Sim, sou mãe da escola pública

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Sim, sou mãe da escola pública.
Essa afirmação em conversas com amigos e familiares gera surpresa e curiosidade, seguida, quase sempre, pelo desconforto explícito de quem me ouve. “Eles devem estar bem mal de grana”. Eu sinto que pensam. Fácil eu ouvir, logo depois, sugestões de locais de trabalho em que eu poderia colocar meu currículo, possibilidades de frilas. “Será que se você colocasse o currículo na escola tal, passasse a ensinar lá, eles não dariam bolsas pros meninos?”.  Eu só sei sorrir e acolher com carinho a preocupação. Entendo a cultura toda que nos construiu ao longo da vida sobre a escola pública.

O ano de 2018 foi um ano transformador e cheio de reflexões, aqui em casa. De repente, meu marido e eu nos víamos autônomos, trabalhando os dois em casa. Sim, por escolha. Durante quase 10 anos, com algumas curtas interrupções, trabalhei em uma boa empresa. Eu fazia um trabalho que amava. Meus filhos tinham bolsa integral em uma das melhores e mais caras escolas de Fortaleza, com ampla área de árvores, terra, parquinho, de metodologia não tradicional, bem pertinho de casa. Como, um dia, sonhamos a educação para eles. Passavam quatro horas lá.

Eu saía às 7h de casa, deixava-os na escola e ia trabalhar. Rotina comum a quase todos os pais. Com intervalo para almoço, eu não chegava em casa antes das 18 horas, em muitos dias, antes das 19 horas. Em alguns fins de semana, trabalhava aos sábados. Eu passava, pelo menos, oito horas diárias no trabalho. Pedi demissão em abril de 2017.

O serviço do meu marido necessita de quase reclusão no quarto de trabalho, a fim de concentrar-se para dar conta da demanda. Sem salário fixo, como todo autônomo, ganha por produção. Nunca ganhou ruim, confesso. Dedica-se muito. Em suas tarefas diárias, até o nosso abril de 2017, era também tarefa dele cuidar das crianças à tarde e iniciozinho da noite, quando eu chegava. Nunca tivemos empregada ou babá. Esta última, por escolha. Logo que Luquinhas nasceu, por curto período, tínhamos uma moça que nos ajudava três vezes por semana. Depois, por muito tempo, tivemos uma diarista semanal.

Em 2018, estávamos nós dois trabalhando feito doidos para dar conta de todas as despesas da casa. As crianças? Sim, continuaram na vida escolar perfeita que, um dia, sonhamos para elas. Passavam lá quatro horas diárias. Nossos trabalhos? Sim, rendiam bem. Eu, ainda, um pouco menos. Como profissional freelance, havia meses bons e meses ruins. Mas dava para pagar as contas, numa boa. Passávamos não sei quantas horas trabalhando para pagar as contas.

Foi quando percebemos que o nosso tempo e o tempo das crianças não se encontravam da maneira como acreditamos, como dois educadores que somos. Aliás, bem pouco haviam se encontrado, naqueles seis anos como pais e filhos. Quando saí do emprego, busquei tempo de qualidade e horário flexível para trabalhar e cuidar das crianças. Mas tive-os escassos, em 2018. Cumpríamos protocolos. Estávamos estressados, cansados para garantir, além de todo o resto, a educação perfeita às crianças, por quatro horas diárias.

Foi quando olhamos para as 20 horas “restantes” com que elas passavam conosco. O que estamos fazendo para qualificar esse tempo? As crianças continuavam largadas.

A escola pública sempre caminhou muito próximo da minha formação. Meus irmãos e eu fomos estudantes dela por um tempo. Depois, fomos matriculados em uma escola comunitária, no interior em que morávamos, onde cumprimos boa parte do Fundamental e todo o Médio. Nossa rotina sempre foi muito ligada à educação. Minha mãe alfabetizava crianças, em casa, no bairro pobre onde moramos por anos. Meu pai foi, por longo período, professor da escola pública.

Adulta, abracei a profissão de professora. Digo sempre que fui escolhida por ela. Fazer Letras nunca foi meu sonho, mas entrei no curso para complementar minha formação de jornalista. Em curto tempo, vi-me apaixonada pelas duas profissões. Por doze anos, dei aulas de português em escolas particulares. Passei por sete escolas, em Fortaleza. Lecionei em algumas das maiores, de metodologia tradicional. Dessa experiência, me veio a descrença no ensino tradicional. Nos estágios e vivências me proporcionados pela Letras, passei também por cinco escolas públicas. Lá, sim, fui tocada de alguma maneira, várias vezes.

