Sou sua neta, vó.

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Sentadas lado a lado no banco do Parque, eu apertava a mão dela em uma tentativa de não deixar escapar as lembranças daquela manhã que vivíamos ali.  Mas não me tardava a pergunta angustiante.

– Você é conhecida minha?
– Sim.  Sou sua neta, vó.
– E é?
– Sim, sou filha da Teresinha, sua filha.
– A Teresinha eu conheço, você eu não conhecia não.

Ainda olhando para o horizonte, observando as brincadeiras dos meninos um pouco à frente, eu trazia o corpo dela para mais perto do meu, beijava-a a cabeça de cabelos já branquinhos, e, em silêncio, agradecia por toda doação de vida dela à família.

Não dividimos mais o mesmo tempo. A mente dela funciona agora descompassada com o corpo, que segue desbravando a existência. A demência foi chegando aos poucos, levando dela experiências mais recentes, nomes, lugares, misturando ambientes, familiares, deixando confusos quase 33 mil dias de vida. A memória fragmentada já não é mais referência de consulta para saber onde está, com quem está, por que está. Agora, ela precisa da memória do outro.

– Você me conhece?
– Sim, sou sua neta, vó.
– E é? Oh, minha filha, me perdoe, às vezes, me dá esses esquecimentos.
– Tudo bem, vozinha.

Não sou uma neta tão presente. Confesso minha distância e grande falha nisso. Ponho na rotina corrida a culpa de menos dias juntas, mas houve tempo em que eu compartilhava da mesma cada dela. Ainda adolescente, fui guiada por ela nos meus primeiros dias na cidade grande. Lembro do cheiro do café que entrava pelos cobogós do banheiro de banho frio às 5h30min da manhã, do cuscuz, do pão bengala estalando de quentinho, do queijo, do ovo. Lembro da decoração florida das xícaras que ela dispunha na mesa, sobre a tolha de renda cuidada, que me traziam palpites de um dia bom. Na saída para o cursinho, a despedida ao pé do portão de fora e as palavras: “Sara Rebeca, minha filha, tenha cuidado, seja esperta, aqui não é que nem no interior”.

Lembro da cadeira na calçada nas tardes de tédio, das conversas com as vizinhas, na busca por uma conhecida das redondezas que tinha “uma filha da mesma idade que tu pra vocês conversarem”, na vontade de não ver sentindo sem amigos, recém-chegada de outra cidade. Recordo das manhãs de domingo em que íamos à igreja, cedinho, com meu braço como seu apoio na caminhada sem pressa. Lembro do sino que tilintava na cozinha avisando que tinha cliente na bodeguinha minúscula que ela mantinha, por uma abertura improvisada no muro, para “ter um dinheirinho e se distrair com as crianças do bairro”. Vendia “bombom, pirulito, pipoca, balão, dindim, essas coisas de menino pequeno”, como costumava dizer. Lembro dos chás e dos preparados de mel que ela fazia para recuperar minha saúde, quando a gripe chegava, de ficar ao meu lado, nas febres. Lembro da acolhida afetuosa que sempre existiu aos netos pequenos enquanto as filhas iam trabalhar, naquela que era a casa de apoio da família inteira.

– Minha filha, você é quem?
– Sou sua neta, vó.
– Valha! (risos). E eu nem sabia. Só pensei que podia ser alguém próximo pra estar aqui comigo, né?

Durante minha infância no interior, pelo menos uma vez por ano, eu a visitava na Capital. Daquela época, o barulho da máquina Singer ainda ressoa aqui. Sentada aos pés do pedalar da costuraria, eu me entusiasmava quando o ofício dela me rendia lindas roupinhas para as bonecas. Ela me deixava escolher os retalhos mais bonitos, em uma sacola cheinha deles, e concretizava modelos que eu idealizava. Tentou me ensinar a costurar. Era dela também a habilidade de construir as sandálias mais queridas que eu usei na minha infância, feitas com chinelas havaianas e linhas de tricô. As sandálias arco-íris de amarrar na canela que eu amava!

