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A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR

As pessoas me perguntam quais livros eu leio para os meninos e em que hora costumamos ler juntos. Nosso momento de leitura livre, fora das atribuições escolares, é antes de dormir. Não lemos todos os dias, porque nem sempre o cansaço deixa. Às vezes, eles estão no maior pique, mas eu estou exausta. Às vezes, empolgo-me com uma leitura nova, mas eles capotam antes mesmo do beijo de boa noite. Prometo vir mais vezes aqui, contar sobre nossas leituras de antes de dormir.
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Nesta segunda-feira de carnaval, dia 24, lemos o livro A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector. Escolhido pelo Luquinhas, aprovado pelo Gabriel. Já o lemos antes, por isso Lucas não hesitou quando o relembrou na estante. Eles amam. Respondem as perguntas da autora. Conversam com Clarice como se ela própria, não eu, lhes estivesse contando a história. Nesta noite, diante do trecho “Depois eu conto, mas em segredo, só vocês e eu vamos saber”, Luquinhas soltou um leve ‘tá bom’ e Gabriel refutou: ‘não, se outras pessoas comprarem o livro também, não vai mais ser só nós e ela’. ‘Sim’, respondi. Aaah, teeempo. Há poucas semanas, ele também só responderia ‘tá bom’.

O certo é que Clarice nos envolve. Mesmo escrevendo textos que possuem compreensão possível também pelas crianças, ela é tão incrível. Escreve com respeito, com diálogo, fazendo as crianças refletirem, convidando-as para a construção do livro junto com ela. No caso de A Mulher que Matou os Peixes, impossível sair da leitura achando que os animais são seres quaisquer. Não, eles são muito especiais. Cada um do jeito, sejam naturais ou convidados. E é impossível não a perdoar pela morte dos peixes. Os meninos sempre respondem um “siiiiiim” forte e em coro à pergunta final.
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Além da relação que os meninos já estabeleceram com o livro, há algo de muito especial nele, para mim.
Meu pai foi quem me falou sobre o livro pela primeira vez, eu já adulta. Ele o estudou em um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), em uma das muitas especializações cursadas. Minha incansável inspiração.

A coleção de cinco livros (também) para crianças, de Clarice Lispector, foram os primeiros da literatura brasileira, de maior fôlego de leitura, que eu comprei, como mãe. Adquiri na companhia da querida amiga Isabel Costa @noazuldezanzibar , em um dezembro tão marcante e determinante para quem eu sou hoje: naquele dezembro, há sete anos, eu decidi que, dali em diante, eu colocaria meu filho para dormir toda noite, como eu ainda não o havia feito, por causa dos plantões da redação. O jornalismo apaixona, mas também sabe machucar.

Pedi demissão e saí da redação do O POVO, pela segunda vez, no dia 13 de dezembro de 2013. Não fazia ideia o que faria depois daquele dia. Mas uma vivência me fez ter certeza de que eu havia tomado a decisão mais correta: naquela sexta-feira 13 de 2013, o céu limpo de nuvens exibia uma lua luminosa, quase cheia, linda, linda. Pela primeira vez, em 18 meses de maternidade, eu estava sentada numa poltrona do quarto, em frente à janela, com ele nos braços, por volta das 19h30min, pondo-o para dormir. Enquanto eu cantava baixinho canções de ninar que eu aprendera há pouco, eu também chorava. E o apertava contra o peito. Amor e gratidão.

Não sabia como seria depois. Mas, ali, por aquele momento, eu agradecia. Ali, eu descobri a força da maternidade em mim. Ali, eu descobri a força da maternidade da minha mãe, das minhas avós, da minha ancestralidade e de todas as mães que já passaram por mim e que eu ainda iria conhecer. Ali, eu percebi a grandeza de uma força que estava me transformando e poderia transformar o mundo pela grandeza de tantas outras mulheres. Uma força que, apesar de ter sua existência reconhecia por mim, eu não sabia direito ainda como lidar. Ainda hoje, sete anos depois, eu aprendo todo dia.

Hoje, quando sinto que estou impaciente ao pô-los para dormir, aparentemente sem dar valor ao momento de fazê-los adormecer, eu me lembro das infinitas noites em que eu chegava em casa, tantas vezes, depois de um dia inteiro de trabalho, e Gabriel já estava dormindo. Olhando a dedicatória do livro, escrita naquele dezembro, passa um filme na cabeça, e eu me emociono. Foi ali que tudo mudou. Foi ali em que eu decidi que era onde hoje eu estou que eu gostaria de chegar. Ou, pelo menos, que é aqui, assim, trabalhando e estudando, mas os acompanhando mais de pertinho, que eu quero passar meus curtos longos anos de mãe de crianças.

A literatura para crianças de Clarice começou pelos escritos que ela fez ao filho, sem pretensões de publicação. Como ela mesma ressaltou, em entrevista concedida à TV Cultura, pouco antes de morrer, em 1977: “com o meu filho quando ele tinha cinco anos de idade, me ordenando que eu escrevesse uma história para ele, e eu escrevi. Depois eu guardei, e nunca mais liguei”. Anos mais tarde, saía da gaveta aquela produção feita com exclusividade, a pedido de seu filho Paulo, para a prateleira e mãos de tantas outras crianças. “Até que me pediram um livro infantil e eu disse que não tinha. Inteiramente esquecida […] Mas aí eu lembrei: tenho sim! Daí foi publicado”.


Neste 2020, ano do centenário de nascimento da escritora, há um desafio particular que pretendo cumprir: completar a leitura da obra completa de Clarice Lispector! Uau! Vou dividir esse desafio com você: vem comigo? 

SERVIÇO
A MULHER QUE MATOU OS PEIXES (1969)
Autora: Clarice Lispector
Ilustrações:Flor Opazo
Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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