Eu sou a mãe considerada “a chata” na escola. Sempre fui muito crítica e exigente pelo cumprimento do que me vendiam no projeto político pedagógico dos espaços em que meus filhos estudam. Gabriel, o mais velho, passou por duas, antes da atual. Acho que os anos como filha de professores e como professora me trouxeram algum discernimento. Mesmo na escola em que eles estavam, mais alinhada com a educação em que acreditamos e praticamos em casa, incomodavam-me os valores mercadológicos atribuídos aos conhecimentos ali construídos e o status de clientes como eram encarados estudantes e famílias, além do pouco diálogo e da abertura aos pais para a elaboração conjunta e compreensão do dia a dia escolar das crianças. Quem me conhece mais de perto, sabe que muito disso já me trazia desconfortos, há algum tempo, e eu sentia que não estava de acordo com meu pensamento político e ativista sobre educações, infâncias, adolescências.

No jornalismo, eu trabalhava muito próxima às escolas, não apenas como setorista da área de educação, mas com projetos relacionados. Conheci escolas incríveis, com estruturas, equipe de professores e metodologias muito condizentes com o que eu acredito.

Pois bem. Em 2018, tudo isso foi à prova. Diante do estilo de vida que escolhemos viver, de todas as experiências profissionais e pessoais que carregávamos, das convicções que nos cercavam, da maternidade e da paternidade ativas que queremos viver, decidimos que já era hora de entrarmos na escola pública, agora, com nossos filhos, mesmo tendo consciência de que o momento político pelo qual o Brasil está passando não seja dos mais favoráveis à educação nacional. Ou pode ser que este seja mesmo o momento mais apropriado. Não faz dois meses ainda que vivemos o dia a dia escolar público. Talvez, muito cedo para uma apreciação mais cuidadosa. Mas já há sorrisos e gratidões por esse encontro.

Para começo da decisão, e acima de tudo, nunca enxerguei meus filhos melhores que quaisquer outras crianças, principalmente, daquelas que fazem parte da educação formal que abarca mais de 85% das crianças e adolescentes deste país, a pública. Então, esse lance de “se misturar” nunca me influenciou. Sim, como pais, queremos dar sempre o melhor para eles e, na minha visão, o melhor está no aprendizado que as diferenças e a diversidade nos trazem. Pela primeira vez, na escola, eu os vejo conviver com crianças de vários perfis, não apenas o branco de classe média ou classe média alta. E isso já tem gerado muitas conversas aqui em casa. É viver a empatia, o respeito, o outro e suas dificuldades, na prática. Isso em encanta.

Você não tem medo das influências, das más amizades? Sim. Como já tinha na escola particular. E não apenas como mãe. Como professora de uma escola de meninos e meninas de classe média alta e alta, vivi muitas situações devastadoras: crianças e adolescentes tão frágeis emocionalmente, meio órfãos de pais vivos, que atentavam contra a própria vida; estudantes que roubavam dentro da escola para comprar drogas de atravessadores nos arredores da própria instituição; jovens que se envolviam com o tráfico e levavam muitos semelhantes ao vício e ao crime, para fugirem dos próprios problemas. Há muito mais situações acobertadas pelas escolas particulares do que imaginamos.

Vivi a primeira reunião de pais e mães da escola pública em um pátio lotado, interessado, questionador, preocupado. Como filha, como professora, como mãe, venho aprendendo que nada é mais valioso do que a presença, a atenção que se dedica ao filho. Tive excelentes estudantes na escola pública, meninos e meninas bons de mente, de coração, de intelecto. Se você precisar desTe dado, aprovados em grandes universidades públicas. Todos, sem exceção de nenhum, vindos de famílias de pais presentes.

Encontrei-me com uma equipe pedagógica e nutricional sensível, comprometida, preparada. A escola dos meninos não possui boa estrutura, há várias inadequações de espaços físicos, principalmente, referentes à educação infantil. Mas encontrei professores esforçados, afetuosos, bem formados, conscientes. Há projetos de leitura, uma boa biblioteca, material didático de qualidade. Há lanches saudáveis, que nutrem e fortalecem. Ainda que “nem todo dia é bom”, como me diz o Gabriel.

Pela primeira vez, senti reverberar minhas colaborações na escola. Sou ouvida, de fato. Meu direito à participação, assegurado por Lei, é praticado e levado em consideração, diferente da participação forjada a que me relegaram várias vezes, na escola particular, onde me sentia meio intrusa, diante de uma metodologia fechada, porque já “consagrada” como “a melhor”.

