Professora da rede pública fala sobre impostos a crianças de 5 anos, que escrevem carta ao prefeito pedindo melhorias na escola onde estudam

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“Nós precisamos cuidar do que é público, porque é nosso. A escola é nossa, a praça, o hospital, a rua é nossa, e quando eles entenderem isso, eu acho que eles vão ter essa consciência de cuidar melhor, de reivindicar, de ser protagonista mesmo, de exercer a cidadania. Eles [estudantes] não exercem, muitas vezes, porque não sabem disso. E eu acho muito importante a gente começar a ensinar desde a Educação Infantil poque é um erro achar que eles não vão entender, que a gente só pode trabalhar isso [conceitos de cidadania] quando eles estiverem maiores. Eu acho importantíssimo que seja desde a Educação Infantil”.

A fala é da professora Antônia Aurélia Melo Dias Monteiro, 41, responsável pelas turmas Infantil V, da Escola Municipal Madre Teresa de Calcutá. Havia poucas horas da nossa conversa, quando Aurélia falara com seus meninos e meninas de 5 anos, sobre cidadania. Era 2 de outubro deste ano, véspera da paralisação nacional de professores da educação pública. Ao contar para eles que no dia seguinte não haveria aula, a professora Aurélia fez muito mais. Explicou sobre direitos, sobre o conceito de público e de privado, sobre impostos, sobre o pagamento que todos nós fazemos ao governo e que nos dá a autenticidade de cuidarmos e exigirmos os melhores serviços do que é conceituado como público. Sim, ela falou para estudantes de 5 anos.

Neste outubro, de festejar crianças e professores, de refletir sobre a infância e o exercício da profissão de educador, Aurélia, que há nove anos atua na rede pública, depois de experiências de quatro anos na escola particular, conversou com crianças pequenas sobre cidadania em uma aula cada dia mais necessária. Ela me falou da aula despretensiosamente para exemplificar algo que, agora, foge-me à lembrança, durante o curso de educomunicação (projeto de extensão da UFC), não ligado à Secretaria, que ministrei na escola junto com o professor doutor Marcus Henrique Linhares Ponte Filho, da UFCA (Universidade Federal do Cariri).

Quem me acompanha sabe que meus filhos estudam na escola onde Aurélia leciona. Uma escola com estrutura atual bem precária. Na instituição, funcionam turmas do Infantil IV ao 5º ano. Não há nenhuma área de lazer, parquinho, quadra de esportes, refeitório, espaço para correr e brincar livre. Uma pequena biblioteca resiste dentro de um quarto pequeno. Não há árvores, areia, grama. Poucos pontos verdes ainda podem ser vistos pelos vasos de plantas que a gestão cultiva. Muito mais concreto. A estrutura toda é quente e incômoda em qualquer hora do dia, principalmente, à tarde. A escola funciona em espaço limitadíssimo, em uma casa adaptada, há décadas, mesmo já tendo um extenso terreno ao lado, da Prefeitura, também há muito tempo, para ampliação. Gestores e professores se esforçam para que as salas, pelo menos, sejam confortáveis, arejadas. Em algumas, há ar condicionado pelo esforço da direção para amenizar o calor. O que salva todos, como sempre enfatizo, é a gestão e o corpo docente.

Na oportunidade de falar sobre cidadania às crianças, Aurélia trouxe o conceito para a realidade delas. Sim, elas têm o direito de ter uma escola muito melhor e explicou o que significa isso pelos porquês das crianças. Em um vídeo que gravou durante a aula, é simples compreender o que querem as crianças. E a professora não interfere no momento de fala delas. Juntos, constroem uma carta, no quadro mesmo, ao prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio. “A gente quer um cinema, campo de futebol, uma sala em que a gente pode lanchar à vontade, uma sala de computadores, uma sala de brincar…”, relatam as crianças, com dedinhos levantados pedindo audição para suas vozes… Sim, e foram bem ouvidas! O vídeo não será divulgado aqui por não termos autorização dos pais para a exposição das crianças.

Não houve uma entrevista formal, entre mim e Aurélia. Pouco depois de concluída a aula do curso, busquei Aurélia para conversamos melhor. Há, na fala dela, muita preciosidade! Impossível reduzir.  Com autorização dela, destaco aqui trechos da nossa conversa:

Aurélia é professora das turmas do Infantil V, da Escola Madre Teresa de Calcutá

“Cuidar do que é público porque é nosso”
“Eu comecei [a aula de cidadania] por conta da paralisação, os motivos de não termos aula e a importância da valorização da escola pública, mas não citei assim para eles. Era importante que eles entendessem o que era uma escola pública, a diferença entre escola pública e escola privada, o que era uma coisa pública. O meu objetivo maior também era que eles entendessem que eles precisam cuidar do que é público, porque é nosso”.

