Karine Andrade: lições em P&B sobre ser mãe e profissional

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MATERNIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO 
REPORTAGEM I

No último dia 29 de março, um post publicado no feed de notícias de uma fotógrafa cearense gerou tristeza e indignação. Rapidamente, ele se multiplicou na rede, entre amigos e conhecidos, mas, principalmente, entre empáticos com a causa. E não são poucos. Karine Andrade, fotógrafa, estudante de Recursos Humanos, mãe de duas meninas – uma delas portadora de cardiopatia congênita – acabara de ser demitida do Museu da Fotografia, onde trabalhava como estagiária, havia três meses. O motivo dava título ao texto publicado na rede: “Fui demitida por ser mãe e ter filho pra cuidar”. Neste mês de maio, do trabalho, das mães, o Vida Ciranda convida você a participar dessa conversa. Precisamos falar sobre direitos, deveres, abusos e possibilidades de conciliação entre maternidade e ambiente corporativo.

arquivo pessoal

Karine trouxe à tona uma discussão que está mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Na grande maioria das vezes, encoberta, mascarada, diluída em discursos de bondade e solidariedade. Para a socióloga Verusca Simões, há uma situação pior: trata-se de uma discussão velada por aceitações desses discursos. “Há uma resignação de muitas mães que se veem sem outra opção, a não ser dobrar-se à missão solitária da criação dos filhos, que as sobrecarrega como não deveria”. Segundo a estudiosa, as mães veem-se diante de um mercado que destoa das conquistas femininas das últimas décadas. Um mercado “que não dialoga com as famílias que as mães constroem para além dos interesses de metas e lucros. Um mercado que ainda não entende que ele próprio faz parte de uma roda viva de causas e consequências da má ou da boa educação que recebem as crianças e os adolescentes”, alerta Verusca.

Até o fechamento desta reportagem, na tarde desta segunda, a mensagem da Karine já havia sido curtida por 1,7 mil pessoas e compartilhada 608 vezes.

E quando se trata de crianças e adolescentes, é preciso lembrar o que está resguardado na Constituição Federal, art. 227: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”, diz a legislação.

Para a socióloga Verusca, isso significa que precisamos repensar práticas para além do foco em si mesmo, precisamos estender as funções sociais que exercemos em compreensões e benefícios coletivos, que abarquem o alicerce do processo todo. “Não há dias vindouros sem as novas gerações. E não há melhorias sem investimento nelas. Por exemplo, está na Lei a licença maternidade mínima de 4 meses assegurada às mães e às crianças. Ainda assim, há muitos desrespeitos, pressões e opressões. A própria gravidez é encarada com desdém em muitas instituições. Isso desqualifica desde cedo um processo educativo mais saudável. Se não cuidamos das crianças e de suas famílias, os planos de um crescimento civilizatório saudável ruem. Como vem ruindo. É urgente mudar”, adverte Simões.

Nesta segunda, você acompanha o bate-papo que tivemos com a fotógrafa Karine Andrade sobre maternidade, mercado de trabalho, sonhos, futuro. Amanhã, no segundo dia desta série, outras mães trarão seus olhares e opiniões para esta conversa. Participe também comentando esta matéria.

Lições em P&B: “Ser uma boa profissional é tudo de que precisamos para estar no mercado de trabalho”. 

“Eu nunca pensei que fosse acontecer comigo. A gente sabe de histórias com os vizinhos, primos, outras pessoas. Acho que por eu ser da arte, estar em um ambiente artístico, de educação, em um local chefiado por uma mulher empoderada, feminista.. nunca pensei, e foi o que mais me deixou triste”, explica a fotógrafa Karine em entrevista ao Vida Ciranda. Segundo ela, o fato aconteceu numa quarta-feira, depois de uma sexta-feira anterior em que esteve afastada, sob declaração médica, para estar com a filha internada no hospital.

“Fui chamada à sala do gestor. Ate pensei que fosse algum carão do dia a dia (rsrs). Vi que ele estava desconfortável, mas falou ‘Vá para casa, cuidar da sua filha’ e se desculpou por estar fazendo aquilo. Eu fiquei muito chateada, me senti traída, porque eu era muito esforçada. Tinha, inclusive, um banco de horas que me possibilitava folga de dois dias, porque sempre ficava até mais tarde. Usei um dia dessas horas, ou seja, que já era um direito meu”, lamenta Karine.

Karine Andrade, 28, é mãe dedicada de Kaylane, 12, e Alícia, 6. Conheceu a maternidade aos 16 anos, quando engravidou do namorado, que se tornou marido e a acompanha até hoje. Em uma narração emocionada, nos conta sobre os desafios das duas maternidades, principalmente, das rotinas de exames constantes, cirurgias e internações que já enfrentou com sua caçula, cardiopata.

