Não transformem quarentena em férias!

0
634

Se depender do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares do Estado do Ceará (Sinepe-CE), a quarentena, a que o planeta está submetido para tentar conter o avanço do coronavírus, representará também o gozo legal do direito a férias, principalmente, de professores e estudantes. Ontem, dia 30 de março de 2020 , o presidente do Sinepe-CE, Airton de Almeida Oliveira, lançou uma circular recomendando férias coletivas e antecipadas de 1º a 30 de abril de 2020, para instituições de ensino com oferta de creches, berçário, educação infantil e ensino fundamental 1 e ensino integral, e de 13 a 30 de abril, para fundamental 2 e médio.

A recomendação, conforme explicita o Sindicato no documento, está amparada em resoluções e decretos estaduais, principalmente, na polêmica Medida Provisória (MP) 927, que, inicialmente, também previra em seu art. 18 a suspensão, durante a quarentena,  de contrato de trabalho pelo prazo de 4 meses – artigo revogado 1 dia depois de sua publicação. Necessário frisar que nos termos estaduais, como na resolução nº 481, de 27 de março deste ano,  do Conselho Estadual de Educação do Ceará (CEE), está prevista apenas “regime especial de atividades escolares não presenciais no Sistema de Ensino do Estado do Ceará, para fins de reorganização e cumprimento do calendário letivo do ano de 2020, como medida de prevenção e combate ao contágio do coronavírus (COVID-19)”. Ou seja, ensino a distância durante os dias de quarentena, o que, segundo o Sindicato na Circular 007, vem sendo posto já em prática pelas escolas privadas desde o dia 18 de março.

A MP 927 prevê, assim, em seu art. 3º a concessão de férias coletivas “para enfrentamento dos efeitos econômicos decorrentes do estado de calamidade pública e para preservação do emprego e da renda”.  O presidente Airton de Almeida reitera na circular 007/2020 “a importância de todas as instituições de ensino optarem em seguir”  a recomendação.

Dessa forma, existem três situações possíveis para as escolas particulares e públicas cearenses, durante o mês de abril: quarentena “apenas”, férias na quarentena e quarentena já com reposição de aulas ocorrendo pelo regime de educação a distância. No primeiro caso, a readequação do calendário letivo 2020, com a reposição das aulas, viria logo depois da quarentena, quando a rotina normalizar.

Na minha opinião, recomendar férias antecipadas para as escolas durante quarentena é a pior das opções porque despreza muitos fatores determinantes para um processo de vivência escolar bem sucedido.

Em primeiro lugar, poucas pessoas entendem, até agora, o que se vive, hoje, no mundo. Quarentena não é e nem deve ser férias. Ressignificar como férias um cenário de confinamento, de isolamento social, de fragilidade emocional, de sobrecarga de afazeres de casa, de trabalho home office e de cuidados com as crianças, que vem sendo a realidade de muitas famílias, é covardia! É injustiça e desdém diante do direito de pleno gozo de um período de descanso do trabalhador. Quarentena não deve ser férias! Não deve ser vista, não deve ser recomendada e nem vivida como tal! Esta quarentena é sacrifício de um mundo inteiro para conter um vírus que vem matando milhares de pessoas, mundo afora. É luta pela vida. Todo processo de sobrevivência leva o indivíduo ao limiar da sanidade.

Entendam de uma vez por todas: não vivemos uma situação ordinária. O que vivemos é uma situação extraordinária e ela precisa ser encarada dessa forma. As crianças são sim uma das mais impactadas. Elas sentem. Há um desgaste emocional que não pode ser ignorado. Como, depois desse estresse psicológico, eu vou jogar famílias e crianças dentro de uma escola por seis ou sete meses de estudos ininterruptos? Como retornar às atividades normais, depois de um período de grande tensão e impacto emocional, sem previsão de descanso a tudo isso? Somos seres sociais, disso também depende nossa sanidade, nosso bem-estar. A grande maioria de nós, como deveríamos estar todos, está longe dos pais, dos avós, dos tios, dos primos, dos amigos. Tudo isso tem também um impacto extremo na saúde mental.

E mais: estar em casa, nesses casos, não é necessariamente não fazer nada e relaxar. Descansar a mente não é apenas dormir mais, comer mais, ter mais tempo livre. Estar em contato com a natureza, com os amigos, com ambientes abertos é bem-estar. Correr na praia, tomar banho de mar, de rio, de cachoeira, viajar, passear, viver novos ares, encontrar familiares é bem-estar. Estamos privados disso tudo. Estamos em dias de sacrifício sim. Ou, pelo menos, deveríamos estar todos.