“Esse dinheiro, juntando um pouco de todo mundo, é o imposto”
“Eles não sabem, por exemplo, de onde vêm os lápis com que eles estudam, os livros, a farda que eles recebem. Aí a gente foi conversar também sobre isso, porque o meu objetivo também é que eles cuidem melhor das coisas da sala: que não joguem os lápis, que não risquem as paredes, que não pisem nas cadeiras, porque é de todos e todos têm que cuidar. Parto dessa conscientização de eles entenderem que é deles. Conversei que a escola particular quem paga são os pais, mas a escola pública também é a gente que paga, a gente paga de maneira diferente.

Dei o seguinte exemplo para eles: quando vocês vão na mercearia e vocês compram xilito, ou as mães de vocês vão ao mercantil e compram o arroz, o açúcar, a carne… uma parte do dinheiro vai para o dono da mercearia, do mercantil, e um pouquinho daquele dinheiro ele tem que pagar para o governo, para o prefeito.  E esse dinheiro, juntando um pouco de todo mundo, é o imposto. E com esse dinheiro, de todo mundo que junta, é que são construídas as escolas, os hospitais, que paga o salários dos professores, dos médicos, que são construídos os postos de saúde, as praças, é o dinheiro que paga para termos a coleta do lixo, para ter luz nos postes, para ter segurança. E é por isso que é de todos porque todos nós pagamos”.

Quando perguntada sobre a profissão de professor, sobre a ação que ela realizou com as crianças e a possibilidade de a conversa ser publicada, Aurélia não hesitou em defender a educação pública, motivo da aula que incentivou crianças a pensarem e a agirem diante do próprio conceito que aprenderam sobre cidadania:

“Um das coisas mais importantes para mim é que esse trabalho da escola pública fique conhecido, valorizado, porque é uma luta também da gente: as pessoas terem um outro olhar da educação pública, do nosso trabalho. Muita gente tem uma visão distorcida do que é o trabalho na educação pública. As pessoas acham que ser professor da educação pública é uma forma fácil de ter seu emprego garantido e, no entanto, o que é mais importante, para nós, é a gente fazer o nosso trabalho de uma forma que a gente faça mesmo a diferença na vida das crianças, que a gente consiga mesmo despertar elas de  para essa consciência, sabe. Que as outras pessoas tenham um outro olhar do que é público, que o público é nosso e cada um pode contribuir fazendo a sua parte, inclusive, respeitando e valorizando o nosso trabalho e a nossa escola pública; o quanto nós, que somos professores que estamos lá dentro, batalhamos para dar uma educação pública de qualidade, mesmo com todos os percalços, mesmo com todas as dificuldades”, desabafa Aurélia.

AMPLIAÇÃO E REFORMA DA ESCOLA

A Escola Madre Teresa de Calcutá está passando por ampliação desde junho deste ano. Logo que cheguei à instituição, dei uma pequena colaboração como voz de pressão para que as obras começassem. Quis entender por que nunca começavam, já que havia licitação aprovada no Diário Oficinal do Município (DOM), de 2018, para as obras.

Sempre ouvia “é assim mesmo, é normal, nunca sai, está desse jeito há mais de 20 anos, desde quando eu estudava aqui já existia esse terreno e diziam que iam ampliar…”. Falas, principalmente, de pais.  Conversei insistentemente com assessores da Secretaria de Educação (SME). Registrei reclamação na ouvidoria. Óbvio que não começou por minha pressão. Um histórico de pressões da comunidade escolar, com intervenções, inclusive, do Ministério Público do Estado, colaborou para a decisão da Prefeitura, de, enfim, começar. Talvez, eu tenha tido a sorte de chegar no ano do início das obras.

Ontem (29/10), a secretária de educação Dalila Saldanha de Freitas visitou a escola. Soube pelos stories do ig dela, inclusive, que a entrega da nova estrutura será em junho de 2020, um esticamento do prazo, que, inicialmente, previa entrega seis meses depois do início das obras, de acordo com a placa fixada na lateral da escola.

Bem, Aurélia conversou também com Dalila, que a garantiu que o vídeo e a carta escrita pelas crianças, com a ajuda da professora, chegarão ao prefeito Roberto Cláudio. Esta é a prática da cidadania, de fato, que as crianças põem em prática desde cedo. Este texto é mais um reforço.

Anexo também precisa de reforma
A Escola Madre Teresa de Calcutá, no bairro de Fátima, conta também com mais duas escolas interligadas, localizadas próximas à avenida Borges de Melo, no bairro de Fátima, em Forataleza: O Centro de Educação Infantil (CEI) Madre Teresa de Calcutá e o CEI Presidente Médici. Este último funcionando também em um prédio adaptado, em situação física escolar totalmente inadequada, para a educação de crianças de um a três anos.

De acordo com um post feito pela própria secretária Dalila em seu perfil particular no Instagram, a ampliação “integra o pacote de requalificações de 200 unidades escolares e contará com novas salas de aulas, banheiros, refeitório, área de convivência, além de melhorias em todos os demais espaços da escola”.

Alguém conhece escolas municipais que precisam passar por ampliações ou outras reformas urgentes?

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