Visitar exposições estimula imaginação, criatividade e senso crítico. Confira o roteiro que preparamos no Dragão do Mar

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FÉRIAS DE BRINCAR 
DICA 25 – VISITAR AS EXPOSIÇÕES NO DRAGÃO DO MAR

Há jeitos de ser e estar no mundo pela convicção (ou não) das incertezas. Há visões desacostumadas para o cotidiano reveladas pelas fotografias, há o vento com suas forças e resistências sobre o homem, há o nosso cavaleiro do sertão. Neste janeiro, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura abriga cinco exposições que são convites também às crianças, para a diversão, a imaginação, a criatividade e a formação de senso crítico e opinião sobre o mundo. Visitamos todas e contamos a nossa experiência em uma manhã dedicada a olhar o mundo por outros olhares, no Museu da Cultura Cearense (MCC) e no Museu de Arte Contemporânea (MAC).

Não necessariamente as exposições precisam ser vistas de uma vez só. Quatro delas só estarão em cartaz até o próximo dia 28, sábado da próxima semana, mas ainda dá tempo de se programar e dividir as visitas em dias diferentes. Tente saber um pouco mais sobre cada uma, antes de levá-los. Vai facilitar sua mediação.

Respeite o tempo, a paciência e a disposição das crianças. Não esqueça de levar lanche e água. Entre o MAC e o MCC demos uma parada para lanchar, tomar água e conversar um pouco sobre o que já tinha sido visto. Bom também que elas estejam vestidas com roupas leves para facilitar sentar no chão, se agachar.  Explique um pouco das regras de visitação aos museus, como não poder consumir alimentos nos espaços e tocar nas obras, mas faça isso com leveza para que a importância das visitas não se restrinja apenas às proibições e elas acabem se tornando programações chatas.

Fotografar essa iniciação artística dos filhos é muito bacana, mas não fique preso a isso ou a postar essa experiência nas redes sociais de maneira instantânea como ações mais importantes nesse momento. Eles precisam sentir sua entrega, sua participação ativa nessas descobertas, nesse aprendizado. Eles sentem quando você está ausente e é mais fácil que também se desinteressem bem rapidinho. Você vai perceber, ao longo dessa reportagem, que não há fotos de momentos que descrevo ou as fotos não estão tão boas. Claro, fomos pelo Vida Ciranda também, mas acompanhar e participar integralmente das descobertas deles era o mais importante para mim.

Que esta viagem pela arte seja incrível para vocês!

MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA (MAC)

1. INCERTEZA VIVA
A mostra Incerteza Viva, uma nova etapa nacional das itinerâncias da 32ª Bienal de São Paulo traz um recorte de 15 artistas e coletivos, com mediação do curador Jochen Volz – responsável pela última edição da Bienal, em 2016, a exposição traz uma riqueza de cenas, imagens, vídeos. Começamos nossa andança artística por ela, logo que o Museu abriu, às 9 horas. Deixei-me ser guiada pelo olhar deles, desde a escolha da sala ao respeito à interpretação.

A 32ª Bienal tem como eixo central a noção de incerteza a fim de refletir sobre atuais condições da vida em tempos de mudança contínua e sobre as estratégias oferecidas pela arte contemporânea para acolher ou habitar incertezas. A exposição se propõe a traçar pensamentos cosmológicos, inteligência ambiental e coletiva assim como ecologias naturais e sistêmicas.

Pelas telas apresentadas, deixei que eles tirassem suas próprias conclusões sobre o que viam. Na tela Lágrimas da África, de Mmakgabo Helen Sebidi, por exemplo, Gabriel compreendeu se tratar de “muitas pessoas matando monstros”. Na obra Colina índio Morto, de Pierre Huyghe, Luquinhas parou, olhou e soltou a indagação: “é uma caveira, é?”. Eu respondi que sim, eram ossos de uma pessoa que já morreu e devolvi a interrogação: “Por que você acha que ela morreu?”. Recebi um “sei lá” do Luquinhas, e um “acho que não tinha comida nem água nesse lugar aí”, do Gabriel.

