontro que nunca desencontrou, mas que foi esquecido ou ignorado; está em encontrarmos no despertar do Juvenal nossos próprios despertares porque, descobrimos que, com o tempo, a gente murcha, a gente cansa, a gente para de brincar, de cantar… a gente fica, covardemente, sério demais…. mas a gente não é grande assim, a gente é do tamanho de uma infância inteira!  A beleza da vida que o livro nos lembra está na semente.

Uma curiosidade que complementa a beleza do livro está no título. Em seu original em espanhol, Júbilo quer dizer também aposentar-se. Em português, o sentido de júbilo nos remete à alegria, ao regozijo, como nos explica a tradutora, em nota. De certa maneira, a beleza do encontro de que nos conta a narrativa está também nessa coincidência, conectada com as reflexões que o livro traz.

Aqui, os meninos adoraram! Olha o diálogo que rolou, logo depois da leitura:

Lucas: Mamãe, de onde surgiu a menininha?
Eu: Surgiu de dentro do Juvenal.
Gabriel: Ela é filha dele?
Eu: Bem, pode ser. Mas pode ser ele mesmo quando era criança.
Lucas: Não, não é não que o juvenal é um menino e ela é uma menina, então ela tinha que ser um menino se fosse ele criança. E aqui tem dizendo que foi um vento que trouxe ela.
Gabriel: E por que eles precisaram se despedir?
Eu: Porque ela veio só para deixar o Juvenal feliz, para lembrar que ele tem felicidade de sobra dentro dele.
Lucas: Ela é a menina que traz alegria, né, mamãe?
Eu: Sim, ela é. E todos nós temos ela dentro da gente. Quando a gente está triste, a gente chama a Alegria. E ela vem. Não importa a idade.

Gabriel e Lucas, que eu flagrei lendo, sozinhos, dias depois de termos lido a história pela primeira vez.

O livro nos foi presenteado pela escritora e psicóloga Dauana Vale, uma mulher-menina que sabe como poucos encontrar, valorizar e celebrar sementes, e que espalha mundo afora convites para o paraíso, pelo seu propósito em torno do livro e da leitura compartilhada, por meio do projeto Entrelinhas Literatura. Quer conhecer mais sobre a Dauana e sobre o Entrelinhas? Confere a entrevista que fiz com Dauana no canal Vida Ciranda:

 

SERVIÇO:
JÚBILO

Texto e Ilustração: Andrea Pizarro Clemo
Tradução: Lenice Bueno
Editora: Amelì

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