Venho sentindo que “ser chata” na escola pública significa engajamento, conquista de melhorias, trabalho em equipe com outros pais, exercício pleno de cidadania. Isso é também exemplo e legado aos meus filhos, aos nossos filhos, de uma atuação política que deve ser posta em prática nas mínimas ações rotineiras, nesse viver em comunidade. Estar sendo mãe da escola pública, mesmo em tão pouco tempo, já me faz enxergar o setor público com mais profundidade. Como todos sabemos, há muitos desleixos, muitos mesmo, mas há também pessoas lá que querem e fazem a diferença, que precisam de mais pessoas que pensam igual para se fortalecerem e fortalecerem os serviços públicos. Isso ativou com mais força o meu dever de buscar melhorias, fiscalizar e cobrar.

Hoje, me sinto mais coerente com tudo o que acredito e defendo. Claro, é preciso que se diga: falo de um lugar privilegiado, sendo branca, de classe média, moradora de um bairro não periférico. Mas me sinto um pouco mais comprometida na condição que me foi dada porque entendo que a responsabilidade de transformação não deve estar condicionada apenas àqueles diretamente impactados, mas a todos aqueles que vivem no mundo, estão no mundo. Somos, de fato, uma ciranda. Tudo que acontece com o outro me atinge, por isso a responsabilidade pelas consequências do que acontece a todos é de todos.

Mesmo em tão pouco tempo, venho me certificando da convicção que já corria em mim há algum tempo: não se muda a educação pública fora dela. É preciso estar presente. Se eu quero construir pessoas melhores que possam construir realidades melhores, eu preciso estar presente. Na educação, como em tudo. Porque pode-se até evitar, dentro da escola, o convívio do filho com o pobre, o deficiente, o negro, o favelado, que, em pensamentos preconceituosos, está repleto de atrasos, influências ruins e violentas para espalhar ao mundo. Mas é fora da escola que a vida acontece para valer, que as relações comunitárias se estabelecem com mais força. Não se iluda, as diferenças vão se encontrar. E é o que nos foi ensinado sobre elas e as experiências que vivemos acerca delas que vão moldar o espírito de paz, ou de guerra, que teremos daí então, na sociedade.

Ah, e o que temos feito das 20 horas restantes com nossos filhos, neste novo ano? Continuamos trabalhando com eles ao nosso lado, mas com um tempo mais tranquilo e leve para vivermos juntos e com uma graninha extra para investirmos em educações múltiplas e não apenas na educação formal: esportes, cursos, atrações culturais, melhor alimentação, passeios, viagens para eles e com eles. E ainda dá para poupar.

Bem, daqui a algum tempo eu falo se tudo isso está mesmo funcionando e quais as consequências desse viver assim. Por enquanto, estamos felizes. Até aqui, temos certeza de que fizemos a melhor escolha.

5 COMENTÁRIOS

  1. Oi! Já li seu texto duas vezes e vou já ler de novo. Há alguns anos o tema “escola” é um problema pra mim. Deveria ser uma solução, porque também encontrei em Fortaleza uma escola que tem excelentes características. Mas a sensação de estar em um ambiente elitizado e inacessível para a maior parte da população incomoda ao ponto de doer. Que bom conhecer o seu trabalho aqui 🙂

    • Oi, Katharine!
      Que bom ter você aqui, que bom dividirmos essa conversa! Compartilhamos inquietações muito semelhantes. Acredito que o educar para o mundo é estar nele, desde cedo. Claro, há muitas limitações na escola pública, mas, inclusive elas, me ajudam a educá-los para as dificuldades, para a resiliência, para a inclusão, para o respeito às diferenças, à diversidade, para valorizar o que vale a pena de fato na vida. Isso não necessariamente está distante do ter dinheiro, mas entender o dinheiro como um mediador também de processos de transformação, de conexões entre as pessoas. Não é sobre ter dinheiro para comprar a educação em que acreditamos, é sobre construir com as crianças uma educação múltipla, real, social, formal, não formal, e saber que essa educação não está limitada apenas à escola. É sobre presença, mais que tudo.
      Gratidão, Katharine, por dividirmos esses questionamentos! <3
      Abração!

  2. Sempre estudei em escola pública, ler esse texto me fez recordar de muitas vivências positiva e marcantes que tive por lá e o quanto ainda há o preconceito por quem estuda ou vem do ensino público. Que bonita sua decisão, pela vontade de viver mais essa ciranda em que todos nós estamos inclusos.

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