Enfrentar a quarentena como “um esforço conjunto” ou com postura de “cooperação de toda a sociedade para a erradicação da doença”, assim como mencionado na Circular 007 do Sindicato, não deve significar estar disposto a submeter, principalmente, crianças, adolescentes e professores a um regime de estudos e de trabalho insustentável do ponto de vista das condições emocionais apropriadas para a boa construção de conhecimentos, dentro da escola. O aprendizado de crianças e adolescentes não deve pagar o preço da possibilidade de se “evitar um colapso econômico”, como enaltece a Circular. As consequências de se perturbar as condições apropriadas do processo de ensino-aprendizagem são duras demais.

Muitas crianças, adolescentes, pais, responsáveis retornarão desses dias exaustos física e emocionalmente, com crises de ansiedade, com síndromes de pânico, inícios de depressão, porque o dia a dia em um ambiente de confinamento não é só de leveza, de paz e de amor. Pode ser suportável, mas está longe de ser o ideal, do que demanda corpo e mente sãos como fins de um tempo de férias, reservado o descanso real. Férias não é capricho social, é necessidade biológica. O ambiente único de dentro de casa exaure o corpo e a mente, estafa, consome paciência, bom humor, disposição.

E mais: muitos pais vivem o home office pela primeira vez. Home office é das atividades mais difíceis e exige um tempo considerável de adaptação. Dividi-las com as crianças, com os afazeres da casa é ainda mais desafiador e estressante. Isso não é férias. Quarentena não deve ser encarado como um período de descanso.

Em segundo lugar, grande parte dos professores não cessou suas atividades, durante a quarentena iniciada já, oficialmente, há 14 dias. Estão trabalhando em regimes de jornadas internas ou preparando aulas em ambientes virtuais de aprendizagem. Estes serão submetidos, depois da quarentena, a um longo período de trabalho, sem férias reais. Só quem não conhece ou não se recorda como é a rotina puxada de um professor pode propor férias numa quarentena. É insano, é desumano.

Em terceiro lugar, não é certo ainda que a quarentena dure apenas o mês de abril. Já se fala em maio, e mesmo junho como um mês de transição no retorno à normalidade. Como ficará, então? Esgota-se o gozo real de férias em abril… e em maio, e em junho?

Mais uma vez, o resultado da “consulta da entidade aos mantenedores e gestores das instituições de ensino associadas sobre o funcionamento das escolas durante o mês de abril”, como menciona a Circular 007 do Sindicato, não está coerente com a mentalidade de educadores que estão mais preocupados com a oferta de uma boa condição de ambiente de trabalho e de ensino-aprendizagem do que com o cumprimento, a qualquer custo, dos 200 dias letivos. Quem recomenda férias coletivas para a comunidade escolar numa quarentena está pouco conectado com a saúde mental das famílias e dos profissionais pertencentes a essa comunidade.

Este momento mundial, na minha opinião, requer de nós, muito mais nos preocuparmos em cuidarmos uns dos outros, nos protegermos, protegermos nossas famílias. Isso significa garantir a elas uma rotina mínima de preocupações externas à pandemia. O estudo de uma readequação de calendários, logo que a rotina voltar é, ao meu ver, a opção mais sensata.

Porém, reafirmando o que defende a liderança política deste país, mais uma vez, sobrepõem, aqui, interesses outros que não condizem com o aprendizado saudável de crianças e adolescentes, com a saúde física e mental da classe docente. Preocupa-se mais em cumprir contratos de entregas de um serviço aos clientes. É preciso não decepcionar clientes, então. Mesmo à custa de professores e estudantes adoecidos, a educação mercantilizada, como muitas das escolas privadas encaram, na prática, a formação de crianças e jovens, precisa ser entregue, não é mesmo?!. Afinal, como destaca a frase da propaganda do governo federal, enaltecida pelo presidente do Sindicato em uma postagem em sua rede social, há quatro dias, o Brasil não pode parar.

E eu prefiro alimentar em mim e nos meus afetos a opinião que vai na contramão de tudo isso. Prefiro dizer que sim, o Brasil deve parar.  O país tem sim como prover sua população nessa situação emergencial, agindo de maneira a resguardá-la e protegê-la. Sim, haverá consequências para o crescimento econômico. Mas são vidas e é a boa formação delas que está em jogo.

Parem com isso. Reparem no cenário tão particular em que vivemos. Considerem sim que o ano letivo possa ser prejudicado, mas não sacrifiquem a sanidade de crianças, jovens e suas famílias para tornar inabalável a situação econômica brasileira.