Nos vídeos apresentados em várias salas, eles brincaram, principalmente, de sombras, como em Um minuto atrás, de Rachel Rose. No vídeo O Peixe, de Jonathas de Andrade, Luquinhas riu um bocado do ritual em que os pescadores retém os peixes entre seus braços até o momento da morte do animal, numa espécie de abraço. “Olha, o homem tá dando carinho para ele porque ele está dodói, não é, mamãe?”, disse o Lucas depois de observar o furo do anzol no bicho. Nas telas de Gilvan Samico, eles tentavam decifrar seres e comportamentos.

No próximo dia 20/1/18 (sábado), às 16 horas, a turma do Núcleo Educativo do MAC realiza duas oficinas infantis a partir das gravuras de Gilvan Samico e da obra O Peixe. O Projeto Bebê Dadá traz a oficina O Peixinho, convidando bebês e seus cuidadores a conhecerem juntos a obra de Jonathas de Andrade, por meio de estímulos visuais e táteis, ministrada por Cris Soares. Em Gravolândia, as gravuras de Samico serão o mote para a produção de gravuras lúdicas, utilizando papel cartão e tinta guache, conduzida por Joellen Galvão e Marcos Filho.

Na obra Mapa-múndi, de Antônio Malta Campos, brincamos de “onde está a figura?”, já que a tela verde é repleta de desenhos diversos.  Na sala “com porta de lâmpadas”, como intitulou Gabriel, em que não consegui pegar o nome do artista, Luquinhas não quis papo.

Na entrada de uma outra sala, sob um texto emocionante chamado A Máscara, um espaço dedicado à Escrava Anastácia: “uma vela, uma flor branca, um copo de água limpa, uma tigela de café acabado de fazer”, eram dedicados a ela, no momento de oração. O café foi representado por sementes que Lucas e Gabriel mexeram um bocado e derrubaram outro bocado, que eles juntaram depois. Conversei com eles, brevemente, sobre escravidão e lhes contei que aquele oratório era um espaço de homenagem a uma escrava que sofreu muito.

Contei sobre a máscara e que ainda hoje existe a escravidão. Enquanto nós juntávamos os grãos de café derramados, conversei sobre a importância de ser livre e de lutar por isso, por nós e pelos outros. Fiquei com vontade de falar que a escravidão não existe apenas quando você está fisicamente preso, mas entendi que o momento já tinha se esticado um bocado e eles estavam ansiosos por ver outras coisas. Fica a dica para conversas  com crianças maiores também. Tente sentir sempre o interesse, a disposição e o momento da criança. Às vezes, explicar demais só atrapalha.

A Máscara

SERVIÇO:
Incerteza Viva fica em cartaz no MAC / Dragão do Mar até a próxima semana, dia 28 de janeiro. Visitação de terça a sexta, das 9h às 19h (acesso até as 18h30); e aos sábados, domingos e feriados, das 14h às 21h (acesso até as 20h30). Gratuito. Classificação: Livre

MUSEU DA CULTURA CEARENSE

2. MERIDIANOS DE INFINITUDE
3. FRONTEIRAS – OLHAR DISTANTE 

Nas salas 1 e 2 do MCC, piso superior, estão as exposições “Meridianos de Infinitude” e “Fronteiras – Olhar Distante”, participantes da sétima edição do Festival Encontros de Agosto, um dos principais eventos de fotografia realizados no Ceará, lançada no Dia Mundial da Fotografia, 19 de agosto.

Meridianos de Infinitude conta com ensaios de duas fotógrafas convidadas de Porto Alegre e dois de Montevidéu – Uruguai. Fernanda Chemale traz  o ensaio “Desordem”, com imagens inspiradas nos poemas de Gisela Rodriguez; Letícia Lampert apresenta a obra “Exercícios para perder de vista”; José Pilone Costa expõe “O homem cinza” e Roberto Fernández Ibáñez apresenta os ensaios intitulados “Resiliência Terrenal” e “La Mano”. A mostra teve a curadoria de Carlos Carvalho e Daniel Sosa.