Alícia chegou como chegam as grandes mudanças, as transformações mais marcantes, aquelas que desnorteiam e despedaçam corpo e alma, mesmo inundadas de afeto, aquelas que conduzem ao limite o que pensamos ser impossível ultrapassar, até ver que é possível; mudanças que sacodem todas as opiniões, mas que justificam lutas, existências e o amor de uma vida inteira. Karine enfrentou com força e encantamento também os caminhos de uma descoberta de si, da sua essência, no meio de um turbilhão de emoções. Mais que isso: descobriu que não estava sozinha.

Foi durante a primeira internação da filha, que a fotografia lhe chegou como um convite ao alento. Durante os 22 dias em que viveu a UTI do lado da filha, com menos de 1 mês, Karine foi consultada sobre a possibilidade de sua bebê recém operada ser fotografada por um profissional que fazia um trabalho com crianças cardiopatas. Sua resposta de pronto foi não. “Como alguém queria fotografar crianças em um momento de tanta dor como aquela”. Negou o convite. O fotógrafo era João Palmeira. O livro era “De Nascença”, que registra histórias de crianças com a doença. A publicação marcou a trajetória da Karine e atravessou seu caminho diversas vezes.

Nos meses que se seguiram conheceu o trabalho do fotógrafo e a coletânea de fotografias. Apaixonou-se. Pelo livro. Pela fotografia. “Bateu um arrependimento danado de não ter participado. Fiquei encantada com as fotos, com os textos. Choro ainda hoje quando leio o livro. Fui muito tocada pelas fotografias, pela beleza delas. Naquele momento, decidi que era aquilo que queria seguir na vida”, diz com brilhos nos olhos.

Karine descobrira a paixão profissional no meio do caos emocional que vivia e passou a dedicar-se também a ela, entre médicos e hospitais. Depois de alguns estudos e cursos, ingressou, com destaque no processo seletivo ao Curso de Fotografia, no Porto Iracema das Artes. Em uma das aulas, viu-se diante da fotógrafa Iana Soares, uma das autoras do livro De Nascença que mais emocionaram Karine. Compartilhou sua emoção ali mesmo, diante dos colegas em um auditório lotado, e começou um laço que a fortaleceria nos meses seguintes. O livro que ela negara, anos antes, lhe agregava amigos e lhe inspirava para uma atividade que a aliviava todos os dias. “A fotografia foi a minha libertação completa”.

Como trabalho de conclusão de curso, Karine fez um ensaio chamado Resistência: Ansiedade e Depressão, coerente com todo o emocional que vivia e que agora ela conseguia explicar e expressar. Abaixo, Karine divide conosco seu ensaio, aclamado por professores, colegas e críticos da área.

“No Porto, consegui me reerguer, porque lá eu era mais que a mãe da Alícia, eu era a Karine fotógrafa. Cheguei destruída e fui me reconstruindo aos poucos. A fotografia me ajudou nesse processo. Eu já não me sentia mais tão confusa, bagunçada, cansada, eu já não sentia mais tanta culpa pela doença da minha filha. O ensaio mostra exatamente isso”, descreve.

Mais leve, compreendendo bem melhor todo o processo pelo qual passava e com o emocional mais equilibrado, agarrou a oportunidade de estagiar no Museu da Fotografia, no segundo semestre de 2017. Um sonho. Lá, ela trabalhava de quarta a domingo, das 11h30min às 17h30min, como arte-educadora. Começou em dezembro de 2017 e seguiu até março de 2018, quando foi demitida.

“Minha mensagem na internet foi de tristeza, de desabafo, mas também de encorajamento para outras mulheres. O Museu faz um trabalho muito bonito e eu reconheço isso, mas mesmo lá, aconteceu o que aconteceu. Quero levar dele apenas as lembranças boas que eu vivi. Nada mais. O que eu peço ao Museu é uma retratação formal do que aconteceu. Não é só por mim, mas por uma luta que é de todas as mulheres”.

Depois da mensagem publicada, Karine confessa que sofreu. Mas logo percebeu que não estava sozinha. “Cheguei a me arrepender por ter postado, mas aos poucos fui percebendo que fiz o melhor. Muitas pessoas vieram conversar comigo, pessoas que eu acompanhava de longe, de quem eu sou fã, como a Iana Soares. E muitas mulheres que se identificaram com a minha situação. Esse apoio me deixou preenchida, completa”, relata.

Fortaleza
Karine é uma mulher intensa e forte, como são as experiências que ela vive como mãe e como profissional. Vem aprendendo que os caos que lhe chegam também lhe agregam. “Sabe, penso no fato [demissão] como algo que me ensinou muito e, principalmente, que me oportunizou conhecer pessoas tão bacanas, foi a dor da demissão que trouxe essas pessoas para perto de mim. Como a dor da doença da minha filha me trouxe a fotografia. Pelo sofrimento da Alícia, não falo que eu não mudaria nada, mas não me arrependo de nada do que a gente viveu e vive nesses seis anos porque eu conheci pessoas e histórias que me transformaram demais, me humanizaram mais. Hoje, tenho outra visão sobre as pessoas, sobre o mundo e sei que essa visão é determinante na profissional que eu sou hoje”, analisa Karine.