É dessa época também meus primeiros aprendizados sobre a importância de valorizar as memórias.  Lembro que explorava comigo tempos e histórias da nossa família quando espalhava, na cama, álbuns amarelados e monóculos coloridos. Os monóculos! Nossa! Quanto encantamento! Roupas diferentes em rostos conhecidos tão mudados, em lugares que eu ouvia falar pela primeira vez. Tios, tias e primos mais velhos foram crianças assim como eu! Lembro que gargalhávamos porque, quase sempre, eram as histórias mais curiosas que ela gostava de contar sobre eles. Mas havia também as tristes, as histórias de perda, de abandono, de ausência, de dificuldades que aquelas fotografias a faziam relembrar. Tentava disfarçar as lágrimas e me ensinava ali que a vida é de alegrias, mas que os dias de dor também existiam. “Não tem como evitar muitas das tristezas, Sara Rebeca, mas são elas que deixam a gente mais forte para enfrentar o mundo. A gente aprende a valorizar mais as alegrias”.

– Quem são aqueles menininhos ali?
– São seus bisnetos, são meus filhos. Sou sua neta, vó.
– Oh, minha filha, é mesmo? Filha de quem? E tu já casou?
–  Filha da Teresinha. Já casei tá com bem 10 anos já.
(gargalhadas)
– Tu é danada, né?! Ele é bom marido pra tu?
– É.
– Que bom! Tua mãe deve gostar dele. E por que tu não já me apresentou ele?
– Vou apresentar ele pra senhora. A mãe gosta… acho que deve gostar.

Ela sempre foi fiel praticante da religião católica. Rezava o terço com os netos todos os dias, quando estávamos na casa dela. Dizia-nos que era pecado não ir à missa aos domingos. Há mais de sete anos, eu mesma fiz questão de contar a ela que estava grávida do namorado. Novidade na família um descumprimento assim. Eu esperei um puxão de orelha, mas estava disposta a acolher seu ponto de vista quando também a contasse que eu não iria, porque não queria, me casar na igreja, somente civil. Ela me ouviu. Ficou em silêncio. Abraçou-me, sorriu e me perguntou se eu estava feliz. Abençoou a barriga e disse que confiava me mim. “Sei que não está fazendo besteira”. Dias depois, recebi dela a imagem de uma Nossa Senhora grávida. Mesmo eu não sendo praticante do catolicismo, a imagem é dos símbolos guardados mais queridos da nossa relação.

– Nossa! Os meninos estão brigando, vó. Vou lá.
– E são teus?
– Sim, são seus bisnetos. Sou sua neta, vó.
– Mas, olha, não sabia…. Se preocupe com essas brigas dos meninos não, minha filha. Os meus lá em casa são do mesmo jeito. Eu acho que eu tenho quatro.
– E são pequenos?
– Como esses teus.

Tive a sorte de conviver com meus quatro avós. Três deles já morreram e passaram também pela demência. Não é fácil. É o passado partilhado que vai nos sustentando e justificando as compreensões e um amor imensurável. É doação pelo que se entende de amor e respeito ao outro. É doação pelo riso, pelo olhar, pelo gosto, pelas histórias do agora que se apagarão em menos de cinco minutos. É quando você se dá conta do cultivar segundo a segundo os bons momentos, somente pela eternidade do que podem representar aqueles cinco minutos.  É quando você se dá conta da finitude. A demência se manifesta por pequenas mortes em vida. É duro viver, desviver e se perder em tão pouco tempo.

Passo a pensar em mim. Se um dia eu me vir também assim, em que lembranças de afeto, em que experiências e aprendizados eu quero que se assentem os cuidados ao redor e no que foi, um dia, minha sobriedade? Que não me falte a compaixão.

– Oi! Você quem é?
– Sou sua neta, vó.
– Ah sim.

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