As fotos suspensas, logo na entrada da exposição, foi a parte que os meninos mais gostaram: “vamos fazer uma assim na nossa casa, mamãe?!”, propôs Gabriel. No caminho de volta para casa, ele completou a proposta: “pode ser no dia do meu aniversário de Pokémons, ajudo você a escolher umas fotos bem legais pra gente fazer igual no museu”. Eu só disse: “combinado!”.

A outra exposição Fronteiras – Olhar distante, na sala em frente, reúne ensaios de 20 fotógrafos cearenses, selecionados por Silas de Paula (fotógrafo, Conselheiro e Curador do Encontros de Agosto), Carlos Carvalho (fotógrafo e representante do Festival Internacional de Porto Alegre – FestFoto) e Daniel Sosa (Diretor do Centro de Fotografia de Montevidéu), que são parceiros desta edição do Festival. Os selecionados foram: Demétrio Jereissati, Emanuel Duarte, Fernando Maia, Fábio Lima, Francisco Galba Filho, Ingrid Barreira, Jean dos Anjos, João Luís de Castro Neto, Julia Braga, Marcela Elias, Marcelo Barbalho, Raquel Amapos, Ricardo Arruda, Samuel Tomé, Sérgio Carvalho, Tatiana Tavares, Thadeu Dias Bruno, Valdir Machado Neto, Weberton Skeff e William Ferreira.

O trabalho de Fábio Lima chamou a atenção deles, acho que pelo colorido das imagens. Dá para explorar muito mais as duas exposições, que são riquíssimas, mas, neste dia, eles não estavam tão a fim. Com as crianças maiores é possível refletir sobre os ângulos em que as fotos foram tiradas e o que elas pensam sobre eles. Ficou bonito? O que essas fotos querem dizer? O que você entendeu? Podem brincar de dar títulos para as fotos e depois comparar entre o título dado pelas crianças e o título dado pelo autor. Pode-se mesmo estimular para que as próprias crianças tirem fotos também de ângulos menos comuns, em uma atividade posterior,  e refletir também sobre trabalhos delas, fazendo alusão ao que foi visto nas exposições.  Por que elas resolveram fotografar aquele objeto e daquela forma e não de outra?

4. MEMÓRIA DO FUTURO EM RUÍNAS

No piso intermediário, está a exposição Memória do Futuro em Ruínas, uma investigação sobre a Praia do Futuro em Fortaleza, a partir das contradições entre o que se pretendia alcançar com certa estrutura e as forças naturais que trazem como resistência seus processos corrosivos. Quais são as perspectivas de futuro num mundo em que as esperanças de crescimento e melhoria de condições de vida se esvaem?

Claro que não dá para fazer elucubrações tão maduras com eles, mas podemos falar sobre sonhos e planos que temos para o futuro. É possível que eles mudem, com o passar do tempo. Por que isso pode acontecer? Na natureza, existe sempre o que o homem sonha alcançar com determinada paisagem e o que pode mudar pela ação de fenômenos naturais, como as inundações e enchentes quando chove muito e as queimadas naturais quando o tempo está quente demais.

Em praias, como na Praia do Futuro, não se pode descartar os processos corrosivos, destrutivos, modificadores da maresia e do vento forte.  A partir de recortes dessa paisagem, vemos, na exposição, uma construção de possíveis ficções de um futuro para esse local em uma instalação com vídeos, fotografias e desenhos. Imaginar o futuro. Como seria se…?  É um bom exercício de aprendizagem sobre passado, presente e futuro para se fazer com eles, na exposição.

Sentamos no chão, do lado de um dos vídeos, e expliquei um pouco sobre a relação dos ventos fortes com o movimento das  dunas. Destaquei o quanto é preciso respeitar o movimento, o tempo e as características das paisagens naturais. Algumas das grandes tragédias, em que muitas pessoas morrem ou perdem suas casas, por exemplo, têm muito do desrespeito dos homens. Por exemplo, não é certo construir casas em cima das dunas porque isso impede o movimento natural e pode prejudicar o homem mais tarde, com a natureza reagindo ao desrespeito de alguma maneira.