Pais, por favor, parem de exigir das escolas páginas e páginas de atividades. Não vivemos estes tempos, agora. Escolas, não encham as crianças e as famílias de páginas e páginas de atividades para se fazerem em casa. Parem com isso! Pensem apenas que não há a possibilidade de dizer: “Ufa! Quantas atividades! Vamos tomar um sorvete na pracinha para relaxar um pouco? Não há essa possibilidade! Não deve haver! Quarentena é, também, sacrifícios de muitos que não podem parar para que serviços essenciais continuem. Transformar quarentena em férias é desrespeito e covardia.

Ontem, nos stories do ig do Vida Ciranda, inclusive, propus atividades que, na minha opinião, são mais adequadas para as famílias realizarem com as crianças em tempos assim. Aprendizados que podem chegar pela vivência limitada de um tempo de confinamento, e não o contrário. Aprendizados que chegam quando sensibilizamos o olhar para enxergarmos além das quatro paredes das casas e apartamentos, quando nos conectamos com a esperança, com a leveza possível, quando transcendemos para tempos melhores e saímos das angústias comuns em épocas de confinamento e renúncias:

Leiam mais juntos. A leitura compartilhada é uma das maneiras mais intensas de fortalecimento de vínculos familiares;

Escrevam cartas para pessoas queridas, para entregarem quando se reencontrarem; é também um desabafar, uma expressão de carinho para a pessoa que vai saber que foi lembrada;

Escrevam diários destes dias de confinamento, registrando aflições, angústias e as pequenas alegrias do dia a dia. Escrever como parte do processo de enfrentamento de uma situação inusitada é curativo;

Criem playlists de músicas brasileiras.  A música ajuda a encarar os medos, relaxa. E ainda leva para a criança mais da nossa cultura musical tão rica;

Façam comidas juntos. Está no paladar parte das nossas memórias mais marcantes. E, na cozinha, de maneira significativa e afetuosa, ainda é possível estudar física, química, matemática, biologia…

Com um mapa na mão, falem às crianças sobre outros países do mundo que estão na mesma situação que nós. Falem a elas sobre jeitos diferentes de se comunicar, de se vestir, de comer, de viver;

Joguem dominó, uno, baralho. Inventem jogos de tabuleiro, criem regras, desafios, premiações de carinho;

Participem de uma campanha de solidariedade, junto com as crianças. Peçam para as crianças selecionarem roupas, brinquedos, livros. Selecionem mantimentos na cozinha. Leiam com elas sobre o assunto; ouçam juntos os depoimento de pessoas que estão à frente das campanhas. Falem sobre as pessoas que serão beneficiadas;

Tomem banhos de chuva juntos;

Contemplem o nascer da lua, conversem sobre as várias fases dela, ao longo do mês; explique por que isso acontece, qual a influência da lua sobre a Terra;

Apreciem o nascer e o pôr do sol, aguçando os cinco sentidos. Estudem juntos curiosidades sobre o sistema solar;

– Reservem um tempo para pintar, para aprenderem e criarem novas técnicas de pinturas em diferentes materiais;

Olhem para as estrelas, tentem ver constelações possíveis; falem sobre curiosidades que trazem a presença e a influência das estrelas, do espaço, ao longo dos séculos, na astronomia, na mitologia, nas orientações marítimas;

Criem brinquedos com materiais recicláveis. Aliás, que tal começar coleta seletiva em casa, nesta quarentena? Busquem por um reciclador para quem direcionar os resíduos;

– Construam divertidas histórias à fantasia com as roupas dos adultos da casa;

Customizem com as crianças roupas antigas;

Plantem sementes e mudinhas, acompanhem o desenvolvimento delas mais de perto, durante a quarentena;

– Envolvam os filhos nas tarefas da casa, responsabilizando-as, desde cedo, por si, mas também pelo outro como igual.

Pesquisem o que for necessário para ensinar aos filhos sobre mundos além e sobre rotinas sensíveis. Isso tudo também é educação. Mas uma educação muito mais conectada com estes dias nada fáceis, conectada com a sensibilidade que é preciso despertar ou não deixar morrer, com os vínculos que precisamos fortalecer com os nossos filhos, com a cidadania que precisamos exercer, com a autonomia que precisamos aprender a ter, com a curiosidade que precisamos enaltecer, com o entorno que precisamos observar, com a saúde mental que precisamos preservar. Pelo bem da sociedade inteira.

É esse outro olhar para o fazer educacional na escola e para além da escola que a transforma, de fato.

….

E ainda dá para fazer leves relatórios de tudo isso e entregar ao professor, no final da quarentena.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here