Sobre superar a tristeza que lhe trouxe a demissão, Karine confessa. “Não sei se superei. Para qualquer entrevista de emprego, a partir de agora, eu fico em dúvida se eu falo da Alícia ou não, sabe”, resume.

Recursos Humanos
Atualmente, Karine vive como fotógrafa freelancer, enquanto cursa a faculdade de Recursos Humanos, na FAECE /UNIP. Não é preciso ratificar aqui o muito de lições de humanidade e empatia que Karine leva para a carreira que pretende seguir no ambiente corporativo.

“Como profissional de RH, quero mostrar que mulher mãe pode trabalhar, é possível. Eu quero mudar a visão cultural dos gestores, mostrar que ser uma boa profissional é tudo de que precisamos para estar no mercado de trabalho e isso pode acontecer comigo sendo também uma boa mãe, presente, que consegue acompanhar os filhos. Quero provar que não existe essa de que ser uma boa mãe e uma profissional de sucesso no ambiente corporativo não podem caminhar juntos. Em todos os lugares em que eu trabalhei antes, sempre fui mãe. Isso não impede nada. As pessoas, o mercado de trabalho ainda têm um ranço com as crianças. E elas são dever de todos nós. As pessoas esquecem de que estão sobrecarregando as mães que atuam no mercado e não estão dando para elas a condição mínima de serem mães mais presentes. As mães estão sozinhas, sem apoio para cuidar dos filhos, passando o dia em empresas que não olham para elas por inteiro”, explica a futura gestora do mercado.

Karine explica que é necessário ver outras alternativas em vez de demitir mães que, mesmo sendo excelentes profissionais, pecam diante do mercado por serem mães e precisarem de compreensão para também cuidarem das crianças. Porque, segundo ela, muitas vezes, são mulheres que botam a comida na mesa de casa. “ Como eu ajudava meu marido. Me falaram que estavam me ajudando me demitindo, mas como? Acredito que precisamos de empresas que ofereçam facilidades, como  planos de saúde, regime de cumprimento de horas mais flexível em momentos de necessidade. É preciso um olhar mais humano, menos tão somente empresarial. Precisamos nos colocar mais no lugar do outro. Acredito que em uma entrevista de emprego ninguém pergunta a um homem com filhos o que ele vai fazer se seus filhos adoecerem. Meu marido tirou uma semana para cuidar da Alícia, nada aconteceu com ele. Estamos numa condição muito frágil ainda no mercado de trabalho. Claro, tudo recai para a mãe, como se a responsabilidade fosse só dela. Poucos ajudam, todos cobram”, desabafa.

Mundo pulsante
O sorriso não sai dela. Mesmo nos relatos mais dolorosos. Tem um jeito espontâneo, bem humorado, acolhedor. Karine é um mundo pulsante também para além da maternidade e da fotografia. Adora cozinhar, comer, fazer amigos, estar com amigos. “Amo fazer massa, tortas, mousses, pão, cachorro quente, lasanha, pizza de frigideira. Meu passatempo predileto é cozinhar e comer (risos). Gosto de cozinhar para minha família amigos. Aliás, não posso me queixar de amigos”, alegra-se.

De agora pra frente, quer aprofundar-se no aprendizado da fotografia paralelo à especialização em psicologia empresarial que pretende cursar, depois que finalizar a faculdade. “Tenho uma ideia de um projeto de fotografia de pessoas icônicas de cada bairro. Sabe, aqueles anônimos famosos, que todos do bairro conhecem? Fazer um trabalho de fotografá-los como um patrimônio imaterial tão valioso daquele bairro”, planeja.

Antes disso, vem se esforçando para recuperar sua máquina fotográfica profissional, que precisou vender para pagar materiais, matrículas e mensalidades das escolas das filhas. Anda juntando uma grana para resgatar seu amuleto.

O Vida Ciranda buscou contato por telefone e por email com o Museu da Fotografia. Na última sexta-feira, foi informado que Fernanda Oliveira, coordenadora responsável pelo equipamento, é a pessoa mais indicada para falar sobre o assunto, mas que estava doente e não estava indo ao Museu. Foi um enviado um email direcionado à coordenação do Museu, mas até o fechamento desta reportagem ele não havia sido respondido.

Roda de Conversa sobre Maternidade e Mercado de Trabalho

Na próxima quarta-feira, 16 de maio, às 18h30min, o Vida Ciranda conduzirá uma Roda de Conversa na empresa Transforme Coworking (Rua Barbosa de Freitas, 1035 / Térreo, Aldeota). O momento faz parte deste Especial Maternidade no Ambiente Corporativo como relação presencial da discussão. Karine Andrade é uma das nossas convidadas especiais desse encontro. Leve suas dúvidas e compartilhe conosco sua experiência. Karine fará uma exposição especial para o evento e as fotografias podem ser adquiridas por preços variados.

Amanhã  Especial Maternidade no Ambiente Corporativo
Acompanhe mais histórias de mulheres que enfrentam o desafio de de uma rotina ativa de trabalho e maternidade.

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