Foi o máximo de registro que consegui desta exposição. Eles já estavam bem inquietos

SERVIÇO:
As três exposições ficam em cartaz até 28 de janeiro de 2018,
 sábado da próxima semana, no Museu da Cultura Cearense (MCC) / Dragão do Mar. Visitação de terça a sexta, das 9h às 19h (com acesso até as 18h30) e aos sábados, domingos e feriados, das 14h às 21h (acesso até as 20h30). Acesso gratuito. Classificação: Livre.

5. VAQUEIROS

Tenho uma particular afeição pela exposição Vaqueiros. Fui educadora do MCC em 2010. Por ser uma exposição de longa duração, em cartaz permanentemente,  Vaqueiros já estava lá quando trabalhei como educadora do espaço. Foi especial para mim voltar lá com eles. 🙂

Divulgação Dragão do Mar

De todas, é a exposição com mais possibilidades de interação da criança com o espaço e com mais elementos de aprendizados sobre a história dela própria, do local onde nasceu. Conhecer o vaqueiro e todos os costumes e tradições que permeiam o dia a dia dele é conhecer a essência do cearense, do ser sobrevivente da caatinga. A exposição é rica em imagens, em ambientes e fotografias que simulam o real, e em textos bem didáticos, isso quer dizer que mesmo que você não saiba nada sobre vaqueiro, é possível fazer uma visita bem informativa e repleta de curiosidades com as crianças. Todo o cenário montado enriquece a interação e a compreensão dela em relação ao que vamos explicando. É possível repassar a elas muito fatos interessantes e vivências da  chamada civilização do couro, baseada na pecuária. O vaqueiro é nosso cavaleiro do sertão. Só aí já ativa um monte de fantasias nas cabecinhas delas.

À medida que íamos adentrando a exposição, eu sempre ia fazendo uma relação da exposição com a própria história deles, dos tios, dos avôs e bisavôs, homens e mulheres guerreiros do sertão. Contei-lhes sobre o tio avô Almir, criador de algumas cabeças de gado desde quando me entendo neste mundo, vaqueiro também de seus pastos. Por ele, nossas férias tinham o acordar cedinho para tirar leite da vaca, leite mugido na mesa ou ainda no curral;  tinha a nata e  a coalhada naturais, o queijo que acompanhávamos toda a feitura na prensa;  a vendagem dos produtos, a bordo da rural desgastada, pelos comércios das redondezas, o passeio a cavalo. Ele também ferrava seu rebanho para assim não o perder pastos a fora e colocava no pescoço das vacas e bois os sinos para ajudar a encontrá-los no meio da caatinga.

Foram, talvez, os espetos de ferragem, as esporas e os sinos, instrumentos utilizados pelos vaqueiros na lida com o rebanho, que mais impressionaram Gabriel e Lucas.  Em um dos mais bonitos especiais, o jornal O POVO publicou o Especial Sertão a ferro e Fogo , em 2014. Vale apena ler e saber mais sobre as histórias e as vidas dos vaqueiros de hoje.

 

casa simulada do vaqueiro

Na exposição, há uma casa simulada do vaqueiro, muita parecida com a que os bisavós maternos deles, Waldemar e Lurdinha, moravam. A vegetação da caatinga, a maneira como se exibiam e exibem ainda hoje os retratos na parede, os potes de armazenar e tomar água com os copinhos de alumínio pendurados ao lado, que eu mesma tive na casa dos meus pais, em Itapipoca. Os cavalos, os currais, o sol no dia a dia das fazendas, as porteiras. A esperança e a fé em dias melhores pela religiosidade. É uma viagem pela história até mesmo da infância de muitos de nós. 

SERVIÇO:
VAQUEIROS
A exposição é de longa duração e fica em cartaz permanentemente, no piso inferior do MCC. Visitação de terça a domingo, das 9h às 19h (acesso até as 18h30) e aos sábados, domingos e feriados, das 14h às 21h (acesso até as 20h30). Acesso gratuito. Classificação: Livre.

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